Tosa Nikki

Tosa Nikki
page=
Autor Ki no Tsurayuki
Gênero poetic diary

Tosa Nikki (土佐日記) (ou O Diário de Tosa) é um diário poético de Ki no Tsurayuki, detalhando uma viagem de 55 dias nos anos de 934 e 935. A obra é o primeiro exemplo de diário japonês reconhecido como literatura. Tsurayuki escreve a partir de uma perspectiva feminina e utiliza apenas o kana.

Enredo

Tsurayuki assumiu o cargo de governador da Província de Tosa, atualmente denominada como Província de Kochi, para um mandato de quatro anos que, devido ao atraso da chegada de seu sucessor, estendeu-se por mais um ano. A obra narra uma viagem de 55 dias que começou no dia 21 de dezembro de 934, quando ocorreu a troca de posse[1] e terminou em 16 de fevereiro de 935 quando chega a sua residência em Quioto.[2]

Diário Literário

Tosa Nikki é o primeiro exemplo de diário japonês reconhecido como literatura. Antes da obra, a palavra nikki ("diário") apenas denotava aos documentos oficiais do governo, escritos por homens utilizando o sistema de escrita Kanbun. Em contraste, Tosa Nikki é escrito em japonês, usando os caracteres fonéticos do kana. Escritores homens, na época, utilizavam tanto o kana como o kanji, enquanto as mulheres geralmente não eram ensinadas a escrever kanjis, ficando restritas a literatura kana. Escrevendo através da perspectiva de uma mulher ficcional, o poeta japonês do século X Kino Tsurayuki pôde evitar o uso de letras chinesas ou citar poemas de origem chinesa, permitindo se focar na estética da língua japonesa e seus poemas[3][2], desenvolvendo-se uma cultura literária nativa para fortalecer a identidade nacional.[4]

Na primeira frase do Tosa Nikki, Tsurayuki deixa isso claro:

男もすなる日記といふものを、女もしてみむとてするなり。[nota 1] Em geral, é um homem que escreve um diário oficial registrando-o em chinês, mas farei um diário como se fosse uma mulher, com a escrita feminina japonesa. [5]

Além disso, o autor, ao abandonar o estilo característico de registro oficial, deu espaço para expressar os sentimentos mais livremente.[1]

Dessa forma, Tosa Nikki, assim como Izumi Shikibu Nikki, de 1007, insere-se no chamado gênero de Diários Literários. Kino Tsurayuki teria inaugurado esse gênero, e, em seguida, passou a ser produzido pelas mulheres, em especial as damas da corte, criando, dessa forma, um universo literário inédito.[1]

Alguns dias contam apenas com a data e com a informação de que nada importante ou relevante ocorreu durante o dia, denotando o tédio, a inquietação e a ansiedade de chegar ao destino. A obra é um registro posterior, mas é escrito como se cada dia tivesse sido registrado durante a viagem.[1] Assim, Tosa Nikki pode ser configurado como um dos marcos do 紀行 (kikô, "relato de viagem").[6]

Há momentos com tom melancólico devido a lembranças e recordações da filha de Kino Tsurayuki, que foi junto com ele à Província de Tosa e faleceu. Tsurayuki apresenta uma tristeza por não ter sua companhia ao voltar a capital.[1] No dia 27 de dezembro, por exemplo, há uma passagem que indica que um luto pela ausência da criança[7] e um poema, escrito por uma mãe:

esqueço da morte da criança, por vezes pergunto por ela, que tristeza.[5]

Poesia e recursos estilísticos em Tosa Nikki

Ao longo do relato da viagem, há 59 tankas de Tsurayuki, estabelecendo uma harmonia entre a prosa e a poesia. Assim, segue o estilo de algumas obras japonesas do período clássico, em que a literatura em prosa é permeada por poemas.[5] Tosa Nikki também se constitui como um manual de iniciação para a arte de poetar, pontuando estilos da literatura.[8]

Apesar da estética ser considerada simples[9], a obra utiliza de alguns recursos estilísticos. Abaixo, estão listados e exemplificados alguns recursos estilísticos empregados nos poemas.

Recursos estilísticos de som

No dia 26 de dezembro, o primeiro poema é:

みやこいでて

きみにあはむと

こしものを

こしかひもなく

わかれぬるかな

No início do terceiro e quarto verso, há a repetição de um som no início do verso, denominado tōin (頭韻, lit. "aliteração"), com o som こし (koshi). Para preservar esse recurso estilístico relacionado ao som, Neide Hissae Naggae oferece a tradução:

saí da capital

para te encontrar,

vim até aqui

vim à toa, eu acho,

pois vamos nos separar.[5]

Makura kotoba

Também no da 26 de dezembro, um poema apresenta o uso de makura kotoba, recurso poético que adjetiva uma palavra imediatamente posterior, geralmente um substantivo.

しらとえの

なみぢをとぼく、

ゆきかひて、

われににべきは、

たれならなくに

alvura pura das ondas,

do ir e vir,

no longínquo mar,

quem é bem igual a mim,

é que o irá cruzar.[5]

Shirotaeno é makura kotoba de nami, "onda". Não seria necessário traduzí-lo, porém possui um a relação semântica e metafórica no sentido que corresponde a roupagens brancas.[5]

Antropomorfização e prosopopeia

Em diversos poemas da obra, assim como trechos da prosa, os recursos da antropomorfização, da prosopopeia e da personificação são empregados, ou seja, dão forma e atitude humanas a coisas não-humanas. Como exemplo, têm-se um tanka do dia 9 de janeiro:

みわたせば

みつのうれごとに

すむつるは

ちよのどちとぞ

おもふべちな

olho e vejo os grous como amigos de milênios a habitar as pontas dos galhos dos pinheiros.[5]

Há uma interação com os elementos da natureza, como se o grou e o pinheiro adquirissem características de um ser vivo, como se fossem humanos, ou como se fossem kami, isto é, deuses xintoístas.[5]

Itinerário

A viagem ocorreu na Era Johei, de abril de 931 a maio de 1938, então ela aconteceu a partir do ano ano 4 (934) e terminou no ano 5 (935). O itinerário apresenta algumas terras desconhecidas, apontadas por "?":

Itinerário de Tosa Nikki[5]
Ano Datas Local de partida Local de chegada
Ano 4 21 a 24 de dezembro Kofuku Otsu
25 de dezembro Otsu Kofuku
26 de dezembro Kofuku Otsu
27 de dezembro Otsu Urado
Ano 4 e 5 28 de dezembro a 8 de janeiro Urado Ominato
Ano 5 9 e 10 de janeiro Ominato Naha
11 de janeiro Naha Murotsu
21 de janeiro Murotsu ?
22 a 25 de janeiro ? ?
26 a 28 de janeiro ? ?
29 de janeiro ? Pernoite em Tosa
30 de janeiro Pernoite em Tosa ?
1 a 4 de fevereiro ? ?
5 de fevereiro ? Miozukushi
6 de fevereiro Miozukushi Kawajiri
7 de fevereiro Kawajiri ?
8 de fevereiro ? Torikainomimaki
9 e 10 de fevereiro Torikainomimaki Udono
11 a 15 de fevereiro Udono Yamazaki
16 de fevereiro Yamazaki Kyoto

Notas

  1. Apesar da obra original ser escrita em kana, na transcrição de Nagae, há kanjis para facilitar a compreensão moderna.

Referências

  1. a b c d e Nagae, Neide Hissae (10 de julho de 2007). «A Voz narrativa e os poemas nos diários literários japoneses-Tosa Nikki e Izumi Shikibu Nikki». Estudos Japoneses (em inglês): 147–162. ISSN 2447-7125. doi:10.11606/issn.2447-7125.v27i0p147-162. Consultado em 8 de junho de 2025 
  2. a b «Lançamento do livro Tosa Nikki – O diário de Tosa». Bunkyo. Consultado em 7 de junho de 2025 
  3. «Introductory Essay». University of Toronto Press. 31 de dezembro de 1973: 9–20. Consultado em 7 de junho de 2025 
  4. Ito, Narumi (10 de dezembro de 2020). «O FLUXO DE CONSCIÊNCIA UNIVERSAL E ATEMPORAL NA OBRA O LIVRO DO TRAVESSEIRO, DE SEI SH?NAGON». Revista de Estudos Acadêmicos de Letras (1): 218–240. ISSN 2358-8403. doi:10.30681/real.v13i1.4134. Consultado em 9 de junho de 2025 
  5. a b c d e f g h i Tsurayuki, Kino (10 de fevereiro de 2025). Nagae, Neide Hissae, ed. Tosa Niki: O Diário de Tosa. Jundiaí, SP: Telucazu Edições. ISBN 9788569708674 
  6. Shirane, Haruo (1998). Traces of dreams: landscape, cultural memory, and the poetry of Bashō. Stanford, Calif: Stanford University Press 
  7. McCullough, Helen Craig, ed. (1995). Classical Japanese prose: an anthology Nachdr. ed. Stanford, Calif: Stanford Univ. Pr. ISBN 9780804719605 
  8. Hagitani, Boku (1967). Tosa nikki zen chushaku. Tokyo: Kadokawa Shoten. Consultado em 8 de junho de 2025 
  9. Ball, J. Dyer (janeiro de 1913). «The Tosa Diary. Translated from the Japanese by W. N. Porter. London: Henry Frowde, 1912.». Journal of the Royal Asiatic Society (em inglês) (1): 228–228. ISSN 2051-2066. doi:10.1017/S0035869X00044452. Consultado em 9 de junho de 2025