Maria Carolina da Áustria

Maria Carolina
Retrato por Anton Raphael Mengs, c. 1768
Rainha Consorte da Sicília
Reinado12 de maio de 1768
a 8 de setembro de 1814
PredecessoraMaria Amália da Saxônia
SucessoraMaria Isabel da Espanha (como Rainha das Duas Sicílias)
Rainha Consorte de Nápoles
1º Reinado12 de maio de 1768
a 23 de janeiro de 1799
PredecessoraMaria Amália da Saxônia
SucessoraMonarquia abolida
2º Reinado13 de junho de 1799
a 30 de março de 1806
SucessoraJúlia Clary
Dados pessoais
Nascimento13 de agosto de 1752
Palácio de Schönbrunn, Viena, Áustria, Sacro Império Romano-Germânico
Morte8 de setembro de 1814 (62 anos)
Palácio de Hetzendorf, Viena, Império Austríaco
Sepultado em14 de fevereiro de 1685
Cripta Imperial, Viena, Áustria
Nome completo
nome pessoal (em alemão) Maria Carolina Louise Josepha Johanna Antonia von Österreich-Lothringen
MaridoFernando IV & III
Descendência
Maria Teresa de Nápoles e Sicília
Maria Luísa de Nápoles e Sicília
Carlos, Duque da Calábria
Maria Ana de Nápoles e Sicília
Francisco I das Duas Sicílias
Maria Cristina de Nápoles e Sicília
Januário de Nápoles e Sicília
Maria Amélia de Nápoles e Sicília
Maria Antônia de Nápoles e Sicília
Maria Clotilde de Nápoles e Sicília
Leopoldo, Príncipe de Salerno
Alberto de Nápoles e Sicília
CasaHabsburgo-Lorena (nascimento)
Bourbon-Duas Sicílias (casamento)
PaiFrancisco I do Sacro Império Romano-Germânico
MãeMaria Teresa da Áustria
ReligiãoCatolicismo
Brasão

Maria Carolina (nome pessoal em alemão: Maria Karolina Luise Josepha Johanna Antonia; em italiano: Maria Carolina Ludovica Giuseppina Joana Antonia; Viena, 13 de agosto de 1752Viena, 8 de setembro de 1814 foi esposa do rei Fernando IV & III e Rainha Consorte da Sicília de 1759 até sua morte e Rainha Consorte de Nápoles em dois períodos, de 1759 até 1799, quando o marido foi deposto pela República Partenopeia, e de 1799 a 1806, quando Fernando foi novamente deposto por Napoleão Bonaparte. Maria Carolina faleceu no exílio em 1814, antes da unificação de Nápoles e da Sicília no Reino das Duas Sicílias, e, portanto, nunca deteve o título de rainha desse reino.

Nascida arquiduquesa da Áustria, foi a décima terceira filha de Francisco I do Sacro Império Romano-Germânico e da imperatriz Maria Teresa da Áustria. Casou-se em abril de 1768, aos dezesseis anos de idade, com o rei Fernando IV de Nápoles e III da Sicília, como parte de uma aliança com a Espanha, cujo rei era Carlos III, pai de Fernando. Como governante de facto dos reinos do seu marido, Maria Carolina supervisionou a promulgação de várias reformas, incluindo a revogação da supressão da Maçonaria, o fortalecimento da marinha com a ajuda do seu protegido John Acton, 6.º baronete, e a redução da influência espanhola. Era uma defensora do despotismo esclarecido até ao advento da Revolução Francesa, quando, para impedir a propagação de ideais liberais, transformou Nápoles num Estado policial. Após o nascimento de um herdeiro masculino em 1775, Maria Carolina passou a integrar o Conselho de Estado, no qual exerceu grande influência até 1812, ano em que regressou a Viena. Tal como a sua mãe, Maria Carolina empenhou-se em organizar casamentos vantajosos para os seus filhos.

Enquanto governante, Maria Carolina tornou Nápoles num centro das artes, financiando pintores como Jacob Philipp Hackert e Angelika Kauffmann, e académicos como Gaetano Filangieri, Domenico Cirillo e Giuseppe Maria Galanti. Horrorizada pelo tratamento dado à sua irmã Maria Antonieta pelos franceses, aliou-se à Grã-Bretanha e à Áustria durante as invasões napoleónicas. Como consequência de uma tentativa frustrada de Nápoles de conquistar Roma, ocupada pelos franceses, teve de fugir para a Sicília com o marido em dezembro de 1798. Um mês depois, a República Napolitana foi proclamada, repudiando o governo dos Bourbon em Nápoles por seis meses. Expulsa do trono pela segunda vez pelas tropas francesas em 1806, Maria Carolina morreu em Viena, em 1814, um ano antes da restauração do seu marido em Nápoles.

Início de vida

Maria Carolina, quando criança, em 1759. Atribuído a Jean-Étienne Liotard

Nascida em 13 de agosto de 1752, no Palácio de Schönbrunn, em Viena, Maria Carolina foi a décima terceira filha do imperador Francisco I do Sacro Império Romano-Germânico e da imperatriz Maria Teresa da Áustria, sendo, contudo, a décima a alcançar a idade adulta. Os seus padrinhos foram o rei Luís XV da França e a sua esposa, Maria Leszczyńska.[1] Maria Carolina era a filha que mais se parecia com a mãe e mantinha uma relação muito próxima com a sua irmã mais nova, a futura rainha da França, Maria Antonieta. Uma prova dessa proximidade é o facto de que, quando uma adoecia, a outra também adoecia.[2]

Em 18 de agosto de 1765, em Innsbruck, durante as celebrações do casamento do arquiduque Leopoldo, o imperador sofreu um derrame e faleceu. Este acontecimento abalou profundamente todos os filhos de Francisco I e levou Maria Teresa a submeter-se a um rigoroso luto pelo resto da vida.[3] A imperatriz nomeou o seu filho mais velho, o futuro imperador José II, como seu co-regente e passou a adotar uma postura de extrema rigidez em relação aos filhos mais novos. Se anteriormente os havia negligenciado devido ao excesso de trabalho, passou então a vigiá-los de perto, repreendendo-os constantemente e demonstrando frequente insatisfação com o seu comportamento.[4] Nesse sentido, em agosto de 1767, Maria Teresa separou as duas irmãs, Maria Carolina e Maria Antonieta, até então educadas juntas pela condessa Marie von Brandis, devido ao seu mau comportamento.[5]

Casamento

Maria Carolina, por Johann Georg Weikert, c. 1768

Em outubro de 1767, a irmã de Maria Carolina, a arquiduquesa Maria Josefa, destinada a casar-se com o rei Fernando IV de Nápoles e III da Sicília como parte de uma aliança com a Espanha, morreu de varíola.[6] Ansioso por preservar a aliança austro-espanhola, Carlos III da Espanha, pai do rei Fernando, solicitou que uma das irmãs de Maria Josefa a substituísse.[7] [8] Maria Teresa apresentou as Maria Amália e Maria Carolina à corte espanhola para que pudessem ser escolhidas.[9] Uma vez que Maria Amália era cinco anos mais velha do que o seu filho, Carlos III optou por Maria Carolina, que reagiu muito mal ao seu noivado, chorando desesperadamente e afirmando que os casamentos napolitanos traziam azar.[9] Contudo, os seus protestos não atrasaram os preparativos para o seu novo papel como rainha de Nápoles, conduzidos pela condessa de Lerchenfeld.[10] Nove meses depois, em 7 de abril de 1768, Maria Carolina casou-se com o rei Fernando por procuração, sendo o seu irmão Fernando o representante do noivo.[11]

A rainha de dezasseis anos viajou calmamente de Viena até Nápoles, fazendo paragens em Mântua, Bolonha, Florença e Roma ao longo do percurso.[12][13] Entrou no Reino de Nápoles em 12 de maio de 1768, desembarcando em Terracina, onde se despediu dos criados austríacos.[14] A partir de então, Maria Carolina viajou com o restante da sua corte, que incluía o seu irmão, o então grão-duque da Toscana e futuro imperador Leopoldo II, bem como a sua esposa, Maria Luísa da Espanha. Ao ver o marido pela primeira vez, em Pozzuoli, considerou-o "muito feio".[13] Escreveu à condessa de Lerchenfeld: Não o amo, exceto pelo dever…[15] Fernando também não ficou impressionado com ela, declarando, após a primeira noite juntos: Ela dorme como se estivesse morta e sua como um porco.[16] A união, contudo, provou ser frutífera.

Início de reinado

Queda de Tanucci

Maria Carolina, por Giuseppe Bonito, c. 1770

Fernando, que havia recebido uma educação deficiente do príncipe de San Nicandro, carecia da capacidade necessária para governar, dependendo em tudo dos conselhos do seu pai, o rei Carlos III da Espanha, que lhe eram transmitidos por intermédio de Bernardo Tanucci.[17] Seguindo as instruções da sua mãe, Maria Carolina conquistou a confiança de Fernando ao começar a aprender a sua atividade preferida, a caça.[18] Dessa forma, conseguiu obter acesso à administração do Estado, uma ambição que se concretizou plenamente com o nascimento de um herdeiro, Carlos, em 1775, facto que lhe garantiu um lugar no Conselho de Estado.[19] Até então, Maria Carolina fora responsável pelo rejuvenescimento da corte napolitana, amplamente negligenciada desde o início da regência do seu marido. Académicos como Gaetano Filangieri, Domenico Cirillo e Giuseppe Maria Galanti, entre outros, frequentavam o seu salão.[20]

A queda de Tanucci ocorreu após uma discussão com Maria Carolina a propósito da Maçonaria, à qual a rainha se havia filiado. Seguindo ordens de Carlos III, Tanucci restabelecera uma lei de 1751 que proibia a Maçonaria, em resposta à descoberta de um refúgio maçónico no seio do regimento real.[18] Enfurecida, Maria Carolina expressou a sua opinião a Carlos III por meio de uma carta redigida pelo seu marido, dando a entender que a iniciativa partira dele, na qual afirmava que Tanucci estava a arruinar o país.[21] Cedendo aos desejos da esposa, Fernando dispensou Tanucci em outubro de 1776, o que provocou um afastamento em relação ao pai.[22] A nomeação do marquês de Sambuca, considerado um mero instrumento nas mãos de Maria Carolina, como seu substituto, representou o fim da influência espanhola em Nápoles, até então sua colónia em tudo, exceto no nome.[23][24] Maria Carolina prosseguiu com os seus planos, promovendo diversas mudanças no seio da nobreza com o objetivo de substituir a influência espanhola pela austríaca.[25] A antipatia que despertava entre a nobreza apenas se intensificou quando tentou retirar-lhes os seus privilégios.[25]

O governo de Acton

Maria Carolina, por Anton Raphael Mengs, c. 1772-1773

Sem Tanucci no governo, a rainha passou a governar sozinha os Reinos de Nápoles e da Sicília, apoiada pelo seu favorito inglês, nascido na França, John Acton, 6.º baronete, a partir de 1778.[26] Seguindo o conselho do seu irmão mais velho, o imperador José II, Maria Carolina e Acton restauraram a marinha napolitana, até então negligenciada, abrindo quatro novas academias navais e construindo cento e cinquenta navios de vários tamanhos.[27] A marinha mercante também foi ampliada por meio de acordos comerciais com a Rússia e Génova.[28] O rei Carlos III da Espanha, tendo declarado guerra à Grã-Bretanha em virtude da sua aliança com os Estados Unidos, ficou enfurecido com a nomeação de Acton para ministro da Guerra e da Marinha, pois acreditava que o seu candidato espanhol, dom António Otero, era mais digno do cargo, sobretudo por não ser inglês.[29] Maria Carolina voltou a responder através de uma carta redigida pelo seu marido, explicando a Carlos III que Acton era filho de uma mulher francesa, não era inglês e que fora nomeado antes do início da guerra com a Grã-Bretanha. Os ataques de Carlos III contra Acton apenas contribuíram para reforçar a posição deste junto da rainha, que o nomeou marechal-de-campo.[29]

As reformas de Acton não se limitaram à expansão da marinha: simultaneamente, reduziu as despesas do seu gabinete em 500.000 ducados e convidou sargentos estrangeiros para preencher as vagas no exército.[30] Acton e Maria Carolina tornaram-se tão próximos que, segundo o embaixador da Sardenha em Nápoles, passou a circular a crença errônea de que seriam amantes.[31] O rei, contudo, ignorando a falsidade do rumor, tentou por diversas vezes "surpreendê-los juntos", chegando a ameaçar matá-los a ambos num acesso de fúria.[32] Em resposta, Maria Carolina colocou espiões a seguir o marido, mas pouco depois conseguiu-se uma reconciliação. Como parte desta reaproximação entre os soberanos, Acton foi residir em Castellammare, regressando a Nápoles três vezes por semana para se encontrar com a rainha.[32]

Apoio artístico e a morte de Carlos III

Fernando IV de Nápoles e sua família, por Angelika Kauffmann em 1783. Este retrato representa uma ruptura com as representações típicas dos Bourbon, incorporando uma paisagem arcádica e poses simples[33]

Maria Carolina apoiou artistas germano-suíços, destacando-se Angelika Kauffmann, que pintou o célebre retrato da rainha com a sua família em pose descontraída no jardim, em 1783, e deu lições de desenho às suas filhas.[34] Maria Carolina cumulava Kauffmann de presentes, mas a artista preferia os círculos artísticos de Roma aos de Nápoles.[35] O apoio da rainha não se restringia aos retratistas: acolheu também o pintor paisagista Jacob Philipp Hackert numa ala do seu palácio em Francavilla. Tal como Kauffmann, Hackert ministrou lições de pintura aos filhos da rainha e gozava da sua confiança.[36] Seguindo uma recomendação de Hackert, o rei e a rainha mandaram restaurar as estátuas do Palácio Farnésio e transferi-las para Nápoles.[37] Em 1784, a rainha fundou a colónia de São Lúcio, uma aldeia dotada de leis e costumes próprios, cujo único objetivo era a produção de seda.[38]

Em 1788, com a morte de Carlos III da Espanha, as relações entre Nápoles e Espanha melhoraram.[39] O novo rei, Carlos IV, mostrou-se desejoso de manter boas relações com o seu irmão, enviando uma armada espanhola para o saudar.[40] Para consolidar esta aproximação, Carlos IV sugeriu que a sua filha Maria Amália se casasse com o filho mais velho do rei e da rainha, o duque da Calábria, futuro rei Francisco I das Duas Sicílias.[40] Embora o rei apoiasse a união, Maria Carolina rejeitou-a.[40] Tal como a sua mãe, ela escolhia cuidadosamente os possíveis partidos para os seus filhos, uniões destinadas a cimentar alianças políticas previamente selecionadas por si.[41] A morte de Isabel de Württemberg, esposa do então herdeiro aparente do Sacro Império, o futuro e imperador Francisco II, e sobrinho da rainha, abriu caminho para que Maria Carolina concretizasse as suas ambições matrimoniais.[42] As suas filhas, Maria Teresa e Luísa, casaram-se, respetivamente, com Francisco e com o irmão deste, Fernando III, grão-duque da Toscana, durante a visita da família real napolitana a Viena, em 1790.[43]

Fim do absolutismo esclarecido

Maria Carolina, por Élisabeth Vigée-Lebrun, 1791. Neste retrato, a semelhança com a sua irmã Maria Antonieta é notável

Maria Carolina desejava melhorar as relações de Nápoles com a Santa Sé, que se tinham deteriorado devido a divergências com o Papa Pio IV relativamente às leis eclesiásticas e à investidura e escolha dos bispos.[44] Consequentemente, Nápoles tinha deixado de pagar o tributo anual de 7.000 ducados. Nesse contexto, Maria Carolina conseguiu uma reunião com o papa. Para enfatizar o seu desejo de o encontrar, o rei e a rainha chegaram a Roma mais cedo do que o previsto e cumprimentaram Pio IV numa audiência privada. O papa concordou em conceder ao rei o direito de nomear bispos para os lugares vagos.[45] Assim, como o rei e a rainha não tiveram de fazer concessões em troca, o prestígio de Nápoles aumentou.[46] Ao despedir-se, Maria Carolina recebeu a Rosa de Ouro, uma grande demonstração do favoritismo papal.[46]

O regresso a Viena marcou o início de uma nova fase política em Nápoles.[47] Alarmada pelos acontecimentos em França, sobretudo no que dizia respeito à sua irmã favorita, Maria Antonieta, Maria Carolina abandonou as experiências de absolutismo esclarecido e adotou um caminho mais reaccionário.[48] Rejeitou a Revolução Francesa e mostrou-se determinada a impedir que a sua ideologia influenciasse Nápoles.[49] Para tal, subdividiu Nápoles em doze províncias policiais, controladas por comissários nomeados pelo governo, substituindo o tradicional sistema de escolha popular.[50] O êxito desta medida foi ainda maior devido à criação de uma força policial secreta, cujos espiões eram pagos para vigiar todas as classes sociais.[51]

Lady Strachan e Lady Warwick fazendo amor num parque, caricatura do início do século XIX de James Gillray. A obra ilustra rumores escandalosos envolvendo lady Emma Hamilton e a rainha Maria Carolina, observadas às escondidas por seus maridos com desaprovação

Numa tentativa de agradar à Grã-Bretanha e consolidar uma aliança, a rainha fez preparativos para se encontrar com a esposa do embaixador inglês, lady Emma Hamilton, apesar de a rainha consorte britânica, Carlota de Mecklemburgo-Strelitz, ainda não a ter recebido.[52] Contudo, as duas rapidamente se tornaram amigas, com Emma a cantar em dueto com o rei e a jantar em contexto particular com a família real. A rainha, que Emma considerava uma excelente companhia, completamente bondosa e de grande retidão,[53] sentia-se tentada a aproximar-se dela para obter informações diplomáticas britânicas.[53] Havia rumores de que ambas as mulheres mantinham um relacionamento lésbico.[54] Giuseppe Gorani, diplomata francês de origem italiana, a serviço de Maria Teresa da Áustria, chegou a relatar esse suposto relacionamento em suas Memórias, referentes ao período de sua permanência nas cortes italianas. Há ainda o relato de que, durante seu exílio na Suíça, Gorani teria sofrido ameaças atribuídas a pessoas a serviço da rainha Maria Carolina, que buscariam vingança em razão das revelações feitas por ele acerca de sua vida privada.[55][56]

O Caso Sémonville e a Contrarrevolução

Maria Carolina, por Costanzo Angelini

O rei Luís XVI da França e a rainha Maria Antonieta foram presos em 10 de agosto de 1792.[57] A partir desse momento, o governo napolitano recusou-se a reconhecer a comitiva do barão Armand de Mackau, diplomata francês.[57] A rainha Maria Carolina ficou profundamente chocada com os acontecimentos que envolveram a sua irmã e, nesse mesmo dia, esteve prestes a romper por completo as relações com a França.[58] A hesitação do rei e da rainha em aceitar Mackau como novo representante da República Francesa – a monarquia francesa havia sido abolida em 21 de setembro de 1792[59] – provocou tensões diplomáticas entre os dois países.[60] John Acton, então primeiro-ministro de Nápoles, associou-se ao ardente desejo de Maria Carolina de declarar guerra à França e procurou atrasar o reconhecimento de Mackau até obter apoio militar britânico.[60] Contudo, o seu plano acabou por se voltar contra si quando o governo francês intercetou uma carta na qual Acton descrevia detalhadamente a forma como havia sabotado a missão diplomática de Huguet de Sémonville junto do Império Otomano.[61] Quando a França começou a preparar-se para a guerra, em novembro, como retaliação por esse insulto, o rei e a rainha acabaram por ceder, reconhecendo Mackau e a República Francesa.[61] Apesar disso, a Assembleia Nacional Francesa já havia enviado nove navios sob o comando do almirante La Touche, que chegaram a Nápoles em 17 de dezembro.[62] La Touche determinou que, caso Acton não lhe apresentasse pessoalmente um pedido de desculpas pelo incidente de Sémonville, atacaria Nápoles no prazo de uma hora.[62] A decisão da rainha de aceitar as exigências de La Touche foi criticada por alguns historiadores napolitanos, como o general Colletta, que ignoraram o facto de Nápoles não dispor de meios de defesa adequados, uma vez que a marinha não havia sido mobilizada.[62]

Os esforços de Maria Carolina para conter o jacobinismo revelaram-se infrutíferos quando a esquadra de La Touche foi forçada a regressar a Nápoles devido a uma tempestade.[63] Nessa ocasião, os marinheiros franceses, considerados "agentes republicanos", receberam autorização para desembarcar e aproveitaram a oportunidade para difundir sentimentos antimonárquicos entre a população napolitana.[63] Quando La Touche partiu definitivamente, em 29 de janeiro de 1793, Maria Carolina lançou uma campanha ineficaz contra os radicais napolitanos, permitindo que os conspiradores mais perigosos escapassem à justiça.[64] A ofensiva fracassou, em grande medida, porque o chefe da polícia, Luigi de' Medici, era, na realidade, um radical dissimulado.[64] Simultaneamente, Maria Carolina conseguiu concluir um acordo de aliança com a Grã-Bretanha, à qual a França havia recentemente declarado guerra.[65] Nos termos desse tratado, Nápoles comprometia-se a fornecer quatro navios de guerra, quatro fragatas e quatro embarcações menores, bem como seis mil soldados, para a proteção do comércio no mar Mediterrâneo.[65] Em agosto de 1793, após o Cerco de Toulon, Nápoles integrou-se na Primeira Coligação, composta pela Grã-Bretanha, Rússia, Áustria, Prússia, Espanha, Portugal e a Sardenha dos Saboia, contra a França revolucionária.[66][67]

Ocupação francesa de Nápoles e exílio na Sicília

A execução de Maria Antonieta, em outubro de 1793, intensificou a política contrarrevolucionária de Maria Carolina, que se recusou a falar francês, proibiu obras filosóficas consideradas subversivas e ordenou a repressão das lojas maçónicas – das quais ela própria fora anteriormente adepta –, temendo conluios com os franceses. O exército manteve-se mobilizado, os impostos aumentaram e a rainha tomou precauções extremas para proteger a família, num clima de terror generalizado.[68][69]

A família real napolitana no final da década de 1800

Com o fim das hostilidades franco-espanholas em 1795, Napoleão Bonaparte concentrou-se na campanha italiana,[70] obrigando Maria Carolina a aceitar a paz e pagar uma indemnização de oito milhões de francos.[71] Em 1797, o casamento do seu filho primogénito com a arquiduquesa Maria Clementina da Áustria trouxe algum alívio pessoal.[72] Em 1798, em reação à ocupação francesa dos Estados Pontifícios, a rainha firmou uma aliança secreta com a Áustria e, após a vitória britânica na Batalha do Nilo, juntou-se à Segunda Coligação contra a França.[73] Conselhos de guerra realizados no Palácio de Caserta decidiram a invasão da República Romana, mas, em janeiro de 1799, o general francês Championnet ocupou Nápoles,[74] forçando a família real a refugiar-se na Sicília. No exílio na Sicília, Maria Carolina continuou sua política em relação a Nápoles.[75]

Em junho de 1800, Maria Carolina partiu para Viena com os filhos mais novos e acompanhada por lorde e lady Hamilton e o embaixador inglês e o almirante Horatio Nelson, onde permaneceu dois anos, organizando casamentos vantajosos para os seus filhos.

Últimos anos e morte

Maria Carolina, por Filippo Marsigli, 1814

Após a sua estadia em Viena, Maria Carolina regressou a Nápoles em 17 de agosto de 1802. É-lhe atribuída a Napoleão a célebre afirmação de que a rainha era "o único homem no Reino de Nápoles".[76]

No contexto da expansão napoleónica na península Itálica, Nápoles foi ocupada pelas forças francesas, tendo Napoleão instituído inicialmente o seu irmão, José Bonaparte, e posteriormente o seu cunhado, Joaquim Murat, como monarcas do Estado napolitano. Em resultado dessa ocupação, a família real bourboniana viu-se forçada a refugiar-se na Sicília, em fevereiro de 1806, sob proteção britânica. Em 1810, Maria Carolina reagiu muito mal ao casamento de sua neta, a arquiduquesa Maria Luísa, com Napoleão, declarando: Era só o que me faltava: tornar-me avó do diabo.[77] Em 1813, o rei Fernando abdicou de facto do poder, ao nomear o seu filho Francisco como regente, circunstância que privou Maria Carolina de qualquer intervenção política e determinou o seu afastamento definitivo da Sicília e o seu regresso a Viena. Em Viena, Maria Carolina recebeu a notícia da derrota de Napoleão na Batalha de Leipzig, em 19 de outubro de 1813. Após um longo itinerário que incluiu Constantinopla, Odessa, Lviv e Buda, chegou finalmente a Viena, em janeiro de 1814. Aí iniciou negociações com o objetivo de restaurar o seu marido ao trono napolitano, atitude que causou inquietação tanto ao chanceler Metternich como ao imperador Francisco I, seu genro e sobrinho.[78]

Maria Carolina faleceu sem assistir à derrota definitiva de Napoleão nem à restauração do seu marido, concretizada posteriormente pelo Congresso de Viena. Em 8 de setembro de 1814, foi encontrada pela sua criada caída no chão do seu aposento, no Castelo de Hetzendorf, vítima de um derrame fatal. Foi sepultada na Cripta Imperial de Viena, ao lado dos restos mortais da sua família Habsburgo.[79]

Se, como sugeriu Malraux, a grandeza de um homem reside em desafiar o destino, Maria Carolina teve a sua parcela de grandeza. Ela ao menos procurou alcançar algo além de si mesma, e até possuía uma certa magnificência melancólica.[80]

Descendência

Fernando IV de Nápoles e sua família, por Angelika Kauffmann em 1783 no Museu de Capodimonte. Esquerda para direita: Maria Teresa, Francisco, Fernando IV, rainha Maria Carolina com Maria Cristina, José e Maria Amélia com a princesa Luísa.
Nome Nascimento Morte Notas[81][82]
Maria Teresa de Nápoles e Sicília 6 de junho de 1772 13 de abril de 1807 Casou-se com Francisco II do Sacro Império Romano-Germânico, com descendência.
Luísa de Nápoles e Sicília 27 de julho de 1773 19 de setembro de 1802 Casou-se com Fernando III, Grão-Duque da Toscana, com descendência.
Carlos, Duque da Calábria 4 de janeiro de 1775 17 de dezembro de 1778 Morreu aos 3 anos.
Maria Ana de Nápoles e Sicília 23 de novembro de 1775 22 de fevereiro de 1780 Morreu aos 4 anos.
Francisco I das Duas Sicílias 19 de agosto de 1777 8 de novembro de 1830 Casou-se com Maria Clementina da Áustria, com descendência.

Casou-se com Maria Isabel da Espanha, com descendência.

Maria Cristina de Nápoles e Sicília 17 de janeiro de 1779 11 de março de 1849 Casou-se com Carlos Félix da Sardenha, sem descendência.
Januário de Nápoles e Sicília 12 de abril de 1780 1 de janeiro de 1789 Morreu aos 8 anos.
José de Nápoles e Sicília 18 de junho de 1781 19 de fevereiro de 1782 Morreu aos 8 meses.
Maria Amélia de Nápoles e Sicília 26 de abril de 1782 24 de março de 1866 Casou-se com Luís Filipe I da França, com descendência.
Maria Carolina de Nápoles e Sicília 19 de julho de 1783 Natimorta.
Maria Antônia de Nápoles e Sicília 2 de dezembro de 1784 21 de maio de 1806 Casou-se com Fernando, Príncipe das Astúrias, sem descendência.
Maria Clotilde de Nápoles e Sicília 18 de fevereiro de 1786 10 de setembro de 1792 Morreu aos 6 anos.
Maria Henriqueta de Nápoles e Sicília 31 de julho de 1787 20 de setembro de 1792 Morreu aos 5 anos.
Carlos de Nápoles e Sicília 26 de agosto de 1788 1 de fevereiro de 1789 Morreu aos 5 meses.
Leopoldo, Príncipe de Salerno 2 de julho de 1790 10 de março de 1851 Casou-se com Maria Clementina da Áustria, com descendência.
Alberto de Nápoles e Sicília 2 de maio de 1792 25 de dezembro de 1798 Morreu aos 6 anos.
Maria Isabel de Nápoles e Sicília 2 de dezembro de 1793 23 de abril de 1801 Morreu aos 7 anos.

Ancestrais

Referências

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Maria Carolina da Áustria
Casa de Habsburgo-Lorena
Ramo da Casa de Habsburgo
13 de agosto de 1752 – 8 de setembro de 1814
Precedida por
Maria Amália da Saxônia

Rainha Consorte de Nápoles
12 de maio de 1768 – 23 de janeiro de 1799
Monarquia abolida
República Partenopeia

Rainha Consorte da Sicília
12 de maio de 1768 – 8 de setembro de 1814
Sucedida por
Maria Isabel da Espanha
(como Rainha das Duas Sicílias)
Vacante
República Partenopeia

Rainha Consorte de Nápoles
13 de junho de 1799 – 30 de março de 1806
Sucedida por
Júlia Clary