República de Maganja da Costa
A república militar de Maganja da Costa foi um antigo estado independente situado no distrito de Maganja da Costa, em Moçambique, que existiu entre 1874 e 1898. Os seus habitantes, chamados maganjeiros, tinham uma identidade étnica própria e distinta.[1]
História
A república formara-se a partir de um antigo Prazo da Coroa após a morte do prazeiro Vitorino Romão Alves da Silva, em 1874, que servia de elo com as autoridades portuguesa.[2] Na costa estendia-se entre o Rio o Licungo e Moninga e considerava o Rio Melela como a sua fronteira oriental.[3] O prazo era bem povoado, rico em termos agrícolas e tinha grandes feiras anuais que eram destino popular de caravanas vindas do interior.[4] Estimava-se a sua população em 100,000 almas.[2]
Maganja da Costa dispunha de um dispositivo militar único na história moçambicana e até africana, organizado em doze ensacas (regimentos), tendo cada um deles 1000 a 1200 homens.[3][2] Os sargentos de cada um deles elegiam um cazembe para liderar a ensaca e os 12 cazembes formavam o conselho de guerra, que era presidida por um capitão na grande "aringa" (povoação fortificada) de M'Passué.[3][2] A este capitão servia uma autoridade incumbida das questões administrativas.[2] A vila de Maganja tinha cerca de 1000 cabanas, algumas caiadas, a um canto do seu recinto fortificado, mas espaço para um acampamento de 20,000 guerreiros.[2] Cada cazembe detinha, porém, a sua própria jurisdição e era responsável pela cobrança de impostos.[3] Os regimentos de Maganja da Costa renovavam os seus efectivos iniciando recrutas através de rituais mais ou menos violentos.[1]
O sucessor oficial de Vitorino Romão Alves da Silva era Mariano Henrique de Nazaré, um descendente afastado e negociante no porto de Bajone, no rio Moninga, que fornecia às autoridades portuguesas os sipaios para as expedições militares ou faxinas, representado em M'Passué pelo seu lugar-tenente, o muzungo Aurélio.[3] Porém o seu poder era reduzido.[3]
Em 1884, Maganja da Costa forneceu ao governo português um contingente de auxiliares para reprimir a revolta de Massingire. Um regimento da Maganja da Costa participou na expedição de António Maria Cardoso ao Niassa, entre Novembro de 1888 e Março de 1889 e na de Serpa Pinto ao Chinde em Agosto-Novembro 1889. Maganja da Costa também forneceu um destacamento de chicundas para a grande campanha de João de Azevedo Coutinho contra Massangano.[5]
Após a Batalha de Mafunda a 19 de Novembro de 1891, os chicundas aos quais João Coutinho mandara retirar sem soldo amotinaram-se e, no caminho de regresso a M'Passué saquearam Vila Formosa, capital do prazo de Boror, que destruíram por completo.[5] Duas semanas depois, aproximaram-se então de Quelimane, capital do distrito, para tentar saqueá-la também.[5] Invadiram Namacurra, avançaram na direção de Maquival mas foram impedidos de atravessar o rio Macusse pelas tropas europeias enviadas de urgência pelo comissário régio António Enes e pela chegada de uma canhoneira que os conteve.[5]
Em 1895, o Residente português em M'Passue, espécie de cônsul, foi expulso, obrigando o governador de Quelimane João Manuel Guerreiro de Amorim a dirigir-se pessoalmente a M'Passué para instalar um novo Residente.[6] Em fins de 1897, o chefe do Estado Maior do governador-geral Mouzinho de Albuquerque, Aires de Ornelas, visitou M'Passué para obter apoio militar contra o sultanato de Angoche, porém foi mal recebido.[6] Depois de partir, o governo-geral decidiu instalar uma companhia de tropas africanas junto do Residente de M'Passué e em Abril de 1898 chegaram 100 landins sob o comando de Luís Augusto Pimentel.[6]
A guerra com Portugal e o fim da república
Os cazembes da Maganja da Costa entraram em conflito com Luís Augusto Pimentel e os seus landins e tentaram isolá-los em M'Passué interceptando o correio.[6] O governador João de Azevedo Coutinho decidiu portanto enviar um comboio de socorro comandado pelo capitão Jaime Augusto Vieira da Rocha com dois oficiais, cinco sargentos e soldados brancos, 55 polícias e soldados africanos, um canhão 500 sipaios e 400 carregadores.[7] A 8-10 de Maio estavam no Licungo e, ali, construíram um fortim.[7] O capitão Vieira da Rocha tentou atravessour o rio Mabala a 13 de Maio mas este estava defendido pelos chicundas da Maganja da Costa e a 14 foi cercado na margem esquerda do rio e entrincheirou-se.[7] Em M'Passué, Luís Augusto Pimentel encontrava-se também cercado e de comunicações cortadas com os homens de Vieira da Rocha.[7] O comando da Maganja da Costa, porém, encontrava-se em crise e dividido desde uma revolta de chicundas em 1897.[7]
Entretanto, João de Azevedo Coutinho decidiu organizar o socorro a Vieira da Rocha e Augusto Pimentel.[8] Pedro Massano de Amorim, um oficial competente, foi enviado a esvaziar as guarnições da Baixa Zambézia e em Quelimane mandou desembarcar alguns marinheiros.[8] Também recorreu aos irmão Bivar Pinto Lopes, os Ferrões, chefes de sipaios de Sena que em 1897 o tinham auxiliado contra o chefe Cambuemba.[8]
O primeiro a chegar foi Pedro Francisco Massano de Amorim, a 21 de Maio, com 3 oficiais, 3 sargentos brancos, 56 soldados, 16 marinheiros, 3 canhões, 500 sipaios e 600 carregadores.[8] A 23 ou 24 alcançou Mabala, onde encontrou Veira da Rocha e a sua força em estado crítico, tendo por então já perdido uns 24 sipais.[9] A 27 entrou em M'Passué sem estorvo.[8] O cerco aos portugueses ali retido fora tímido e os assaltantes dispersaram após 100 tiros de canhão.[8] A Maganja da Costa continuava, porém, insubmissa.[8]
Em Quelimane, João de Azevedo Coutinho tinha reunido a 9 de Junho uma grande hoste de mais de 4000 guerreiros entusiasmados pela reputação de Azevedo Countinho e pela expectativa de saque.[8] Partida esta força, a 16 de Junho as autoridade de Maganja da Costa decidiram negociar a rendição antes que Azevedo Coutinho tivesse atravessado o Magala.[8] Coutinho dirigiu-se sozinho, de noite, ao local de encontro e exigiu o pagamento de imposto, entrega de armas e punição dos responsáveis pela morte do um oficial da marinha Simeão de Oliveira.[8] Estas condições foram aceites e a guerra terminou, tendo o governador entrado triunfalmente com 6000 homens na grande aringa.[10] A república sofrera 600 mortos e 600 prisioneiros de guerra.[11] A pacificação de Maganja da Costa foi a última e mais substancial das campanhas para a submissão da Zambézia.[2]
Ver também
Referências
- ↑ a b Alexander Keese: Ethnicity and the Long-term Perspective The African Experience, Peter Lang AG, 2010, p. 87.
- ↑ a b c d e f g Botelho, José Justino Teixeira (1921). História militar e política dos Portugueses en Moçambique de 1833 aos nossos dias, Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 537.
- ↑ a b c d e f Pelissier, 2000, p. 110.
- ↑ Bonate, Liazzat J. K. (2004). Violences et contrôle de la violence au Brésil, en Afrique et à Goa (em inglês). [S.l.]: KARTHALA Editions. p. 125. Consultado em 23 de junho de 2025
- ↑ a b c d Pelissier, 2000, p. 112.
- ↑ a b c d Pelissier, 2000, p. 113.
- ↑ a b c d e Pelissier, 2000, p. 114.
- ↑ a b c d e f g h i j Pelissier, 2000, p. 115.
- ↑ Botelho, 1921, p. 541.
- ↑ René Pélissier: História de Moçambique: Formação e Oposição, 1854-1918, Editorial Estampa, 2000, p. 116.
- ↑ Pélissier, 2000, p. 117.