Jorge de Mello

 Nota: Para outros significados, veja Jorge de Melo (desambiguação).
Jorge de Mello
Nascimento1 de setembro de 1921
Sintra
Morte9 de novembro de 2013
CidadaniaPortugal
Ocupaçãoempresário

Jorge Augusto Caetano da Silva José de Mello (São Martinho, Sintra, 1 de setembro de 1921Lisboa, 9 de novembro de 2013) foi um empresário português.[1]

Foi presidente do Grupo CUF a partir de 1966, até ao período das nacionalizações da Revolução de 25 de Abril de 1974, tendo sucedido ao pai, Manuel de Mello nessa função (numa altura em que também ingressou nos órgãos do Grupo, como vice-presidente, o irmão mais novo, José Manuel de Mello)[1]. Depois da revolução, a retoma da sua atividade empresarial, passaria essencialmente pela Nutrinveste e a Sovena, bem como pela Tabaqueira, assim dando continuidade ao antigo Grupo CUF nos setores agroalimentar e de tabacos.[2]

Biografia

Neto de Alfredo da Silva e filho de Manuel de Mello[3], Jorge de Mello foi continuador da obra familiar no Grupo CUF, iniciado em 1865 e objeto de uma transformação no ano de 1898, conduzida pelo avô Alfredo, que desde aí assumira o seu comando e se empenharia na sua expansão, centrada na indústria química.[1]

O empresário frequentou o Colégio Infante de Sagres, em Benfica, e completou uma licenciatura em Finanças, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG).[1]

Presidente do Conselho de Administração do Grupo de 1966 a 1975 (sucedendo ao seu pai, que exercera o cargo de 1942 a 1966, ano da sua morte, após um período em que sofreu da doença de parkinson), deixaria o cargo quando o Grupo foi desmantelado enquanto organização empresarial privada, em virtude das nacionalizações da Revolução de 25 de Abril de 1974.[1]

Detendo perto de 180 empresas, o Grupo CUF tratava-se então do maior conglomerado empresarial da Península Ibérica, que chegara a representar cerca de 6% do PIB português e mais de 100 mil postos de trabalho. Na mesma altura, o grupo, na sequência de uma reestruturação ocorrida em finais dos anos 1960, ambicionava a internacionalização, procurando incrementar a sua abertura a capital estrangeiro. No leque de setores abrangidos pelas operações da CUF contava-se, desde logo, a área química, da origem da CUF, bem como indústrias relacionadas — aí se inserindo, por exemplo, a União Fabril do Azoto, de adubos, a União Fabril Farmacêutica, de medicamentos, a Fisipe, de fibras sintéticas, ou a Sonadel, de detergentes (detentora da marca Super Pop). No setor químico, o Grupo era então a quinta organização de maior dimensão na Europa.[4]

Não obstante essas áreas primordiais, desde o período de Alfredo da Silva e, particularmente, com Manuel de Mello, que a CUF se expandira para um conjunto de diversas outras áreas, compreendendo em todos eles das mais importantes empresas e marcas: no setor agroalimentar, com a Sovena (produtora dos azeites Oliveira da Serra e dos óleos Fula), a Compal e a Proalimentar; nos tabacos, com a Tabaqueira; nas celuloses, com a Celbi; na construção e reparação naval, com a Lisnave e a Setenave; nos transportes marítimos e logística, com a Soponata, a Companhia de Nacional de Navegação e a concessão dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo; nos transportes aéreos, com a TAP; na metalurgia, com a Companhia Portuguesa do Cobre; nas construções eletromecânicas, com a Efacec; na banca, com o Totta-Aliança, que depois se transformaria em Totta & Açores; nos seguros, com a Império e a Sagres; no imobiliário, com a Sodim; no retalho, com os supermercados Pão de Açúcar.[5]

Após o golpe de 11 de Março de 1975, Jorge de Mello seria preso no edifício sede da CUF, na Avenida Infante Santo, em Lisboa. Passaria dez dias na Prisão de Caxias, ao lado de uma cela ocupada por membros da Família Espírito Santo (de referir que era seu cunhado, casado com a sua irmã mais nova, Maria Amélia, Jose Maria Borges Coutinho do Espírito Santo Silva, filho de José Ribeiro do Espírito Santo Silva)[4].

A intervenção de várias personalidades, entre as quais o então Presidente da República Francesa, Valéry Giscard d’Estaing, permitiu o seu regresso à liberdade.[6] Refugiar-se-ia em seguida na Suíça e no Brasil, regressando definitivamente a Portugal em 1986.[4]

Por essa altura — estabilizada a democracia em Portugal e concretizada a opção pela adesão à União Europeia —, Jorge de Mello decidia reconstruir um grupo empresarial. As primeiras aquisições no período seguinte à Revolução passaram pela sociedade metalúrgica Oliveira & Ferreirinha, a fabricante de colchões Molaflex (que adquirira à família Moreira (Porto)), bem como duas aquisições relacionadas com a área agroalimentar, em que se concentraria a sua atividade nos anos seguintes: a Sociedade Alco, dedicada à extração, refinação e embalamento de óleos alimentares e, depois, a Fábrica Torrejana de Azeites.[7]

A partir dos anos 1990 (após a revisão constitucional de 1989, que punha fim à cláusula de irreversibilidade das nacionalizações), Jorge de Mello adquiria ao Estado a Tabaqueira nacionalizada — fazendo parceria com a Philip Morris International —, bem como (via Sociedade Alco) a Sovena, seguindo-se o controlo da Nutrinveste, holding de criação estatal, na qual tinham sido agrupadas outras empresas alimentares, além da Sovena, como a Compal e a Proalimentar, e empresas de cafés, aglomerados na filial Nutricafes (Nicola, Chave d'Ouro).[7]

A partir da Nutrinveste e da Tabaqueira o empresário dava continuidade ao antigo Grupo CUF nos seus ramos agroindustrial e de tabacos. Numa iniciativa paralela, o irmão José Manuel de Mello daria continuidade às atividades do Grupo nas áreas da indústria química, setor financeiro e serviços e concessões, através do Grupo José de Mello.[1]

Depois de algumas alienações, porém — nomeadamente da Tabaqueira, a Philip Morris, a Compal e a Caixa Geral de Depósitos —, Jorge de Mello acabaria por concentrar os seus negócios na área do azeite e dos óleos alimentares, ancorados, sobretudo, nas marcas Oliveira da Serra e Fula.[8]

Este relançamento empresarial foi alavancado com financiamento bancário e com o produto da venda de bens imobiliários — a casa onde nasceu, a Quinta da Riba Fria, e a Herdade do Peral, esta ultima comprada por Américo Amorim.[6]

Família, casamento e descendência

Jorge de Mello era o segundo de quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas) de Manuel de Mello e de Maria Amélia da Silva, filha de Alfredo da Silva, sendo sua irmã mais velha Maria Cristina, e mais novos Maria Amélia e José Manuel (este vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo CUF, aquando da Revolução de 25 de Abril de 1974).[1]

A 28 de julho de 1945, casou pela primeira vez, no Oratório do Palácio Marim-Olhão (dos Condes de Castro Marim e Marqueses de Olhão), em Xabregas, freguesia do Beato, em Lisboa, com Maria Eugénia José da Cunha Mendonça e Menezes, sua parente em terceiro grau na linha colateral, doméstica, então de 19 anos, natural da freguesia e concelho de Cascais, filha do médico Pedro José da Cunha Mendonça e Menezes, 4.º marquês de Olhão e 3.º marquês de Valada, natural de Lisboa (freguesia do Beato), e Maria da Assunção d'Orey da Cunha Mendonça e Menezes, doméstica, natural de Lisboa (freguesia de Santa Isabel).[1]

Teve por padrinho de casamento o seu cunhado António Champalimaud, casado com a sua irmã mais velha, Maria Cristina.[1]

Deste casamento nasceram 10 filhos.[1]

Por sentença de abril de 1979 de um tribunal suíço, foi decretada a separação de pessoas e bens entre o casal, que se converteu em divórcio por sentença transitada em julgado em 1991.

Casou pela segunda vez com Maria do Pilar Benito Garcia Salazar de Sousa.[3][1]

O filho Manuel Alfredo de Mello e o neto Jorge Salema Garcao José de Mello continuaram a ligação familiar na Nutrinveste/ Sovena, sendo Jorge de Melo, desde 2018, o CEO da Sovena, cargo em que sucedeu a António Simões.[2]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k «A saga dos Mello» 
  2. a b «Neto do fundador da Nutrinveste assume liderança da Sovena». www.jornaldenegocios.pt. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  3. a b «Livro de registo de casamentos da 5.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1945-07-23 - 1945-10-03)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 55 e 55v, assento 555 
  4. a b c «Visão | A saga dos Mello». Visão. 23 de junho de 2018. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  5. «Morreu Jorge de Mello». www.jornaldenegocios.pt. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  6. a b «O empresário que esteve no exílio duas vezes» 
  7. a b «Jorge de Mello. O homem que gostava de fábricas». Jornal i. 11 de novembro de 2013. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  8. «Morreu o empresário Jorge de Mello» 

Bibliografia

  • Alves, Jorge Fernandes - Jorge de Mello, “um Homem” – percursos de um empresário. Lisboa: Edições Inapa, 2004.