Non abbiamo bisogno

Non abbiamo bisogno
Carta encíclica do papa Pio XI
Quadragesimo Anno Nova Impendet
Data 29 de junho de 1931
Assunto Sobre o fascismo e a Ação Católica na Itália
Encíclica número 19 de 31 do pontífice
Brasão pontifício de Pio XI

Non abbiamo bisogno (em português: Nós não precisamos) é uma encíclica do Papa Pio XI, promulgada em 29 de junho de 1931, na qual o Pontífice condena diversos aspectos do fascismo italiano, especialmente suas pretensões totalitárias e sua interferência direta na vida religiosa e educativa da Igreja. O documento insere-se no contexto das crescentes tensões entre a Santa Sé e o regime de Benito Mussolini, poucos anos após a assinatura dos Pactos de Latrão (1929), que haviam regularizado as relações entre o Estado italiano e a Igreja Católica.

Na encíclica, Pio XI denuncia o projeto estatal de monopolizar a formação da juventude, “da infância à idade adulta”, submetendo-a exclusivamente à ideologia de um partido e de um regime, em clara violação da liberdade da Igreja e dos direitos da família. O Papa condena de modo particular a perseguição movida contra a Ação Católica, organização leiga que, por sua fidelidade à missão evangelizadora da Igreja, tornara-se alvo do regime fascista. Como represália direta à publicação da encíclica, Mussolini ordenou a dissolução das associações católicas de jovens em toda a Itália, intensificando o clima de hostilidade contra a ação pastoral da Igreja.[1]

Ao mesmo tempo, Non abbiamo bisogno reafirma a legitimidade dos Pactos de Latrão, deixando claro que a condenação papal não se dirigia à ordem civil em si, mas à transformação do fascismo em uma doutrina totalitária, que pretendia substituir a consciência moral, a fé cristã e a autoridade espiritual da Igreja por uma obediência absoluta ao Estado. Para Pio XI, tal pretensão constituía uma ameaça direta à dignidade humana e à liberdade religiosa.

Esta encíclica integra um conjunto coerente de pronunciamentos do Papa Pio XI contra as ideologias totalitárias do século XX. Em 1937, o mesmo Pontífice condenaria o nazismo e sua ideologia racista por meio da encíclica Mit brennender Sorge,[2] o que provocou dura reação do regime de Adolf Hitler e agravou a perseguição aos católicos na Alemanha.[3] No mesmo ano, publicou ainda a encíclica Divini Redemptoris, na qual denunciou o comunismo ateu, apresentando-o como intrinsecamente anticristão, antifamiliar e desumano.

Tanto Non abbiamo bisogno quanto Mit brennender Sorge figuram entre as raras encíclicas que não foram redigidas originalmente em latim, mas em línguas modernas, sinal da urgência pastoral e da intenção de alcançar diretamente os fiéis e a opinião pública diante da gravidade dos erros denunciados.

Ver também

Referências

  1. "Hitler's Pope? A Judgment Historically Unsustainable", Cardinal Tarcisio Bertone, S.D.B. Secretary of State, L'Osservatore Romano Weekly Edition in English 19 novembro 2008, pág.: 11.
  2. Bertone, Tarcísio, Cardeal Discurso na Pontifícia Universidade Gregoriana. Visitado em 19.11.2008.
  3. Sales,Eugênio. O Globo, 8.11.2008, pg.7

Ligações externas