Modernização

Modernização é um conceito no âmbito das ciências sociais que refere-se ao processo pelo qual uma sociedade, através da industrialização, urbanização e outras mudanças sociais torna-se moderna, transformando completamente a vida dos indivíduos que a constituem. Nesse processo, as formas tradicionais de existência são substituídas, de forma mais ou menos completa, por novas formas de organização da vida, marcadas por estruturas sociais mais complexas e processos de mudança mais velozes. Tal transformação pode se concretizar, por exemplo, através de inovações tecnológicas que afetam as organizações econômicas e familiares locais.

Origens e conceito

O conceito clássico de modernização provém de uma visão ocidental e eurocêntrica[1] segundo a qual a humanidade se desenvolveria a partir de leis naturais e seria influenciada por elas de modo evolucionista e holista. Nesse sentido, existiriam níveis de desenvolvimento humano, sendo as populações não europeias representações do nível mais simples e primitivo, ao passo que a europeia seria o nível mais complexo e civilizado. Este foi o ponto de vista padrão das ciências sociais por muitas décadas, tendo como um de seus defensores Herbert Spencer[2] Sua teoria, chamada de evolucionismo social, acentuava a importância dos diferentes povos se abrirem à mudança, mais especificamente, à influência e dominação europeias, e encarava as forças reacionárias, as formas de manter a tradição pela tradição, como restritivas e danosas ao progresso e ao desenvolvimento ‒ este processo é caracterizado por ideais do liberalismo exacerbado, que, alinhados aos processos históricos comumente nomeados pelo conceito de “globalização”, se tornam inimigos das tradições não ocidentais.

Esta abordagem tem recebido pesadas críticas, principalmente porque mistura modernização com ocidentalização. Isto significa que a modernização de uma nação exigia a destruição da cultura nativa e sua substituição por outra mais ocidentalizada. Os proponentes da modernização tipicamente viam apenas o Ocidente, em especial a Europa, como sendo genuinamente moderno, argumentando que, em comparação, os países não ocidentais eram primitivos ou subdesenvolvidos. Este ponto de vista encara nações não modernizadas como inferiores, mesmo se tiverem o mesmo padrão de vida das nações ocidentais.

O Japão pode ser usado como caso que exemplifica o choque entre essa abordagem e a sua crítica. Estudos comissionados pelo governo norte-americano durante o século XX a respeito da cultura japonesa, conduzidos por Ruth Benedict[3], tinham o objetivo de entender o inimigo frente à Segunda Guerra Mundial e partiam do pressuposto de que ele era bárbaro e não evoluído. Porém, suas singularidades foram exploradas sob uma nova ótica: a da relatividade cultural. Assim, a antropóloga não avaliava o país como melhor ou pior, isto é, mais ou menos adequado ao contexto moderno a partir de seus valores ocidentais, mas sim compreendia a sua organização social a partir da própria cultura japonesa. E constatou que esta cultura funciona tendo em vista os problemas culturais colocados por ela mesma, ou seja, a partir de um referencial interno à própria cultura japonesa. Por isso, alguns veem o Japão como prova de que um modo de vida completamente moderno pode existir numa sociedade não ocidental.

Dessa forma, opositores da visão clássica argumentam que a modernidade independe de uma cultura específica e pode ser adaptada para qualquer população. Tecnicamente, a modernidade refere-se ao conjunto de características que especificam o período atual, com destaque para as inovações tecnológicas, e qualquer nação existente é, portanto, moderna. Pode-se entender melhor essa ideia por meio do conceito de “sociedade mundial", mobilizado por Rudolf Stichweh[4]. Segundo ele, a sociedade mundial não se trata de um modelo expansivo, que se inicia a partir de algum lugar ‒ como a Europa, como argumentava a visão clássica  ‒, mas o mais amplo dos sistemas sociais, que recobre o globo. Ela, por sua vez, identifica que a modernidade mundial se caracteriza por uma diferenciação funcional crescente: sistemas sociais especializados, como economia, ciência, educação e política, se tornam cada vez mais autônomos e inter-relacionados globalmente, contribuindo para a complexidade global. Vale ressaltar que, para Stichweh, a “sociedade mundial” é, na verdade, o conjunto mais amplo de relações que englobam a espécie humana desde que ela passou a existir e, portanto, o processo de expansão da sociedade mundial é idêntico à expansão da humanidade ao redor do globo. Os fenômenos designados pela noção de “modernização”, contudo, por se tratarem de um processo particular que ocorre no interior das dinâmicas globais e transversais na história humana (as quais caracterizam o sentido dado pelo autor à ideia de sociedade mundial), marcados pelo avanço de determinadas tecnologias que datam sua origem a partir da Revolução Industrial, no século XVIII, correspondem a um desdobramento historicamente recente das inter-relações dos agrupamentos humanos ao redor do mundo, mas que não esgota todo o cenário de contatos e transformações interpretados por Stichweh como condizentes ao desenvolvimento da sociedade mundial.

Nesse sentido, o processo de modernização, marcado pelas revoluções industrial, tecnológica e científica, por exemplo, impacta o globo como um todo e implica que certas funções se universalizam ou se tornam pertinentes globalmente. Isso não significa dizer que não haja níveis desiguais de diferenciação funcional entre as nações da sociedade mundial, mas que o seu processo de inclusão é um fenômeno em andamento. E, por isso, ele se choca com as tradições que antes configuravam a organização social de determinada comunidade.

O filme Alcarràs ilustra bem esse dilema. Ele conta a história de uma família de agricultores de pêssego que tem sua vida transformada quando o proprietário de suas terras morre e seu herdeiro vitalício decide instalar painéis solares nelas, ameaçando subitamente seu sustento. Analisando a situação a partir dos conceitos de Reinhart Koselleck[5], pode-se compreender a impossibilidade das gerações de se opor ou de aderir às mudanças que lhe afligem. Em ambientes tradicionais de convivência social, o “espaço da experiência” constitui as vivências do presente contaminadas pelas experiências do passado, enquanto o “horizonte de expectativas” constitui o futuro presentificado, a expectativa de que o futuro será o mesmo que o presente. Quando transformações drásticas, ou seja, o processo de modernização, atingem a tradição, o espaço da experiência é invalidado, pois não oferece opções de como agir diante da mudança, e o horizonte de expectativas torna-se incerto. É o que acontece com os membros da família Solé. As novas dinâmicas socioeconômicas incorporadas na família afetam a estrutura social mais ampla, transformando completamente a vida dos indivíduos que a constituem.

De acordo com o teórico social Peter Wagner, a modernização pode ser vista como um processo e como uma ofensiva. A primeira visão é comumente projetada por políticos e pela mídia, e sugere que é o desenvolvimento e a origem de novas tecnologias ou leis que tornam a modernização necessária ou preferível. Esta visão critica as dificuldades da modernização, visto que implica que são estes desenvolvimentos que controlam os limites da interação humana ‒ e não o contrário. A segunda visão argumenta que o desenvolvimento e as novas oportunidades tornadas disponíveis por ele são moldados e controlados por agentes humanos. Logo, este ponto de vista vê a modernização como um produto do planejamento e ação humanos, um processo ativo capaz de ser tanto alterado quanto criticado. A modernização é muito mais provavelmente um dos mais influentes acontecimentos numa sociedade.

Ver também

Referências

  1. CANCIAN, Renato. «Modernização - Transformação política e econômica». UOL Educação. Consultado em 15 de novembro de 2025 
  2. SCHWARCZ, Lília K. Moritz (1993). “Uma história de “diferenças e desigualdades”: as doutrinas raciais do século XIX". São Paulo: Companhia das Letras. pp. 43–66 
  3. BENEDICT, Ruth (1972). "O Crisântemo e a Espada: Padrões da cultura japonesa". São Paulo: Editora Perspectiva 
  4. STICHWEH, Rudolf (2018). «Elementos-chave de uma teoria da sociedade mundial». Revista Sociedade e Estado. Vol. 33 (Nr. 2): pp. 389-406 
  5. KOSELLECK, Reinhart (1992). «Uma história dos conceitos: problemas teóricos e práticos». Estudos Históricos. Vol. 5 (N. 10): pp. 134-146 

Ligações externas

  • SCHWARCZ, Lília K. Moritz. 1993. “Uma história de “diferenças e desigualdades”: as doutrinas raciais do século XIX”. In: SCHWARCZ, Lília K. Moritz (1993). O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, pp.43-66
  • BENEDICT, Ruth. "O Crisântemo e a Espada: Padrões da cultura japonesa". São Paulo, SP: Editora Perspectiva, 1972.
  • STICHWEH, Rudolf, "Elementos-chave de uma teoria da sociedade mundial". Revista Sociedade e Estado, Vol. 33, Nr. 2, 2018, pp. 389-406.
  • KOSELLECK, Reinhart. Uma história dos conceitos: problemas teóricos e práticos. Estudos Históricos, v. 5, n. 10, p. 134-146, 1992.