Igreja e Convento de São Francisco (Leiria)
| Igreja e Convento de São Francisco (Leiria) | |
|---|---|
![]() Fachadas principais do antigo convento/fábrica (esq.) e igreja (dta.) | |
| Informações gerais | |
| Tipo | Igreja, convento, fábrica |
| Estilo dominante | Maneirista, gótico, barroco |
| Arquiteto | Abade Manuel da Costa (atribuído, séc. XVI); Ernesto Korrodi (adaptação a fábrica, 1920); João Roda (restauro, 1992-1996) |
| Construção | Séculos XIV-XVIII |
| Inauguração | 14-8-1562 (sagração da nova igreja) |
| Proprietário inicial | Ordem de S. Francisco |
| Função inicial | Religiosa |
| Património de Portugal | |
| Classificação | |
| Ano | 1984 |
| DGPC | 73320 |
| SIPA | 3326 |
| Geografia | |
| País | Portugal |
| Cidade | Leiria |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
A Igreja e Convento de São Francisco, é um antigo conjunto conventual na cidade de Leiria, Portugal, localizados na zona Norte da cidade junto ao Rio Lis. O edifício actual resulta de várias campanhas de renovação ao longo dos séculos, sendo marcado pela descoberta de um vasto ciclo de pintura mural quatrocentista e pela sua reconversão industrial no início do século XX (Companhia Leiriense de Moagens).[1]
O conjunto está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1984.[1]
História
Antigo convento
Aponta-se não definitivamente o ano de 1232 para a instalação inicial da comunidade franciscana em Leiria, no então Rossio (ou Gafaria) de Santo André (ou de Leiria) — zona do actual Jardim Luís de Camões. Estava-se num período marcado por disputas jurisdicionais com o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
O edifício actual
Todavia, em 1384, a vulnerabilidade deste local às cheias do Rio Lis (que na altura ainda não tinha o leito controlado) motivou D. João I a determinar a relocalização do convento para o sítio actual — o chamado Rossio Velho, junto ao Olho do Pedro (ou Fonte Quente), que abasteceria com água o complexo religioso.
A intervenção do monarca, associada ao ciclo construtivo da Batalha, introduziu os primeiros elementos góticos na estrutura, nomeadamente na capela-mor e no portal, à semelhança da intervenção na Igreja de Nossa Senhora da Pena, situada no perímetro intramuros da cidade de Leiria. Tem-se até como provável o concurso de canteiros comuns a ambas as obras.[2] Reforça-se, assim, a marca da dinastia de Avis na cidade, onde o Castelo fora eleito pelo rei como um dos principais paços régios.
D. João I e a sua esposa ampliaram a igreja, "estendendo-se pelo campo"[3], passando as suas armas até hoje a encimar o portal gótico poente da ermida, tal como aconteceria no Mosteiro da Batalha.
Ao longo do século XV, sob o patrocínio de D. Afonso V e D. Manuel I, o complexo foi objecto de significativas ampliações e reparações, destacando-se a intervenção na cobertura da igreja em 1491. Note-se que já em meados de Quatrocentos se referia a existência de um alpendre na estrutura.
As obras de recuperação, apoiadas pelo rei e por particulares da vila leiriense, lideradas por Frei Gonçalo Gago e Frei António de Elvas entre 1475 e 1484 foram motivadas por novos estragos provocados pelas inundações, que "'arras[aram] muitas casas, paredes, moinhos e quanto encontrou pela frente', vindo o cenóbio a sofrer graves danos"[3]. Realizaram-se obras na "capela-mor, cerca conventual, aposentos, aqueduto das águas, e de ampliação do dormitório e da cabeceira da igreja".[4][5]
Regista-se a concessão régia de terrenos agrícolas em 1494. Foi neste período tardo-medieval que se executou o notável conjunto de frescos que revestia a nave e a parede fundeira.[6]
O século XVI assistiu à fundação de uma série de capelas: Afonso Martins Evangelho (1463), Álvaro Leitão (1520), Diogo de Botelho (1546), Fernão Rodrigues Barba (1576) e Mateus Trigueiros (1585). De particular relevo foi a instituição da Capela dos Mártires de Marrocos (ou do Abade Manuel da Costa) em 1586, a que se juntaria, em 1608 ou 1631, a capela de Camila Correia.
A consagração da nova igreja ocorreu a 14 de Agosto de 1562, pelo coadjutor do bispo de Leiria, D. Luís Normão. Uma inscrição lapidar desse período, gravada numa tampa sepulcral sem moldura, ostentando um escudo em relevo invertido e caracteres em capital quadrada, atesta:
AQUI JAZ JORGE DA COSTA FIDALGO DA CASA DO MESTRE DE SANTIAGO E SUA FILHA DONA HELENA DA COSTA E FALECEU NO ANO DE 1555
As campanhas construtivas prosseguiram nos séculos seguintes. Em 1641, a família dos Marqueses de Vila Real erigiu a capela-mor e, na década de 1660, reformou-se o arco triunfal e edificou-se o claustro, onde Sebastião Soares Evangelho interveio numa capela em 1622. Nos séculos XVII e XVIII procedeu-se ainda à recuperação dos "banhos quentes" na cerca conventual. Também seiscentistas são algumas obras efectuadas nos anexos conventuais, "nomeadamente na pedraria dos vãos do dormitório e nas duas alas do antigo claustro que subsistiram até aos dias de hoje, e que fazem agora parte de um simples pátio".[5]
A inscrição do ano de 1668 no entablamento do arco triunfal permite-nos estimar o período da fase de reformas estruturais na igreja, incidindo presumivelmente sobre o coro-alto e o próprio arco. Coloca-se a hipótese de o arco ter sido elevado em dois metros nesse período, no contexto de um a subida geral da cota do complexo paraa protecção contra as cheias do Lis. Esta campanha de obras terá sido responsável pela supressão do peso do estilo gótico no edifício, restando porém uns vãos de iluminação com o típico perfil quebrado medieval.
Posteriormente, por volta de 1719, sob a égide de D. Frei Miguel de Bulhões, registaram-se intervenções promovidas pela Ordem Terceira, afetando a capela situada no sub-coro — estrutura atribuída a Matheus Trigueiros em 1585 — e as dependências anexas. A fachada foi também reconstruída, conferindo-lhe a actual feição barroca, e instalaram-se painéis azulejares na sacristia.
O patrocínio da Ordem viabilizou a ampliação da sacristia, do refeitório e da cozinha, cujo corpo edificado avançou sobre a área do adro, facto atestado pela datação inscrita sob o brasão na fachada poente.
Os danos severos provocados pelo terramoto de 1755 ditaram uma nova vaga de reconstrução, focada na renovação da frontaria e da galilé, bem como na edificação do actual coro-alto. Na década de 1770, a morfologia do conjunto sofreu uma redução significativa com a demolição de duas alas do claustro, operação que implicou a perda de capelas laterais, sepulturas nobiliárquicas e de um tanque setecentista. Esta alteração volumétrica é consistente com o edificado remanescente e com os levantamentos efetuados por Ernesto Korrodi para o projeto de adaptação do convento a fábrica de moagem.[5]
Já no século XVIII, sob a égide de D. Frei Miguel de Bulhões, a fachada foi reconstruída em 1719, conferindo-lhe a actual feição barroca, e instalaram-se painéis azulejares na sacristia.[7][8]
Extinção das ordens religiosas
Originalmente pertencente à custódia de Lisboa, o convento entrou em declínio após a extinção das ordens religiosas em 1834, sendo votado ao abandono. A 2 de Julho de 1851, através de carta régia, o imóvel foi entregue à Câmara Municipal com o intuito de ser demolido para o reaproveitamento dos seus materiais.
Contudo, a autarquia considerou uma utilização alternativa, projectando a instalação no local dos Paços do Concelho, do tribunal e da cadeia, serviços que até então se encontravam na Praça Rodrigues Lobo. Embora o projecto de transferência dos Paços do Concelho não tenha avançado — acabando estes por ser construídos no seu local actual, frente à Vila Portela (zona que, à época, se encontrava afastada da cidade) —, o antigo cenóbio serviu efectivamente de prisão a partir de 1866.
A trajectória do complexo dividiu-se posteriormente entre a igreja e a área conventual. A igreja retornou à posse dos franciscanos em 1861. No entanto, em 1904, a ordem encomendou ao arquitecto Nicola Bigaglia o projecto de uma nova igreja e convento, edificados ao lado da Câmara Municipal, constituindo o conjunto hoje denominado Igreja e Convento da Portela.
A antiga igreja conventual foi encerrada em 1950 e, perante o seu avançado estado de degradação, foi alvo de obras de restauro e recuperação patrimonial iniciadas em 1992, sob a direcção do arquitecto João Roda. Estas intervenções trouxeram à luz os frescos quatrocentistas, ocultos durante séculos por reboco e talha setecentista. No seguimento desta descoberta, foi celebrado em 1996 um protocolo entre o IPPAR e a Fraternidade da Ordem Terceira para o restauro das pinturas murais.[7][8]
Companhia Leiriense de Moagens
A transformação mais radical da área conventual ocorreu em 1920, com a venda do imóvel e a sua adaptação a unidade fabril — a Companhia Leiriense de Moagens — segundo um projecto do arquitecto Ernesto Korrodi, que alterou profundamente as estruturas monásticas e modificou a fundo a fachada. A moagem manter-se-á em laboração até finais do século XX, tendo recentemente sido restaurado e readaptado para condomínios de luxo e restauração.
Mais recentemente, em 2017, definiu-se a reconversão da antiga infra-estrutura industrial num condomínio habitacional de luxo e espaço de restauração.[9][7][8][10][11]
Descrição
O conjunto edificado organiza-se numa planta longitudinal composta, sem transepto, justaposicionando os rectângulos desiguais da nave única e da capela-mor, cobertas, respectivamente, por abóbada de berço e telhados de duas águas diferenciados. A volumetria exterior é marcada pela sobriedade, articulando-se com as dependências da Ordem Terceira a Sul e os remanescentes do claustro a Norte.
Fachada principal
A fachada principal, ladeada por cunhais rematados por fogaréus, apresenta uma composição erudita. O registo inferior exibe uma galilé abobadada acessível por uma tripla arcada, antecedendo o portal de verga contracurvada com frontão em arco segmentar. No registo superior, rasgam-se dois janelões de frontão ondeante ladeando um nicho central com a imagem de Santo António, coroado por aletas e frontão de volutas. Apesar da predominância barroca e neoclássica, subsistem vestígios da estrutura primitiva, como os colunelos góticos visíveis junto ao portal.[7][8]
Interior da igreja
No interior, o elemento de maior destaque artístico é o vasto ciclo de pintura mural tardo-gótica (finais do século XV), que cobre cerca de 200 metros quadrados. Na parede fundeira da capela-mor encontra-se um monumental Calvário, obra de grande força dramática com influências itálico-mediterrânicas e próxima dos ciclos de Toledo ou Sevilha. Na nave, a pintura simula uma arquitectura ilusionista (trompe-l'œil) de doze capelas-nichos, envoltas por frisos decorativos de carácter acentuadamente tardo-gótico e repletas de motivos geométricos, fitomórficos e representações hagiográficas. O panorama é próximo ao encontrado na Igreja de Santa Maria do Castelo, em Abrantes.
Sobre este acervo, o historiador Saul António Gomes refere:
Depois, o soberbo conjunto pictural das doze capelas da nave da igreja. O seu ineditismo em meios urbano-mendicantes portugueses, a qualidade plástica da realização, a pluralidade dos discursos subjacentes a todas estas pinturas, a quietude simples e religiosa que ali se respira, a temporalidade de um Deus que a arte testemunha como eternidade (...) eis alguns dos factores culturais que fazem da igreja de S. Francisco de Leiria um caso de importância maior na história da arte portuguesa e europeia...[3]
Do lado da epístola, encontra-se a Capela do Abade Manuel da Costa. Trata-se de um exemplar renascentista deambulatório, construído em mármore branco. Possui cobertura em abóbada de caixotões, pilastras coríntias e um retábulo que repete a estrutura do arco de entrada, exibindo bustos nas enjuntas, as armas do fundador e um frontão de aletas interrompido. Os medalhões representam as mesmas figuras no interior e exterior, variando apenas a pose (admiração e contemplação).
A Capela da Ordem Terceira, situada sob o coro-alto (este assente em arco rebaixado com balaustrada de madeira), apresenta uma abóbada e um altar barroco em pedraria marmoreada, com dupla colunata coríntia.
Rasgam-se nas paredes da nave cinco altares laterais de traça maneirista: três do lado do Evangelho (um dos quais mais trabalhado, possuindo um nicho rodeado por aletas e encimado por frontão concheado) e dois do lado da Epístola.
Destaca-se ainda o arco triunfal, uma estrutura classicizante de linhas verticais depuradas datado de 1668, que certos documentos estimam ter sido elevado em dois metros durante obras em 1880.[7][8]
Interior do antigo convento
Do antigo convento e claustro quadrangular, situados a Norte, restam duas alas com arcadas redondas sobre pilares toscanos. Nas dependências anexas, designadamente na sacristia e na sala transversal (referenciada ora como refeitório, ora como sala da irmandade), existiam silhares de azulejos setecentistas narrando a vida de São Francisco e de Santo António, bem como tectos em madeira pintados, que ruíram entretanto. A estatuária inclui ainda uma imagem de madeira seiscentista representando a Piedade.[7][8][10][11]
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Fachada do antigo convento -
Claustro interior do antigo convento -
Fachada principal do antigo convento e igreja: perspectiva -
Fachada principal do antigo convento e igreja: perspectiva -
Fachada direita da igreja
Bibliografia
Referências
- ↑ a b Ficha na base de dados SIPA
- ↑ AFONSO, Luís Urbano, Convento de S. Francisco de Leiria: Estudo Monográfico, Lisboa, 2003
- ↑ a b c GOMES, Saul António: O Convento de S. Francisco de Leiria na Idade Média, Separata Itinerarium, XL (1994) Braga, 1994
- ↑ Pereira, Jaqueline: Relatório dos trabalhos de arqueologia realizados no interior da antiga moagem de Leiria, antes Convento de S. Francisco, Julho de 2004. P. 20
- ↑ a b c JESUS, Davide António Gameiro de - (Re)utilizar : o edifício da Companhia Leiriense de Moagem antigo Convento de S. Francisco de Leiria. Coimbra : [s.n.], 2012.
- ↑ «Restauro do fresco da Igreja de São Francisco». Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d e f «Monumentos». www.monumentos.gov.pt (em inglês). Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d e f «PESQUISA GERAL». imovel.patrimoniocultural.gov.pt. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ Redação. «Moagem Leiriense vai ser reabilitada para receber bares e restaurantes». Região de Leiria. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ a b «Igreja e Convento de São Francisco | www.visitportugal.com». www.visitportugal.com. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ a b «Igreja de São Francisco – Visite Leiria». www.visiteleiria.pt. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
