Violência contra cristãos em Israel

Violência contra cristãos em Israel é violência religiosamente motivada contra cristãos em Israel.[1] Em seu relatório de 2024, o Rossing Center for Education and Dialogue identificou que a maioria dos ataques provém de jovens judeus ultra-ortodoxos, "pertencentes aos círculos do extremismo religioso-nacionalista".[2][3][4][5] Aproximadamente 80% dos cristãos residindo em território israelense (cerca de 180 mil pessoas) é de origem árabe, o que representa 7% da população árabe total no país.[3] Os atos de violência, particularmente na cidade de Jerusalém, incluem episódios frequentes de agressão verbal e física (incluindo cusparadas e pedradas), vandalismo contra igrejas, cemitérios e propriedades de cristãos.[2][6] As autoridades israelenses pouco ou nada fazem para conter tais ataques, e mesmo quando seus perpetradores são eventualmente presos, a polícia costuma alegar que se trata de pessoas com problemas mentais, o que os exime de qualquer responsabilidade.[4][5]
Embora o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu demonstre estar publicamente preocupado com a situação dos cristãos em países como a Nigéria,[7] seu ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, declarou em 2023 que cuspir em cristãos é "um antigo costume judaico" e que as pessoas deveriam parar de "caluniar Israel".[8]
Em 2018, os líderes das igrejas católica, grega ortodoxa e armênia em Jerusalém fizeram um pronunciamento conjunto em frente à Basílica do Santo Sepulcro, na qual denunciaram uma "campanha sistemática contra as igrejas e a comunidade cristã na Terra Santa", por parte da prefeitura de Jerusalém.[5]
Contexto da violência
Embora agressões contra cristãos ocorridas após a fundação de Israel (1948) não sejam uma novidade,[9] elas cresceram consideravelmente a partir do conflito em Gaza e da chegada ao poder do grupo político liderado por Benjamin Netanyahu, o mais direitista e fundamentalista religioso da história de Israel.[4][10]
Em 2024, o Rossing Center registrou um total de 111 atos de violência contra cristãos (contra 94 em 2023),[11] "incluindo, mas não limitados a ataques contra o clero". Embora a maioria dos ataques tenham sido direcionados a indivíduos, "35 casos envolveram vandalismo contra igrejas, mosteiros e sinalização religiosa pública".[2]
A crescente influência do extremismo nacionalista religioso promovido pelo governo israelense, criou um ambiente de "ameaça constante para as minorias religiosas, e particularmente para os cristãos". Diante desta realidade, numa pesquisa efetuada pelo Rossing Center, 48% dos cristãos israelenses com idade inferior a 30 anos, disseram estar considerando a possibilidade de deixar em definitivo a região e emigrar. Dentre estes, 77% declararam que a principal razão para embasar tal decisão era justamente a "crescente discriminação e violência sofrida pelos cristãos", bem como a "deterioração geral da situação sociopolítica".[2][3]
Estatísticas
De acordo com informações divulgadas pelo Israel Central Bureau of Statistics, em 31 de dezembro de 2024 a população de Israel era de 10,027 milhões de residentes, dos quais 7,707 milhões (76,9%) eram judeus e 2,104 milhões (21%) eram de origem árabe. Dos 0,216 milhões restantes (2,1%), os cristãos são a maior minoria, com cerca de 180.300 indivíduos (1,8% da população israelense), dos quais 78,8% são de origem árabe, constituindo 6,9% da população árabe de Israel.[2]
Arcabouço legal
Israel não possui uma constituição, os princípios jurídicos são assegurados através de Leis Básicas.[3] Todavia, a Declaração de Independência define o caráter do Estado. Segundo esta, Israel garantiria:
| “ | (...)igualdade completa de direitos sociais e políticos para todos os seus habitantes, independentemente de religião, raça ou sexo; garantirá a liberdade de religião, consciência, idioma, educação e cultura; salvaguardará os Lugares Sagrados de todas as religiões; e será fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas".[2] | ” |
Uma Lei Básica de 1992, a "Dignidade Humana e Liberdade", aborda a proteção dos direitos humanos e descreve Israel como um estado "judeu e democrático". Mas em 2018, outra Lei Básica aprovada, "Israel: O Estado-nação do povo judeu",[3] declara que:
| “ | A Terra de Israel é a pátria histórica do povo judeu; o Estado de Israel é o Estado-nação do povo judeu, no qual este exerce seu direito natural, cultural, religioso e histórico à autodeterminação; e o exercício do direito à autodeterminação nacional no Estado de Israel é exclusivo do povo judeu.[2] | ” |
Esta lei, conforme apontaram à epoca lideranças religiosas, viabilizava uma "base legal e constitucional para a discriminação" contra minorias, "minando os ideais de igualdade, justiça e democracia".[12][3] Como enfatizou o patriarca Teófilo III, "isso nos faz lembrar de leis de natureza semelhante que foram promulgadas contra os judeus durante períodos sombrios na Europa".[5]
Desdobramentos políticos
O desenrolar da guerra de Gaza ao longo de 2024 e 2025, afetou diretamente as comunidades cristãs em Israel de forma geral e de Jerusalém, em particular, por dependerem do influxo de turistas afastados pela guerra. A polarização política, exacerbada pelo conflito, e o incremento da criminalidade (e de assassinatos) em comunidades árabes, também colocou em risco a existência de cristãos em tais entornos. Diante de tais desafios, tornou-se perceptível uma inação ou omissão por parte das autoridades israelenses, invocando muitas vezes falta de efetivo policial para não se envolver em disputas.[2]
Em relação à liberdade religiosa, deve ser destacado que a atividade missionária não é proibida em Israel (desde que limite o proselitismo a maiores de 18 anos e não ofereça incentivos financeiros para a conversão), e comunidades religiosas e seus locais de culto estão isentas do pagamento de impostos. Todavia, essa isenção não abrange propriedades religiosas usadas para outros fins, como escolas, hostels ou hospitais: estas podem ter taxas impostas por municipalidades (denominadas "Arnona"), como efetivamente ocorreu a partir de 2024 em Jerusalém, Tel Aviv, Ramla e Haifa.[2][5][13]
De todos os grupos cristãos ameaçados em território israelense, um dos menores e certamente o que enfrentava o maior risco de eliminação física, era aquele existente em Gaza. A cobertura dos relatórios do Rossing Center não os incluem, já que se trata de uma zona de guerra.[2][14]
Repressão à dissidência
Os ataques de 7 de outubro de 2023 não somente endureceram as ações do governo israelense contra qualquer manifestação crítica às ações militares retaliatórias, mas também a demonstrações de compaixão ou simpatia pelo destino dos civis na Faixa de Gaza. Cidadãos israelenses (e não somente os de origem árabe) foram detidos pela polícia sob a acusação de serem simpatizantes ou membros de organizações terroristas, apenas por exporem seus pensamentos sobre o conflito em redes sociais. Estas ações, como não poderia deixar de ser, também afetaram as comunidades cristãs, e terminaram por relegar suas queixas sobre assédio e agressões para o segundo plano; ao menos, na cobertura da mídia local.[2]
Ataques por tipo
Assédio
Incluem assédio verbal, ataques e protestos durante reuniões cristãs, propaganda anticristã.[2][11]
| 2023 | 2024 |
|---|---|
| 11 | 13 |
Agressões
Incluem cusparadas, uso de spray de pimenta, agressão física.[2][11]
| 2023 | 2024 |
|---|---|
| 37 | 46 |
Vandalismo
Incluem-se pichações, invasão de propriedade, danos a estátuas, arremesso de pedras e lixo nas dependências de igrejas, incêndio criminoso e depredação de sinalização pública.[2][11]
| 2023 | 2024 |
|---|---|
| 41 | 49 |
Violações da liberdade de religião ou crença
Inclui pedidos para remover símbolos religiosos, limitações de acesso a locais religiosos, restrições à liberdade de movimento para participar de cultos religiosos, etc.[2][11]
| 2023 | 2024 |
|---|---|
| 5 | 3 |
Referências
- ↑ Tercatin, Rossella (27 de março de 2025). «Report shows rise in attacks on Christians in Israel, but a willingness to tackle issue». The Times of Israel (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o «Annual Report 2024» (PDF). Rossing Center for Education and Dialogue (em inglês). 2024. Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f Cetera, Roberto (1 de abril de 2025). «Rossing Center presents report on life of Christians in the Holy Land». Vatican News (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ a b c «'Death to Christians': Violence steps up under new Israeli gov't». Al Jazeera English (em inglês). 9 de abril de 2023. Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e Berman, Lazar (30 de março de 2023). «As attacks on Christians become more frequent, a crisis looms for Israel». The Times of Israel (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ «Cisjordânia: os cristãos em Taybeh novamente sob ataque». Instituto Humanitas Unisinos. 31 de julho de 2025. Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ Ezugwu, Obinna (25 de dezembro de 2025). «Netanyahu demands end to attacks on Christians in Nigeria, reignites global persecution debate». Business Hallmark (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ «Israel: Spitting on Christians in Jerusalem 'not criminal', says Ben Gvir». Middle East Eye (em inglês). 4 de outubro de 2023. Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ «The Nakba of the Birthplace of Christianity: The Case of Palestinian Christian Refugees in Lebanon». The Higher Presidential Committee of Churches Affairs in Palestine (em inglês). 15 de maio de 2023. Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ Cannon, Mae Elise (8 de setembro de 2023). «Violence Against Christians: Degradation of the Sacred and the Holy in Jerusalem». Igreja Cristã Reformada na América do Norte (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e «Annual Report 2023» (PDF). Rossing Center for Education and Dialogue (em inglês). 2023. Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ «Bishops of Holy Land Coordination release statement after their visit to Israel and Palestine». Patriarcado Latino de Jerusalém (em inglês). 17 de janeiro de 2019. Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ Surks, Sue (25 de fevereiro de 2018). «Stepping up protest against Israel, fuming church leaders shutter Holy Sepulchre». The Times of Israel (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2025
- ↑ Gamal, Marwa (7 de setembro de 2025). «'Se morrermos, que seja na casa do Senhor': os cristãos que se recusam a deixar igrejas em Gaza». BBC News. Consultado em 26 de dezembro de 2025
Ver também
Ligações externas
- «Rossing Center» (em inglês)
