Mikrorayon



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Um mikrorayon ou mikroraion[a] (tradução livre: "microdistrito") é um complexo residencial — um elemento estrutural primário da construção de áreas residenciais na União Soviética e em alguns estados pós-soviéticos e ex-socialistas. Os distritos residenciais na maioria das cidades e vilas das ex-repúblicas da União Soviética foram construídos de acordo com este conceito funcionalista inspirado pelos ideais do urbanismo Modernista e do Construstivismo formalizados pelo Congresso Internacional da Arquitetura Moderna (CIAM).
De acordo com as Regras e Regulamentos de Construção da União Soviética, um mikrorayon típico cobria uma área de 10 a 60 hectares, podendo chegar a 80 hectares em alguns casos, e compreendia habitações residenciais (geralmente prédios de apartamentos de vários andares) e edifícios de serviços públicos. Como regra geral, as principais estradas, vias verdes e obstáculos naturais serviam como limites entre os mikrorayon, permitindo uma redução geral nos custos de construção e manutenção das estradas da cidade e enfatizando o transporte coletivo. As principais estradas ou vias de passagem não podiam atravessar os territórios dos mikrorayon . As entradas para o território de um mikrorayon não podiam estar localizadas a mais de 300 metros.
As normas também regulamentavam a acessibilidade dos edifícios de serviço público (excluindo escolas e instalações pré-escolares), impondo um limite de 500 metros como a distância máxima de qualquer residência. Ao contrário dos países ocidentais, a União Soviética não redesenvolveu as áreas residenciais ou comerciais existentes; os microdistritos eram sempre construídos cada vez mais longe das partes antigas das cidades, pelo que o planeamento dos serviços locais e dos transportes para o emprego nas partes antigas da cidade era fundamental. Uma das tarefas dos urbanistas era garantir que os edifícios públicos fossem construídos de forma a cobrir o território do mikrorayon, de acordo com as normas. As estruturas típicas de serviços públicos incluem escolas secundárias, estabelecimentos pré-escolares (geralmente combinando jardim de infância e creche), mercearias, lojas de serviços pessoais, cafeterias, clubes, parques infantis e escritórios de manutenção de edifícios, bem como várias lojas especializadas. O número exato de edifícios de cada tipo dependia do requisito de distância e da densidade populacional do mikrorayon e era determinado por meio de certos padrões per capita.
História
Década de 1920–1950
A história dos microdistritos como conceito de planeamento urbano remonta à década de 1920, quando a União Soviética passou por uma rápida urbanização. De acordo com as ideologias de planeamento urbano soviéticas da década de 1920, os complexos residenciais — territórios compactos com habitações residenciais, escolas, lojas, instalações de entretenimento e espaços verdes — começaram a prevalecer na prática do planeamento urbano, pois permitiam um planeamento mais cuidadoso e eficiente da rápida expansão urbana. Esses complexos eram vistos como uma oportunidade para construir uma sociedade coletiva,[1] um ambiente adequado e necessário para o novo modo de vida.[2]
Na década de 1930, os complexos residenciais cresceram em tamanho, cobrindo territórios de até cinco a seis hectares. Um sistema de construção de complexos residenciais foi gradualmente substituído por um conceito de quarteirão urbano. Esses quarteirões geralmente compreendiam edifícios residenciais ao longo do perímetro e edifícios residenciais misturados com edifícios de serviços públicos no interior. No entanto, revelou-se inviável fornecer todos os serviços públicos dentro de cada quarteirão, devido ao seu tamanho relativamente compacto; não era incomum ter uma escola, um jardim de infância ou uma loja a servir a população de vários quarteirões, que muitas vezes eram separados por grandes vias rodoviárias. O sistema de quarteirões também exigia uma rede de estradas desenvolvida, aumentando assim os custos de manutenção e construção e complicando a organização do transporte público.
As décadas de 1940 e 1950 viram um maior alargamento e agrupamento dos quarteirões da cidade. No entanto, as novas construções baseavam-se nos mesmos princípios das décadas anteriores e não conseguiam acompanhar a crescente procura de habitação. A industrialização intensiva em mão-de-obra do país exigia cada vez mais trabalhadores, o que era difícil de conseguir com a falta de alojamento.[3]
Década de 1950–1990
As autoridades soviéticas revisitaram as questões do planeamento urbano em meados da década de 1950. O novo conceito de planeamento urbano baseava-se na ideia de bairros residenciais (com 10.000 a 30.000 habitantes cada), compostos por vários mikrorayon (com 8.000 a 12.000 habitantes cada), que, por sua vez, eram constituídos por vários complexos residenciais (com 1.000 a 1.500 habitantes cada). Nas cidades maiores, os bairros residenciais eram agrupados em zonas urbanas, cuja população podia chegar a um milhão de habitantes.

Cada mikrorayon fornecia à população as instalações necessárias para o dia a dia, enquanto os serviços menos procurados estavam disponíveis no nível do distrito residencial. Esse conceito foi apoiado pela reorganização da indústria da construção soviética — os prédios de apartamentos pré-fabricados se tornaram comuns, pois permitiam uma construção rápida, embora muitas vezes de baixa qualidade, custos reduzidos e economias de escala. Todo o processo de construção foi simplificado e padronizado, levando à construção de fileiras e mais fileiras de prédios de apartamentos retangulares cinzentos e sem identidade, que agora predominam em todas as cidades e vilas dos países da antiga União Soviética. Essa redução drástica nos custos de construção foi necessária porque, após a Segunda Guerra Mundial, houve um déficit habitacional significativo causado pela destruição da infraestrutura na União Soviética durante a guerra, com muitas cidades importantes sendo completamente destruídas e seus edifícios ficando inutilizáveis.
Perspetivas humorísticas sobre as possíveis consequências de viver numa atmosfera tão monótona e repetitiva aparecem na popular produção da Mosfilm: Ironia sudby, ili S liegkim parom! (1976).
China


Na China, este tipo de unidade de bairro é conhecido como "xiaoqu" (chinês simplificado: 小区, pinyin: xiǎo qū).[4] Construídas pela primeira vez na década de 1980 em Jinan, Tianjin e Wuxi, antes da reforma econômica chinesa, eram muito semelhantes ao conceito conhecido na União Soviética e são consideradas uma evolução da unidade de trabalho (chinês simplificado: 单位, pinyin: dān wèi). As xiaoqu promoviam de forma semelhante um sentido de comunidade entre os habitantes.
Após a abertura da economia para os promotores imobiliários comerciais, os xiaoqu continuaram a ser construídos nas últimas décadas, mas evoluíram de várias maneiras, como a diferenciação em termos de luxo, segurança e serviços disponíveis. Os apartamentos são propriedade dos habitantes, e os xiaoqu são frequentemente cercados por um muro, com o portão de entrada vigiado.[5][6] Os xiaoqu também costumam ter os seus próprios representantes governamentais e gestores imobiliários. O número de residentes pode variar muito dependendo do tipo de xiaoqu, com o subúrbio de Tiantongyuan, em Pequim, tendo mais de 700.000 residentes em 2019,[7] enquanto outros xiaoqu consistem apenas num edifício que abriga algumas centenas de residentes.[8]
As diretrizes do Conselho de Estado de 2016 exigiram a abertura de estradas privadas em xiaoqu e a construção de xiaoqu em menor escala, para permitir uma rede rodoviária mais refinada nas cidades.[9]
Ver também
- Cidade de 15 minutos
- Condomínio fechado
- Conjunto habitacional
- Falowiec
- Kommunalka
- Magnitogorsk
- Panelák, Panelház, Plattenbau
- Planejamento urbano em países socialistas
- Sotsgorod: Cities for Utopia
- Supermanzana (Barcelona)
- Superquadra (Brasília)
- Vizinhança
Notas
Referências
- ↑ Ir. M.H.H. van Dijk, IsoCaRP Congress 2003, Planning and politics
- ↑ Michael Gentile, Dept. of Social and Economic Geography, Uppsala University, Urbanism and Disurbanism in the Soviet Union
- ↑ Ir. M.H.H. van Dijk, IsoCaRP Congress 2003, Planning and politics
- ↑ Jacoby, Sam; Cheng, Jingru (Cyan) (2020), Jacoby, Sam; Cheng, Jingru (Cyan), eds., «Collective Forms in China: An Architectural Analysis of the People's Commune, Danwei, and Xiaoqu», ISBN 978-981-15-6811-4, Singapore: Springer, The Socio-spatial Design of Community and Governance: Interdisciplinary Urban Design in China (em inglês), pp. 17–69, doi:10.1007/978-981-15-6811-4_2, consultado em 24 de janeiro de 2021 Verifique o valor de
|url-access=subscription(ajuda) - ↑ David Bray (2005). Social Space and Governance in Urban China: The Danwei System from Origins to Reform. [S.l.]: Stanford University Press. 177 páginas. ISBN 978-0-8047-5038-7
- ↑ Wallenwein, Fabienne (9 December 2013). The Housing Model xiaoqu 小区: the Expression of an Increasing Polarization of the Urban Population in Chinese Cities? (PDF) (Tese). Consultado em 27 February 2017 Verifique data em:
|acessodata=, |data=(ajuda) - ↑ «Tiantongyuan redevelopment set to improve lives»
- ↑ Michael Keith; Scott Lash; Jakob Arnoldi; Tyler Rooker (23 September 2013). China Constructing Capitalism: Economic Life and Urban Change. [S.l.]: Taylor & Francis. pp. 242–243. ISBN 978-1-134-00451-5 Verifique data em:
|data=(ajuda) - ↑ «中共中央 国务院关于进一步加强城市规划建设管理工作的若干意见-新华网». www.xinhuanet.com. Consultado em 24 de janeiro de 2021.
新建住宅要推广街区制,原则上不再建设封闭住宅小区。已建成的住宅小区和单位大院要逐步打开,实现内部道路公共化,解决交通路网布局问题,促进土地节约利用。
Fontes
- Great Soviet Encyclopedia, entry on "микрорайон"
- (em russo) "Строительные нормы и правила. Градостроительство. Планировка и застройка городских и сельских поселений", СНиП 2.07.01—89, 1989 — Construction Rules and Regulations. City-Planning. Planning and Development of Urban and Rural Settlements, SNiP 2.07.01—89, 1989
- (em russo) Н. С. Сапрыкина, "Основные градостроительные концепции и современные проблемы реконструкции жилой среды середины 1950-х — 1960-х гг. — N. S. Saprykina, Principal city-town concepts and modern problems of reconstruction of the mid-1950s—1960s residential environments [1]
Links externos
- Smart Growth Parallels Russian Soviet Planning, excerpts from The Soviet Review, a journal of translations, Vol. 2, no. 4, April 1961