Noites do Norte
| Noites do Norte | ||||
|---|---|---|---|---|
| Álbum de estúdio de Caetano Veloso | ||||
| Lançamento | Dezembro de 2000 | |||
| Estúdio(s) | AR Estúdio, Rio de Janeiro | |||
| Gênero(s) | MPB, tropicália | |||
| Duração | 50m44s | |||
| Gravadora(s) | Mercury, Nonesuch, Universal | |||
| Produção | Caetano Veloso, Jaques Morelenbaum, Moreno Veloso | |||
| Cronologia de Caetano Veloso | ||||
| ||||
Noites do Norte é um álbum musical de estúdio do cantor, compositor e guitarrista brasileiro Caetano Veloso, lançado em dezembro de 2000 pelo selo Mercury Records. Inspirado pelo escritor Joaquim Nabuco, o disco aborda o tema da escravidão no Brasil, incorporando essas influências à perspectiva pessoal de Caetano. O repertório reúne canções inéditas e regravações de sucessos antigos do artista, como “Nosso Estranho Amor”, “Tigresa” e “Menino do Rio”.[1] Em 2001, o álbum rendeu a Veloso o Prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB, além de ter sido indicado na categoria de Melhor Álbum de Engenharia de Som.
Contexto
A inspiração de Caetano para Noites do Norte surgiu de um livro presenteado por um amigo: Minha Formação, as memórias do abolicionista do século XIX Joaquim Nabuco.[2] Ao ler a obra, Caetano ficou profundamente envolvido com as reflexões de Nabuco sobre escravidão e raça, o que reacendeu seu interesse pela história racial do Brasil. O músico declarou: “Eu queria que outras pessoas ouvissem o que ele escreveu. Porque, de fato, o que precisamos discutir no Brasil é uma segunda abolição [da escravidão], e ele foi um dos primeiros a perceber isso.”[3]
Composição
Noites do Norte contém 12 faixas que tratam de temas como a história da escravidão e da abolição no Brasil, sob a ótica de Caetano,[4][5] e mesclam diferentes estilos musicais — samba,[6] rock,[7] ritmos afro-brasileiros,[8] funk[9] e hip-hop.[10] As composições originais dialogam com Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freire,[11] e com homenagens a outros artistas, como “Zumbi” de Jorge Ben e “Sou Seu Sabiá” de Marisa Monte. A faixa-título, baseada em textos de Joaquim Nabuco, funciona como um hino à contribuição africana[12][13] e combina composições de Veloso com elementos percussivos nordestinos, como timbales, atabaques e congas, refletindo as raízes baianas do artista e a herança afro-brasileira da região.[14]
Faixas
“Zera a Reza” abre o álbum com uma fusão refinada de minimalismo e groove, misturando batidas inspiradas no hip-hop e violão de bossa nova.[15] “Noites do Norte”, a faixa-título, combina elementos eruditos e folclóricos brasileiros, com o tenor de Veloso sustentando uma mensagem geracional.[16] “13 de Maio”, referência à data da abolição da escravidão no Brasil (13 de maio de 1888), é um samba-funk setentista produzido com o auxílio de seu filho Moreno Veloso.[17][18]
“Zumbi”, reinterpretação da canção de Jorge Ben (1974), reafirma a temática da negritude.[13] “Rock ’n’ Raul” homenageia Raul Seixas, fundindo ritmos brasileiros com influências do rock.[19] “Michelangelo Antonioni” é um poema sinfônico escrito em italiano, que mescla tradições musicais brasileiras e italianas em tributo ao cineasta homônimo.[20][21]
“Cantiga de Boi” faz uma crítica ao tema do bumba meu boi, explorando simbolismos de sacrifício na cultura brasileira.[22] “Cobra Coral” musicou um poema de Waly Salomão, refletindo sobre transformação e ritmo da vida brasileira.[23] “Ia” apresenta uma “bossa nervosa e barulhenta”, tratando do exílio sentimental.[17]
“Meu Rio” é uma recordação afetiva do Rio de Janeiro, com cavaquinho, pandeiro e ganzá.[17] “Sou Seu Sabiá”, composta originalmente para Marisa Monte, celebra o poder curativo do amor.[24] Veloso quase incluiu “Você Não Gosta de Mim” (gravada por Gal Costa) em seu lugar.[18] “Tempestades Solares” encerra o disco com um drama amoroso, em que o eu lírico sofre “com as mucosas venenosas da alma feminina”, gerando tempestades internas.[2]
Recepção crítica
| Críticas profissionais | |
|---|---|
| Avaliações da crítica | |
| Fonte | Avaliação |
| AllMusic | |
| Folha de S.Paulo | |
| Los Angeles Times | |
| Pitchfork | 8.1/10[7] |
Noites do Norte recebeu principalmente aclamação positiva de diversos críticos musicais. Chris Nickson, do AllMusic, concedeu três de cinco estrelas ao álbum, destacando a persistente busca de Caetano Veloso por ultrapassar fronteiras tanto nas letras quanto na sonoridade. Segundo o crítico, embora Veloso — então com quase 60 anos — já tivesse se inspirado fortemente no rock britânico e americano, neste trabalho ele volta-se para dentro de si, explorando influências brasileiras e temas históricos. Nickson também elogiou a experimentação de gêneros, como a batida de hip-hop em “Zera a Reza” e o paisagismo psicodélico de “Ia”, ressaltando a recusa de Veloso em repetir fórmulas de sucesso e seu comprometimento com a inovação.[25] Pedro Alexandre Sanches, escrevendo para a Folha de S.Paulo, atribuiu igualmente três de cinco estrelas, descrevendo o álbum como “delicado e, em vários momentos, inseguro”, centrado no tema do “exílio temporal”. O crítico observou que a coesão temática do disco se enfraquece na metade final, concluindo que a arte de Veloso brilha em suas contradições, mas perde força quando cede a dogmas e esquematismos.[17]
No Los Angeles Times, Don Heckman concedeu três e meia de quatro estrelas, descrevendo o disco como um “álbum impressionante” inspirado nos escritos do abolicionista Joaquim Nabuco. Ele elogiou a “interface sutil entre palavra e música” em faixas como “Noites do Norte”, “13 de Maio” e “Zumbi”, que exploram “as complexidades raciais do Novo Mundo”.[26] Para o Pitchfork, Joe Tangari avaliou o álbum com nota 8,1, destacando sua profundidade temática e a vitalidade sonora, descrevendo-o como “um disco que absolutamente merece ser ouvido por todos”. Embora reconheça que o álbum anterior, Livro (1998), possa ser mais coeso, Tangari elogia os arranjos, que vão do minimalismo acolhedor a texturas orquestrais ricas, enfatizando “13 de Maio” e “Zumbi” como exemplos de emoção e narrativa histórica.[7] Por fim, o crítico Mauro Ferreira, do portal G1, incluiu a faixa “Rock ’n’ Raul” na 69ª posição de sua lista das 80 canções que revelam as raízes e as antenas da obra de Caetano Veloso, destacando-a como um dos momentos emblemáticos da fusão entre tradição e modernidade na trajetória do artista.[27]
Lista de faixas
| Noites do Norte – Standard edition | ||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| N.º | Título | Duração | ||||||||
| 1. | "Zera a Reza" | 5:08 | ||||||||
| 2. | "Noites do Norte" | 2:46 | ||||||||
| 3. | "13 De Maio" | 3:36 | ||||||||
| 4. | "Zumbi" | 4:56 | ||||||||
| 5. | "Rock 'n' Raul" | 5:16 | ||||||||
| 6. | "Michelangelo Antonioni" | 3:44 | ||||||||
| 7. | "Cantiga De Boi" | 4:47 | ||||||||
| 8. | "Cobra Coral" | 4:15 | ||||||||
| 9. | "Ia" | 3:52 | ||||||||
| 10. | "Meu Rio" | 4:32 | ||||||||
| 11. | "Sou Seu Sabiá" | 4:43 | ||||||||
| 12. | "Tempestades Solares" | 3:03 | ||||||||
Duração total: |
50:44 | |||||||||
Créditos
O processo de criação de Noites do Norte contou com os seguintes profissionais:[28]
Músicos
- Caetano Veloso – Vocal principal (faixas 1–12), violão acústico (faixas 1, 8–12), palmas (faixa 3), coro (faixa 4)
- Cleber Sena – Percussão (faixa 1)
- Márcio Victor – Bateria e percussão (faixas 1–4, 7, 8, 11), metais (faixa 7)
- Du – Bateria e percussão (faixas 1–4, 7, 8, 11)
- Jó – Bateria e percussão (faixas 1–4, 7, 8, 11)
- Paulo Calazans – Teclado (Hammond B3) (faixa 1)
- Pedro Sá – Guitarra elétrica (faixas 1, 5, 9), coro (faixa 4), baixo (faixas 5, 9)
- Luiz Brasil – Guitarras (faixas 2, 4, 7, 10, 12), coro (faixa 4), talk box (faixa 7), regência (faixa 8)
- Moreno Veloso – Conga, percussão, guitarra elétrica, palmas (faixa 3); coro (faixa 4); violoncelo (faixa 12)
Produção
- Caetano Veloso – Produção
- Jaques Morelenbaum – Coprodução (faixas 1–4, 6, 8, 9, 11)
- Moreno Veloso – Coprodução (faixa 3)
- Max Pierre – Direção artística
- Ricardo Moreira – Gerência artística
- Luiz Brasil – Supervisão musical
- Conceição Lopes – Supervisão executiva
- Beth Araújo – Coordenação executiva
- Luiz Zerbini – Direção de arte
- Ludmila Ayres – Design
- Zoy Anastassakis – Design
- Mário Cravo Neto – Fotografia
Vendas e certificações
| Região | Certificação | Vendas |
|---|---|---|
| Brasil (Pro-Música Brasil)[29] | Ouro | 115.000[30] |
|
*números de vendas baseados somente na certificação | ||
Histórico de lançamento
| País | Data | Formato | Gravadora(s) |
|---|---|---|---|
| Brasil[31] | dezembro de 2000 | CD | Mercury |
| Japão[32] | 21 fevereiro de 2001 | ||
| Estados Unidos[18] | 24 abril de 2001 | Nonesuch Records |
Referências
- ↑ «Folha de S.Paulo - "Noites do norte": Caetano comemora 59 anos com show - 06/08/2001». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b «Caetano Veloso: CD perturbador». Estadão. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Brazil's voice, and its soul». Los Angeles Times (em inglês). 27 de outubro de 2002. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Caetano traz as "Noites do Norte" a São Paulo». Estadão. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ Admininstrator, Gazeta (20 de novembro de 2024). «Caetano Veloso volta a Miami com prêmios, novidades e muita música». GazetaNews. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Folha Online - Reuters - Público argentino fica "enfeitiçado" por show de Caetano Veloso - 10/12/2001». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b c Tangari, Joe. «Caetano Veloso: Noites do Norte». Pitchfork (em inglês). Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Brazil's Caetano Veloso, Ever the Tropical Storm». The Washington Post (em inglês). 1 de janeiro de 2003. ISSN 0190-8286. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Folha Online - Ilustrada - Crítica - Show: Caetano canta o passado, Lulu e funk em "Noites do Norte" - 04/06/2001». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «"Noites do Norte" de Caetano vira DVD». Estadão. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - TENDÊNCIAS/DEBATESJosé Serra: Igualdade à flor da pele - 13/05/2005». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Folha Online - Pensata». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b «CAETANO VELOSO Noites do Norte» (em francês). 10 de fevereiro de 2001. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ Blitzer, Jonathan (7 de fevereiro de 2022). «How Caetano Veloso Revolutionized Brazil's Sound and Spirit». The New Yorker (em inglês). ISSN 0028-792X. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ Staff, Billboard (28 de abril de 2001). «Noites do Norte». Billboard (em inglês). Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ Grey, Hilarie (25 de abril de 2019). «Caetano Veloso: Noites do Norte». JazzTimes (em inglês). Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e «Folha de S.Paulo - Disco/lançamento: "Noites do Norte" faz voltar Caetano exilado do tempo - 13/12/2000». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b c «Noites do Norte | Nonesuch Records - MP3 Downloads, Free Streaming Music, Lyrics». Nonesuch Records Official Website (em inglês). 29 de maio de 2008. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ CASTRO, ROGÉRIO (16 de maio de 2023). «Em defesa de Raul contra "Rock'n'raul"de Caetano Veloso». Acervo. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Caetano Veloso revive Michelangelo Antonioni no tom ítalo-brasileiro de álbum do pianista Stefano Bollani». G1. 18 de agosto de 2018. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «[2001.03]カエターノ、新作『ノイチス・ド・ノルチ』を語る 3年ぶりに届いた、「啓示」そして「暗示」|e-magazine LATINA». e-magazine LATINA (em japonês). 13 de maio de 2021. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Folha Online - Ilustrada - Caetano apresenta "Noites do Norte" em Campinas - 09/08/2001». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Música / Marisa Monte: A dança da solidão - 11/05/2000». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b Noites do Norte - Caetano Veloso | Album | AllMusic (em inglês), consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ a b «*** 1/2 CAETANO VELOSO "Noites do Notre," Nonesuch». Los Angeles Times (em inglês). 22 de abril de 2001. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ «Eis 80 músicas de Caetano Veloso que atestam a grandeza da obra antenada e jovial do compositor». G1. 7 de agosto de 2022. Consultado em 14 de outubro de 2025
- ↑ Veloso, Caetano (2001). Noites do Norte (CD liner notes). Mercury Records. 73145483622.
- ↑ «Certificações (Brasil) (álbum) – Caetano Veloso». Pro-Música Brasil. Consultado em 22 de junho de 2020
- ↑ Fernandes, Ana Carolina (27 de junho de 2001). «Caetano diz que cantar "só um tapinha não dói", causadora de vaias em seus shows recentes, afasta os "chatos"» [Caetano says that singing "just a tap doesn't hurt", causing boos at his recent shows, keeps away the "boring" ones]. Folha de S.Paulo. 34.511 (103). ISSN 1414-5723. Consultado em 11 de janeiro de 2025
- ↑ Veloso, Caetano (2 de outubro de 2017). «Biography». Caetano Veloso Oficial. Consultado em 11 de janeiro de 2025. Cópia arquivada em 2 de outubro de 2017
- ↑ «カエターノ・ヴェローゾ / ノイチス・ド・ノルチ [廃盤]». CDJournal (em japonês). Consultado em 11 de janeiro de 2025

