Paulistânia (região)

Paulistânia
Região
Gentílico paulista
paulistânico, -a
caipira
bandeirante
Localização
Localização de Paulistânia
Localização de Paulistânia
Administração
Maior cidade  São Paulo
Características geográficas
Fuso horário UTC−3
UTC−4
Outras informações
Línguas regionais Caipira
Sulista
Sertanejo
Trentino[1]
Línguas históricas Paulista[2]
Paulistaliano[3]

A Paulistânia (/pɐw.lisˈtɐ̃.njɐ/) é a região histórica e cultural atribuída ao povo paulista e seus descendentes.[4] Constitui um espaço que compreende terras cuja formação populacional e cultural é indissociável da expansão paulista,[5] e abrange, fisicamente, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, e partes dos estados de Goiás, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rondônia.[4][6][7][8][9] A região forma-se a partir dos territórios desbravados e povoados pelos bandeirantes,[5] e se consolida através diversos ciclos econômicos, especialmente os do tropeirismo, monções fluviais, movimento boiadeiro, concessões de sesmarias, e frentes pioneiras.[10][11][12][13] O espaço tornou-se, desta forma, um campo de influência paulista e uma área de acomodação dos costumes caipiras.[14] Há ainda, em certas partes do contínuo paulistânico, denominações regionais próprias para os herdeiros dessa cultura,[15] como na região serrana de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, onde os descendentes dos bandeirantes e tropeiros que ali habitavam ficaram conhecidos como birivas.[9][16][17]

A ideia de uma região cultural caipira fixou-se graças ao trabalho de historiadores e intelectuais paulistas, que buscavam atribuir à "raça paulista" um espaço físico de agência histórica influenciado pelo seu legado, encontrando amparo no produto natural das jornadas paulistas pelos sertões. O conceito passou a ser trabalhado efetivamente a partir da década de 1930, pelo historiador, sociólogo e professor Alfredo Ellis Jr.,[18] recebendo contribuições de outros intelectuais, como Antonio Candido, que definia a região como um eixo de expansão e difusão da cultura bandeirante, chegando a realizar visitas entre 1952 a 1954 a municípios de Minas Gerais e Mato Grosso com o intuito de estabelecer comparações.[19]

Etimologia

O termo "Paulistânia" é um neologismo toponímico que significa "terra dos paulistas". Sua composição é formada por paulista, gentílico de São Paulo, e por -ia, um sufixo greco-latino que significa "terra", frequentemente utilizado na formação do nome de territórios nacionais.[20]

Historiografia

Deve-se, antes de tudo, tocar no assunto do "descobrimento" e conceitualização relativamente moderna da Paulistânia, imensamente prejudicada e limitada pelos largos períodos de tempo posteriores aos atentados de 30, sobre os quais pairou a constante tensão e repressão estatal a quaisquer estudos e publicações que contradissessem, quer fossem levados pela inocência e genuína busca pela verdade, a construção oficial da história brasileira, que valorizava sobretudo a unidade nacional e a redução das identidades regionais, não sendo rara a destruição de materiais considerados subversivos pelo regime tenentista.[21] Deste modo, viu-se atrasado o trabalho acerca da formação paulista,[21] que possui características de desenvolvimento próprias e potencialmente contrárias à narrativa imposta pelo governo getulista,[21][22] o qual chegara, inclusive, a incendiar edições do Correio Paulistano, jornal tradicional que se posicionara à época contra Vargas,[21][23] e onde havia sido publicado o estudo Populações Paulistas de Alfredo Ellis Jr., que, após ter o seu trabalho destruído, seria convencido por António de Alcântara Machado a retomar os esforços pela causa, e reconstituiria a sua obra anos depois.[21]

O estudo da Paulistânia, entretanto, é tão antigo quanto a curiosidade acerca dos antepassados de cada indivíduo e do fenômeno das bandeiras, muito anterior a quaisquer possíveis pretensões dubiamente acusadas por regimes centralizadores hodiernos,[24] e embora não referida pelo neologismo modernamente cunhado, a região é observada com farta documentação primária há séculos, possuindo São Paulo, e grande parte da Paulistânia como um todo, a rara dádiva de saber com grande precisão a origem, genealogia e composição racial de sua população, alargando-se o conhecimento com propriedade ao período setecentista e oitocentista, e mesmo aos seiscentos e quinhentos,[21] graças aos sumamente importantes esforços de historiadores e genealogistas como Pedro Taques de Almeida Paes Leme, autor de valiosíssimas obras como as três edições de Nobiliarchia Paulistana Histórica e Genealógica (1772),[25] e Luís Gonzaga da Silva Leme, autor de Genealogia Paulistana (1903).[26][21][25][24] Além destes, vale-se também a historiografia paulista da documentação trazida em História da Capitania de São Vicente (1772), também de Pedro Taques, onde já se fazia menção ao paulista como povoador de parte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e mesmo porções do Rio de Janeiro.[27] É sumamente importante também a obra do frei Gaspar da Madre de Deus, Memórias para a história da capitania de São Vicente (1797), imensamente valorizada por personagens da história brasileira, como foi o naturalista Auguste de Saint-Hilaire.[24] É, como tal, inconsistente a corrente que acusa obstinadamente os progressos historiográficos paulistas como mera "mania nobiliárquica" ou "construção de passado para legitimar o poder", visto que os esforços para este fim se encetaram muito antes do surto cafeeiro ao qual se atribui a ascensão de São Paulo.[24]

História

Contexto anterior às bandeiras

Foi nos primórdios da colonização, apenas um par de décadas após a fundação da vila de São Vicente em 1532, quando se deu a expedição jesuíta de Manuel da Nóbrega e São José de Anchieta para além das imediações costeiras do continente sul-americano, que, ao transpor as escarpas da Serra do Mar, obteve resultados com a fundação do Real Collegio de São Paulo de Piratininga, em 1554, situado em posição estratégica nos campos homônimos, marcando o nascimento daquela que viria a ser a maior metrópole do continente americano e o núcleo irradiador da cultura paulista pelos próximos séculos.[28] A pequena povoação jesuíta seria integrada pelos habitantes da ligeiramente mais velha vila de Santo André da Borda do Campo, erguida por João Ramalho e seus aliados tupi em 1553.[29]

O cenário no qual se encontrava o planalto paulista, no entanto, era de extrema precariedade. A região, isolada pela muralha natural da Serra do Mar, apresentava caminhos pouco convidativos e escassez de produtos exportáveis, além do constante peso da ameaça indígena.[30] Sendo assim, os novos assentamentos paulistas viram-se naturalmente relegados ao abandono pela Coroa, em favor de empreendimentos mais rentáveis nas facilmente acessíveis regiões costeiras do eixo Rio-Nordeste, produtoras de açúcar e pau-brasil.[31]

Assolados por grande inópia de recursos e ante a ameaça indígena, ocorreu em 9 de julho de 1562 o episódio do Cerco de Piratininga, quando uma coalizão de tribos hostis aos colonos investiu contra São Paulo, obrigando os habitantes da jovem vila a defenderem-se sós, haja vista a pouca importância que lhes era atribuída pela Coroa.[30] O ataque foi repelido com sucesso pelos paulistas e seus aliados tupiniquins, mas o evento evidenciou a vulnerabilidade da região e a necessidade de buscar meios de sobrevivência mais eficazes.[30][31]

Período bandeirista

Bandeiras de preação

Impelidos pela então pobre e periculosa realidade do planalto, os paulistas, acompanhados de seus sequazes ameríndios, deram início às primeiras campanhas que rumavam os sertões distantes, motivados pela busca de riquezas minerais e cativos indígenas, principalmente aqueles de tribos guarani e tapuia, antigos inimigos dos tupi.[5] Os membros dessas expedições, muitos de origem mestiça (portuguesa, espanhola, indígena), marchavam seguindo um líder que portava um estandarte, comumente guarnecido por uma Cruz da Ordem de Cristo, o que lhes conferiu o nome de "bandeirantes".[32]

As bandeiras, como ficaram conhecidas, tornaram-se o principal motor da economia paulista, visto que, com a precária incorporação do território vicentino à dinâmica colonial brasileira, pouco influenciavam no ritmo da vida no meridião as movimentações que ocorriam no norte. Deste modo, as expedições passavam a tomar proporções progressivamente mais largas. Foram realizadas múltiplas incursões contra o domínio espanhol durante o século XVII, para além dos limites que se havia estabelecido no Tratado de Tordesilhas, culminando na conquista dos territórios do Guairá, Itatins e Tape pelos bandeirantes.[5]

Bandeiras de prospecção

Ouro nas Gerais

No início do século XVIII, constatou-se, através de campanhas bandeirantes pelo chamado Sertão de Sabarabuçu, a existência de vastas lavras de ouro na região das Gerais, arrancando o ciclo do ouro e findando o bandeirismo de preação. O foco paulista rapidamente voltava-se para as recém descobertas minas, tornando a extração aurífera sua principal atividade e trazendo consigo grande parte da economia da capitania, que passava a girar em torno do suporte à mineração. Deu-se assim o início da povoação do atual estado de Minas Gerais, através dos arraiais e vilas surgidos das empresas paulistas.[5]

Espalhada a notícia da descoberta de ouro naqueles sertões, a região rapidamente atraiu dezenas de milhares de forasteiros, provindos principalmente das capitanias do norte e de Portugal. Não obstante os protestos e apelos da capitania bandeirante, que julgava ter direito sobre as terras que desbravara e povoara, ou que então cria ter o governo colonial em dívida consigo após o seu papel na Guerra dos Palmares e dos Bárbaros,[5] seria negada a posse paulista da terra pela Coroa, acarretando, em 1707, no início da Guerra dos Emboabas.[5]

Guerra dos Emboabas

Os paulistas, aos olhos da gente das capitanias ao norte, eram vistos como "bandoleiros sem lei" e como um povo diferente do deles, dado o fato de comunicarem-se então em idioma próprio. Essa percepção era mútua, repetindo-se também do lado vicentino, que considerava os forasteiros de outras capitanias e reinóis como usurpadores estrangeiros ilegítimos, atribuindo-lhes coletivamente o nome "emboabas",[5] termo da Língua Geral Paulista de etimologia incerta, mas que pode ter-se originado do termo "o-mboábae", significando "traidores" ou "pérfidos", e por extensão "invasores".[33] Independentemente da etimologia, o fato é que a palavra passou a ser utilizada pelos bandeirantes para designar pejorativamente os forasteiros não-paulistas que iam às minas.[33]

As tensões entre paulistas e emboabas escalaram rapidamente, opondo a "gente da terra", liderada pelo bandeirante Borba Gato, e os forasteiros. Finalmente, já decorridos dois anos de batalhas pelo ouro, em 1709, dava-se fim à guerra após a derrota das tropas caipiras.[5] Seguindo o revés paulista no conflito, a capitania de São Vicente foi vendida à coroa de Portugal por seu último donatário, Luís Álvares de Castro, criando a capitania de São Paulo e Minas de Ouro, uma nova partição que seria governada por personalidades indicadas diretamente pela metrópole portuguesa, não havendo mais donatários nem capitães-mores.[6] Em 1720, para que os portugueses pudessem exercer maior controle da região das minas, é então estabelecida a Capitania de Minas Gerais, enquanto o restante do território da antiga divisão ficaria sob o controle da Capitania de São Paulo, a que por sua vez, além de São Paulo, abrangeria territórios que atualmente pertencem ao Uruguai e aos estados brasileiros de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pará, Rondônia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.[6]

O ouro do oeste e as monções

O revés nas Gerais, contudo, não arrefeceu o ímpeto das bandeiras, que tomaram novo rumo aos longínquos sertões do oeste, e encontraram, em campanha do sorocabano Pascoal Moreira Cabral Leme, no ano de 1718, ouro às margens do rio Coxipó, fundando o núcleo que daria origem a Cuiabá.[34] Pouco depois, em 1722, Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, realizaria semelhante descoberta nos sertões de Goiás, terras que já desbravara seu pai anos antes, estabelecendo as bases para a futura Villa Boa de Goyaz.[35]

Surgia, junto da extração aurífera, a necessidade de suprir e comunicar-se com estes núcleos mineradores, o que era feito através das monções fluviais, expedições que navegavam os pouco convidativos rios da bacia do Paraná, navegáveis com grandes dificuldades apenas sazonalmente, durante o período de cheias.[36]

Formação

Mapa de São Paulo em 1792.

As expedições dos bandeirantes foram necessárias para a expansão territorial, mas, por si só, elas não foram suficientes para criar uma região cultural. Os territórios ocupados pelos bandeirantes apenas começaram a apresentar uma sólida identidade regional devido ao facto de muitos deles, por razões históricas, partirem e não retornarem ao Planalto de Piratininga, este foi o processo que transformou os territórios de desbravamento em uma terra paulista.[37]

Ainda que administrativa e politicamente os recortes e fronteiras da Paulistânia foram sendo alterados, reconfigurando-se ao longo do tempo, para desdobrar-se no que hoje são os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, partes de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso,[38] pode-se assumir que a região formada pelas antigas capitanias devassadas pelas bandeiras e entradas[39] conservou uma unidade cultural expressiva, unificada por um corpo comum de compreensões, valores e tradições de que todos participavam, numa realidade em que as variações regionais nunca chegaram a ameaçar sua essência. Pode-se dizer que, a partir de meados do século XVIII, espalhou-se e consolidou-se um lençol de cultura caipira,[40] com variações locais.[41] Atualizando a geografia, não seria exagero afirmar-se que o traçado da cultura caipira se expandiu e abrangeu áreas que hoje correspondem a diversos estados do Brasil, incluindo a Região das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul, onde houve uma forte influência dos tropeiros que partiam de Sorocaba[carece de fontes?].

Conceitualização da Paulistânia

Entre 1917 e 1918, Hermes Fontes, em algumas crônicas escritas para o Correio Paulistano, serviu-se de Paulistânia como sinônimo de "São Paulo." O editor Heitor de Moraes que a Fontes o título soprou: nos ouvidos de Moraes, "Paulistânia" soava como "terra paulista," tal qual os portugueses tinham sua Lusitânia e os povos germânicos sua Germânia.[42]

Aproposita-se, pois, excellentemente, dar a minha última homenagem a esse espírito gentil e scintillante, por intermedio de um dos jornaes mais conceituados e mais cultos da Paulistania.[43]

Joaquim Ribeiro, na obra Folklore dos Bandeirantes, de 1946, propôs que Paulistânia era termo seu, um neologismo criado para designar o espaço vital dos antigos paulistas,[44] um substantivo a ser usado, a partir de então, para se fazer referência à região que, em sua opinião, foi uma das células fundamentais da formação territorial do Brasil.[45] O autor acreditava que, além de útil, Paulistânia era um nome que vinha de encontro à compreensão geográfica e histórica da região do bandeirismo.[44]

No entanto, o termo Paulistânia chegou a ser mencionado em 1912, pelo engenheiro e escritor Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, autor de obras literárias que imitavam a lingua falada dos italianos de São Paulo.[46] O autor utilizou a expressão Baolistania.[47]

Imigração

Italianos

O estado de São Paulo não só dispunha de meios para subsidiar a viagem dos imigrantes, como contava com uma corrente espontânea de imigrantes, atraídos ou pelo sucesso de seus compatriotas ou pela propaganda que os cafeicultores e o próprio estado faziam na Europa, em grandes porções da antiga Paulistânia a imigração destinava-se a fornecer principalmente braços para a grande lavoura.[48] Desse modo, apesar do grande número de nacionalidades que partiram a São Paulo, quem marcou foi sem dúvida, o italiano, que, desde sua chegada, contribuiu para moldar não só a economia da região, como também sua cultura, costumes, modos de ser e ver.[49] Muitos colonos europeus, acaipiraram-se, dos italianos, uma parcela regrediu culturalmente, acabando por se tornar verdadeiros nômades, mudando-se ao final da colheita em busca de vida melhor, de melhores terras e condições de trabalho.[50]

Cultura

Os tropeiros foram fundamentais para expandir a cultura caipira no Brasil — Tropeiro Paulista, Charles Landseer, 1827.

Ritmos musicais

Nessa região e dessa cultura nasceu uma modalidade de música popular, Alberto Ikeda, autor do livro "Música Na Terra Paulista: Da Viola Caipira À Guitarra Elétrica" considerou como sendo "a música da Paulistânia". Nas palavras do autor, trata-se de uma musicalidade se relaciona à própria formação histórica de São Paulo, singularizando-se como paulista. Para além de símbolo, a viola caipira foi fiadora da expansão desta música dos caipiras. Configurando-se como porta-voz desta musicalidade, o instrumento se espalhou por toda a Paulistânia e, tendo sua identificação com os primeiros habitantes da região à medida que o tempo passou, chegou ao ponto de fazer do violeiro um indivíduo de grande importância na comunicação onde habitasse.[51]

Embora a música caipira esteja predominantemente relacionada a outras expressões, alguns ritmos acabaram se fixando também de forma autônoma, como gênero musical em si, predominantemente para audição, como expressão musical popular de concerto, com autoria reconhecida e expressa. Entre eles se incluem: o cururu, a catira/cateretê[52] e o xote, que originalmente são formas dançadas, com cantorias muitas vezes de improviso; a toada e moda de viola, gêneros apenas vocais, e, o pagode caipira, inicialmente um tipo de música instrumental solista, de grande virtuosismo, executado na viola caipira, e que passou a ser apresentado também na versão cantada.[53]

Culinária

Mencionando o registro dos autores quanto às nuances da culinária caipira, exemplificada na assimilação de certos produtos locais como o pequi nas áreas de cerrados, o pinhão nas zonas serranas e mais ao sul, ou ainda o peixe e o uso mais corrente da mandioca nas áreas litorâneas, naquilo que se convencionou chamar de cozinha caiçara. Mas tudo isso como se fosse um tempero adicional a uma base que se impõe e apenas enriquece a complexidade desta culinária caipira. Emergem desta base comum as variações locais: como o tutu de feijão mineiro em contraste com o virado de feijão paulista; o arroz de suã, o arroz de frango com quiabo, o arroz com linguiça, o arroz de pequi, todos eles vindo do hábito de misturar arroz a uma carne de produção local ou, no caso do pequi, ao fruto, para "aumentar" a comida; o barreado do litoral paranaense; as várias farofas e os tantos derivados do milho como o curau, a pamonha, os bolos e bolinhos, o viradinho, os angus; os mexidos cuja base é o aproveitamento das sobras de um almoço ou outra refeição; as empadas e empadões, como o goiano; mas também as cambuquiras e as conservas sempre presentes, ainda que em modos de preparo ou com ingredientes diferentes aqui e acolá.[54]

Línguas regionais

Dialeto caipira

Dentro das sub-regiões definidas como extensões da região paulistânica, além da presença da língua portuguesa, que por consequência em ser a única com reconhecimento oficial no Brasil,[55] é a mais falada e escrita, há também as linguagens do povo, destacando-se principalmente, e de forma tradicional, o dialeto caipira, com destaque em toda a região. A língua escrita dos caipiras começou a tornar-se popular a partir do século XIX, a exemplo das Cartas de Segismundo, publicadas entre as décadas de 1860 e 1880 pelo jornalista e advogado Pedro Taques de Almeida Alvim Júnior, nascido em Campinas em 1827; as Cartas de Sugismundo passaram a serem publicadas entre outubro de 1872 e novembro de 1873 no Diário de São Paulo,[56] antigo órgão do Partido Conservador,[57] comprado em 1878 pelo Correio Paulistano.[58]

No início do século XX, sugiram várias revistas, normalmente cômicas, que publicavam utilizando o dialeto caipira, uma das mais destacadas foi O Pirralho, que contou com a contribuição de Cornélio Pires, que sob os pseudônimos de Fidêncio José da Costa e Vadosinho Cambará, passou a publicar textos que também buscavam imitavar a linguagem caipira;[59] posteriormente, de 1926 a 1927, ele trabalhou no periódico O Sacy.[60]

Em 1920, Amadeu Amaral, um dos fundadores da Academia Paulista de Letras, publicou O Dialecto Caipira: Gramática e Vocabulário,[61] um estudo dialetológico que filtra os falares da Paulistânia; isto além de dar mais relevância ao dialeto caipira, tornou-o a primeira pessoa a estudar cientificamente o tema.

Dialeto sulista

O dialeto sulista é falado em algumas áreas do Paraná, especialmente na região de Curitiba, e em partes de São Paulo, mas ao todo, se estende até áreas Santa Catarina. Sua primeira descrição foi feita pelo afro-brasileiro carioca Antenor Nascentes em 1953. Nela, o dialeto abrangeria uma maior área, também correspondente à zona de desbravamento paulista e onde se fixaram bandeirantes e tropeiros, incluía o Rio Grande do Sul, sul de Goiás, o Triângulo Mineiro, o Sul de Minas e partes meridionais de Mato Grosso, incluindo toda a região que atualmente correspondente ao Mato Grosso do Sul, além de São Paulo, Paraná e Santa Catarina[carece de fontes?].

Dialeto trentino

Em Piracicaba, município do noroeste de São Paulo, é falado um dialeto trentino, identificado como "tirolês" na região. É ensinado e falado tradicionalmente nos bairros que integram a Colônia Tirolesa, como Santa Olímpia e Santana.[62] Apesar de ser conhecido como "dialeto" na Itália, na realidade é uma língua natural românica originária de uma transição entre o lombardo e o vêneto, com influências ladino-dolomíticas e alemãs.[63] O tirolês foi levado ao interior de São Paulo em 1892, por imigrantes provenientes do Albiano, Sardagna, Romagnano, Cortesano e Vigo Meano, localidades próximas à comuna do Trento.[64]

Crioulo de base italiana

Conhecido por Paulistaliano, ou por ítalo-paulista, ítalo-paulistano ou ítalo-caipira, é uma língua que era falada pela colônia italiana de São Paulo, que compunhava a maioria dos imigrantes estrangeiros no estado.[65][66][67] Foi desenvolvida a partir do contato linguístico entre populações de origem napolitana, vêneta e o calabrasa.[68] Segundo António Alcântara Machado, os italianos imigrados misturavam suas línguas nativas ao português,[69] e esta, consequentemente, teria sofrido influências do dialeto caipira,[70] originando uma nova língua, não como um dialeto, mas como um pidgin, ou seja, uma língua criada para efeitos de comunicação entre populações de diferentes origens.[71]

A partir de 1911, o engenheiro Alexandre Marcondes Machado viria a tornar-se conhecido por imitar a língua falada dos ítalo-paulistas e, sob o pseudônimo de Juó Bananère, divulgá-las em periódicos como O Pirralho e Diario do Abax'o Piques, servindo como um porta-voz da comunidade italiana de São Paulo.[72]

O trabalho de Alexandre Marcondes Machado, filtrando o linguajar dos ítalo-paulistas, era similar ao de Cornélio Pires, que trabalhava no mesmo periódico escrevendo sobre a cultura de São Paulo e filtrando o linguajar do povo caipira.[73]

Ver também

Notas e referências

Notas

Referências

  1. «O dialeto trentino da Colônia Tirolesa de Piracicaba» (PDF) 
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