Oração ao Tempo
Oração ao Tempo é uma canção composta por Caetano Veloso. Foi gravada pela primeira vez para o álbum Cinema Transcendental lançado em LP em 1979.[1]
A canção é a segunda faixa do álbum traz Caetano Veloso no violão, Dominguinhos no acordeon e Vinícius Cantuária no violão de aço.[1] O álbum Cinema Transcendental e sua canção Oração ao Tempo receberam sucesso, tal qual outras composições do álbum: Lua de São Jorge, Cajuína, entre outras.[2] A composição ao Tempo foi responsável por inspirar a construção de variados artigos a pensar sobre a questão filosófica tratada no seu conteúdo e ganhou uma resposta de Gilberto Gil, outro cantor renomado da MPB.[3][4][5][6][7][8]
História
Oração ao Tempo foi escrita em um tempo no qual Caetano Veloso publicou muitos das suas canções, todas do álbum Cinema Transcendental, sem antes tê-las passado para o meio físico em um papel. Depois de ter feito a primeira estrofe da canção temporal, Veloso percebeu que desejava ter a melodia da primeira estrofe repetida ao longo da sua música inteira, para, assim, possuírem métrica igual, mesma métrica e mesmo ritmo. Caetano Veloso considerou Oração ao Tempo uma música possível de ser lida; diferente de algumas faixas do álbum, as quais, segundo suas palavras , achei uma coisa débil mental, tola. Isto porque, no contexto da sua fala, o autor do Cinema Transcendental pensou uma separação da sua discografia em músicas que precisavam ser cantadas para conquistar valor aos seus olhos e outras, como Oração ao Tempo, que no papel em si já se justificavam.[9]
Estrutura
A música possui uma simples estrutura e é tocada com poucos instrumentos.[5]
É perceptível a presença de uma percussão e dois instrumentos de harmonia, um violão tradicional e outro com cordas de aço, embora neste caso o violão de cordas de aço esteja fazendo o papel de uma guitarra líder e solando na música. Na introdução, nota-se o acordeon de Dominguinhos. Já no decorrer da canção, um coro feminino adentra alguns trechos dando um perfil progressivo para a composição. Nenhum dos elementos musicais se sobressai, permitindo que os ouvintes prestem atenção redobrada à letra.[5]
Oração ao Tempo foi criada em ritmo andantino, favorável à introspecção. A harmonia contida é repetida em ciclos de doze compassos, sem muitas tensões. O final de cada estrofe é marcado por cadência plagal, normalmente associada à hinos religiosos. Toda sua letra, ritmo e arranjo musical indicam leveza, suavidade, introspecção.[5]
Recepção
Cinema Transcendental como um todo e especificamente algumas de suas músicas como Oração ao Tempo logo viraram um "hit". Este álbum segundo, se comparado às visões anteriores, ganhou um olhar mais bem visto dentro da crítica brasileira. Em 1979, ano do lançamento do LP, Celso Araújo do Correio Braziliense faz da canção ao tempo uma brincadeira para elogiar Veloso por seu novo álbum qualificando o jovem músico do tropicalismo como um "poeta que amadurece suavemente, sempre pede tempo". Em contrapartida, o jornalista Tárik de Souza destina um misto de crítica ao novo álbum de Caetano, ao passo que reconhece "a dose habitualmente generosa de talento" e aposta na imortalidade do álbum.[10] Também teve sua canção aclamada como "grandes sucessos" do disco Transcendental,[2] além de mais recentemente ter recebido nova roupagem, sendo tocada no estilo da banda Fresno, pelo vocalista e guitarrista Lucas Silveira, que chamou Oração ao Tempo de "uma das coisas mais bonitas que a humanidade já produziu".[11]
Interpretações
Interpretações Musicais
Maria Gadú fez uma interpretação da composição de Caetano Veloso destacando como a música fez-se notar em momentos de transição e reflexão.[12]
Na interpretação de Maria Bethânia, um dos pedidos da música original é trocado para se adequar ao pedido da cantora; o verso "vou te fazer um pedido/ peço-te o prazer legítimo e o tempo preciso" do trecho primário é substituído, na versão de Maria Bethânia para "vou te fazer um pedido/quanto o tempo for propício". A mudança foi avaliada como um reforço do objetivo emocional e contemplativo da composição.[13]
Djavan opta por interpretar a música e a escolher para compor o álbum "Ária", acentuando a delicadeza, minimalismo, e sensibilidade na obra.[14]
A banda "Fora de Pauta" cantou "Oração ao Tempo" em homenagem aos servidores e servidoras do estado do Paraná, no contexto do Dia do Servidor Público, no Tribunal Regional do Paraná.[15]
João Gomes, cantor do gênero musical piseiro e forró, arriscou-se por entre a música popular brasileira para cantar uma homenagem à Caetano Veloso durante a cerimônia de premiação do prêmio UBC (União Brasileira dos Compositores), realizada no Centro do Rio, em 2023.[16][17][18][19]
Estudos de análise
O artigo "Os conceitos de tempo, duração e ritmo de Bergon na música popular brasileira: "uma análise da canção Oração ao tempo, de Caetano Veloso" composto por Herom Vargas e Regina Rosetti, dois estudantes da Universidade Metodista de São Paulo procura analisar o sentido de tempo posto na música datada de 1979, por Caetano Veloso. Anexa à analise interpretações filosóficas do conceito de tempo do filósofo Henri Bergson e sintetiza sua tese ao chamar Oração ao Tempo de uma canção que evoca a empatia do público pela noção de tempo.[5]
Nesta análise, a Oração ao Tempo é entendida como uma canção de culto ou louvor com a finalidade do autor tecer um pedido à entidade do Tempo. Para isso, Caetano lhe promete escrever músicas, cantar para ele, e dedica elogios. Embora a canção esteja tratando o tempo enquanto conceito abstrato personificado numa divindade, a relação do ser humano para com o divino é apresentada com intimidade, uma vez que o pedido "parece muito individual e particular".[5]
O tempo retratado pelo jovem da Tropicália é um tempo fluxo determinante para eventos da vida; dotado de poderes, visto em diversas ocasiões: "compositor de destinos", "inventivo", "contínuo", "tambor de todos os ritmos". Em relação ao último dos adjetivos, entende-se que Caetano Veloso referia-se à noção de ritma concedida no uso do tempo. A confirmar, a canção reitera o objeto de reflexão, o "Tempo", repetindo o verso "Tempo, tempo, tempo, tempo" por mais de três linhas diferentes da composição, atribuindo o tempo como fluxo e conferindo um substituto ao estribilho. Dessa forma, a música estudada por Vargas e Rosetti comprova conceitos do filósofo francês ao encaminhar-se de modo cíclico, gerando então, uma empatia com o ouvinte, que por sua vez, perde a noção do espaço e do tempo ao escutar o mantra em repetição, compreendendo o fluxo do tempo pela percepção do som.[5]
"Tempo Rei- resposta de Gilberto Gil"
Gilberto Gil, em resposta à música de Caetano Veloso, compõe canção intitulada "Tempo Rei", para rebater questões que causavam incômodo em Gil. Uma das primeiras características apontadas na composição da resposta é o fato de a canção Oração ao Tempo ter a inspiração de uma oração, e, mesmo assim, não tem o caráter comum religioso. Antagonicamente, a música "Tempo Rei" tem nomenclatura do mundo antropocêntrico mas dialoga com o religioso, em específico, com a religiosidade cristã.[4]
Para o autor da música em resposta, a música original parte de uma concepção egóica de mundo, em que os versos vinculam o fim da consciência com o fim da entidade tempo criada. Em contrapartida, a nova canção defende o ponto de vista de Gilberto Gil, de acordo com o qual as coisas continuarão existindo de igual modo ainda que sua consciência acabe. Essa visão enquadra-se na religião cristã por derivar da ideia de um plano pós espiritual, onde mesmo após a existência do corpo físico, e a morte da consciência presente nesse corpo, haveria um segundo momento após a morte do ego. Para existir esse segundo momento, é preciso existir o primeiro, o plano atual, conforme entende Gil; "é muito difícil não crer no pós sem não crer no pré", diz ele. No entanto, a música de Caetano Veloso associa o tempo à sua própria existência, apesar de ser tratado por intimidade, não é posto por superior em autoridade. Por fim, Tempo rei surgiu da crítica à Oração ao tempo por considerá-la egocêntrica, a primeira resulta do argumento de que o final da consciência de outras pessoas na história em nada impediu o resto do mundo e das consciências de prosseguirem caminho habitual.[20][4]
Posto as duas em comparativo, a música de Transcendental mostra-se mais existencialista e menos religiosa, ao encontro de Tempo rei, mais religiosa e simbólica.[4]
Referências
- ↑ a b «CINEMA TRANSCENDENTAL - Discos do Brasil». discografia.discosdobrasil.com.br. Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ a b novabrasilfm (2 de janeiro de 2022). «Acervo MPB: Caetano Veloso - Parte 2». Novabrasil. Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ «Gilberto Gil, 81 anos: um dos grandes nomes da MPB se mantém influente e é destaque até nos streamings de música». Jornal da Unesp. 30 de junho de 2023. Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ a b c d Almeida Júnior, Jose Benedito de (1 de novembro de 2021). «Tempo e religião na canção Tempo Rei de Gilberto Gil». TEOLITERARIA - Revista de Literaturas e Teologias (24): 583–608. ISSN 2236-9937. doi:10.23925/2236-9937.2021v24p583-608. Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e f g Vargas, Herom; Rossetti, Regina (2017). «Os conceitos de tempo, duração e ritmo de Bergson na música popular brasileira: uma análise da canção Oração ao Tempo, de Caetano Veloso». Música Hodie (2): 150–160. ISSN 1676-3939. doi:10.5216/mh.v17i2.47952. Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ Vergne, Sandra Aparecida Gurgel COMO DJÉLIS. EDUCAÇÃO, RELIGIOSIDADE E AFROAFETO EM NARRATIVAS DE RESISTÊNCIA . / Sandra Aparecida Gurgel Vergne. -- São Paulo: [s.n.], 2022.
- ↑ «Gilberto Gil». Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ «Opinião - Morte Sem Tabu: Carta para Gilberto Gil». Folha de S.Paulo. 20 de outubro de 2025. Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ Bonvicino, Régis (4 de junho de 2010). «Caetano Veloso 1979 - Sibila». Consultado em 30 de outubro de 2025
- ↑ iBahia (6 de agosto de 2022). «De 'Araçá Azul' ao 'Cinema Transcendental': veja críticas de cinco álbuns emblemáticos de Caetano Veloso». iBahia. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ Ernani, Felipe (24 de março de 2020). «Lucas Silveira (Fresno) faz bela versão de "Oração ao Tempo", de Caetano Veloso». TMDQA!. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «Significado da música ORAÇÃO AO TEMPO (Maria Gadú)». Letras.mus.br. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «Significado da música ORAÇÃO AO TEMPO (Maria Bethânia)». Letras.mus.br. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «Significado da música ORAÇÃO AO TEMPO (Djavan)». Letras.mus.br. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «TRE-PR homenageia as servidoras e os servidores». Justiça Eleitoral. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «Caetano Veloso: 'Que bom ter caído no mundo da música popular, uma das coisas mais fortes do Brasil'». O Globo. 5 de dezembro de 2023. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «Em noite de celebração, Caetano Veloso recebe prêmio da União Brasileira de Compositores». www.correio24horas.com.br. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ Povo, Correio do (6 de dezembro de 2023). «Caetano Veloso recebe o Prêmio UBC em cerimônia com estrelas da música brasileira». Correio do Povo. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ Bahia, Alô Alô. «Artistas de diversas gerações homenageiam Caetano Veloso em Prêmio UBC». Alô Alô Bahia. Consultado em 31 de outubro de 2025
- ↑ «Significado da música ORAÇÃO AO TEMPO (Caetano Veloso)». Letras.mus.br. Consultado em 31 de outubro de 2025