Mara Régia

Mara Régia Di Perna (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1951) é uma jornalista brasileira, reconhecida por seu trabalho em prol dos direitos das mulheres e da preservação ambiental. Há mais de quatro décadas, produz e apresenta programas de rádio sobre cidadania, gênero e meio ambiente, destacando-se Viva Maria e Natureza Viva.[1][2][3][4]
Mara Régia recebeu diversos prêmios e reconhecimentos ao longo de sua carreira. Em 2005, a jornalista foi uma das 52 brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz como parte do projeto "1000 Mulheres para o Nobel da Paz", que reconheceu mulheres de todo o mundo por suas contribuições significativas à paz.[5][6]
Programa Viva Maria
Viva Maria é um dos mais longevos programas radiofônicos dedicados à defesa dos direitos das mulheres no Brasil, alcançando quase 10 mil edições em 2021.[7] Criado em 1981, o programa entrou no ar pela Rádio Nacional de Brasília, com duas horas de duração, abordando temas como gênero, cidadania e direitos humanos, promovendo debates sobre violência doméstica, saúde da mulher, empoderamento feminino e igualdade de gênero. O programa também apoiou o Lobby do Batom na Constituinte de 1988.[8][9][10]
Em maio de 1990, o recém-eleito presidente Fernando Collor de Mello classificou Mara como uma “liderança negativa” e, por meio de um telegrama, mandou demiti-la e proibi-la de entrar na emissora.[11] Em resposta a este ato de censura, o V Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, realizado no mesmo ano em San Bernardo del Tuyú, na Argentina, criou o Dia Latino-Americano da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação, comemorado em 14 de setembro, dia da estreia de Viva Maria.[12][13][14]
Posteriormente, Viva Maria foi transmitido pelas rádios Capital, Nacional do Alto Solimões, Nacional da Amazônia, Nacional do Rio de Janeiro e Nacional de Brasília, além de ser disponibilizado para emissoras de todo o país.[11][15] O programa recebeu apoio da ONU Mulheres Brasil, Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos.[16]
Programa Natureza Viva
Mara Régia também é responsável pelo programa Natureza Viva, que promove a educação ambiental e o fortalecimento da identidade cultural dos povos amazônicos. Criado no início da década de 1990, o programa teve seus objetivos ampliados em 1993 por meio de uma parceria entre a Rádio Nacional, o WWF-Brasil e o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).[17][18]
Natureza Viva começou a ser transmitido em ondas curtas, que ainda desempenham um papel fundamental para alcançar comunidades isoladas na Amazônia. Atualmente, o programa também é veiculado por outras frequências, mas as ondas curtas continuam essenciais em regiões onde rádios convencionais e outros meios de comunicação não chegam devido às limitações de alcance e infraestrutura.[19] Seu público-alvo inclui ribeirinhos, pescadores, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu, trabalhadores extrativistas e indígenas, além de associações de jovens e mulheres.[20] Seus temas incluem a preservação do meio ambiente, direitos humanos, saúde e desenvolvimento sustentável.[21][22]
Cartas de ouvintes
As cartas enviadas pelos ouvintes desempenharam um papel central nos programas Viva Maria e Natureza Viva, conectando comunidades amazônicas isoladas ao restante do país e ao mundo exterior. Muitas cartas pediam informações e faziam perguntas sobre mitos associados à saúde.[23]
Outras continham relatos sobre as dificuldades e desafios enfrentados por populações isoladas, entre elas o desrespeito aos direitos humanos e a violência contra mulheres. Em 2000, Mara encaminhou 150 cartas-denúncia à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Mortalidade Materna, instalada na Câmara dos Deputados.[24]
Ativismo de gênero e meio ambiente
Além do jornalismo, Mara Régia se destacou em iniciativas de capacitação e ativismo nas áreas de gênero e meio ambiente.[22] Em 1999, ela produziu a radionovela A vida pede passagem, uma história de luz, sobre parteiras, em celebração ao primeiro Encontro Internacional das Parteiras da Floresta.[25] Em 2003, em parceria com o GTA, capacitou mulheres de 18 localidades em sete estados da Amazônia no uso do rádio para denunciar queimadas e promover o manejo florestal sem o uso do fogo.[24] Em 2013, liderou as oficinas Nas Ondas do Rádio – A Prevenção da Violência contra Crianças e Adolescentes.[26]
No Distrito Federal, Mara Régia teve atuação decisiva na criação da primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher[8] e do Conselho dos Direitos da Mulher.[10]
No Mato Grosso, Mara Régia teve um papel fundamental na denúncia dos impactos da contaminação por paraquat em Lucas do Rio Verde, alertando sobre seus efeitos na saúde da população e no meio ambiente.[22][25]
Prêmios e reconhecimentos
- 1995: Prêmio Towards 2000[18][27]
- 1995: Prêmio Embrapa de Reportagem [18][27]
- 1996: Troféu Gaia [18][27]
- 2006: Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente[17]
- 2016: Ordem do Mérito das Comunicações[28]
- 2021: Troféu Audálio Dantas de Jornalismo[29]
- 2025: Incluída entre as 39 personalidades homenageadas na exposição 'Mulheres na Redemocratização' do Senado Federal[30]
Referências
- ↑ «Mulheres de Palavra Entrevista - Mara Régia di Perna - Rádio Câmara». Portal da Câmara dos Deputados. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ (31 de agosto de 2016). «Conheça Maria Régia, apresentadora de programa que ajuda a causa feminista». Acervo. Consultado em 7 de março de 2025
- ↑ «"O rádio é o ar que eu respiro", diz a jornalista Mara Régia à TV Brasil – Jovem Pan». “O rádio é o ar que eu respiro”, diz a jornalista Mara Régia à TV Brasil – Jovem Pan. 13 de novembro de 2017. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ «Cem anos do rádio no Brasil: Mara Régia». Agência Brasil. 11 de agosto de 2022. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ «Mara Régia (radialista e apresentadora do programa "Natureza Viva") (bl.1) - TV Câmara». Portal da Câmara dos Deputados. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ «PeaceWomen Across the Globe». PeaceWomen Across the Globe (em inglês). Consultado em 1 de março de 2025
- ↑ «Viva Maria, 40 anos: uma trajetória de sucesso e superação». Agência Brasil. 11 de setembro de 2021. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ a b Deister, Jaqueline (17 de maio de 2021). «"Programa Viva Maria foi uma caixa de ressonância para todas as nossas reivindicações", afirma Mara Régia». Agência Pulsar Brasil. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ «Viva Maria | EBC Rádios». radios.ebc.com.br. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ a b «Viva Maria, 39 anos nas ondas do feminismo - Portal Catarinas». 25 de setembro de 2020. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ a b «Trajetória do programa Viva Maria está sendo resgatada na Rádio Nacional». www.ebc.com.br. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ «Ato de censura tira Viva Maria do ar e nasce o 14 de Setembro». www.ebc.com.br. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ «Dia Latino-Americano da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação». O Portal da Mulher Paranaense. 14 de setembro de 2025. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ «EBC e ONU Mulheres comemoram, nesta quarta-feira (14/9), 30 anos do programa Viva Maria | As Nações Unidas no Brasil». brasil.un.org. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ «Programa Viva Maria faz história na luta pela garantia dos direitos das mulheres». Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ VibeThemes. «Em parceria com a ONU e governo brasileiro, programete de rádio "Viva Maria com Saúde discute direitos das mulheres na epidemia do zika vírus – ONU Mulheres». Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ a b «Natureza Viva ganha prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente». www.wwf.org.br. Consultado em 13 de fevereiro de 2025
- ↑ a b c d «MARA RÉGIA: A VOZ DA FLORESTA». xapuri.info. 13 de fevereiro de 2025. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ «Cem anos do rádio no Brasil: a importância das ondas curtas». Agência Brasil. 18 de julho de 2022. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ «Natureza Viva | EBC Rádios». radios.ebc.com.br. Consultado em 1 de março de 2025
- ↑ «Natureza Viva, quase duas décadas de cidadania na Rádio Nacional da Amazônia». Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ a b c «Mara Régia di Perna». Pulitzer Center. Consultado em 6 de março de 2025
- ↑ «Nacional da Amazônia é, muitas vezes, forma de se conectar com o mundo». Agência Brasil. 5 de abril de 2020. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ a b Paixão, Cláudio (2021). «Natureza Viva: a Presença das Comunidades Tradicionais na Rádio Nacional da Amazônia». Portal de Periódicos da UFG. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ a b Nuzzi, Vitor (9 de julho de 2020). «As Marias de Mara Régia, que faz história no rádio e na Amazônia». Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ «Oficina com radialistas aborda prevenção da violência contra crianças e adolescentes». Secretaria da Saúde. 30 de setembro de 2014. Consultado em 11 de março de 2025
- ↑ a b c «Santarém reúne comunicadores da Calha Norte e região para capacitação». Imazon. 11 de fevereiro de 2025. Consultado em 13 de fevereiro de 2025
- ↑ NIC.br. «Na Mídia - Ministério presta homenagem com Ordem do Mérito das Comunicações». NIC.br - Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. Consultado em 6 de março de 2025
- ↑ «Mara Régia é uma das vencedoras do Troféu Audálio Dantas de jornalismo 2021 | EBC Rádios». radios.ebc.com.br. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ «Mulheres na Redemocratização». www.senado.leg.br. Consultado em 9 de dezembro de 2025
Ligações externas
- Entrevista de Mara Régia ao Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados (2007)
- Entrevista de Mara Régia a Jô Soares (1990)
- Natureza Viva: a Presença das Comunidades Tradicionais na Rádio Nacional da Amazônia, estudo de Cláudio Chaves Paixão e Amanda Maurício Pereira Leite
- Impactos de Veículos de Comunicação de Massa numa Reserva Extrativista no Estado do Acre, dissertação de mestrado de Francisco de Moura Pinheiro