Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel
Luís Felipe Miguel discursando em um debate organizado pela Central Única dos Trabalhadores
Nascimento
1967 (59 anos)

Nacionalidadebrasileiro
CônjugeRegina Dalcastagnè
Alma materUFSC, UNICAMP
Ocupaçãocientista político
Empregador(a)UnB
Principais interessesTeoria política

Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é um cientista político brasileiro. Autor de vários livros sobre teoria política e política brasileira, seu pensamento é influenciado pelo marxismo, pela sociologia de Pierre Bourdieu, pelo feminismo e pelo participacionismo democrático.

Biografia

Filho dos escritores Salim Miguel e Eglê Malheiros, formou-se em Comunicação Social na Universidade Federal de Santa Catarina. Seu trabalho de conclusão de curso, sobre a novembrada (o episódio em que o então presidente João Figueiredo envolveu-se numa briga de rua em Florianópolis, em novembro de 1979) foi publicado como livro.[1] Fez mestrado em Ciência Política na Universidade de Brasília e doutorado em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas. É casado com a professora e crítica literária Regina Dalcastagnè.

Desde 1996, é professor da Universidade de Brasília. Em 2001, criou o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê),[2] que continua a liderar até hoje. Criou, em 2009, e co-editou até 2016 a Revista Brasileira de Ciência Política.

Suas pesquisas inicialmente foram sobre a relação entre meios de comunicação e política. A partir daí chegou ao tema da representação política e da democracia, que são a parte central de sua obra. Como explicou em entrevista, ele passou a considerar que "os meios de comunicação têm que ser entendidos também como uma esfera de representação política. Porque o representante é aquele que decide em nosso nome, mas o representante também é aquele que fala em nosso nome. E, frequentemente, essa fala não se dá no plenário do Congresso, essa fala se dá nos meios de comunicação que são a arena do debate público. Então quando nós temos uma controvérsia pública eu não vou poder falar, a maior parte de nós não vai poder intervir diretamente no debate, mas se espera que as diferentes posições estejam representadas no debate da mídia, então eu passei a formular o entendimento da mídia como espaço de representação política".[3]

Na primeira metade da década de 2010, muitos de seus trabalhos sobre mídia e política e também sobre gênero - tema a qual chegou por considerar que a teoria feminista é "quem desafia o pensamento convencional da Ciência Política sobre representação"[4] - foram produzidos em co-autoria com a cientista política Flávia Biroli.

Obra

Um dos principais autores da teoria democrática no Brasil, Miguel acredita que a democracia deve ser vista não como um determinado arranjo institucional, mas como um processo contínuo de enfrentamento da dominação social.[5] A acomodação de instituições democráticas com a ordem capitalista e patriarcal faz com que o potencial emancipatório da democracia seja traído, o que o autor chama de "democracia domesticada".[6] Ao mesmo tempo, ele é crítico das correntes democráticas deliberativistas, que seriam insensíveis às questões materiais e ao caráter inerentemente conflituoso da disputa política e assim produziriam modelos ideais sem capacidade de inserção na realidade.[7] Por essa ênfase no conflito, é por vezes alinhado a teóricos como Chantal Mouffe e Nadia Urbinati.[8] Ele é crítico também das experiências de participação política ampliada, como orçamentos participativos e conselhos de políticas públicas, que julga insuficientes para promover a verdadeira democracia.[5]

Crítico do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, que sustenta ter sido um golpe tal como o conceito é definido pela Ciência Política,[9] Miguel tornou-se, desde o agravamento da crise política brasileira, um ativo participante do debate público, colaborando com publicações de esquerda como Jornal GGN, Le Monde Diplomatique e outras. Escreveu vários artigos sobre o tema, inclusive o prefácio ao livro A verdade vencerá, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.[10] Crítico dos governos dos Partido dos Trabalhadores por sua falta de disposição para o enfrentamento, mesmo nos momentos em que a conjuntura seria favorável, Miguel entende que o que chama de retrocesso político no Brasil (o golpe, a perseguição judicial contra Lula, a vitória de Jair Bolsonaro e as medidas dos governos Temer e Bolsonaro) se explica pela vontade das elites dominantes de romper qualquer compromisso e impedir que a classe trabalhadora seja aceita como participante plena do jogo político.[11]

Crítico das correntes dominantes da Ciência Política, atribui a elas a predileção por "uma epistemologia ingênua, que leva a sobrevivências do positivismo e permite a popularidade de percepções bizarras, como a 'teoria da escolha racional', que constrói os atores políticos num vácuo histórico e social"[12], e propõe um maior influxo do materialismo histórico como forma de dotar a disciplina de maior capacidade de interpretação da realidade. Em entrevista, declarou que "compreender os eixos de dominação presentes na sociedade, como funcionam, como limitam a validade das igualdades formais, como estruturam preferências e comportamentos, como estruturam os conflitos políticos centrais (para além da “política mesquinha” limitada à distribuição de cargos), tudo isso é necessário para tornar uma Ciência Política digna do seu projeto inicial, inaugurado por Maquiavel"[13].

Alinhando-se a autores como Nancy Fraser e Asad Haider, Miguel também é crítico do "identitarismo", que define como sendo não as "demandas emancipatórias vinculadas a eixos como gênero, raça ou sexualidade, mas sim a uma maneira específica de expressá-las", que "concede uma primazia desmedida às identidades socialmente imputadas, adensando as fronteiras entre os grupos de pertencimento e colocando em distante segundo plano a representação de interesses e opiniões"[14].

Redes sociais

Luis Felipe Miguel tornou-se, a partir de meados da década de 2010, um ativo participante do debate público no Brasil, por meio de artigos publicados em portais de esquerda (como A Terra é Redonda, Jornal GGN, Blog da Boitempo e outros) e também de suas contas nas redes sociais Instagram e Facebook. Adotando um ponto de vista crítico às principais forças da esquerda brasileira, como PT e PSOL, seus temas prioritários são democracia, política brasileira, teoria política, defesa da universidade pública e da ciência, luta de classes e direito ao aborto.

Em 2025, lançou a newsletter "Amanhã não Existe Ainda", na plataforma Substack. Afirmando estar convicto de que o império das big techs é inconciliável com a democracia, parou de publicar conteúdo novo nas redes sociais, limitando-se a anunciar os textos da newsletter.[15]

Polêmicas

Curso sobre o golpe

Em 2018, o então ministro da Educação, José Mendonça Filho, anunciou que ia acionar o Ministério Público Federal para investigar a disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, oferecida por Luis Felipe Miguel na UnB. Segundo ele, “respeito a autonomia universitária e reconheço a importância da UnB, mas não se pode ensinar qualquer coisa. Se cada um construir uma tese e criar uma disciplina, as universidades vão virar uma bagunça geral”. Pontuou ainda que "não é uma questão de opinião, nem de reverberar a tese petista sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Eu, por exemplo, tenho autonomia para dirigir o MEC, mas não posso transformar a pasta em instrumento de apoio ao meu partido ou a qualquer outro partido”.[16]

Miguel respondeu que “se trata de uma disciplina corriqueira, de interpelação da realidade à luz do conhecimento produzido nas ciências sociais, que não merece o estardalhaço artificialmente criado sobre ela. A única coisa que não é corriqueira é a situação atual do Brasil, sobre a qual a disciplina se debruçará”.[17]

O caso abriu uma discussão sobre autonomia universitária e liberdade de cátedra. O ministro da Educação foi denunciado à Comissão de Ética Pública por abuso de autoridade.[18] Dezenas de universidades brasileiras e algumas do exterior criaram disciplinas com objetivo similar e intituladas 'Golpe de 2016', remetendo à nomenclatura utilizada por Miguel.[19]

Identitarismo

Miguel é um crítico severo do que chama de "identitarismo". Segundo ele, o identitarismo não equivale às lutas de minorias, mas uma forma específica de enquadrá-las que "faz de cada identidade uma 'essência', negando o caráter histórico e conflitivo de sua fixação; recusa a possibilidade de diálogo e construção coletiva, isolando cada um em seu grupo fechado e reificando o pertencimento a esse grupo; e objetiva uma acomodação na ordem (neo)liberal, com a abertura de nichos de privilégio para uns poucos integrantes do grupo dominado e a evasão de qualquer enfrentamento mais sério com as estruturas do capitalismo"[20]. Por isso, entrou em polêmica com outros autores do campo progressista brasileiro em questões como as "novas epistemologias subalternas", em particular no episódio da performance "Educando com o cu", da ativista travesti Tertuliana Lustosa, na Universidade Federal do Maranhão, em 2024; o apoio a rappers acusados de vinculação com o crime organizado, como Oruam e MC Poze do Rodo, em 2025; ou a importância do sexo biológico, contrariamente ao discurso queer de que só a identidade subjetiva de gênero importa.

Livros publicados

  • MIGUEL, L. F.; BALLESTRIN, L. (org.) Democracia em crise, teorias em transe. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
  • MIGUEL, L. F. Marxismo e política: modos de usar. São Paulo: Boitempo, 2024.
  • MIGUEL, L. F. Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
  • MIGUEL, L. F. Consenso y conflicto en la democracia contemporánea. Bueno Aires: Eudeba, 2022.
  • MIGUEL, L. F.; VITULLO, G. E. Democracia como emancipación: miradas contrahegemónicas. Bueno Aires: Luxemburg, 2021.
  • MIGUEL, L. F.; VITULLO, G. E. Democracia como emancipação: olhares contra-hegemônicos. Porto Alegre: Zouk, 2021.
  • MIGUEL, L. F. (org.) Mulheres e representação política: 25 anos de estudos sobre cotas eleitorais no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2021.
  • MIGUEL, L. F.; BALLESTRIN, L. (org.) Teoria e política feminista: contribuições ao debate sobre gênero no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2020.
  • MIGUEL, L. F. O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016. São Paulo: Expressão Popular, Fundação Rosa Luxemburgo, 2019.
  • PUZONE, V.; MIGUEL, L. F. (org.) The Brazilian Left in the 21st Century: conflict and conciliation in peripheral capitalism. New York: Palgrave-Macmillan, 2019.
  • MIGUEL, L. F. Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória. São Paulo: Boitempo, 2018.
  • MIGUEL, L. F. Trabalho e utopia: Karl Marx, André Gorz, Jon Elster. Porto Alegre: Zouk, 2018.
  • MIGUEL, L. F. Consenso e conflito na democracia contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
  • BIROLI, F.; MIGUEL, L. F. Notícias em disputa: mídia, democracia e formação de preferências no Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.
  • KRAUSE, S.; MACHADO, C.; MIGUEL, L. F. (org.) Coligações e disputas eleitorais na Nova República: aportes teórico-metodológicos, tendências e estudos de caso. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. (org.) Encruzilhadas da democracia. Porto Alegre: Zouk, 2017.
  • MIGUEL, L. F. (org.) Desigualdades e democracia: o debate da teoria política. São Paulo: Editora Unesp, 2016.
  • BIROLI, F.; MIGUEL, L. F. (org.) Aborto e democracia. São Paulo: Alameda, 2016.
  • MIGUEL, L. F. O nascimento da política moderna: de Maquiavel a Hobbes (edição revista e ampliada de O nascimento da política moderna: Maquiavel, utopia, Reforma). Brasília: Editora UnB, 2015.
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F.; MARQUES, D.; MACHADO, C. (org.) A democracia face às desigualdades: problemas e horizontes. São Paulo: Alameda, 2015.
  • MIGUEL, L. F. Democracia e representação: territórios em disputa. São Paulo: Editora Unesp, 2014. (Vencedor do Prêmio ANPOCS para Obra Científica de Ciências Sociais em 2015.)
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014.
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. (org.) Teoria política feminista: textos centrais. Rio de Janeiro: Editora UFF; Vinhedo: Horizonte, 2013.
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. (org.) Teoria política e feminismo: abordagens brasileiras. Vinhedo: Horizonte, 2012.
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
  • KRAUSE, S.; MIGUEL, L. F.; DANTAS, H. (org.) Coligações partidárias na nova democracia brasileira: perfis e tendências. São Paulo: Editora Unesp, 2010.
  • MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. (org.) Mídia, representação e democracia. São Paulo: Hucitec, 2010.
  • MIGUEL, L. F. O nascimento da política moderna: Maquiavel, utopia, Reforma. Brasília: Editora UnB, 2007.
  • MIGUEL, L. F. Política e mídia no Brasil: episódios da história recente. Brasília: Plano, 2002.
  • MIGUEL, L. F. Mito e discurso político: uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.
  • MIGUEL, L. F. Revolta em Florianópolis: a novembrada de 1979. Florianópolis: Insular, 1995. (Segunda edição, revista: Brasília: Edições do Demodê, 2016.)

Referências

  1. MIGUEL, Luis Felipe. Revolta em Florianópolis. Florianópolis: Editora Insular, 1996.
  2. https://www.demodeunb.com/
  3. FEITOSA, Cleyton. "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", entrevista com Luis Felipe Miguel. Diálogos Insubmissos, n. 1, 2018, p. 245.
  4. Id., ibid.
  5. a b MIGUEL, Luis Felipe. Dominação e resistência. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.
  6. MIGUEL, Luis Felipe. Democracia e representação. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
  7. MIGUEL, Luis Felipe. Consenso e conflito na democracia contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 2016.
  8. DALAQUA, Gustavo H. "Democracy as compromise: an alternative to the agonistic vs. epistemic divide". Kriterion, n. 144, 2019.
  9. https://grupo-demode.tumblr.com/post/171564606847/golpe
  10. MIGUEL, Luis Felipe. "A democracia à beira do abismo", em Luiz Inácio Lula da Silva, A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.
  11. MIGUEL, Luis Felipe. O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2019.
  12. MIGUEL, Luis Felipe (2024). Marxismo e política: modos de usar. São Paulo: Boitempo. pp. 18–9. ISBN 9786557173459 
  13. Suárez, Fernando Manuel (26 de março de 2023). «Por una crítica realista a la democracia, entrevista con Luis Felipe Miguel». La Vanguardia. Consultado em 26 de outubro de 2024 
  14. MIGUEL, Luis Felipe (2022). Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil. Belo Horizonte: Boitempo. p. 306. ISBN 9786559281435 
  15. «Instagram». www.instagram.com. Consultado em 12 de novembro de 2025 
  16. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/02/21/mendonca-filho-diz-que-acionara-mpf-para-investigar-disciplina-da-unb-sobre-golpe-de-2016.htm
  17. https://www.facebook.com/luisfelipemiguel.unb/posts/10211377463173203
  18. https://g1.globo.com/politica/noticia/comissao-de-etica-investigara-conduta-de-mendonca-filho-apos-criticas-a-disciplina-da-unb-sobre-golpe-de-2016.ghtml
  19. https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/universidades-curso-sobre-o-golpe.html
  20. Miguel, Luis Felipe (4 de agosto de 2025). «O lugar da identidade». Amanhã não existe ainda. Consultado em 12 de novembro de 2025