Hermenêutica do Concílio Vaticano II

A Hermenêutica da Continuidade, ou Hermenêutica do Vaticano II, refere-se às diferentes interpretações do Concílio Vaticano II dadas por teólogos e historiadores em relação à Igreja Católica Romana no período posterior ao Concílio. Há uma disputa em curso dentro do Clero da Igreja Católica, entre a "Hermenêutica da continuidade" e a "Hermenêutica da ruptura", também reconhecidas como duas linhas distintas, nomeadas como "Continuísmo" e "Tradicionalismo" frequentemente em dispustas filosóficas e teológicas. Com alguns propondo uma "terceira hermenêutica" nos moldes de John W. O'Malley . [1]

Este campo de pesquisa é ensinado em algumas universidades e explorado por sociedades científicas como a Escola de Bolonha e a Fundação João XXIII para as Ciências Religiosas . Historiadores como Giuseppe Alberigo, John W. O'Malley, Christoph Theobald, Gilles Routhier, Romano Amerio e Roberto de Mattei pesquisam rupturas percebidas ou reais com a doutrina Católica anterior ao Concílio Vaticano II, tanto de perspectivas progressistas quanto Tradicionalistas. Enquanto isso, Bento XVI enfatizou a continuidade do Concílio com os Concílios anteriores a ele e endossou uma "Hermenêutica da reforma". [2]

Interpretações do Concílio

Ao contrário de outros Concílios da Igreja Católica Romana, o Vaticano II apresenta um problema de interpretação que teólogos e historiadores têm enfrentado em relação ao legado do Concílio e à forma como este deve ser interpretado no mundo. Essa peculiaridade pode ser derivada da intenção do próprio Concílio, que não era definir "um ponto ou outro da doutrina e da disciplina", mas sim "restabelecer em valor e esplendor a substância do pensamento e da vida humana e cristã". Essa intenção foi seguida pela ausência de definições dogmáticas e afirmações de autoridade magisterial, o que deu origem a um debate sobre a natureza dos documentos e sua aplicação.

Todos os Concílios ecumênicos católicos tiveram historiadores que contribuiram para uma interpretação a partir dos seus pontos de vista respectivos. Roberto de Mattei[3] argumenta que apenas o Concílio Vaticano II teve duas hermenêuticas em disputa. De acordo com críticos, a presença dessa disputa ocorre pela ambiguidade ou ambivalência dos documentos do Concílio. Outros argumentam que a recepção conturbada do concílio é uma tendência, aparecendo desde o Primeiro Concílio de Niceia.

Hermenêutica da continuidade

Segundo a hermenêutica da continuidade, o Concílio Vaticano II deve ser interpretado à luz e em continuidade com o magistério da Igreja anterior e posterior ao Concílio, ou seja, à luz da Sagrada Tradição

Já em 1966, um ano após o encerramento do Concílio, o Papa Paulo VI destacou duas tendências interpretativas consideradas errôneas:


" E [...] parece-nos que dois possíveis erros devem ser evitados: primeiro, o de supor que o Concílio Ecumênico Vaticano II represente uma ruptura com a tradição doutrinal e disciplinar que o precede, quase como se fosse uma novidade tal que pudesse ser comparada a uma descoberta chocante, a uma emancipação subjetiva, que autoriza o distanciamento, quase uma pseudolibertação, daquilo que até ontem a Igreja ensinou e professou com autoridade [...] E outro erro, contrário à fidelidade que devemos ao Concílio, seria o de ignorar a imensa riqueza de ensinamentos e a providencial fecundidade renovadora que nos advém do próprio Concílio."

— Papa Paulo VI, Homilia por ocasião do primeiro aniversário do encerramento do Concílio, 8 de dezembro de 1966.[4]

Bento XVI foi o propositor e enfatizou uma "hermenêutica da continuidade".


A hermenêutica da continuidade foi explicitamente formulada pelo Papa Bento XVI em 22 de dezembro de 2005:


" Por que a recepção do Concílio, em grande parte da Igreja, tem sido tão difícil até agora? Bem, tudo depende da interpretação correta do Concílio ou – como diríamos hoje – da sua correta hermenêutica, da chave correta para lê-lo e aplicá-lo. Os problemas de recepção surgiram do fato de duas hermenêuticas contrárias se encontrarem em confronto e em disputa. Uma causou confusão, a outra, silenciosa, mas cada vez mais visível, deu frutos. De um lado, há uma interpretação que eu chamaria de "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"; ela frequentemente conseguiu se valer da simpatia da mídia de massa e também de uma parte da teologia moderna. De outro, há a "hermenêutica da reforma", da renovação na continuidade do único sujeito – a Igreja – que o Senhor nos deu; é um sujeito que cresce com o tempo e se desenvolve, mas permanece sempre o mesmo, o único sujeito do Povo de Deus em movimento. "

— Papa Bento XVI, Discurso à Cúria Romana, 22 de dezembro de 2005.[5]

Hermenêutica da ruptura

A hermenêutica da ruptura, também conhecida como hermenêutica da descontinuidade, tende a valorizar o Concílio como evento, considerando também algumas características particulares do Vaticano II: a ausência de um propósito histórico específico, a rejeição dos esquemas preparatórios originalmente apoiados pela Cúria Romana, a elaboração dos documentos pela assembleia e também a percepção do Concílio como um evento crucial pela opinião pública. Essa hermenêutica visa valorizar não apenas os documentos aprovados pelo Concílio, mas também os debates dentro da assembleia e a percepção do Concílio externamente, pelos fiéis.

Bento XVI, poucos meses após sua eleição como Papa, expressou uma severa crítica à hermenêutica da descontinuidade:


"A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de desembocar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio, enquanto tais, ainda não são a verdadeira expressão do espírito do Concílio. São o resultado de compromissos nos quais, para alcançar a unanimidade, muitas coisas antigas, agora inúteis, tiveram de ser arrastadas e reconfirmadas. No entanto, o verdadeiro espírito do Concílio não se revela nesses compromissos, mas sim nos impulsos para o novo que subjazem aos textos: só eles representam o verdadeiro espírito do Concílio e, a partir deles e em conformidade com eles, deve-se avançar. Precisamente porque os textos refletiriam apenas imperfeitamente o verdadeiro espírito do Concílio e a sua novidade, seria necessário ir corajosamente além dos textos, abrindo espaço para a novidade na qual se expressaria a intenção mais profunda, embora ainda indistinta, do Concílio. Numa palavra: seria necessário seguir não os textos do Concílio, mas o seu espírito."


— Papa Bento XVI, Discurso à Cúria Romana, 22 de dezembro de 2005.

Escola de Bolonha

Giuseppe Dossetti foi um progressista presente no Vaticano II e uma inspiração fundamental para a Escola de Bolonha e uma "hermenêutica de ruptura".

Os apoiadores progressistas da hermenêutica da descontinuidade são representados pela chamada "Escola de Bolonha" dirigida por Giuseppe Alberigo, aluno de Giuseppe Dossetti, autor de uma História do Concílio Vaticano II em cinco volumes. Eles "enfatizaram o 'espírito' do concílio, chamando os reformadores progressistas de heróis e a minoria conservadora no concílio de inimigos do progresso". Ela recebeu o nome da cidade de Bolonha, o centro intelectual desta escola de pensamento e a sede do principal órgão associado a esta linha de pensamento; a Fundação João XXIII para as Ciências Religiosas . [6] Outros pensadores importantes da Escola de Bolonha foram Alberto Melloni, Giuseppe Ruggieri e Maria Teresa Fattori . [6] Fora da Itália, esta abordagem é apoiada por David Berger, John W. O'Malley, Gilles Routhier e Cristoph Theobald .

Muitos grupos proponentes do Catolicismo tradicionalista, como a Fraternidade São Pio X, o Instituto do Bom Pastor, além de personas notórias como Carlos Nougué e o Padre Alvaro Calderón acusam o Concílio Vaticano II de4 colocar a igreja em uma direção voltada para valores humanistas[7], abandonado suas raízes religiosas.

Referências

  1. Roberts, Tom. «The new spin on Vatican II». National Catholic Reporter (em inglês) 
  2. Benedict XVI. «Christmas greetings to the Members of the Roman Curia and Prelature (December 22, 2005) | BENEDICT XVI». www.vatican.va. Consultado em 3 de setembro de 2025 
  3. de Mattei, Roberto (2019). Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta. [S.l.]: Lindau 
  4. VI, Paulo (8 de dezembro de 1966). «I ANNIVERSARIO DELLA CHIUSURA DEL CONCILIO ECUMENICO VATICANO II». Site do Vaticano. Consultado em 5 de setembro de 2025 
  5. XIV, Bento (22 de dezembro de 2005). «Discurso à Cúria Romana». Site do Vaticano. Consultado em 5 de setembro de 2025 
  6. a b Allen Jr., John L. (16 de janeiro de 2022). «Friendship between cardinal and politician cemented comeback of 'Bologna school'». Crux (em inglês). Consultado em 3 de setembro de 2025 
  7. Calderón, Álvaro (2020). Prometeu, a Religião do Homem. [S.l.]: Castela