Sismo de Beirute de 551

Sismo de Beirute de 551
Epicentro Fenícia
33° 54' N 35° 30' E
Magnitude 7.5[1] MW
Intensidade máx. X (destruidor)
Data 9 de julho de 551[1]
País afetado Império Bizantino (à época)
Líbano (atual)
Vítimas 30 mil
epicentro está localizado em: Líbano
epicentro
Localização do epicentro

O sismo de Beirute de 551 ocorreu em 9 de julho, com uma magnitude estimada de cerca de 7,5 na escala de magnitude de momento e uma intensidade máxima sentida de X (Extrema) na escala de intensidade de Mercalli. Ele desencadeou um tsunâmi devastador que afetou as cidades costeiras da Fenícia bizantina, causando grande destruição e afundando muitos navios. Algumas das fontes históricas que mencionam o sismo indicaram que ele foi sentido em amplas regiões do Oriente Médio, o que suscitou intenso debate a respeito do real epicentro. Dentre os muitos epicentros possíveis, sugerir-se-iam o vale do Jordão, na Jordânia, e a costa libanesa. A partir das idades publicadas de terraços marinhos jovens e elevados, as descontinuidades sísmicas observadas no assoalho marinho da costa libanesa identificam-na como a fonte provável do sismo.

É amplamente reconhecido que o sismo de 551 foi o mais potente a atingir a costa do Mediterrâneo Oriental e o único, de forma inequívoca, a ser seguido por um tsunâmi regional. As fontes indicam que os danos causados ​​pelo sismo se concentraram na costa da Fenícia, embora cerca de cem aldeias no interior também tenham sido arrasadas. Nominalmente, os cronistas mencionam as cidades de Tiro, Sidom, Berito (atual Beirute), Trípolis (atual Trípoli), Biblos e Bótris (atual Batrum) como aquelas que sofreram avarias; Bótris, em particular, devido ao desprendimento de uma montanha, adquiriu um porto natural no qual navios de grande porte podiam ancorar. No total, relatou-se um grande número de mortos, com uma estimativa de 30 mil apenas para Berito, segundo o peregrino anônimo de Placência.

O texto de Agátias informa que a escola de direito de Berito foi transferida, após o sismo, para Sidom, corroborando a evidência de que a intensidade do tremor sísmico era mais fraca em direção ao sul, onde as estruturas permaneceram intactas e em funcionamento. Em resposta ao evento sísmico, o imperador Justiniano I (r. 527–565) enviou dinheiro a todas as províncias e restaurou partes dessas cidades. João Malalas, João de Éfeso e Teófanes, o Confessor (seguindo Malalas) relataram que o sismo também foi sentido na Palestina, na Arábia, na Mesopotâmia e na cidade de Antioquia (na Síria), o que poderia indicar que tais regiões estiveram sujeitas a efeitos secundários ou a réplicas com epicentros diferentes.

Contexto tectônico

O monte Líbano é uma cadeia costeira transpressiva com cerca de 160 quilômetros de extensão e aproximadamente três mil metros de altitude, erguendo-se a partir do Mediterrâneo Oriental. Ele se encontra ao lado de uma dobra restritiva de 25° para a direita no sistema ativo de falhas do Levante — a falha transformante sinistral que marca o limite entre a placa da Arábia e a microplaca do Sinai. Seguindo em direção ao mar, a margem levantina torna-se acentuadamente íngreme, alcançando profundidades de cerca de 1500 metros a apenas oito quilômetros da costa, nas proximidades da porção mais profunda da bacia levantina (dois mil metros), sustentada por crosta oceânica mesozoica espessa, com cerca de 12 quilômetros de sedimentos.[1]

Em terra firme, destacam-se falhas inversas que elevam e deformam depósitos marinhos do Plioceno-Quaternário e conglomerados continentais, visíveis ao longo da frente da cadeia a nordeste de Checa. Uma dessas falhas atravessa a cidade de Trípoli, criando uma escarpa cumulativa de aproximadamente 70 metros de altura, conhecida como escarpa de Basas. Nos últimos dois milênios, sismos devastadores têm atingido repetidamente o Líbano e regiões próximas. Vários desses eventos afetaram a costa de maneira mais intensa do que o interior, sugerindo fontes sísmicas localizadas ao longo do litoral mediterrâneo ou não muito a oeste.[1]

Epicentro

Principais características geológicas do Líbano

Algumas das fontes históricas que mencionam o sismo indicaram que ele foi sentido em amplas regiões do Oriente Médio, o que suscitou intenso debate a respeito do real epicentro. Ambraseys et al. (1994) situaram o epicentro no vale do Jordão com base em supostos danos em Alexandria, no Egito. Ben-Menahem, em seu catálogo de terremotos de 1979, define uma zona epicentral costeira libanesa, mas, em uma publicação posterior (1991), listou um terremoto em 7 de julho de 551 no golfo de Corinto. Amiran et al. (1994), em seu catálogo de terremotos para Israel e áreas adjacentes, incluíram para o sismo de 551 uma citação em latim (aparentemente de Teófanes, o Confessor) a respeito de sua abrangência e listaram várias cidades danificadas além da costa libanesa, incluindo Jerusalém e localidades da Jordânia (Gérasa, Monte Nebo, Areópolis, Lejum e Petra), com base em dados arqueológicos apresentados em Russell (1985). Emanuela Guidoboni (1994) sugeriria um epicentro ao largo da costa libanesa.[2]

Com a expectativa de resolver as discrepâncias nas sugestões anteriores, Darawcheh et al. (2000) reavalizaram as evidências provenientes de fontes bizantinas primárias e secundárias e conjugaram-nas com dados macrossísmicos disponíveis. Como resultado, designaram a falha transcorrente de Rum e sua possível extensão no alto mar como a fonte sísmica provável e calcularam uma magnitude de onda superficial de Ms = 7,1–7,3. Por conseguinte, sugeriram que atribuir danos sísmicos a sítios arqueológicos no oeste da Jordânia pode ser um erro interpretativo. Elias et al. (2007) afirmaram que a concentração dos danos máximos exclusivamente ao longo da faixa costeira sugere uma fonte sísmica local, afastando a possibilidade de falhas submarinas mais distantes, inclusive aquelas do arco de subducção do Chipre.[3]

Considerando pequenos tremores registrados instrumentalmente no alto mar do Líbano central, Plassard e Kogoj (1981) propuseram de forma preliminar que o epicentro localizava-se no mar, em algum ponto entre Beirute e Batrum.[3] Mapas recentes de sismicidade instrumental indicam a existência de falhamento ativo no alto mar, embora a geometria e o comportamento dessas estruturas ainda sejam pouco compreendidos. A partir das idades publicadas de terraços marinhos jovens e elevados, as descontinuidades sísmicas observadas no assoalho marinho identificam a fonte do sismo de 551, o mais poderoso a atingir a costa do Levante desde a época romana.[4]

Danos

Justiniano I (r. 527–565) teria respondido ao episódio, enviando dinheiro à reconstrução das localidades atingidas

É amplamente reconhecido que o sismo de 551 foi o mais potente a atingir a costa do Mediterrâneo Oriental e o único, de forma inequívoca, a ser seguido por um tsunâmi regional, relatado em detalhe por numerosos cronistas. As fontes indicam que os danos causados ​​pelo sismo se concentraram na costa da Fenícia, no atual Líbano, embora cerca de cem aldeias no interior também tenham sido arrasadas.[3] João Malalas nomeia as cidades de Tiro, Sidom, Berito, Trípolis, Biblos e Bótris (atual Batrum) como aquelas que sofreram avarias, mas afirma que outras, cujos nomes não são mencionados, também foram comprometidas. Diz-se que um grande número de pessoas foi soterrado. Na cidade de Bótris, parte da montanha chamada Litoprósopo, que fica perto do mar, desprendeu-se e caiu no mar, formando um porto onde navios muito grandes puderam ancorar.[5] O relato na Vida de Simeão Estilita, o Moço indica danos leves ao norte de Berito e que a área ao sul, de Tiro até Jerusalém, foi preservada. Agátias informa que a escola de direito de Berito foi transferida, após o sismo, para Sidom, corroborando a evidência de que a intensidade do tremor sísmico era mais fraca em direção ao sul, onde as estruturas permaneceram intactas e em funcionamento.[2] A ocorrência de uma tsunâmi aponta para uma ruptura no assoalho marinho, provavelmente com um componente expressivo de movimento vertical (dip-slip).[3]

João Malalas, João de Éfeso e Teófanes, o Confessor (seguindo Malalas) relataram que o sismo também foi sentido na Palestina, na Arábia, na Mesopotâmia e em Antioquia (na Síria).[2][6] A esse respeito, Emanuela Guidoboni afirmou que é muito muito provável que as regiões circundantes (Arábia, Mesopotâmia, Palestina e Síria) mencionadas tenham sido sujeitas a efeitos secundários ou a réplicas com epicentros diferentes.[7] Jorge Cedreno (que datou o sismo entre agosto de 550 e julho de 551[8]) afirmou que ele foi sentido em Constantinopla, onde casas, igrejas e a maior parte da muralha próxima da Porta Dourada ruiu, e Nicomédia, que supostamente foi em boa parte destruída. Cedreno também alegou que os tremores foram sentidos por 40 dias. O peregrino anônimo de Placência descreve uma destruição maciça das cidades situadas entre Trípoli (Trípolis) e Beirute (Berito)[2] e estimou que cerca de 30 mil pessoas foram vitimadas.[9] Malalas afirmou que o imperador Justiniano I (r. 527–565) enviou dinheiro a todas as províncias e restaurou partes dessas cidades. No momento do sismo, o mar recuou para as profundezas por uma milha, e muitos navios foram destruídos.[5]

Referências

Bibliografia

  • Guidoboni, Emanuela (1994). Catalogue of Ancient Earthquakes in the Mediterranean Area up to the 10th Century. Roma: Instituto Nacional de Geofísica 
  • João Malalas (2017). Jeffreys, Elizabeth; Jeffreys, Michael; Scott, Roger, eds. The Chronigle of John Malalas. Leida e Boston: Brill 
  • Rucker, John D.; Niemi, Tina M. (2010). «Historical earthquake catalogues and archaeological data: Achieving synthesis without circular reasoning». In: Sintubin, Manuel; Stewart, Iain S.; Niemi, Tina M.; Altunel, Erhan. Ancient Earthquakes. Col: Special Paper. 471. Boulder, Colorado: Geological Society of America. pp. 97–106. ISBN 978-0-8137-2471-3 
  • Sbeinati, Mohamed Reda; Darawcheh, Ryade; Mouty, Mikhail (2005). The historical earthquakes of Syria: an analysis of large and moderate earthquakes from 1365 B.C. to 1900 A.D. Bolonha: Editrice Compositori