Transtorno puerperal
A perturbação pós-parto ou transtorno puerperal é uma doença ou condição que se apresenta principalmente durante os dias e semanas após o parto, período denominado período pós-parto (ou puerpério). O período pós-parto pode ser dividido em três fases distintas: a fase inicial ou aguda, 6–12 horas após o parto; o período pós-parto subagudo, que dura duas a seis semanas, e o período pós-parto tardio, que pode durar até seis meses.[1] No período pós-parto subagudo, 87% a 94% das mulheres relatam pelo menos um problema de saúde.[2][3] Problemas de saúde a longo prazo (que persistem após o período pós-parto tardio) verificam-se em 31% das mulheres.[4]
A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve o período pós-parto como a fase mais crítica e, no entanto, a mais negligenciada na vida de mães e bebés; a maioria das mortes maternas e neonatais ocorre durante o período pós-parto.[5]
Perturbações físicas
Diástase dos retos abdominais
A diástase dos retos abdominais é um espaço (separação) entre os dois lados do músculo reto abdominal que pode ocorrer nos períodos pré-natal e pós-natal.[6] Esta condição não tem morbidade ou mortalidade associada.[7] O tratamento é a fisioterapia.
Hemorragia
A hemorragia pós-parto primária é a perda de sangue após o parto superior a 500 ml (menor) ou 1000 ml (maior).[8] A hemorragia pós-parto secundária é o sangramento anormal ou excessivo após 24 horas e antes de 12 semanas pós-natais.[8]
Incontinência
A incontinência urinária e a incontinência fecal têm sido ligadas a todos os métodos de parto, com a incidência de incontinência urinária aos seis meses pós-parto a ser de 3–7% e de incontinência fecal 1–3%.[4]
Infeção
As infeções pós-parto, também conhecidas como febre puerperal, são quaisquer infeçãos bacterianas do trato reprodutor feminino após o parto ou aborto. Os sinais e sintomas geralmente incluem uma febre superior a 38,0 °C (100,4 °F), arrepios, dor abdominal inferior e, possivelmente, corrimento vaginal com mau cheiro. Ocorre geralmente após as primeiras 24 horas e dentro dos primeiros dez dias após o parto.
Mastite
A mastite puerperal é a inflamação da mama geralmente associada ao aleitamento materno. Os sintomas típicos incluem dor e vermelhidão localizadas.[9] Há frequentemente uma febre associada e dor generalizada.[9] O início é tipicamente bastante rápido e ocorre geralmente nos primeiros meses após o parto.[9] As complicações podem incluir a formação de abcessos.[10]
Fístula Obstétrica
A fístula obstétrica é uma condição médica na qual uma fístula surge no canal de parto como resultado do parto, tipicamente após um trabalho de parto obstruído prolongado[11][12] e é evitável com acesso atempado à Cesariana. A fístula pode ocorrer entre a vagina e o reto, ureter, ou bexiga.[12][13] Pode resultar em incontinência de urina ou fezes.[12]
Laceração Perineal
A laceração perineal é a rutura espontânea (não intencional) da pele e de outras estruturas de tecidos moles que, nas mulheres, separam a vagina do ânus. A laceração perineal ocorre em 85% dos partos vaginais.[14] Aos seis meses pós-parto, 21% das mulheres ainda relatam dor perineal[4] e 11–49% relatam problemas sexuais ou dor durante o intercurso sexual.[4]
Cardiomiopatia Periparto
A cardiomiopatia periparto é a diminuição da função cardíaca que ocorre no último mês de gravidez ou até seis meses pós-parto. Aumenta o risco de insuficiência cardíaca congestiva, arritmias, tromboembolismo e paragem cardíaca.[15]
Tiroidite Pós-parto
A tiroidite pós-parto é um fenómeno observado após a gravidez[16] e pode envolver hipertiroidismo, hipotiroidismo ou os dois sequencialmente. Afeta cerca de 5% de todas as mulheres dentro de um ano após o parto.
Prolapso de Órgãos Pélvicos
O prolapso de órgãos pélvicos ocorre quando o útero, a bexiga ou o reto descem mais baixo na pélvis, criando um abaulamento na vagina. Aproximadamente metade de todas as mulheres que deram à luz experienciam algum grau de prolapso de órgãos pélvicos, mais frequentemente à medida que envelhecem e passam pela menopausa.[17]
Ver também
Referências
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