Vírus do mosaico dourado do feijoeiro
Vírus do mosaico dourado do feijoeiro[1]
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| Classificação viral | |||||||||||||||||||
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| Begomovirus costai | |||||||||||||||||||
O vírus do mosaico dourado do feijoeiro (BGMV – Bean golden mosaic virus) é um fitovírus que causa a doença do mosaico dourado, que afeta as plantações de feijão.[2] É o vírus com o maior potencial de severidade já identificado para o feijão-comum.[3]
O BGMV é um dos principais problemas da cultura do feijão na América Latina e pode provocar perdas econômicas de 30 a 100%, dependendo do sistema de cultivo, do estádio de desenvolvimento das plantas, da densidade populacional do vetor, da presença de hospedeiros alternativos e das condições ambientais da área.[4]
História
O vírus foi identificado no Brasil em 1961, no estado de São Paulo, e inicialmente não foi considerado uma ameaça ao feijoeiro. Entretanto, na década de 1970, durante um período de seca, ocorreram surtos no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, resultando em epidemias nos cultivos. Posteriormente, a doença se disseminou amplamente em razão do aumento das populações de mosca-branca (Bemisia tabaci), impulsionado pela expansão do cultivo da soja, que atua como hospedeira tanto do inseto quanto do vírus.[3]
O Brasil é o maior produtor e consumidor mundial de Phaseolus vulgaris (feijão-comum), e a presença de doenças, entre elas o mosaico dourado, constitui um dos principais fatores que reduzem a produtividade e prejudicam a qualidade comercial dos grãos.[3] A enfermidade provoca prejuízos econômicos pela queda na produtividade e impactos sociais ao comprometer a viabilidade da produção de feijão na agricultura familiar.[5]
Atualmente, o mosaico dourado ocorre em praticamente todas as regiões brasileiras onde há cultivo de feijão.[6]
Transmissão
O BGMV é transmitido pela mosca-branca, também conhecida como mosca-branca da batata-doce. Entre as cerca de 1.100 espécies descritas de moscas-brancas, apenas três são reconhecidas como vetores de viroses vegetais, sendo Bemisia tabaci o único vetor de geminivírus.[6]
A mosca-branca alimenta-se da seiva das plantas e, ao fazê-lo, injeta toxinas que provocam danos diretos. No entanto, seu impacto mais significativo decorre dos danos indiretos, uma vez que transmite mais de 300 espécies de vírus, incluindo representantes dos gêneros Begomovirus, Crinivirus, Carlavirus e Ipomovirus.[3]
O vetor apresenta alta eficiência de transmissão, podendo infectar plantas mesmo quando poucas moscas-brancas virulíferas estão presentes, desde um único indivíduo até cerca de 27. Em condições de campo, a relação entre densidade populacional da praga e incidência de plantas sintomáticas nem sempre é positiva, pois mesmo populações baixas podem resultar em alta incidência da virose devido à elevada eficiência de transmissão.[3]
Temperaturas elevadas aceleram o desenvolvimento de B. tabaci, favorecendo rápido crescimento populacional. Contudo, a disseminação da doença depende mais da migração do inseto e da presença de reservatórios do vírus do que da temperatura em si. Por esse motivo, o mosaico dourado também se manifesta amplamente em lavouras de feijão da seca, apesar de essas apresentarem temperaturas médias inferiores às da época das “águas”.[6]
Sintomatologia
Os sintomas do mosaico dourado geralmente não se manifestam nas folhas primárias. Quando o vírus é transmitido em plantas recém-emergidas, os primeiros sinais surgem entre 14 e 17 dias após a infecção. Os folíolos da primeira folha trifoliolada apresentam-se voltados para baixo ou encarquilhados, com clareamento e/ou clorose das nervuras, variando conforme a cultivar. Os sintomas mais característicos tornam-se evidentes quando as plantas possuem três a quatro folhas trifolioladas, entre 25 e 30 dias após a emergência, no estádio fenológico V4. Nessas condições, as folhas exibem coloração amarela intensa e um mosaico dourado brilhante. Plantas infectadas até cerca de 20 dias após a emergência, no estádio V3, podem apresentar redução do porte, abortamento floral, vagens deformadas e sementes descoloridas, menores, mais leves e de qualidade inferior.[7]
Danos e perdas
A mosca-branca provoca danos diretos e indiretos, especialmente quando suas populações atingem níveis elevados. Parte do alimento ingerido pelo inseto é excretada na forma de um líquido açucarado, que favorece o desenvolvimento de fungos saprófitas. Esses fungos recobrem as folhas e interferem nos processos de fotossíntese e respiração, ocasionando alterações no crescimento vegetativo e reprodutivo, além de reduzir a produtividade e a qualidade dos grãos. Os danos indiretos decorrem da transmissão de vírus.[7]
No Sudeste, Centro-Oeste e Sul cerca de 200 mil hectares foram inviabilizados para o cultivo de feijão. A depender do ano as perdas são estimadas de 90 a 300 mil toneladas, quantidade essa que poderia alimentar de seis a 15 milhões de pessoas.[3]
Controle
Nenhuma estratégia de controle, quando utilizada isoladamente, tem se mostrado eficaz contra doenças causadas por geminivírus.[6] A proteção do feijoeiro é especialmente importante nas fases iniciais do cultivo até o florescimento, período em que a planta apresenta maior suscetibilidade ao mosaico dourado. Como a presença da mosca-branca na área é determinante para a infecção, seu manejo deve ser realizado até o estádio de florescimento, empregando tratamento de sementes e pulverizações semanais.[8]
Controle cultural
O controle cultural envolve práticas que tornam o ambiente menos favorável à sobrevivência, disseminação e reprodução da mosca-branca.[8] Entre essas práticas estão a eliminação de hospedeiros alternativos, que funcionam como reservatórios do vírus, e a eliminação de hospedeiros do vetor, já que algumas culturas atuam como criadouros em larga escala. A época de plantio também é um fator relevante, devendo-se priorizar períodos menos favoráveis ao inseto vetor e com menor disponibilidade de fontes de inóculo.[6]
Controle químico
O controle químico baseia-se no uso de inseticidas, que podem ser eficazes quando a migração de insetos para a área de cultivo não é significativa. A aplicação de inseticidas sistêmicos no plantio tende a provocar apenas uma redução modesta na população da mosca-branca.[6] Como o inseto desenvolve resistência com facilidade, é fundamental adotar estratégias de manejo de resistência, reduzindo o risco de seleção de populações resistentes.[8]
Controle genético
O controle genético vem sendo explorado desde a década de 1970, quando técnicas de melhoramento passaram a ser utilizadas para desenvolver cultivares mais resistentes e, assim, diminuir as perdas causadas pela doença.[6] Em 2004, a equipe de Aragão e Faria, da Embrapa, desenvolveu a primeira planta de feijão imune ao vírus do mosaico dourado por meio da estratégia de siRNA. Em 2011, a CTNBio aprovou sua liberação comercial, tornando-o o primeiro feijão transgênico do mundo criado e autorizado por uma instituição pública. Em 2015, já estavam disponíveis cultivares comerciais da variedade carioca; contudo, o lançamento oficial ocorreu apenas em 2020. A aceitação inicial entre agricultores foi positiva e, entre consumidores, projeta-se um padrão de adesão semelhante ao observado em outros alimentos contendo OGMs. Como o feijão-carioca é destinado predominantemente ao mercado interno, sua comercialização foi facilitada, enquanto variedades voltadas à exportação, como o feijão-preto, permanecem fora do mercado.[9][10][11]
Controle integrado
O manejo integrado é apontado como a alternativa mais eficaz, combinando o controle químico às demais estratégias para reduzir a incidência da virose e seus prejuízos. As ações devem começar antes da semeadura, buscando manter baixa a população inicial do inseto. Recomenda-se preservar inimigos naturais, alternar inseticidas sistêmicos, eliminar plantas hospedeiras tanto do vírus quanto do vetor, realizar tratamento de sementes e manter pulverizações semanais, sempre priorizando produtos eficientes e seletivos aos agentes de controle biológico.[8]
Referências
- ↑ «Bean golden mosaic virus». Virus-Host DB. Consultado em 21 de novembro de 2025
Mihara, Tomoko; Nishimura, Yosuke; Shimizu, Yugo; Nishiyama, Hiroki; Yoshikawa, Genki; Uehara, Hideya; Hingamp, Pascal; Goto, Susumu; Ogata, Hiroyuki (1 de março de 2016). «Linking Virus Genomes with Host Taxonomy». Viruses (em inglês). 8 (3): 66. ISSN 1999-4915. PMC 4810256
. PMID 26938550. doi:10.3390/v8030066. Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ GUIMARÃES, Maria. (Outubro de 2011). Escudo contra vírus: Feijão transgênico desenvolvido pela Embrapa é imune à doença mosaico dourado . Revista FAPESP
- ↑ a b c d e f Rocha, Taine Teotonio Teixeira da (3 de julho de 2021). «Feijão transgênico resistente ao mosaico dourado e a aceitação na cadeia produtiva». Revista Multidisciplinar de Educação e Meio Ambiente. doi:10.51189/rema/1361. Consultado em 1 de julho de 2022
- ↑ «Instituciones para aprovechar las oportunidades del futuro: hacia mejores empleos y mayor bienestar en América Latina y el Caribe». OECD. 9 de abril de 2018: 203–242. ISBN 978-92-64-29022-8. Consultado em 1 de julho de 2022
- ↑ Barbosa, Marta. «Controle genético da resistência ao vírus do mosaico do trigo em Triticum aestivum L. Thell». Consultado em 1 de julho de 2022
- ↑ a b c d e f g (Ed.)., Embrapa Arroz e Feijão. SARTORATO, A. RAVA, C. A. (9 de abril de 2011). Principais doenças do feijoeiro comum e seu controle. [S.l.]: Brasília, DF: EMBRAPA-SPI, 1994. OCLC 791179323
- ↑ a b «Golden Mosaic of Common Beans in Brazil: Management with a Transgenic Approach». APSnet Feature Articles. 2016. ISSN 2153-0297. doi:10.1094/apsfeature-2016-10. Consultado em 1 de julho de 2022
- ↑ a b c d Veiga, José Soto. «Análise dos efeitos secundários decorrentes da aplicação de fungicidas sistêmicos à cultura do feijoeiro (Phaseolus vulgaris)». Consultado em 20 de julho de 2022
- ↑ Barbosa, F. R.; Souza, T. L. P. O. de; Wendland, A.; Costa, A. G.; Quintela, E. D.; Aragão, F. J. L.; Faria, J. C. de; Vivian, R. (2021). «Feijão resistente ao mosaico-dourado.» (PDF). ISSN 1678-9636. Consultado em 14 de setembro de 2025
- ↑ Norero, Daniel (31 de agosto de 2021). «The story behind the 100% public GM bean reaching Brazilian plates». Genetic Literacy Project (em inglês). Consultado em 14 de setembro de 2025
- ↑ Faria, Josias Corrêa de; Aragão, Francisco José Lima; Souza, Thiago Lívo Pessoa Oliv de; Quintela, Eliane Dias; Kitajima, Elliot W.; Ribeiro, Simone da Graça. (2016). «Golden Mosaic of Common Beans in Brazil: Management with a Transgenic Approach». APSnet Feature Articles (em inglês). doi:10.1094/APSFeature-2016-10 (inativo 21 de novembro de 2025). Consultado em 14 de setembro de 2025
Bibliografia
- Faria, Josias Corrêa de; Francisco José Lima, Aragão (novembro de 2013). «Embrapa 5.1: o feijoeiro geneticamente modificado resistente ao mosaico dourado.». Santo Antônio de Goiás: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Embrapa Arroz e Feijão. ISSN 1678-9644
Ligações externas
- «BGMV». em www.fitopatologia.net
