Luísa de França
| Luísa Maria | |||||
|---|---|---|---|---|---|
| Filha da França | |||||
![]() Retrato por François-Hubert Drouais, 1763 | |||||
| Dados pessoais | |||||
| Nascimento | 15 de julho de 1737 Palácio de Versalhes, Versalhes, França | ||||
| Morte | 23 de dezembro de 1787 (50 anos) Convento de Saint-Denis, Paris, França | ||||
| Sepultado em | Basílica de Saint-Denis, Seine-Saint-Denis, França | ||||
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| Casa | Bourbon | ||||
| Pai | Luís XV de França | ||||
| Mãe | Maria Leszczyńska | ||||
| Religião | Catolicismo | ||||
| Assinatura | |||||
Luísa Maria de França (Louise Marie de France; Versalhes, 15 de julho de 1737 — Saint-Denis, 23 de dezembro de 1787) foi uma princesa da França,[nota 1] última filha do rei Luís XV de França e de sua esposa Maria Leszczyńska.
Primeiros anos
Nascimento
Luísa nasceu no Palácio de Versalhes a 15 de julho de 1737, exatamente como previram os médicos reais.[2] Os seus pais tiveram sete filhas e dois filhos antes dela, mas uma das suas irmãs (Maria Luísa) e um irmão (o Duque de Anjou) já tinham falecido aquando do seu nascimento. Visto que a lei sálica excluía as mulheres da sucessão do trono, Luís XV desejava o nascimento de um filho varão. Depois do nascimento, ele pregou uma partida à multidão que se tinha juntado fora do palácio e anunciou que tinha nascido um menino. A notícia espalhou-se e o povo celebrou com banquetes públicos. O avô materno da recém-nascida, o rei deposto Estanislau da Polónia, preparou-se para viajar até Versalhes, mas ao fim da tarde soube-se a verdadeira notícia e ele permaneceu em casa. O país e a corte real ficaram desiludidos com o nascimento de mais uma menina.[2]
As filhas do rei de França, conhecidas como filles de France, eram tratadas simplesmente como madame e pelo seu nome próprio. As crianças reais francesas eram batizadas imediatamente após nascerem com uma cerimónia simples chamada ondoiement (o de Luísa foi realizado pelo Arcebispo de Vienne). O batismo era concluído alguns anos mais tarde, com uma cerimónia pública onde era dado um nome à criança e os padrinhos oficializados. Antes dessa cerimónia, as filhas de Luís XV eram chamadas por números. Assim, Luísa era chamada Madame Septième, visto que era a sua sétima filha.[2]
Segundo um relato da época, o rei anunciou que ele e a rainha Maria não teriam mais filhos e, por isso, chamavam Luísa Madame Dernière ("a última madame"). Porém, a historiadora Simone Poignant defende que esta história foi inventada e espalhada pelo marquês d'Argenson, conhecido pelos seus rumores maliciosos. A rainha Maria Leszczyńska, quando soube o sexo do seu bebé, terá murmurado ao marido: "Sofreria mais uma vez e o mesmo para te dar um duque de Anjou". Luís XV não perdeu a esperança de ter mais um filho, mas Luísa acabou por ser a sua última filha.[2]
Primeiros meses no Palácio de Versalhes
As crianças reais partilhavam um apartamento na alle des Princes (Ala dos Príncipes) de Versalhes, com uma antecâmera e gabinete comuns para receberem visitas, e um altar privado. As paredes e mobília eram forrados em damasco vermelho e cobertos de sarja vermelha para se protegerem. As divisões encontravam-se decoradas com tapeçarias de cenas mitológicas e históricas. O apartamento não tinha sido alterado desde a época dos filhos de Luís XIV e não havia toques pessoais, exceto as cómodas que as princesas receberam ao nascer. A cómoda de Luísa era forrada com um brocado de ouro e prata, tinha flores coloridas e revestido de tafetá verde.
Á semelhança das irmãs, Luísa tinha um quarto com três camas e um berço que partilhava com a sua ama-seca, Madame Hoppen, uma sous-gouvernante, a temueuse (cuja tarefa era vestir e dar banho à bebé) e duas camareiras (que partilhavam uma cama desdobrável e uma delas tinha de estar acordada). Luísa recebeu um conjunto completo de talheres de ouro maciço gravados com a designação enfants de France (filhos de França) quando nasceu e que só podia ser usado em ocasiões especiais. Todos os objetos de uso pessoal, incluindo penicos, tinham a mesma gravação. Os ingredientes para as papas de aveia do seu pequeno almoço eram levados para os aposentos num recipiente fechado e eram inspecionados, cozinhados em público. A gouvernante provava a comida antes de a servir às crianças.[3]
A primeira gouvernante de Luísa foi Madame de Tallard, que também cuidou dos seus irmãos mais velhos. Cada princesa era acompanhada de uma numerosa comitiva. Um visitante estrangeiro registou com espanto ver as princesas a correr pelo palácio sempre seguidas de pelo menos catorze pessoas. A relação entre as crianças e os pais, tal como todos os aspetos das suas vidas, era regida pela etiqueta da corte com todo o detalhe, mas o rei facilitava um pouco as regras em privado. As crianças participavam em pleno nas apresentações da corte: as suas refeições e quando se vestiam de manhã e à noite eram ocasiões públicas para a corte.[3]
Pouco depois do nascimento de Luísa, o ministro-chefe, cardeal de Fleury anunciou que a presença de tantas crianças era um "embaraço para a corte" e demasiado dispendioso. À exceção das três princesas mais velhas, todas as filhas de Luís XV foram enviadas para um convento. A rainha opunha-se à decisão, mas tinha demasiado receio do marido e do seu poderoso ministro para os desafiar.[3]
Fontevraud
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Luísa ainda não tinha completado um ano quando foi enviada para a distante Abadia de Fontevraud com as suas três irmãs mais velhas: Vitória, de cinco anos, Sofia de quatro anos e Teresa de dois anos (conhecidas como Madame Quatrième, Madame Cinquième, and Madame Sixième, visto que ainda não tinham sido batizadas. Luís XV tinha viajado para caçar em Rambouillet e desconhece-se o seu estado emocional relativo à separação das suas filhas. As princesas partilharam uma carruagem e foram acompanhadas pelas suas sub-governantas, por Madame de La Lande, e seguidas por oito carruagens, duas charretes e vinte carroças com bagagens.[3] A ama-seca de Luísa, Madame Hoppen, acompanhou-a.[2]
Luísa e as irmãs chegaram a Fontevraud no dia 28 de junho de 1738 e ficaram hospedadas no edifício Logis-Bourbon, que tinha sido renovado para elas e possuía uma capela privada. No dia seguinte, a Madame de La Lande regressou a Versalhes. Mais tarde nesse ano, Luísa adoeceu com bastante gravidade, ao ponto de a abadessa ter ordenado o seu batismo imediato a 30 de dezembro, no qual recebeu o nome de Luísa Maria. A rainha falou da doença numa carta privada, identificando-a como disenteria, e acrescentando: "neste mundo cruel só há sofrimento, mas graças a Deus, não somos obrigados a ficar aqui."[3]
As princesas foram educadas principalmente por duas freiras, as irmãs Mac Carthy e Françoise Paris de Soulange. Receberam ainda uma freira como governanta pessoal. Por vezes, as princesas eram sujeitas a castigos severos, como serem fechadas numa campa sozinhas, o que levou a princesa Vitória a sofrer ataques de pânico para o resto da vida. As princesas nunca receberam visitas dos seus familiares, incluindo dos seus pais.[3]
Conhecem-se três professores atribuídos às mesdames em Fontevraud: o abade Piers, um jurista que morreu no ano em que elas chegaram à abadia; Monsieur de Caix, um dos músicos da corte; e um professor de dança. As memórias de Madame Campan afirmam que, com doze anos de idade, Luísa ainda não tinha aprendido todo o alfabeto, algo que o seu biógrafo, Casimir Stryenski rejeita com base nas suas assinaturas da época em que vivia em Fontevraud. Luísa foi considerada inteligente desde cedo e gostava de troçar dela própria e dos outros (à semelhança do que o seu pai e irmãos faziam).[3]
Em setembro de 1744, a irmã mais próxima dela em idade, Teresa, morreu de varíola. Pouco tempo depois, o rei encomendou um retrato das suas três filhas ainda vivas para oferecer de surpresa à sua mulher. Ao comentar o quadro, a rainha disse que "nunca tinha visto nada tão agradável como Luísa; o seu rosco é comovente e nada mostra de tristeza; ela nunca tinha visto ninguém tão singular, a Luísa é querida, gentil e espiritual". Em criança, Luísa era considerada arrogante e esperava que as freiras a tratassem como uma princesa na corte. Segundo relatos, ela exigia que as pessoas se levantassem quando ela entrava numa sala ou quando bebia, dizendo: "Levantem-se, senhoras. A Luísa está a beber". A abadessa, Madame de Soulanges, exclamou: "Fiquem sentadas". Quando uma empregada não se comportou de forma humilde o suficiente na sua presença, a jovem Luísa perguntou: "Não sou filha do seu rei?", ao que a mulher respondeu: "E eu, madame, não sou filha do seu Deus?"[4]
Enquanto vivia em Fontevraud, é possível que Luísa tenha sofrido um acidente: enquanto esperava pela sua camareira de manhã, ela subiu as grades da cama e caiu. Independentemente do motivo, a certa altura ela desenvolveu uma "corcunda" (como ela própria lhe chamava).[3] É possível que ela tenha herdado escoliose congénita, que alguns membros da família Bourbon tiveram. Durante a sua infância, teve uma saúde frágil.[2]
Em 1748, quando Luísa tinha onze anos e ainda vivia em Fontevraud, começaram a circular rumores de que o seu pai queria casá-la com o príncipe Carlos Eduardo Stuart, o pretendente do trono inglês. Luísa declarou: "Não me preocupa ser boa para um marido, não desejo outro que não Jesus Cristo."
Idade adulta em Versalhes

No início de 1748, a princesa Vitória, na altura com 15 anos, declarou estar "farta" de viver em Fontevraud e pediu autorização ao pai para regressar a Versalhes. Após, alguma hesitação, o rei permitiu o seu regresso. Em novembro de 1750, Sofia e Luísa (com 13 anos) também regressaram ao palácio.[4] Vitória tornou-se bastante admirada na corte, por ser considerada "extremamente bonita" e por ter boas conversas, mas Sofia e Luísa não tiveram tanto sucesso. Sofia era muito tímida e desajeitada socialmente. Luísa teve vários problemas de saúde e, segundo um contemporâneo, "tinha uma cabeça um pouco grande para o seu corpo", para além da sua doença visível na coluna vertebral.[2]
As mesdames eram lideradas pela terceira irmã mais velha, Adelaide, que eram considerada masculina no seu comportamento, mas também muito bonita. Ela tinha uma personalidade forte, reforçada pelo facto de, após a morte de Henriqueta em 1752, ela se ter tornado na princesa mais velha. Adelaide era "impulsiva" e o seu humor mudava constantemente. As princesas eram livres de fazer o que queriam, sem a interferência dos pais. Nos seus primeiros anos, elas só socializaram com um grupo seleto de pessoas. Elas associaram-se à rainha Maria, que era conservadora, e partilhavam com ela a opinião de que a igreja católica e a corte tinham soberania sobre o parlamento.[2]
Enquanto que Vitória e Sofia, mais tímidas, aceitavam o domínio de Adelaide, Luísa, que era considerada a mais inteligente de todas, resistia. Ela era considerada uma pessoa "feroz e fervorosa" e passou os seus primeiros anos de regresso a Versalhes a aproveitar os luxos da corte, dedicando-se a exercício extenuante, comida e vestidos.[2] Nestes primeiros anos, ela era considerada a Madame "com o melhor vocabulário, sem comparação". As memórias de Madame de Boigne afirmam que Luísa saía do palácio de noite, algo considerado escandaloso para a época.[5]

Em Versalhes, as Mesdames tornaram-se muito próximas do seu único irmão, o delfim Luís, que as encorajava a estudar e a dedicar-se a passatempos úteis como pintura e música. As filhas do rei partilharam uma vida de luxos, especialmente no que dizia respeito a comida: nos seus aposentos nunca faltavam salsichas, doces e vinhos espanhóis.[2] Apesar de a sua educação no convento ter sido negligenciada (Luísa afirmou que só aprendeu a ler fluentemente quando já vivia em Versalhes), as irmãs compensaram estes anos ao estudar extensamente. As Mesdames praticavam ortografia e gramática, estudavam história e matemática e aprenderam inglês e italiano. Para além dos estudos, tinham pouco para fazer. Elas gostavam de caminhar e de jardinagem, mas só podiam fazer a primeira nos jardins de Versalhes e a segunda nos parapeitos das janelas. Luísa em particular viveu bastante isolada nos últimos anos que passou em Versalhes. Ela era a irmã favorita da princesa Vitória.[5]
Entre as princesas, apenas a mais velha, Luísa Isabel, casou (em 1737, pouco depois do nascimento de Luísa). Luísa só conheceu esta sua irmã mais velha na sua segunda visita a Versalhes em 1759, quando ela morreu de varíola. A sua irmã gémea, Henriqueta, tinha morrido em 1752 da mesma doença, restando assim quatro princesas em Versalhes: Adelaide, Vitória, Sofia e Luísa que em conjunto eram conhecidas como as Mesdames de France. O rei referia-se a elas por alcunhas. Adelaide era a "Logue" (“Desalinhada”), Vitória era “Coche” (“Porquinha”), Sofia era “Graille” (“Migalha”) e Luísa era “Chiffie” (“Trapo” ou “Lixo”).[5]

Em julho de 1761, Adelaide e Vitória foram passar uma temporada às termas de Lorena, enquanto que Sofia e Luísa visitaram Paris pela primeira vez, o que marcou uma mudança no seu nível de influência. Nesta altura, o rei tinha começado a ouvir os conselhos das filhas sobre o governo, sobretudo os de Adelaide, que recebeu um apartamento perto do dele para facilitar a comunicação entre os dois. Adelaide sentiu-se empoderada com este seu novo papel e começou a tratar as suas irmãs mais novas como suas "inferiores". O seu domínio terminou em 1764 com a chegada de Madame du Barry, que foi instalada no apartamento de Adelaide e passou a ser a confidente do rei até à morte dele.[4]
Segundo a leitora das princesas, Madame Campan, estas raramente viam o seu pai. Ele visitava o apartamento de Adelaide todas as manhãs e esta tocava uma campainha para alertar Vitória. Vitória fazia o mesmo para alertar Sofia e Sofia alertava Luísa. Uma vez que os seus apartamentos eram "bastante grandes", era comum Luísa mal ter tempo de cumprimentar o rei, apesar de correr o mais depressa que conseguia em virtude da sua doença na coluna vertebral. Além disto, todos os dias às seis da tarde, as princesas estavam presentes na debotter do rei (a cerimónia de descalçar as botas). Para esta ocasião, envergavam saias armadas com estrutura rígida e um casaco de tafetá preto destinado a ocultar o traje quotidiano, que não era apropriado para cerimónias. Elas seguiam numa procissão de criados até aos aposentos reais. Na debotter, o rei beijava cada uma das suas filhas na testa. Este encontro era tão curto que muitas vezes as Mesdames podiam voltar às suas atividades passados quinze minutos. No verão, o rei visitava as filhas em algumas ocasiões pouco antes da debotter.[5]
Vida como freira carmelita
Contexto da decisão

Uma série de acontecimentos ocorridos na década de 1760 desencadeou uma crise pessoal para Luísa de França. Ficou profundamente abalada com a expulsão dos Jesuítas de França e resolveu trabalhar tanto pelo seu regresso como pela conversão religiosa do rei.[6] Seguiram-se várias perdas familiares: a morte do seu irmão, o delfim, em dezembro de 1765; a da sua cunhada, a delfina Maria Josefa, em 1767; e a da sua mãe, a rainha Maria Leszczyńska, em junho de 1768. Pouco depois, a chegada de Madame du Barry como nova maîtresse-en-titre constituiu mais um motivo de perturbação. Este episódio levou Luísa a procurar Christophe de Beaumont, arcebispo de Paris, pedindo-lhe que intercedesse junto do rei para obter autorização para ingressar na ordem das Carmelitas Descalças, uma congregação religiosa de clausura conhecida pela sua austeridade. Para além das motivações espirituais, a entrada no convento permitia-lhe alcançar maior visibilidade e influência. A sua posição de princesa mais nova e as suas limitações físicas constituíam um obstáculo à afirmação na corte, mas poderia distinguir-se através da vida religiosa. A sua leitora, Madame Campan, recordaria mais tarde que Luísa acreditava que a felicidade só podia ser encontrada longe da corte real, “na contemplação de um mundo melhor”. Segundo Campan, Luísa escolheu a clausura por se sentir atraída por tudo o que considerava “sublime”, sendo essa renúncia a única “ação brilhante” que lhe era possível.
Mesmo antes de ingressar oficialmente na Ordem das Carmelitas Descalças, Luísa já começara a usar secretamente vestes religiosas e a viver segundo as regras conventuais. O rei deu o seu consentimento por escrito em 16 de fevereiro de 1770. Esta decisão coincidiu com os preparativos da corte para o casamento do novo delfim (o futuro Luís XVI de França) com a arquiduquesa Maria Antonieta.[7][8] A frase: «Eu, carmelita, e o rei, tudo para Deus» refletia a disposição de Luísa em redimir, através do seu sacrifício, a alma do pai e expiar os seus pecados.[9]
Luísa recebeu o hábito em 10 de outubro de 1770 e faz seus votos em 12 de setembro de 1771 no carmelo de Saint-Denis[10], o "mais pobre carmelo de França", segundo rumores, onde a regra era bastante rude. Ameaçado de encerramento devido à escassez de recursos financeiros, o convento foi inesperadamente salvo pela chegada de uma religiosa portadora de um dote substancial. As freiras acolheram-na como resposta às suas orações.[11] Em abril de 1770, Luísa deixou a corte acompanhada apenas por uma criada e um escudeiro. Durante a Semana Santa, a família real visitou-a no convento.[4]
A partida precipitada de Luísa causou grande surpresa na corte. A sua irmã Adelaide teve acessos “violentos” de cólera, culpando o pai por lhe ter ocultado a decisão de Luísa, enquanto Vitória chorou em silêncio. Nas suas memórias, Madame de Boigne afirmou que as irmãs nunca perdoaram Luísa por ter mantido a decisão em segredo e que, embora por vezes a visitassem, “não o faziam com sentimentos de prazer nem de amizade; a sua morte não lhes causou pesar”.[5]

A leitora das Mesdames, Madame Campan, recordou posteriormente que, certa noite, enquanto lia para Madame Luísa, chegou uma mensagem a informar que o ministro Henri Bertin desejava falar com ela. Luísa ausentou-se por breves instantes para se encontrar com ele e regressou de seguida para continuar o bordado e a leitura. Na manhã seguinte, quando Madame Campan voltou ao apartamento de Luísa para retomar o serviço, foi informada de que esta partira às sete horas para o convento.[4]
Segundo Campan, apenas o rei conhecia o desejo de Luísa, ao qual se opusera até à noite anterior. A princesa era já esperada no convento e apresentou-se à grade com um documento destinado ao seu escudeiro e à sua acompanhante, Madame de Guistel, comprovando que o rei autorizara a sua decisão. Pouco depois, Madame Campan visitou-a pessoalmente e encontrou-a a lavar roupa antes da audiência. Luísa comentou então: “Abusei bastante dos seus jovens pulmões durante dois anos antes da execução do meu projeto”, referindo-se ao facto de a ter feito ler até cinco horas por dia. Acrescentou ainda: “Sabia que aqui só poderia ler livros que conduzissem à nossa salvação e quis, por isso, rever todos os historiadores que me haviam interessado”.[5]
Oito meses após a sua chegada ao convento, Luísa vestiu o hábito numa cerimónia celebrada pelo núncio e à qual toda a sua família assistiu. Ela vestia um traje de cetim branco e joias de diamantes de grande valor. Como religiosa, adotou o nome de irmã Teresa de Santo Agostinho (Thérèse de Saint-Augustin). A nova delfina, Maria Antonieta da Áustria, que se tinha casado recentemente com o sobrinho de Luísa, foi quem lhe entregou o véu. Luísa pediu que a sua cela fosse ainda mais austera do que o habitual, mesmo para os padrões da ordem carmelita. O sermão proferido na ocasião foi publicado, algo pouco comum em França, o que evidencia o caráter excecional e mediático do acontecimento.[12] Católicos de todo o país celebraram a decisão de Luísa. Apesar disso, a princesa aceitou apenas com relutância algumas concessões destinadas a facilitar a sua adaptação a uma vida rigorosa; por exemplo, foi-lhe permitido utilizar uma corda para se orientar nas escadas estreitas do convento, algo que até então nunca fizera sem auxílio.[11]
Á semelhança das irmãs, Luísa opôs-se ao casamento do futuro rei de França com uma arquiduquesa austríaca. A união fora organizada pelo primeiro-ministro Étienne François de Choiseul, responsável também pela expulsão dos jesuítas. Embora as Mesdames aparentassem receber Maria Antonieta com cordialidade, procuravam secretamente prejudicá-la sempre que possível, movidas por ciúmes do seu estatuto superior. Luísa participou nesse distanciamento, mas, ao contrário das irmãs, não se tornou impopular, protegida pela sua condição religiosa.[4]
Luísa professou os seus votos religiosos definitivos em 11 de setembro de 1771. No dia seguinte realizou-se uma grande cerimónia pública, onde estiveram presentes cerca de vinte bispos e a família real. O véu negro foi-lhe entregue por outra sobrinha por afinidade, Maria Josefa de Saboia, condessa da Provença, numa cerimónia solene que marcou oficialmente a sua investidura como carmelita. Ao professar, Luísa adotou o nome religioso de Teresa de Santo Agostinho (Thérèse de Saint-Augustin), em homenagem a Teresa de Ávila, mística e reformadora da Ordem do Carmo.[11]
Mestra das noviças e tesoureira do convento
No dia seguinte à profissão dos seus votos definitivos, Luísa foi nomeada mestra das noviças, ficando responsável pela formação de treze jovens religiosas. Era estimada e respeitada pelas noviças pela sua orientação e dedicação.[13] No final de 1771, foi também designada dépositaire (tesoureira), passando a administrar as finanças do convento, função que exerceu durante muitos anos de forma ativa e diligente.[11]
Entre 1779 e 1785, supervisionou a reconstrução da igreja do convento, então em ruínas, sob a direção do arquiteto Richard Mique, fornecendo instruções detalhadas sobre as obras estruturais e a decoração. Opôs-se à realização de trabalhos aos domingos e dias festivos, exigindo que Mique se comprometesse por escrito a não construir nesses dias. Antes desse acordo, Luísa advertiu os trabalhadores contratados de que, se trabalhassem em dias santos, “o fariam para a glória de Deus” e que ela “sabia suficientemente bem controlar os cordões da bolsa para garantir que tal profanação não seria paga”.[11]
No convento, a sua saúde melhorou significativamente em relação ao período passado em Versalhes, com exceção de constipações ocasionais e crises de gota. Adaptou-se bem à vida conventual, mostrando-se satisfeita por servir as outras religiosas e cuidar das irmãs doentes. Participava também nos pequenos momentos de recreação comunitária, como a escrita de poemas ou o bordado.[11]
Prioreza

Madame Luísa foi prioreza durante dois mandatos seguidos, entre 1773 a 1779[14], e depois serviu um terceiro mandato de 1785 até sua morte em 23 de dezembro de 1787.[15] A decisão de se retirar da corte tornou Luísa de França uma figura de grande importância para o clero, que a solicitava frequentemente. Luísa utilizou a sua influência junto do rei Luís XV para garantir cargos e benefícios eclesiásticos a pessoas que ela apoiava.[5] De um modo geral, empregou o prestígio decorrente da sua condição de antiga princesa para promover a causa do catolicismo conservador na França, nomeadamente no combate ao jansenismo, uma das principais fontes de controvérsia teológica do período.[11]
Trabalhou ativamente na reconversão de religiosas que haviam aderido à doutrina jansenista. Como tradicionalista convicta, atribuía aos filósofos do Iluminismo a responsabilidade pela difusão daquilo que considerava ser a “impiedade”.[11]
Quando Luís XV se encontrava no seu leito de morte, em 1774, as Mesdames esforçaram-se por convencê-lo a confessar os seus pecados e a repudiar Madame du Barry como sinal de arrependimento. Luísa apoiou essa iniciativa através da oração no convento, tendo o objetivo sido alcançado.[4]
Em 26 de maio, duas semanas após a morte do rei, o seu neto Luís XVI (sobrinho de Luísa) visitou-a em Saint-Denis. Segundo relatos da época, Luísa continuou a interceder em favor de terceiros durante o reinado do sobrinho, a tal ponto que a rainha Maria Antonieta terá comentado a Madame de Boigne: “Eis mais uma carta da minha tia Luísa. Ela é, sem dúvida, a pequena carmelita mais intrigante do reino.”[5] Sempre que estavam em causa os interesses da Ordem do Carmo, Luísa não hesitava em corresponder-se com as autoridades seculares e em recorrer à sua influência real.[11]
Luísa recebia visitas frequentes da sua sobrinha, Madame Isabel, que desejava unir as suas orações às da tia pela saúde do rei. Relata-se um episódio ocorrido durante uma dessas visitas: Madame Isabel chegou certo dia muito cedo ao convento e pediu autorização para servir as religiosas durante o jantar. Obtida a permissão, vestiu um avental e, após beijar o chão em sinal de humildade, dirigiu-se à torre para recolher os pratos. Tudo decorreu sem incidentes até que, ao distribuir as porções, a bandeja lhe escorregou das mãos e um prato caiu. O seu embaraço foi extremo. Para a tranquilizar, Luísa declarou: “Minha sobrinha, depois de tal desajeitamento, a culpada deve beijar o chão.” Madame Isabel apressou-se a fazê-lo e retomou com alegria as suas funções de criada de mesa.[16]
Luísa foi também ativa na caridade. Em junho de 1782, prestou auxílio a treze freiras carmelitas expulsas de Bruxelas pelo imperador José II.[17]
Em novembro de 1787, o rei Luís XVI autorizou os protestantes a praticarem abertamente a sua religião e concedeu-lhes estatuto legal e civil através do Édito de Versalhes. Luísa, que considerava essa decisão uma traição ao juramento feito pelo rei na coroação de defender a fé católica, enviou-lhe uma carta de protesto com oito páginas, na qual criticava duramente os protestantes e exortava o soberano a reconsiderar a sua decisão.[4]
Morte
Luísa de França, conhecida em religião como Teresa de Santo Agostinho, faleceu em 23 de dezembro de 1787, em Saint-Denis, após sofrer de uma afeção no estômago. As suas últimas palavras foram, segundo uma freira carmelita que a assistiu: «Au paradis ! Vite ! Au grand galop !» (“Para o paraíso! Depressa! A todo o galope!”).[18] O seu sobrinho Luís XVI comentou a Madame Campan que, no “delírio” da morte, Luísa devia ter-se lembrado de que nascera princesa.[5]
Pouco mais de um ano depois da sua morte, a Revolução Francesa depôs a sua família do trono e afastou a Igreja Católica do poder em França. Os edifícios do convento de Saint-Denis sobreviveram às convulsões revolucionárias e atualmente albergam o Museu de Arte e História de Saint-Denis. Contudo, em 1793, os revolucionários que profanaram os túmulos dos reis de França na Basílica de Saint-Denis fizeram o mesmo com o cemitério do convento carmelita. Situados junto ao claustro, os restos mortais da família real foram exumados e lançados numa vala comum.[11]
Causa de beatificação e canonização
O processo de beatificação de Teresa de Santo Agostinho decorreu entre 1855 e 1867. A sua causa foi formalmente aberta em 16 de dezembro de 1902, data em que lhe foi atribuído o título de Serva de Deus. O processo então exigido de non cultu decorreu entre 1885 e 1886. O inquérito sobre a santidade realizou-se entre 1891 e 1892, seguido do processo das virtudes, conduzido entre 1896 e 1904. O decreto que validou estes processos foi publicado em 28 de novembro de 1906.[19]
Os trabalhos com vista à sua canonização foram retomados em Roma, segundo os novos protocolos em vigor, a 13 de dezembro de 1985.[20] Em janeiro de 1986 foi fundada uma associação destinada a apoiar a causa da sua beatificação.
O decreto relativo às virtudes heroicas de Teresa de Santo Agostinho foi promulgado em 18 de dezembro de 1997, declarando-a Venerável.[21] Até à data, a sua beatificação não avançou por falta de um milagre oficialmente reconhecido atribuído à sua intercessão.[20]
Ancestrais
| Ancestrais de Luísa Maria de França[22][23] | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Notas e referências
Notas
- ↑ Tecnicamente as filhas dos reis da França no Antigo Regime nunca foram princesas, elas ostentavam o título de Fille de France (Filha da França) e o tratamento Mesdame (Madame).[1]
Referências
- ↑ Chambaud, L. (1783). A Grammar of the French Tongue (em inglês). [S.l.]: C. Bathurst. p. 409.
- ↑ a b c d e f g h i j «Les Filles de Louis XV. L'Aile des Princes». collections-ressources.chateaudefontainebleau.fr (em francês). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d e f g h Stryenski, Casimir (1911). Mesdames de France, filles de Louis XV, documents inédits (em English). [S.l.]: É. Paul (Paris). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ a b c d e f g h Latour, Louis Therese (1927). Princesses Ladies and Salonnières of the Reign of Louis XV. Traduzido por Ivy E. Clegg. [S.l.]: Kegan Paul, Trench, Trubner & Co.
- ↑ a b c d e f g h i Boigne, Louise-Eléonore-Charlotte-Adélaide d'Osmond; Nicoullaud, Charles (1907). Memoirs of the Comtesse de Boigne (1781-1814). Prelinger Library. [S.l.]: London, Heinemann. Consultado em 3 de fevereiro de 2026
- ↑ Vincent, Bernard, Louis XVI, Folio, coll. "Folio biographies", February 2006, 368 p. ISBN 978-2070307494, p. 23.
- ↑ Hare, Augustus John Cuthbert, North-Eastern France, Macmillan, 1896, p. 143.
- ↑ Markham, Jacob Abbott, A History of France, Harper & Brothers, 1863, p. 143.
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