Guerras do Zambeze

As Guerras do Zambeze[1][2] foram um longo conjunto de conflitos armados de 1840 a 1902 entre régulos, terratenentes e o governo português, que marcaram o território em torno do rio Zambeze, que hoje faz parte de Moçambique. Elas deflagraram após um catastrófico período de seca, fome e invasões de povos angunes, que desestabilizaram a região e só terminaram com a intervenção do exército português.
História
As Guerras do Zambeze deflagraram após a Grande Seca de Moçambique, seguidas pelas invasões angunes, que contribuíram para desestabilizar e despovoar a região, devido à fome à guerra e ao recrudescer do tráfico de escravos, entretanto proibido e perseguido pelas autoridades portuguesas e britânicas. As Guerras da Zambézia começaram em 1840, quando Pedro Caetano Pereira, conhecido como Choutama, régulo afro-goês de Macanga, derrotou Bive, régulo marave, que se refugiou em Tete e pediu auxílio à administração portuguesa ali sediada para recuperar o seu trono.[3]
As tropas portuguesas lograram invadir Macanga e obrigar o Choutama a negociar um acordo de rendição em 1843.[3] Isto não impediu a dinastia dos Pereiras de Macanga de expandir a sua influência e quando o Choutama morreu em 1849 a maior parte da região que se estendia do Lunagwa ao Chire reconhecia a sua soberania ou encontrava-se sob a sua influência.[3]
Conflitos entre os Pereiras os Da Cruz

Pedro Caetano Pereira foi sucedido por Chissaca, que atacou os prazos da Coroa portuguesa em redor de Tete, tendo como alvo as terras da família dos Da Cruz, que também procuravam expandir a sua influência na região.[3] Naquele ano haviam sido autorizados pelo governo a arrendar os prazos de Tipué e Massangano em redor do rio Zambeze, garantindo-lhes assim o controlo do tráfego fluvial entre Tete e o mar, o que preocupava Chissaca.[3]
A origem das desavenças entre os Pereiras de Macanga os Da Cruz de Massangano deveram-se a um presente de seis garrafas de gin oferecidas a Choutama, o que lhe causou a morte, algo plausível se as tiver bebido todas de uma só vez.[3] No entanto, Chissaca suspeitou de bruxaria e exigiu justiça.[3]
As autoridades portuguesas dispunham de poucos soldados na região e recorreram aos régulos aliados, como o de Chibisa, e aos contingentes de chicundas dos prazeiros para disferir um ataque contra Macanga ainda em 1849.[3] Em 1853, os Pereiras aliaram-se ao régulo de Barué, igualmente ameaçado pela ascensão dos Da Cruz e, juntos, sitiaram a vila fortificada de Massangano, a primeira vez que aquela célebre aringa foi atacada.[4] Chegados a Outubro, porém, a fome e as doenças haviam espalhado a desordem entre os guerreiros de Macanga e de Barué e como se aproximava a estação das chuvas eles começaram a retirar-se, dado que a maioria dos combatentes eram também agricultores.[4]
Intervenção do governo português, 1857-1861
O curso inferior do rio Zambeze era dominado pela família dos Vaz dos Anjos.[4] Em 1855 os chicundas de Paulo Mariano Vaz dos Anjos atacaram os prazos em redor de Sena e neste mesmo ano, o sultão Mussa Quanto de Angoche atacou a região entre o rio Shire e a costa.[4]
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As autoridades portuguesas procuraram restabelecer alguma ordem na região e começaram por prender Paulo Mariano quando este viajou até Quelimane em 1857 para tratar de negócios privados.[4] O irmão de Paulo Mariano respondeu construíndo uma grande aringa em Shamo mas no ano seguinte o governador de Quelimane dirigiu contra ela uma grande expedição composta por um núcleo de 2 oficiais e 130 soldados portugueses regulares e 3 canhões, auxiliados por 600 sipaios armados de espingardas e 300 com armas tradicionais.[5][6] Entre os testemunhos da campanha contavam-se membros da expedição de David Livingstone.[5] Paulo Mariano abandonou Shamo e retirou-se para os montes Morrumbala, de onde tudo fazia para recuperar o domínio do rio Zambeze. Em 1861, o governo português lançou uma nova expedição para desalojá-lo.[5]
Entretanto, a rivalidade entre o Reino Unido e França quanto às Comores e Zanzibar tornavam o cenário internacional ameaçador para Portugal em Moçambique pelo que, ainda em 1861, as autoridades portuguesas levaram a cabo um ataque contra Angoche para suprimir o tráfico de escravos que se desenvolvia ali.[5] Mussa Quanto logrou escapar e no ataque morreu o importante prazeiro João Bonifácio Alves da Silva, leal ao governo mas Angoche foi ocupada.[5] Após a expedições a Shamo e Angoche, no ano seguinte, Portugal reocupou o Zumbo, assim completando um trio de empreendimentos bem-sucedidos começados em 1858.[5]
Reveses em Massangano, 1867-1875
Após a rendição dos Pereira, Vaz dos Anjos e do sultão de Angoche, o governado de Tete Miguel Augusto de Gouveia decidiu empreender entre 1 e 6 de Julho de 1867 uma expedição contra a aringa de Massangano, eliminar aquela fortaleza construída ilegalmente por António da Cruz, conhecido como o Bonga, e prendê-lo.[7][8] Porém, a diversificada força portuguesa composta por 67 soldados portugueses, goeses e africanos, 3 canhões, 850 a 900 irregulares e 450 a 500 auxiliares munidos de armas tradicionais foi emboscada, morrendo na acção 282 a 332 homens, entre eles Augusto de Gouveia, o segundo governador do distrito a tombar na região, desde que em 1807 Norberto de Barbosa Vilasboas Ruão fora executado em 1807 pelo monomotapa.[7][9] Três novas expedições contra Massangano se seguiram até 1869 mas todas se viram obrigadas a retirar devido à falta de mantimentos ou foram rechaçadas pelos guerreiros leais a Bonga, sendo as cabeças dos portugueses expostas do topo das muralhas.[7] A grande paliçada de Massangano continuou, portanto, a funcionar como base de um grupo de foras-da-lei.[7]
Desde Novembro de 1869 que Bonga e os seus homens não ameaçavam caravanas, a navegação fluvial e não assaltavam propriedades mas, em 1874, a família dos Da Cruz atravessava uma crise, Bonga havia perdido numerosos seguidores e encontrava-se desconfiado para com os que lhe restavam.[10] A 19 de Junho de 1875 portanto, o governador Carlos Pedro Barahona da Costa assinou em Massangano um protocolo reintegrando Bonga na ordem pública em troca das peças de artilharia e pagamento de impostos em atraso.[10] Bonga morreu quatro anos mais tarde a 8 de Setembro de 1879 e sucedeu na direcção do seu prazo um dos seus numerosos meios-irmãos, Luís Vicente da Cruz, o Muchenga.[10]
Reocupação da Maganja da Costa, 1898
O prazo de Maganja da Costa constituiu-se numa república independente após a morte do seu titular, Vitorino Romão Alves da Silva.[11] A Maganja da Costa era bem povoada, rica em termos agrícolas e tinha grandes feiras anuais que eram destino popular de caravanas vindas do interior.[12] Os seus habitantes tinham uma identidade cultural e étnica própria e distinta.[13] Embora as autoridades de Maganja da Costa comparticipassem nas campanhas do governo português com tropas, na capital de Mpassué entraram em conflito com o Residente, ou cônsul, Luís Augusto Pimentel, e os 100 soldados landins colocados ali para o proteger.[14]
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O governador João de Azevedo Coutinho decidiu enviar para Mpassué um destacamento maior comandado por Jaime Augusto Vieira da Rocha com dois oficiais, cinco sargentos e soldados brancos, 55 polícias e soldados africanos, um canhão, 500 sipaios e 400 carregadores mas quando este fundou um fortim nas margens do rio Mabala foi ali cercado pelos guerreiros de Maganja da Costa.[15] Novo socorro foi enviado sob o comando de Pedro Massano de Amorim e, depois deste ter alcançado o fortim de Mabala, entrou em Mpassué, porém fora da capital a Maganja da Costa continuava insubmissa.[16]
De Quelimane, João de Azevedo Coutinho partiu em pessoa com uma grande força de 4000 homens, entre soldados e sipaios mas ao aproximar-se de Maganja da Costa as suas autoridades negociaram a rendição a 16 de Junho.[16]
A campanha do Barué, 1902
A maior e última campanha da Zambézia foi a campanha do Barué, reino independente na fronteira com a Rodésia e, por isso, de importância estratégica. Os portugueses mobilizaram mais de 15,000 homens, entre soldados e sipaios, e ocuparam o Barué.
Ver também
Referências
- ↑ Newitt, 1995, p. 275.
- ↑ Pélissier, 2000, I, p. 401.
- ↑ a b c d e f g h Malyn Newitt: História de Moçambique, 1995, Publicações Europa-América, p. 285.
- ↑ a b c d e Newitt, 1995, p. 286.
- ↑ a b c d e f Newitt, 1995, p. 287.
- ↑ Pélissier, 2000, I, p. 115.
- ↑ a b c d Newitt, 1995, pp. 288-290.
- ↑ Pélissier, 2000, I, p. 421.
- ↑ Pélissier, 2000, I, p. 422.
- ↑ a b c René Pélissier: História de Moçambique: Formação e Oposição 1854-1918, I, Editorial Estampa, 2000, pp. 445-447.
- ↑ Botelho, José Justino Teixeira (1921). História militar e política dos Portugueses en Moçambique de 1833 aos nossos dias, Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 537.
- ↑ Bonate, Liazzat J. K. (2004). Violences et contrôle de la violence au Brésil, en Afrique et à Goa, Karthala Editions, p. 125.
- ↑ Alexander Keese: Ethnicity and the Long-term Perspective The African Experience, Peter Lang AG, 2010, p. 87.
- ↑ Pelissier, 2000, p. 113.
- ↑ Pelissier, 2000, p. 114.
- ↑ a b Pelissier, 2000, p. 115.