Batismo guarani
O batismo guarani (em guarani: nhemongarai) é um ritual de revelação do nome de pessoas e de consagração de alimentos que possui grande importância na cultura guarani.[1]
O antropólogo alemão Curt Nimuendajú, antes Unckel, foi batizado com o nome guarani Nimuendajú em 1906. Em 1910, ele descreveu a cerimônia de batismo na qual o pajé Avacaujú revelou seu nome indígena.[2]
Definição
O nhemongarai é um tipo de cerimônia religiosa guarani, no qual podem ocorrer tanto o benzimento dos cultivos, quanto a revelação do nome sagrado a pessoas, em especial, de crianças.[3] Pode ser definido como um ciclo ritual complexo que articula a vida e as ações de diferentes tipos de seres (divinos, espíritos e pessoas) com os ciclos de reprodução dos animais e de maturação das plantas e frutos.[4]
Quando referido apenas como nhemongarai, a tradução mais comum no português é batismo. A pesquisadora indígena Darci da Silva (Karaí Nhe'ery) define o ritual como “batismo do nhe’e, espírito, para receber o nome”.[1] Já Anai Vera Britos, se refere ao nhemongarai como “ritual de imposição do nome”.[3]
Quando utilizado compostamente com outra palavra pode se referir ao ritual de benzimento, por exemplo, ka'a nhemongarai (benzimento da erva-mate).[3]
Descrição
Batismo de pessoas
A pesquisadora indígena Sandra Benites descreve o nhemongarai como a revelação do amba (lugar sagrado de onde vem o espírito) e, por consequência, do tery (nome). Segundo ela, o ritual é fundamental não apenas para a nominação, mas para o conhecimento da personalidade e habilidade de cada pessoa guarani.[5]
Desde a gestação, até os dois ou três anos de uma criança, os pais e avós são responsáveis por observar os acontecimentos e praticar determinadas regras culturais até a revelação do nome.[5] O cineasta e líder espiritual guarani Carlos Papa descreve esse processo como descoberta:
Nhemongarai é uma descoberta de quem é você, quem é o filho seu, ou quem é a filha. Por que antes de vir ao mundo, você fazia parte de alguma parte, em alguma parte você era espírito. Então esse espírito seu tinha nome, e o pajé vai chamar o espírito seu pelo nome que já tinha. Então é a descoberta de onde você veio, de que parte você faz parte.
— Carlos (Papa Miri Poty)[6]
Batismo de alimentos
O batismo de alimentos geralmente incidem sobre a erva-mate (ka'a), o milho (avaxi ete) e o mel (ei), considerados dádivas de Nhanderu. Amostras desses itens ou até mesmo de seus produtos, como o bolo de milho (mbojape) são expostos na casa de reza (opy) e então benzidos por meio da fumaça de tabaco dos cachimbos, de cantos, danças e evocações a Nhanderu e Nhandexy. Tal ritual confere aos alimentos característica sagrada, extra terrena, isto é, podem ser consumidos como coisas que não pertencem a esta terra.[7]
Função
O nhemongarai é um ritual com profundo significado espiritual para o povo guarani, por concentrar a essência da sabedoria cultural e os princípios das histórias ancestrais. Durante a cerimônia, o xamã, em comunhão com diferentes esferas divinas da cosmologia guarani, revela o nome sagrado de outro indivíduo.[3] Essa prática não apenas reforça a conexão entre a comunidade e o mundo espiritual, mas também assegura a transmissão do conhecimento ancestral. Além disso, os anciãos convidam a juventude a participar, garantindo a continuidade da tradição para as futuras gerações.[7]
Esse ritual também desempenha um papel essencial na renovação contínua do ciclo de vida guarani, marcado por duas fases: ára pyau (tempo-espaço novo) e ára yma (tempo-espaço antigo). Conforme essa cosmologia indígena, tal renovação ocorre indefinidamente, reforçando a conexão entre os planos terreno e divino. Assim, o nhemongarai não apenas preserva a tradição e a identidade do povo guarani, mas também sustenta o tekoporã, o bem viver, ao alinhar a vida comunitária com os princípios cosmológicos e espirituais que regem sua existência.[3][4]
Ver também
Referências
- ↑ a b da, Silva, Darci (2020). «Nhemongarai: Rituais de Batismo Mbya Guarani». Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica) — Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. Arquivado em 24 de junho de 2021. Consultado em 1 de fevereiro de 2025.
- ↑ «Nimongaraí — o batismo ritual de Nimuendajú (Unckel 2010) - Biblioteca Digital Curt Nimuendajú». www.etnolinguistica.org. Consultado em 1 de fevereiro de 2025
- ↑ a b c d e Papá, Carlos; Britos, Anai Vera (22 de dezembro de 2023). «Jajepota ka'aguy rokýre: Encantar-se com os brotos da floresta». Cadernos de Campo (São Paulo - 1991) (2): e215752–e215752. ISSN 2316-9133. doi:10.11606/issn.2316-9133.v32i2pe215752. Consultado em 1 de fevereiro de 2025
- ↑ a b Affonso, Ana Maria Ramo y (29 de junho de 2023). «Nhemongarai: ritual, gênero e outros encaixes entre os Guarani». Etnográfica. Revista do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (27(2)): 407–428. ISSN 0873-6561. doi:10.4000/etnografica.13509. Consultado em 1 de fevereiro de 2025
- ↑ a b Benites, Sandra (2015). Nhe'ẽ, reko porã rã: nhemboea oexakarẽ Fundamento da pessoa guarani, nosso bem-estar futuro (educação tradicional): o olhar distorcido da escola. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica) - Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. Arquivado em 15 de fevereiro de 2020. Acessado em 1 de fevereiro de 2025.
- ↑ Macedo, Valeria Mendonca de. Nexos da diferença. Cultura e afecção em uma aldeia guarani na Serra do Mar. Tese de doutorado (Antropologia) - Universidade de São Paulo, 2009.
- ↑ a b Macedo, Valéria (2011). «Vetores porã e vai na cosmopolítica Guarani». Tellus: 22–52. ISSN 2359-1943. doi:10.20435/tellus.v0i21.241. Consultado em 1 de fevereiro de 2025