Mercado Santana (Leiria)
| Mercado Santana (Leiria) | |
|---|---|
Fachada principal (noroeste) | |
| Informações gerais | |
| Tipo | Mercado |
| Arquiteto | Ernesto Korrodi (1921/1924); Camilo Korrodi (séc. XX); Rui Ribeiro, Jorge Estrela e António Luís Ferreira (reabilitação, 1999) |
| Início da construção | 1924 |
| Fim da construção | 1931 |
| Restauro | 1997–2003 |
| Função atual | Equipamento cultural (teatro, auditórios, galerias); comércio |
| Património de Portugal | |
| Classificação | |
| Ano | 2011 |
| DGPC | 73193 |
| SIPA | 4715 |
| Geografia | |
| País | Portugal |
| Localização | Largo de Santana, 3 |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
O Mercado de Santana, Mercado de Sant'Ana ou Mercado de Leiria, é um edifício de arquitectura ecléctica localizado no centro da cidade de Leiria, Portugal. Tendo sido projectado pelo arquitecto Ernesto Korrodi para albergar o Mercado Municipal, é desde 2002 utilizado como centro cultural.[1] O Mercado de Santana encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público desde 2011.[2]
História
Origens
A origem do local onde hoje se implanta o Mercado de Santana (juntamente com a Fonte Luminosa e o edifício do ex-Banco Nacional Ultramarino, também este da autoria de Ernesto Korrodi) remonta a 1498, data da fundação de um mosteiro dominicano feminino, o Convento de Santa Ana. Esta instituição religiosa perdurou até 1880, ano em que foi extinta na sequência da morte da última freira.
O espaço físico do convento, adquirido pela Câmara Municipal de Leiria em 1915, acabou por sofrer uma degradação irreversível, acentuada por um incêndio em 1916 que destruiu o edificado. Sobre estas ruínas, das quais apenas restaram vestígios posteriormente integrados na Casa do Guarda do Castelo de Leiria, foi planeada a construção de um novo equipamento público.
O mercado de Korrodi
A necessidade de transferir o mercado local, que operava na Praça Rodrigues Lobo, motivou a encomenda de um novo projecto a Ernesto Korrodi. O arquitecto, radicado em Leiria desde 1894 e autor dos Paços do Concelho (1903), foi convidado a desenvolver um plano urbanístico abrangente para a antiga área conventual. O desenho do novo mercado data de 1921, tendo as obras de construção tido início em 1924. A inauguração oficial ocorreu sete anos depois, em 1931, estabelecendo-se o edifício como o pólo comercial central da cidade durante meio século. Os motivos ornamentais da estrutura ficaram a cargo de Luís Fernandes de Carvalho Reis e a ficha técnica da obra regista ainda a participação do arquitecto Camilo Korrodi.
Readaptação do conjunto
A partir de 1958, face ao crescimento da cidade e às novas exigências de modernização, foi deliberada a construção de um novo mercado municipal, o que levou a uma progressiva desactivação das funções originais do edifício de Korrodi. Durante este período de transição, o espaço acolheu diversas utilizações, chegando a albergar o Pavilhão do Turismo num dos seus torreões na década de 1950. O imóvel manteve-se com ocupações variadas até 1996, altura em que a autarquia lançou um concurso para a sua reabilitação. O projecto de remodelação e reconversão para fins culturais foi adjudicado à equipa de arquitectos constituída por Rui Ribeiro, Jorge Estrela e António Luís Ferreira. O contrato-programa para esta intervenção foi publicado em Diário da República a 28 de Maio de 1999.
Durante as escavações arqueológicas realizadas no âmbito destas obras (1997-2002), foram descobertas diversas estruturas da antiga cerca conventual, incluindo um lagar e uma adega, bem como azulejos do século XVI, uma base e capitel presumivelmente do claustro, e peças de porcelana datadas entre 1511 e 1619. Estes achados corroboram registos históricos sobre a existência de uma feitoria no mosteiro.
O renovado Mercado de Santana reabriu portas a 28 de Julho de 2003. O processo de classificação patrimonial, iniciado com uma proposta da Associação dos Arquitectos Portugueses em 1981, culminou anos mais tarde, sendo o imóvel reconhecido como Monumento de Interesse Público (a fixação da Zona Especial de Protecção foi homologada em 2010). Em 2011, a estrutura recebeu ainda o acrescento de uma cobertura.[3][4][5]
Descrição
O edifício apresenta uma planta poligonal que desenha um trapézio irregular, organizando-se em torno de uma área central descoberta. A sua inserção urbana é delimitada pelas ruas Machado dos Santos e Dr. Correia Mateus, pela Rotunda de Santana e pela Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, coexistindo na malha urbana com edifícios como o Banco Nacional Ultramarino, a Igreja do Espírito Santo e o Hotel Liz.
A arquitectura do mercado caracteriza-se por um estilo utilitário que incorpora materiais e conceitos tradicionais, resultando numa estética ecléctica. A fachada principal, voltada para o largo fronteiro, descreve uma curva em quarto de círculo, integrando-se organicamente na morfologia do espaço público. Esta fachada de dois pisos é marcada por uma porta principal em arco de volta perfeita, sobrepujada por três vãos rectangulares e rematada por um frontão que exibe as armas da cidade no tímpano. Um beirado contínuo percorre a fachada, contornando o frontão e a cimalha ondeante que encima as janelas de sacada laterais.
As fachadas laterais, de apenas um piso, apresentam uma sucessão rítmica de arcadas de volta perfeita que abrem para o exterior, permitindo a comunicação entre as lojas e a rua. A volumetria é pontuada por torreões de planta quadrada, cobertos por telhados duplos de tipologia "mardeliana". Estes torreões flanqueiam as entradas laterais e os vértices do polígono, adaptando-se aos desníveis do terreno — na Rua Machado dos Santos, por exemplo, apresentam apenas um piso de altura. As coberturas do edifício são diferenciadas, com telhados de quatro águas no corpo principal e de duas águas nos corpos laterais.[3][4][5]
Sobre a concepção arquitectónica de Korrodi neste edifício, a investigadora Lucília Verdelho da Costa nota que:
Ernesto Korrodi combinaria, assim, um tipo de arquitectura utilitária com uma concepção arquitectónica tradicional que se manifesta tanto no trabalho das cantarias como no seu emprego como elementos essenciais da composição e da concepção das obras (...) na realidade, enquanto a maior parte destes edifícios se construíam também em ferro e vidro, Korrodi recorreria, uma vez mais, aos materiais tradicionais
A mesma autora sublinha a capacidade do arquitecto em integrar o edificado na malha urbana, referindo que este "soube estabelecer uma aliança entre a obra e o lugar, e na qual consiste, muitas das vezes, a qualidade dos seus projectos".[6]
No que concerne ao interior, a intervenção de 1999 manteve o traçado exterior intacto, mas reconfigurou os espaços internos para as novas valências culturais, respeitando a lógica do projecto original. Actualmente, o complexo alberga o Teatro Miguel Franco, com capacidade para 213 espectadores, dois auditórios adicionais, um palco no extremo Sul, salas de exposições e a Staylab — Galeria Artur Manuel dos Santos. As antigas arcadas comerciais acolhem agora serviços de restauração, café e bar.[7]
O espaço é palco de eventos regulares como a Feira do Livro, o festival Prove Leiria Doçaria, concertos para bebés, o Festival do Gin & do Sushi e o Festival do Chá e da Cerveja Artesanal.[8]
Galeria
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Perspectiva da fachada principal -
Fachada principal: portal -
Fachada principal: pormenor do tímpano -
Pormenor da fachada principal -
Fachada lateral esquerda (norte) -
Fachada lateral esquerda (norte) -
Perspectiva da fachada lateral esquerda (norte) -
Torreão nordeste da fachada lateral esquerda -
Pormenor de torreão (sacada) -
Pormenor de torreão (sacada) -
Fachada lateral direita (Poente) -
Fachada lateral direita (Teatro Miguel Franco) -
Zona mais recente do Teatro Miguel Franco (adjacente à fachada lateral direita) -
Torreão visto do interior do espaço -
Interior do espaço -
Lojas no interior do espaço
Referências
- ↑ «Mercado de Sant'Ana». Câmara Municipal de Leiria
- ↑ Ficha na base de dados SIPA
- ↑ a b «PESQUISA GERAL». imovel.patrimoniocultural.gov.pt. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
- ↑ a b «Monumentos». www.monumentos.gov.pt (em inglês). Consultado em 7 de fevereiro de 2026
- ↑ a b ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 356
- ↑ Costa, L. V. (1997). Ernesto Korrodi 1889-1944: Arquitectura, ensino e restauro do património. Editorial Estampa.
- ↑ «Mercado de Sant'Ana». Consultado em 7 de fevereiro de 2026
- ↑ «Praça de Sant'Ana - Leiria • Centro de Portugal». Centro de Portugal. Consultado em 7 de fevereiro de 2026