Macabro (arte)

 Nota: Para Macabro (filme), veja Macabro. Para outras acepções, veja Macabro (desambiguação).
Totentanz ("Dança macabra"), ilustração da Crónica de Nuremberga, de Hartmann Schedel (1440–1514)
Cabeça da morte com a Coroa Imperial do Sacro Império Romano-Germânico, no sarcófago do imperador Carlos VI do Sacro Império Romano-Germânico na cripta da Igreja dos Capuchinhos em Viena, Áustria.
Trionfo della Morte ("Triunfo da Morte"), afresco atribuído a Buonamico Buffalmacco (c. 1330–1350), Pisa, Itália.
Candelabro feito de ossos humanos e crânios, Ossuário de Sedlec, República Tcheca

Em obras de arte, o adjetivo macabro significa "ter a qualidade de possuir uma atmosfera sombria ou assustadora". O macabro enfatiza os detalhes e símbolos da morte, sendo frequentemente associado a representações artísticas de caráter grotesco ou horripilante.[1][2]

História

Os primeiros vestígios do macabro podem ser encontrados em escritores da literatura grega antiga e da literatura latina, como o romano Petrônio, autor do Satíricon (final do século I d.C.), e o númida Apuleio, autor de O Asno de Ouro (final do século II d.C.).[3]

Na literatura inglesa, destacam-se temas macabros em autores como John Webster, Robert Louis Stevenson, Mervyn Peake, Charles Dickens, Roald Dahl, Thomas Hardy e Cyril Tourneur. Já na literatura americana, o macabro é marcante em escritores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King.[4]

O termo ganhou força a partir do francês la danse macabre, usado para designar a representação alegórica do poder universal da morte, conhecido em alemão como Totentanz e em inglês como Dance of Death. A forma típica dessa alegoria é uma série de imagens em que a personificação da morte aparece — seja como esqueleto dançante ou cadáver envolto em mortalha — conduzindo pessoas de todas as idades e condições sociais em uma dança rumo ao túmulo.

Diversos exemplos foram pintados ou esculpidos em claustros e cemitérios da Europa medieval, mas poucos sobreviveram além de xilogravuras e gravuras:

  • Em Basileia, uma série iniciada no século XIV foi transferida no século XV para o cemitério do Predigerkloster e restaurada em 1568. Após o colapso do muro em 1805, restaram apenas fragmentos e desenhos.
  • Em Lübeck, na Marienkirche, sobrevive uma versão do século XV com 24 figuras conduzidas por uma Morte que toca flauta.
  • Em Tallinn, na Estônia, há uma célebre pintura de Bernt Notke, hoje preservada na igreja de São Nicolau.
  • Em Dresden, existe uma série de esculturas em tamanho natural, transferida em 1701 após um incêndio.
  • Em Rouen, no claustro de Saint-Maclou, ainda resta uma danse macabre esculpida.
  • Em Londres, havia um famoso afresco na Antiga Catedral de São Paulo, reproduzido em gravuras por Hans Holbein, o Jovem.

O tema continuou a inspirar artistas e músicos muito além do período medieval. Entre os exemplos estão o quarteto de cordas A Morte e a Donzela (1824), de Franz Schubert, e o poema sinfônico Danse macabre, op. 40 (1874), de Camille Saint-Saëns. No cinema, destaca-se o filme O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, em que a Morte é personificada.

Parte superior do Transi de Renato de Chalon, escultura de Ligier Richier, c. 1545–1547.

A origem dessa alegoria nas artes visuais é debatida. Alguns estudiosos a relacionam à forte consciência da morte provocada pela Peste Negra e pela Guerra dos Cem Anos. Outros a vinculam às moralidades, peças teatrais em que a Morte dialogava com personagens de diferentes condições sociais, encerrando a cena com uma dança. Há ainda quem veja antecedentes nos esqueletos dançantes de sarcófagos romanos tardios e em pinturas murais de Cumas e Pompeia.[5]

Etimologia

A etimologia da palavra "macabro" é incerta. Segundo Gaston Paris, estudioso francês de estudos românicos, ela aparece pela primeira vez na forma "macabree" em um poema, Respit de la mort (1376), escrito pelo cronista borgonhês medieval Jean Le Fèvre de Saint-Remy:[6]

Je fis de Macabree la dance,
Qui toute gent maine a sa trace
Et a la fosse les adresse.[6]

A explicação mais comum baseia-se no nome latino, Machabaeorum chorea ("Dança dos Macabeus"). Os sete irmãos martirizados, junto com sua mãe e Eleazar (II Macabeus 6 e 7), são figuras proeminentes nos diálogos dramáticos.[7] Outras conexões foram sugeridas, como por exemplo com Macário do Egito, monge e eremita copta egípcio, que teria sido identificado com a figura que aponta para os cadáveres em decomposição no afresco Trionfo della Morte ("Triunfo da Morte"), pintado pelo artista renascentista italiano Buonamico Buffalmacco, segundo o historiador de arte Giorgio Vasari; ou ainda com a palavra em língua árabe maqābir (مقابر, plural de maqbara), que significa "cemitérios". Também já foi sugerido que a origem da palavra estaria no hebraico mqbr significando "do túmulo".

Ver também

Referências

  1. Huizinga, Johan (1996). O Outono da Idade Média. São Paulo: Cosac Naify 
  2. Gombrich, E. H. (2000). A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC. ISBN 9788521611851 
  3. Burton, Robert (2010). The Anatomy of Melancholy. Londres: Penguin Classics. ISBN 9780141192284 
  4. Bloom, Harold (2003). Edgar Allan Poe. Nova Iorque: Chelsea House Publishers. ISBN 9780791078082 
  5. Panofsky, Erwin (2000). Studies in Iconology. Nova Iorque: Routledge. ISBN 9780429497063 
  6. a b Paris, Gaston (1895). Meyer, Paul; Paris, Gaston, eds. «La Dance Macabré de Jean Le Fèvre». Paris: Librairie Droz, em nome da Société des amis de la Romania. Romania (em francês). 24 (93): 129–132. ISSN 0035-8029. JSTOR 45042550. doi:10.3406/roma.1895.5871. eISSN 2391-1018. Consultado em 21 September 2022  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  7. O Shorter Oxford English Dictionary (Quinta edição; 2002) afirma que a origem de "macabro" talvez tenha referência a "um mistério contendo o massacre dos Macabeus." Volume 1, p. 1659.