Mit brennender Sorge

Mit brennender Sorge
Carta encíclica do papa Pio XI
Vigilanti cura Divini Redemptoris
Data 14 de março de 1937
Assunto Sobre a situação da Igreja Católica no Reich Alemão
Encíclica número 27 de 31 do pontífice
Papa Pio XI, que pontificou de 1922 a 1939

Mit brennender Sorge (em português: "Com ardente preocupação") é uma carta encíclica do Papa Pio XI, datada de 14 de março de 1937, na qual o Pontífice condena de modo explícito o nacional-socialismo (nazismo) e a sua ideologia racista, racialista e totalitária, incompatível com a fé cristã e com a dignidade da pessoa humana. O documento representa um dos mais contundentes posicionamentos da Santa Sé contra um regime político ainda em plena consolidação, num momento em que o Terceiro Reich gozava de considerável prestígio junto a setores da opinião pública europeia e internacional.

A encíclica foi publicada apenas cinco dias antes da Divini Redemptoris, na qual o mesmo Papa condenava o comunismo ateu, explicitando a resposta do magistério de Pio XI diante das grandes ideologias totalitárias do século XX. Embora, em 1933, o Pontífice tivesse negociado uma concordata com a Alemanha, na esperança de garantir a liberdade da Igreja e a proteção dos fiéis, o regime de Adolf Hitler rapidamente passou a violar sistematicamente os compromissos assumidos. Diante da repressão crescente, da propaganda anticristã e da tentativa de submeter a Igreja ao Estado, as advertências papais tornaram-se progressivamente mais severas, culminando na publicação desta encíclica.[1]

Mit brennender Sorge é considerada o primeiro documento público de um chefe de Estado europeu a denunciar abertamente o nazismo. Em passagens particularmente incisivas, o texto condena a absolutização da raça, do sangue e da nação, bem como o culto ao líder político, elementos centrais da ideologia nacional-socialista, contendo afirmações que muitos intérpretes veem como uma crítica direta ao próprio Führer:

"Aquele que, com sacrílego desconhecimento das diferenças essenciais entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, ousar colocar-se ao nível de Cristo, ou pior ainda, acima d'Ele ou contra Ele, um simples mortal, ainda que fosse o maior de todos os tempos, saiba que é um profeta de fantasias a quem se aplica espantosamente a palavra da Escritura: 'Aquele que mora nos céus zomba deles' (Salmo 2,4)".[2]

O documento desperta ainda especial interesse por ser uma das raras encíclicas cuja versão oficial não foi redigida em latim, mas em alemão, decisão deliberada do Papa para que a mensagem fosse compreendida diretamente pelos fiéis da Alemanha.

Após sua redação, cópias da encíclica foram enviadas clandestinamente para a Alemanha, a fim de evitar a apreensão pela Gestapo, e posteriormente reproduzidas por gráficas ligadas à Igreja Católica. Foram então distribuídas aos bispos, sacerdotes e capelães, com a ordem expressa de que fossem lidas em todas as paróquias alemãs após a homilia da Missa matutina do dia 21 de março de 1937, Domingo de Ramos. A escolha dessa data, uma das celebrações litúrgicas com maior presença de fiéis e autoridades no ano, visava maximizar o impacto da mensagem papal. O tom do documento distingue-se pela firmeza incomum e por uma retórica vigorosa, raramente vista em textos do magistério pontifício.[3]

A reação do regime nazista foi imediata e severa. Por meio da Gestapo, intensificou-se drasticamente a perseguição aos católicos, com a prisão de mais de mil clérigos, além do lançamento de uma ampla campanha anticlerical conduzida pelo ministro da Propaganda, Joseph Goebbels.[4] Publicada em um período em que a guerra ainda parecia distante, a encíclica surpreendeu pela clareza e pela coragem de sua denúncia, sendo alvo tanto de críticas na imprensa secular quanto de incompreensão por parte de alguns católicos leigos, que ainda acreditavam na possibilidade de uma convivência pacífica com o Terceiro Reich e não compreendiam a atitude do Pontífice. Com o passar do tempo, Mit brennender Sorge consolidou-se como um testemunho da resistência moral da Igreja frente ao totalitarismo do século XX.[5]

Para escrever o documento, Pio XI contou com a colaboração e as informações dos cardeais alemães Adolf Bertram, Michael von Faulhaber e Karl Joseph Schulte e dos dois bispos mais contrários ao regime hitlerista: Clemens von Gallen e Konrad von Preysing, além da intervenção decisiva do Cardeal Eugênio Pacelli — futuro Papa Pio XII — e dos seus auxiliares alemães, Mons. Ludwig Kaas e dos jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea.[5]

Conteúdo

Brasão pontifício de Pio XI

A Encíclica Mit Brennender Sorge fala de "direitos humanos inalienáveis dados por Deus" e invoca uma natureza humana que passa por cima de barreiras nacionais e raciais. No documento, o Papa Pio XI adverte: "Todo aquele que tome a raça, o povo ou o Estado (…) e os divinize em um culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus". O pontífice critica o que chama de "mito de sangue e solo", afirmando a incompatibilidade entre racismo e cristianismo.

"A revelação, que culminou no Evangelho de Jesus Cristo, é definitiva e obrigatória para sempre, não admite complementos de origem humana, e muito menos sucessões ou substituições por revelações arbitrárias, que alguns corifeus modernos pretenderiam fazer derivar do chamado mito do sangue e da raça. Desde que Cristo, o Ungido do Senhor, consumou a obra da redenção, quebrando o domínio do pecado e tornando-nos merecedores da graça de chegar a ser filhos de Deus, desde aquele momento não se deu aos homens nenhum outro nome sob o céu, para conseguir a bem-aventurança, senão o nome de Jesus. Por mais que um homem encarnasse em si toda a sabedoria, todo o poder e toda a pujança material da terra, não poderia assentar fundamento diverso daquele que Cristo colocou."
"Os livros sagrados do Antigo Testamento são todos palavra de Deus, parte substancial de sua revelação (…) Em algumas partes, fala-se da imperfeição do homem, da sua fraqueza e do pecado (…) Além de outros inumeráveis traços de grandeza e de nobreza, falam da tendência superficial e materialista que se manifestava reiteradamente no povo da Antiga Aliança, depositário da revelação e das promessas de Deus. (…) Mas quem não está cego pelo preconceito ou pela paixão pode notar que o que mais luminosamente resplandece, apesar da debilidade humana de que fala a história bíblica, é a divina luz do caminho da salvação que finalmente triunfa sobre todas as falhas e pecados."

A encíclica conclui dirigindo-se aos religiosos católicos da Alemanha em tom de encorajamento:

"A todos aqueles que conservaram para com seus Bispos a fidelidade prometida no dia do Crisma e da ordenação, àqueles que, no cumprimento de seus deveres pastorais e familiares, tiveram e têm de suportar dores e perseguições — alguns até serem encarcerados ou mandados a campos de trabalho —, a todos estes chegue a expressão de gratidão e a bênção do Pai da Cristandade. Nossa gratidão paterna se estende igualmente aos consagrados de ambos os sexos, uma gratidão unida a uma participação íntima pelo fato de que, como consequência de medidas contra as Ordens e Congregações religiosas, muitos foram arrancados do campo de uma atividade bendita e para eles gratíssima. Se alguns sucumbiram e se mostraram indignos da sua vocação, seus erros, condenados também pela Igreja, não diminuem o mérito da grandíssima maioria que com desinteresse e pobreza voluntária se esforça por servir com plena entrega ao seu Deus e ao seu povo. O zelo, a fidelidade, o esforço em aperfeiçoar-se, a solícita caridade para com o próximo e a prontidão benfeitora daqueles religiosos cuja atividade se desenvolve nos cuidados pastorais, nos hospitais e na escola, são e seguem sendo gloriosa aportação ao bem-estar público e privado. Que não se deixem abater. Um tempo futuro mais tranquilo lhes fará justiça mais que a turbulência que atravessamos."

Efeitos

Texto da Encíclica publicada pelo Bispo Ludwig, de Speyer, em 17 de março de 1937

Na época foi uma surpresa geral para os fiéis, as autoridades e a polícia, a leitura da encíclica nas missas do domingo de Ramos, 21 de março de 1937, em todos os templos católicos alemães, que eram então mais de 11 mil igrejas. Seu impacto entre as elites dirigentes alemãs foi forte.[6] Em toda a breve história do Terceiro Reich, nunca recebeu este na Alemanha uma contestação de amplitude e gravidade que se aproximasse da que se produziu com a Mit brennender Sorge. No entanto, o controle intensivo que o regime exercia sobre a imprensa e a falta de liberdade de circulação de informações impediu que o impacto fosse maior entre as massas, sendo seu conteúdo prontamente censurado e respondido com uma forte campanha publicitária anticlerical. No dia seguinte à leitura nos púlpitos, todas as paróquias e escritórios das dioceses alemãs foram visitados por oficiais da Gestapo que apreenderam as cópias do documento.

Como era de se esperar, no mesmo dia o órgão oficial nazista, Völkischer Beobachter, publicou uma primeira réplica à encíclica — que foi também a última. O ministro alemão da propaganda, Joseph Goebbels, foi suficientemente perspicaz para perceber a força do documento e entender que o mais conveniente era ignorá-lo completamente, fazendo uso do extensivo controle dos meios de comunicação que o Reich já possuía na altura para censurar o seu conteúdo e qualquer referência a ele.

Após a leitura e publicação da encíclica, as perseguições anticatólicas tiveram lugar, e as relações diplomáticas Berlim-Vaticano ficaram severamente estremecidas. Em maio de 1937, 1100 padres e religiosos são lançados nas prisões do Reich, e em 1938 304 sacerdotes católicos são deportados para Dachau. As organizações católicas são dissolvidas e as escolas confessionais interditadas.

Até à queda do regime nazista, cerca de onze mil sacerdotes católicos (quase metade do clero alemão dessa época) "foi atingido por medidas punitivas, política ou religiosamente motivadas, pelo regime nazista", terminando muitas vezes nos campos de concentração.[5]

Pio XII comentou em 1945:

[Mit brennender Sorge] desmascarou aos olhos do mundo aquilo que o nacional-socialismo era na realidade: a apostasia orgulhosa de Jesus Cristo, a negação da sua doutrina e da sua obra redentora, o culto da força; a idolatria da raça e do sangue, a opressão da liberdade humana.[7]

Ver também

Referências

  1. Mit Brennender Sorge (On the Church and the German Reich). March 10, 1937. Berkley Center for Religion, Peace, and World Affairs at Georgetown University.
  2. Bokenkotter, pp. 389–392: "And when Hitler showed increasing belligerence toward the Church, Pius met the challenge with a decisiveness that astonished the world. His encyclical Mit brennender Sorge was the 'first great official public document to dare to confront and criticize Nazism' and 'one of the greatest such condemnations ever issued by the Vatican.' ... It exposed the fallacy and denounced the Nazi myth of blood and soil; it decried its neopaganism, its war of annihilation against the Church, and even described the Führer himself as a 'mad prophet possessed of repulsive arrogance.'"
  3. «Uma das encíclicas mais corajosas já escritas por um Papa». Padre Paulo Ricardo. 8 de outubro de 2017. Consultado em 15 de dezembro de 2025 
  4. Sales, Eugênio. O Globo, 8 de novembro de 2008, p. 7
  5. a b c Bertone, Tarcísio, Cardeal Discurso na Pontifícia Universidade Gregoriana. Visitado em 19.11.2008.
  6. radiovaticana.org
  7. «A fronte della pace raggiunta vengono richiamati i doveri fondamentali della Chiesa (2 giugno 1945) | PIO XII». w2.vatican.va. Consultado em 7 de setembro de 2019 

Ligações externas