Prisão de Jair Bolsonaro

 Nota: Se procura pela primeira prisão de Jair Bolsonaro, ocorrida em 1986, veja O salário está baixo.
O ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, junto aos outros então investigados pela tentativa de golpe de Estado no Brasil em 2022–2023, durante o início do julgamento no Supremo Tribunal Federal a respeito do caso, em março de 2025. No referido julgamento, Bolsonaro e os outros réus foram declarados culpados pela tentativa de golpe.[1]

A prisão de Jair Bolsonaro refere-se à prisão, sob processo cautelar, do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro,[2] no contexto das investigações que apuram uma tentativa de golpe de Estado. A medida começou a ser cumprida como prisão domiciliar em agosto de 2025 e foi posteriormente convertida em prisão preventiva em novembro do mesmo ano. Segundo decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a conversão ocorreu após o entendimento de que Bolsonaro descumpriu medidas cautelares impostas em julho de 2025, como a proibição de uso de redes sociais e o monitoramento por tornozeleira eletrônica, o que indicaria risco de obstrução da Justiça e de fuga.

Em 4 de agosto de 2025, Moraes decretou a prisão domiciliar após concluir que Bolsonaro violou a restrição de uso de redes sociais por meio de terceiros. Em 22 de novembro de 2025, a prisão domiciliar foi convertida em prisão preventiva diante de um risco concreto de fuga. Neste dia, o ex-presidente havia convocado uma "vigília" de seus seguidores nas proximidades de sua residência no condomínio Solar de Brasília (onde cumpria a prisão domiciliar), durante a qual, ele tentou violar a tornozeleira eletrônica que usava usando um ferro de solda.[3][4] Vizinhos do ex-político comemoraram a saída do mesmo do condomínio, soltando fogos de artifício e organizando churrascos e outras comemorações.[5]

Bolsonaro já havia sido preso em 1986, quando estava no exército, após escrever um artigo criticando os baixos salários dos militares.[6]

Contexto

Bolsonaro virou réu na Ação Penal (AP) 2 668 que apura a tentativa de golpe de Estado, incluindo o planejamento do assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Complô com Donald Trump

No início de 2025, segundo levantamento da Polícia Federal (PF), o ex-presidente e seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, visitaram autoridades dos Estados Unidos com o objetivo de obter a imposição de avaliações contra agentes públicos do Brasil, em razão de suposta fiscalização no âmbito da AP 2 668. Segundo a PF, ambos atuaram "dolosa e a deliberação de forma ilícita" e "com a finalidade de tentar submeter o funcionamento do Supremo Tribunal Federal [STF] ao crivo de outro Estado estrangeiro, por meio de atos hostis de negociações espúrias e criminosas com patente de interferência à Justiça e clara especificamente de coagir essa Corte".

Em 2 de abril, os Estados Unidos anunciaram tarifas de 10% sobre importações brasileiras, com vigência a partir de 5 de abril, sob a justificativa de proteger a indústria doméstica. Em 9 de julho de 2025, o presidente Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros, efetivas a partir de 1.º de agosto, citando o tratamento do Brasil a Bolsonaro como uma "caça às bruxas" e alegando déficits comerciais, embora os EUA tenham registrado um superávit comercial de 7,4 bilhões de dólares com o Brasil em 2024.

Medidas cautelares e penas

O ex-presidente Jair Bolsonaro chorando durante sessão no Plenário do Senado Federal, em julho de 2025. De acordo com o próprio, uma das razões seria a perseguição que ele e sua família estariam sofrendo. Pouco mais de um mês, ele seria preso.[7]

Tornozeleira eletrônica

Em 18 de julho de 2025, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), impôs a Bolsonaro medidas cautelares de uso de tornozeleira eletrônica; recolhimento domiciliar no período noturno e aos fins de semana; autoridade de acesso a embaixadas e consulados e de manter contato com embaixadores e autoridades estrangeiras; e autorização de utilização de redes sociais, direta ou indiretamente, inclusive por meio de terceiros, em decisão referendada pela Primeira Turma do STF, após solicitação da Polícia Federal (PF) e com o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). A defesa recorreu, mas Moraes manteve as medidas em 24 de julho porque o ex-presidente fez um discurso transmitido em plataformas digitais e postado em diversos perfis.[8]

Moraes esclareceu que Bolsonaro não está proibido de conceder entrevistas ou fazer discursos públicos ou privados, mas que não deve fazer a "instrumentalização dessas entrevistas ou discursos para posterior divulgação nas redes sociais, especialmente por meio da atuação de 'milícias digitais' e apoiadores políticos previamente coordenados para esse fim".[8]

Prisão domiciliar

Moraes decretou a prisão domiciliar de Bolsonaro em 04 de agosto de 2025 porque o ex-presidente continuou a usar as redes sociais para fazer postagens, não suas, mas de aliados, inclusive de seus três filhos.[9] "O flagrante desrespeito às medidas cautelares foi tão óbvio que, repita-se, o próprio filho do réu, o senador Flávio Nantes Bolsonaro, decidiu remover a postagem realizada em seu perfil, na rede social Instagram, com a finalidade de omitir a transgressão legal", explicou Moraes na decisão.[8]

Além de proibir Bolsonaro de sair de casa,[10] Moraes proibiu visitas e mandou apreender celulares pertencentes a Bolsonaro.[11]

A prisão domiciliar segue processo cautelar,[2] devido ao inquérito referente aos tarifaços, envolvendo Eduardo Bolsonaro.[12] Com a sentença prisional geolocal,[13] bolsonaristas e compadres aliados se mobilizam contra a prisão em Complexo Penitenciário da Papuda.[14]

Condenação

Com o resultado determinado pelo colegiado da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, mais 376 mil reais de multa.[a][15][16] A prisão em regime fechado não deve começar imediatamente, posto que ainda cabe recurso por parte de sua defesa.[17]

Como consequência da condenação, Bolsonaro fica proibido de tomar posse em qualquer cargo público por 8 anos após o término das sentanças, de acordo com a Lei da Ficha Limpa.[18] Por fim, o Superior Tribunal Militar (STM) deve julgar a perda de patente de capitão da reserva, pois de acordo com a Constituição, o oficial das Forças Armadas pode ser expulso no caso de condenação criminal superior a dois anos de prisão.[19] Se julgada procedente, Bolsonaro perderá o direito à prisão em unidade militar e poderá ser preso em presídio comum; posto que é um ex-presidente, poderá ser detido na unidade da Polícia Federal, como aconteceu com Lula, Temer e Collor.[20] Por outro lado, a lei que tipifica as organizações criminosas prevê que condenados por este crime cumpram pena em presídios de segurança máxima.[21]

Prisão preventiva

Em 22 de novembro, Bolsonaro foi preso preventivamente, sem prazo determinado. A prisão foi solicitada pela Polícia Federal (PF) ao Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília pois o réu tentou romper a tornozeleira eletrônica que lhe houvera sido colocada como medida cautelar (ato confessado pelo mesmo). Aliados do ex-presidente, incluindo seu filho e os deputados federais Nikolas Ferreira e Bia Kicis divulgaram diferentes "explicações" para a violação do equipamento, dentre elas se incluí um ato de "desespero" durante um "surto" e a suspeita de que haveria uma "escuta" dentro do mesmo.[22][23]

Trânsito em julgado

Três dias depois, em 25 de novembro, o STF declarou trânsito em julgado (conclusão do processo), o que abre caminho para a execução da pena de Bolsonaro e mais dois condenados: Alexandre Ramagem e Anderson Torres.[24] Pouco tempo depois, no mesmo dia, os dois ex-ministros do Exército de Bolsonaro e generais, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, além do almirante e seu ex-comandante da Marinha do Brasil, Almir Garnier Santos, também foram presos em Brasília pela Polícia Federal.[25]

Dois dias depois, em 27 de novembro, o Partido Liberal anunciou a suspensão das funções partidárias de Bolsonaro em cumprimento à Lei 9 096/1995, com isso Bolsonaro deixa de ser Presidente de Honra do partido, deixando de receber um salário de cerca de R$ 46 mil reais mensais para tal. Sua aposentadoria parlamentar enquanto ex-deputado federal não é afetada pela medida.[26]

Em 03 de janeiro de 2026, o Ministério Público Militar (MPM) pediu ao Superior Tribunal Militar (STM) que declare a perda do posto e da patente do ex-presidente Jair Bolsonaro. Caso o STM acolha a representação, deixará de ser capitão reformado do Exército. O processo leva em média seis meses para ser julgado. O caso de Bolsonaro terá como redator o ministro brigadeiro-do-ar Carlos Vuyk de Aquino, militar da Aeronáutica indicado para o tribunal pelo ex-presidente Michel Temer.[27]

Ver também

Notas e referências

Notas

  1. 124 dias-multa de dois salários mínimos cada.

Referências

  1. Vittorazzi, Davi; Boechat, Gabriela (11 de setembro de 2025). «Condenado a 27 anos, Bolsonaro ficará inelegível por 8 anos após pena». CNN Brasil. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  2. a b «STF rejeita recurso e mantém condenação de Bolsonaro na trama golpista». Agência Brasil. 16 de novembro de 2025. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  3. «Em decisão, Moraes cita "eventual tentativa de fuga" de Bolsonaro». Agência Brasil. 22 de novembro de 2025. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  4. Patriolino, Luana (22 de novembro de 2025). «Ao justificar prisão de Bolsonaro, Moraes citou fuga de Ramagem e Zambelli». Correio Brasiliense. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  5. Oliveira, Fábia (23 de novembro de 2025). «Vizinhos celebram prisão de Jair Bolsonaro com festa e churrasco». www.metropoles.com. Consultado em 24 de novembro de 2025 
  6. Carlucci, Manoela; Martins, Leticia (9 de agosto de 2025). «Artigo em revista já levou Bolsonaro à prisão em 1986; entenda». CNN Brasil. Consultado em 9 de agosto de 2025 
  7. «Bolsonaro chora e pede orações durante sessão do Senado em homenagem a líder evangélico». O Globo. 17 de julho de 2025. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  8. a b c Márcio Falcão (4 de agosto de 2025). «Bolsonaro: Moraes Decreta Prisão Domiciliar e PF Apreende Celular». g1. Consultado em 24 de novembro de 2025 
  9. «Bolsonaro tem direito a um último recurso antes de prisão; entenda». CNN Brasil. 15 de novembro de 2025. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  10. João Paulo Dell Santo (15 de novembro de 2025). «Quais canais de TV Bolsonaro terá direito na Papuda». NaTelinha. Consultado em 24 de novembro de 2025 
  11. Carmo, Wendal (20 de agosto de 2025). «PF apreende carta no celular de Bolsonaro com pedido de asilo a Milei». CartaCapital. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  12. «STF forma maioria para tornar Eduardo Bolsonaro réu no tarifaço». Agência Brasil. 14 de novembro de 2025. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  13. «Jair Bolsonaro sentenced to 27 years in prison for plotting Brazil coup». BBC (em inglês). 12 de setembro de 2025. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  14. Marcela Mattos (15 de novembro de 2025). «Aliados de Bolsonaro se mobilizam contra prisão na Papuda e torcem por comoção popular». VEJA. Consultado em 24 de novembro de 2025 
  15. Falcão, Márcio; Vivas, Fernanda; Barbiéri, Luiz Felipe; Turollo Jr, Reynaldo; Ferreira, Afonso (11 de setembro de 2025). «Trama golpista: veja as penas de prisão e as multas para cada um dos condenados». g1. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  16. «O que é 'dias-multa' e qual o valor que Bolsonaro terá que pagar após condenação do STF». Terra. 11 de setembro de 2025. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  17. Richter, Andre (13 de setembro de 2025). «Bolsonaro pode ser preso até dezembro se recursos forem rejeitados». Agência Brasil. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  18. Vivas, Fernanda; Soares, Gabriella (11 de setembro de 2025). «Condenado na trama golpista, Bolsonaro só poderá disputar eleição 8 anos após cumprir pena». g1. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  19. Richter, André (11 de setembro de 2025). «STM vai julgar perda de patente de Bolsonaro e militares condenados». Agência Brasil. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  20. Andréia Sadi (11 de setembro de 2025). «Polícia Federal tem sala separada para Bolsonaro; decisão sobre prisão será do STF». g1. Consultado em 24 de novembro de 2025 
  21. Rechmann, Aline (12 de setembro de 2025). «Onde Bolsonaro poderá cumprir pena? Cinco locais são cotados». Gazeta do Povo. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  22. «Bolsonaro é preso de forma preventiva e levado à PF em Brasília». g1. 22 de novembro de 2025. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  23. Gadelha, Igor (23 de novembro de 2025). «A nova versão de aliados para a violação da tornozeleira por Bolsonaro». www.metropoles.com. Consultado em 24 de novembro de 2025 
  24. Falcão, Márcio (25 de novembro de 2025). «STF declara conclusão do processo sobre golpe de Estado e abre caminho para execução das penas de Bolsonaro». G1. Consultado em 25 de novembro de 2025 
  25. Marques, José; Pompeu, Ana (25 de novembro de 2025). «Heleno e Paulo Sérgio, ex-ministros de Bolsonaro, e Garnier, ex-chefe da Marina, são presos em Brasília». Folha de S.Paulo. Consultado em 25 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 25 de novembro de 2025. (pede subscrição (ajuda)) 
  26. Falcão, Márcio; Rodrigues, Paloma (27 de novembro de 2025). «PL anuncia suspensão das funções partidárias e do salário de Bolsonaro após a prisão». G1. Consultado em 1 de dezembro de 2025 
  27. Falcão, Márcio (3 de fevereiro de 2026). «MP Militar pede ao STM perda dos postos e patentes de Bolsonaro, Heleno, Braga Netto e outros condenados por trama golpista». Consultado em 3 de fevereiro de 2026