Taquifitas

os taquifitas ou Banu Taquife (em árabe: بنو ثقيف; romaniz.: Banū Thaqīf) são uma tribo árabe que habitava — e ainda habita — a cidade de Taife e seus arredores, na atual Arábia Saudita, e desempenhou um papel proeminente na história islâmica primitiva. Durante o período pré-islâmico, rivalizavam e cooperavam com a tribo dos coraixitas de Meca no comércio e na posse de terras. A tribo inicialmente se opôs ao profeta islâmico Maomé, mas, após o cerco muçulmano de Taife em 630, chegaram a um acordo e abraçaram o Islã. As redes intertribais dos taquifitas e seu nível relativamente alto de instrução ajudaram-nos a ascender rapidamente no nascente Estado muçulmano. Eles assumiram um papel particularmente importante na conquista e administração do Iraque, fornecendo aos califas ortodoxos e omíadas governadores capazes e influentes para aquela província e para o califado oriental. Entre seus governadores notáveis no Iraque estavam Almuguira ibne Xuba (638, 642–645), Ziade ibne Abi (665–673) e Alhajaje ibne Iúçufe (694–714), enquanto importantes comandantes taquifitas incluíam Otomão ibne Abi Alas, que liderou as primeiras expedições navais muçulmanas na década de 630, Maomé ibne Alcácime, o conquistador de Sinde na década de 710, e o revolucionário pró-alida Almoquetar ibne Abi Ubaide.

Origens

Os taquifitas são um ramo dos hauazinitas, um grande agrupamento tribal dos caicitas,[1] mas são frequentemente contados separadamente dos hauazinitas nas fontes árabes tradicionais.[2] Segundo a tradição genealógica árabe, o progenitor dos taquifitas foi Caci ibne Munabi ibne Becre ibne Hauazine, cujo epíteto era “Taquife”.[3] Os taquifitas podem ter adotado sua ascendência a partir dos hauazinitas para garantir uma aliança com a tribo nômade hauazinita dos amiritas. Antes disso, quando viviam nos arredores de Taife, reivindicava linhagem a partir dos iaditas. Quando os amiritas expulsaram a tribo dominante de Taife, os aduanitas, os Taquifitas propuseram-se a se estabelecer na cidade e cultivar suas terras sob a proteção dos amiritas, em troca de entregar a estes metade da colheita. Embora essa narrativa possa estar ligada a polêmicas contra a tribo — como outro relato que afirma que os taquifitas descendiam dos tamuditas — o historiador Michael Lecker sugere que ela pode refletir uma fase real na história da tribo.[4]

Ao contrário de seus contrapartes nômades dos hauazinitas, os taquifitas eram uma tribo sedentária, ou “urbana”, desde o período pré-islâmico, vivendo na cidade de Taife, em torno da qual construíram uma muralha. A tribo beneficiava-se de receber os peregrinos que visitavam o ídolo de Alate ali abrigado, assim como aqueles que passavam pela região a caminho da cidade sagrada próxima, Meca. Os taquifitas prosperavam com o cultivo dos pomares e terras agrícolas de Taife e com o comércio caravanista. Cooperaram e competiram com os coraixitas de Meca tanto na agricultura quanto no comércio, participando frequentemente de caravanas conjuntas, ao mesmo tempo em que disputavam a posse das propriedades agrícolas de Taife.[5] Antes e depois do advento do Islã em c. 630, os taquifitas e os coraixitas — especialmente a influente casa omíada — estabeleceram laços matrimoniais consideráveis.[1]

Ramos

Os taquifitas dividia-se em duas secções: os mais prestigiosos maliquitas (Banu Maleque) ou hutaititas (Banu Hutaite), que era formada pelo clã Maleque ibne Hutaite do ramo juxamita, e os Alafes (“Aliados”), que compreendiam o restante do ramo juxamita e todo o ramo aufita. Embora frequentemente ocorressem confrontos entre as duas facções, à véspera da tomada muçulmana de Taife em 630 ambas as partes encontravam-se em posição relativamente equivalente no controle de Ta'if.[1]

Período muçulmano inicial

Relações com Maomé

Os taquifitas forneceram alguns homens aos coraixitas contra Maomé durante a Batalha de Badre em 624.[6] Depois que Maomé conquistou Meca e obteve a submissão dos coraixitas, sua nascente comunidade muçulmana passou a ser ameaçada pelo taquifitas em Taife e pelos aliados nômades da confederação hauazinita. Eles encararam com preocupação a posição enormemente fortalecida de Maomé, agora apoiado por seu principal rival, os coraixitas.[7] Maomé avançou para subjugar os taquifitas e os hauazinitas na subsequente Batalha de Hunaine. A coalizão taquifita–hauazinita, sob o comando de Maleque ibne Aufe, obteve vantagem inicial, mas o rumo da batalha mudou e os muçulmanos derrotaram a coalizão, capturando milhares de mulheres e crianças hauazinita e grande quantidade de butim. Os muçulmanos então passaram a sitiar Taife, onde muitos dos guerreiros beduínos dos hauazinitas haviam buscado refúgio.[8] Muitos dos coraixitas no exército muçulmano estavam motivados a impedir que os taquifitas tomassem suas propriedades próximas a Taife. Quando o cerco vacilou, Maomé conseguiu convencer Maleque ibne Aufe e seus guerreiros beduínos a se voltarem contra os taquifitas, e estes passaram a bloquear as estradas que levavam a Taife.[1]

O cerco obrigou os taquifitas a enviar uma delegação, liderada por um de seus chefes, Abde Ialail, a Maomé para negociar sua conversão ao Islã.[1][9] Após a submissão dos taquifitas, seus ídolos em Taife foram destruídos e a tribo perdeu o prestígio religioso que anteriormente detinha como guardiã desses ídolos.[7] Apesar da derrota, os taquifitas foram firmemente incorporado à comunidade muçulmana e, nas palavras do historiador Hugh N. Kennedy, Maomé havia “assegurado a lealdade e os serviços” de mais um “grupo capaz e experiente”, assim como fizera com os coraixitas.[7] Tal como estes últimos, os taquifitas colocaram seu conhecimento político e seus contatos tribais a serviço do Estado muçulmano à medida que ele se formava e expandia seu território.[7]

Papel na conquista do Iraque

Entre os delegados taquifitas enviados a Maomé estava Otomão ibne Abi Alas, dos maliquitas, a quem Maomé nomeou seu amil (agente, governador ou coletor de tributos) sobre os taquifitas. Quando a maior parte das tribos árabes rejeitou a autoridade do Estado muçulmano após a morte de Maomé, em 632 — episódio que ficou conhecido como Guerras Rida —, Otomão desempenhou papel importante ao impedir que o taquifitas também desertassem.[10] Com o fim das Guerras Rida em 633, Otomão e vários taquifitas assumiram funções de comando nas conquistas muçulmanas iniciais e ocuparam posições de destaque no recém-formado califado, especialmente na rica região do Iraque.[1] Os coraixitas prestaram menos atenção ao Iraque sassânida do que à Síria bizantina no período que antecedeu as conquistas dessas duas regiões em meados/final da década de 630. À medida que o esforço militar muçulmano no Iraque começou a se intensificar, os taquifitas, bem como os ançares nativos de Medina, assumiram papéis de liderança e contribuíram com números significativos de homens, juntamente com tribos nômades que viviam próximas à região, como os tamimitas e os bacritas. O califa Omar nomeou o taquifita Abu Ubaide ibne Maçude comandante supremo da conquista em 634, mas ele foi morto durante a Batalha da Ponte, na qual os sassânidas derrotaram os muçulmanos.[11]

Embora o comando geral no Iraque tenha passado posteriormente ao companheiro de Maomé, o coraixita Sade ibne Abi Uacas, os taquifitas desempenharam o papel central na frente aberta no sul do Iraque, ao redor do porto de Alubula e do vizinho Cuzistão. O comandante nessa frente, Oteba ibne Gazuane, era aparentado por casamento aos taquifitas, e seu sucessor foi o companheiro taquifita de Maomé, Almuguira ibne Xuba. Esses taquifitas fundaram Baçorá, a principal cidade-guarnição dos árabes muçulmanos no sul do Iraque, por volta de c. 638, e continuaram a ser proeminentes na cidade nas décadas seguintes.[12]

Administração do Iraque e do leste

O nível de alfabetização dos taquifitas nos períodos pré-islâmico e islâmico inicial era comparável ao dos coraixitas, e foi um fator chave para o recrutamento de membros taquifitas pelo Estado muçulmano para importantes posições administrativas.[5] Almuguira fundou a administração fiscal em Baçorá,[13] e posteriormente foi nomeado governador de Cufa em 642, permanecendo no cargo até ser destituído em 645. Conhecedor do persa médio, a língua da burocracia no Iraque, e tendo adquirido ampla experiência entre os soldados tribais árabes assentados na região, ele foi reconduzido ao governo de Cufa pelo califa Moáuia I (r. 661–680) em 661, mantendo-se no posto até sua morte em 671.[14]

Por meio da boa relação de Almuguira com o califa, ele obteve o perdão de seu protegido, o taquifita adotivo Ziade ibne Abi, em 664.[15] Ziade havia sido educado pelo primo de Almuguira, Jubair ibne Haia ibne Maçude ibne Moatibe, que exercia funções de secretário na administração iraquiana.[5] Ziade tornou-se o poderoso governador de Baçorá em 665 e, após a morte de Almuguira, recebeu também o governo de Cufa, tornando-se o vice-rei do Iraque e do califado oriental. Ele implementou grandes reformas na organização militar do Iraque e reativou as conquistas muçulmanas na Ásia Central. Após sua morte em 673, foi sucedido por seu filho Ubaide Alá ibne Ziade, enquanto vários de seus outros filhos obtiveram vice-governos e comandos importantes.[15] Sua formação, experiência nos assuntos iraquianos e fortes vínculos com os coraixitas, particularmente com a dinastia omíada, posicionaram os taquifitas de forma privilegiada para administrar o Iraque e suas dependências orientais sob os califas omíadas. Segundo Kennedy, Moáuia confiou o governo do Iraque e do leste “àquilo que deve ter sido visto como uma máfia taquifita”.[15]

O califa omíada Abedal Maleque (r. 685–705) nomeou o taquifita Alhajaje ibne Iúçufe para governar o Iraque e o leste em 694. Embora oriundo de Taife, Alhajaje beneficiou-se de seus laços tribais com os taquifitas do Iraque.[16] Como outros taquifitas que administraram o Iraque, Alhajaje era um homem de letras, tendo trabalhado como professor antes de ingressar na carreira militar.[5] Ele casou-se com várias mulheres coraixitas, incluindo uma omíada, enquanto sua sobrinha, filha de Maomé ibne Iúçufe Atacafi, casou-se com o califa omíada Iázide II (r. 720–724) e foi mãe de seu filho, o califa Alualide II (r. 743–744). Embora Alhajaje não fosse geralmente partidário em suas nomeações administrativas e militares,[17] ainda assim favoreceu especialmente seus parentes taquifitas. Ele nomeou três filhos de Almuguira, seu próprio irmão Maomé, e vários outros membros da família como governadores distritais, além de encarregar seu capaz sobrinho, Maomé ibne Alcácime, de conquistar e governar Sinde.[18]

Modernidade

Durante suas viagens à Arábia, incluindo Taife, Johann Ludwig Burckhardt observou que os taquifitas permaneciam “uma tribo muito poderosa”, que controlava a maior parte dos jardins e das terras agrícolas de Taife, assim como outras áreas ao longo das encostas orientais das montanhas do Hejaz. Eles constituíam metade dos habitantes de Taife naquela época, enquanto parte da tribo vivia como beduína fora da cidade, onde possuíam grandes rebanhos de cabras e ovelhas. Militarmente, não possuíam cavalos ou camelos, mas podiam mobilizar cerca de dois mil fuzileiros armados com arcabuzes.[19] Nos dias atuais, membros dos taquifitas, tanto sedentários quanto nômades, continuam a residir em Taife.[1]

Referências

  1. a b c d e f g Lecker 2000, p. 432.
  2. Watt 1971, p. 285.
  3. Lecker 2016.
  4. Lecker 2016, pp. 88–89.
  5. a b c d Lecker 2016, p. 84.
  6. Kennedy 2004, p. 37.
  7. a b c d Kennedy 2004, p. 43.
  8. Lammens & Kamal 1971, p. 578.
  9. Lecker 2016, p. 83.
  10. Ishaq 1945, p. 109.
  11. Kennedy 2004, p. 66.
  12. Kennedy 2004, pp. 67, 76.
  13. Lecker 2016, p. 84, note 652.
  14. Kennedy 2004, p. 84.
  15. a b c Kennedy 2004, pp. 85–86.
  16. Kennedy 2004, p. 100.
  17. Crone 1994, p. 17.
  18. Crone 1980, pp. 131, 133, 135.
  19. Burckhardt 2010, pp. 44–45.

Bibliografia

  • Burckhardt, Johann Ludwig (2010) [1830]. Notes on the Bedouins and Wahabys: Collected During His Travels in the East. Nova Iorque: Cambridge University Press. ISBN 978-1-108-02290-3 
  • Crone, Patricia (1980). Slaves on Horses: The Evolution of the Islamic Polity. Cambrígia: Cambridge University Press. ISBN 0-521-52940-9 
  • Ishaq, Mohammad (1945). «A Peep Into the First Arab Expeditions to India under the Companions of the Prophet». Islamic Culture. 19 (2): 109–114 
  • Kennedy, Hugh (2004). The Prophet and the Age of the Caliphates: The Islamic Near East from the 6th to the 11th Century (Second Edition). Londres: Pearson Education Ltd. pp. 169–175. ISBN 0-582-40525-4 
  • Kister, M. J. «Some Reports Concerning Ta'if». Jerusalem Studies in Arabic and Islam 
  • Lammens, H.; Kamal, Abd al-Hafez (1971). «Ḥunayn». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch. & Schacht, J. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume III: H–Iram. Leida: E. J. Brill. p. 577. OCLC 495469525 
  • Lecker, M. (2000). «Thakīf». In: Bearman, P. J.; Bianquis, Th.; Bosworth, C. E.; van Donzel, E. & Heinrichs, W. P. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume X: T–U. Leida: E. J. Brill. p. 432. ISBN 978-90-04-11211-7 
  • Lecker, Michael (2016) [2005]. People, Tribes and Society in Arabia Around the Time of Muhammad. Abingdon: Routledge. ISBN 978-0-86078-963-5 
  • Watt, W. Montgomery (1971). «Hawāzin». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch. & Schacht, J. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume III: H–Iram. Leida: E. J. Brill. p. 285–286. OCLC 495469525