Geobiologia

Os coloridos tapetes microbianos da Grand Prismatic Spring no Parque Nacional de Yellowstone, EUA. As esteiras laranja são compostas por Cloroflexia, "Cianobactérias" e outros organismos que prosperam na água a 70˚C. Os geobiólogos frequentemente estudam ambientes extremos como este porque são o lar de organismos extremofílicos. Foi levantada a hipótese de que esses ambientes podem ser representativos da Terra primitiva.[1]

Geobiologia é um campo da ciência relativamente novo que estuda as interações entre os organismos vivos e os processos geológicos da Terra. Não confundir com a pseudociência que também utiliza o mesmo nome ou que as vezes é chamada de geobiologia residencial e que faz uso da radiestesia, que é uma técnica de adivinhação que visa encontrar objetos, seres vivos ou elementos da natureza sem o uso de equipamentos científicos. A geobiologia busca entender como se deu a evolução geológica e biológica terrestre de maneira conjunta, pois atualmente sabemos que esses processos estão intimamente relacionados, assim entendemos hoje que estudar a história geológica e biológica da Terra de maneira separada traz uma compreensão parcial de como esses processos se deram. Para se entender o presente da Terra é essencial entender o passado e estudar a litosfera, a biosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a criosfera, pensando nessas estruturas terrestres como um único sistema onde um interfere no outro de maneira contínua. [2]

Áreas

A geobiologia é uma área interdisciplinar que engloba diversos campos de estudo, dentre eles podemos citar a geologia, biologia, ecologia, microbiologia, paleontologia, biogeoquímica e até mesmo a astrobiologia, os conhecimentos dessas áreas são aplicados para entender desde a formação da Terra, seu passado, e relacionando ele com o presente geológico e biológico da Terra. Essa área interdisciplinar busca compreender como os processos biológicos impactam o ambiente terrestre e vice-versa. Um dos principais objetivos da geobiologia é explorar como a vida moldou a Terra e como o ambiente geológico influenciou a evolução dos organismos. Esse campo de estudo é essencial para compreender o desenvolvimento da biosfera e da geosfera como um sistema interligado.[3]

Ciclos biogeoquímicos

A interação entre microrganismos e minerais é uma área de estudo fundamental dentro da geobiologia, principalmente devido aos ciclos biogeoquímicos essenciais para a vida na Terra. Os Microrganismos desempenham papéis cruciais nos ciclos do carbono, enxofre e nitrogênio. Bactérias e arqueias conseguem metabolizar esses compostos podendo modificar quimicamente os minerais e compostos orgânicos, promovendo a circulação desses elementos no ambiente. Alguns microrganismos, por exemplo, conseguem realizar a metanogênese, que é a produção de metano a partir de dióxido de carbono e hidrogênio, esses elementos são cruciais no ciclo do carbono, esse processo ocorre em ambientes anóxicos, como em ambientes bentônicos e em fumarolas, e é fundamental para a produção de gás natural. A atividade microbiana também é importante na mineralização de metais, formando depósitos de minério ao longo de milhões de anos. A formação de minerais como a pirita, um sulfeto de ferro, muitas vezes envolve a participação de microrganismos redutores de sulfato, que reduzem o sulfato a sulfeto em ambientes anóxicos, promovendo assim a precipitação do ferro. Outros microrganismos são produtores primários e por isso são muito importantes para a vida na Terra, são eles as cianobactérias e outras algas, eles sequestram dióxido de carbono e produzem oxigênio e são responsáveis por grande parte do oxigênio disponível na atmosfera terrestre, esses microrganismos foram uma das primeiras formas de vida a colonizar a terra e eles foram os principais responsáveis pelos eventos de oxigenação da terra que mudaram totalmente nossa atmosfera e que impactou diretamente as formas de vidas existentes da época, que eram, na sua maioria, anóxicas e que com o tempo passaram a ser minoria dando mais espaço para formas de vida aeróbias conforme o oxigênio foi aumentando gradualmente. Os organismos macroscópicos, animais, vegetais e fungos, também fazem parte desses ciclos e desempenham diversos papeis fazendo parte do sistema como todo, desde participando dos ciclos biogeoquímicos quanto alterando a geosfera de outras maneiras, como por exemplo, participando de processos como a erosão e da sedimentação.[4]

Paleontologia

Outro tema importante dentro da geobiologia é o estudo de fósseis e de fósseis microbianos pela paleontologia. Os fósseis e os icnofósseis proporcionam informações essenciais sobre as condições ambientais passadas. Fósseis microbianos são registros antigos de vida que podem incluir microrganismos fossilizados, e alguns desses microrganismos podem ser usados para medir isótopos estáveis e biomarcadores moleculares. Esses fósseis podem ser encontrados em formações rochosas antigas, como estromatólitos, estruturas rochosas formadas pela atividade de cianobactérias no passado em ambientes aquáticos rasos. Os estromatólitos são evidências de que a vida microbiana existe há pelo menos 3,5 bilhões de anos, o que nos mostra que os microrganismos são a forma de vida mais antiga do planeta Terra, o estudo desses micro fósseis nos permite entender sobre a evolução e a diversidade da vida do nosso planeta.

O Marco antropoceno

O estudo do antropoceno é feito, tanto pela arqueologia e pela História, que estuda o surgimento do Homem na história, de como nossa sociedade surgiu e evoluiu ao longo dos séculos a partir dos resquícios deixados pelas sociedades antigas, esses vestígios podem ser desde pinturas deixadas em paredes de cavernas até ferramentas, objetos e ruínas de cidades e monumentos, quanto pela geobiologia, que estuda como a evolução da civilização e de sua tecnologia afeta o meio ambiente, sabemos que uma das maiores alterações que o Homem causou no meio ambiente e que continua a causar foi  e ainda é a queima de combustíveis fósseis que alterou significativamente as taxas da gás carbônico, podemos também citar a liberação de CFCS que eram altamente usados em aerossóis e que danificaram a camada de ozônio, graças ao tratado de Montreal o uso de CFCs diminuiu drasticamente e a camada de ozônio vem se regenerando desde então.[5]

Astrobiologia

 A geobiologia também pode ser aplicada em ramos da astrobiologia, haja vista que compreender os processos biológicos e geológicos da Terra pode auxiliar na busca por vida em exoplanetas ou exoluas. Algumas das possíveis aplicações da geobiologia em conjunto com a astrobiologia são

Habitabilidade

A indagação da possibilidade de vida no universo, acompanha a humanidade desde épocas remotas, com as primeiras afirmações sobre outros mundos remontando a Epicuro (341-270 a.C.), onde em cartas trocadas com Heródoto, afirmou a possibilidade da existência de infinitos mundos. Posteriormente, o maior defensor desta teoria foi o filósofo Giordano Bruno (1548-1600), o qual propôs diversos pontos, como, que o universo é infinito e que existem inúmeros universos habitados.

Esta concepção e curiosidade não permaneceu presa no tempo, permeando a maioria dos pensadores das diversas eras. Entretanto, com o avanço dos estudos na área de exoplanetologia, importantes avanços tecnológicos e com o aumento de investimento e criação de missões espaciais como Kepler, TESS, CoRoT e Hubble, houve um aumento exponencial da detecção de exoplanetas, incluindo exoplanetas similares à Terra. Com isto, as ideias primordiais filosóficas sobre a existência de vida em outros mundos, ganharam força e passaram a ser de fato estudados e postas em prática,  tornando-se uma das principais frentes da ciência.

Com o avanço das pesquisas na área, foram postulados modelos de habitabilidade planetária, com o objetivo de modular e determinar a possibilidade de habitabilidade dos exoplanetas. O primeiro modelo de estudo de habitabilidade aplicado a exoplanetas foi proposto por James F. Kasting, o qual focava principalmente na possibilidade de um exoplaneta manter água no estado líquido [6]

O modelo de Kasting et al apresentava diversas simplificações, onde o limite interno para a zona habitável era determinado pela perda de água enquanto o limite externo era determinado pela  pela formação de nuvens de , influência na temperatura e albedo geométrico do exoplaneta. Entretanto, ao longo dos anos foram realizados diversos ajustes e reformulações neste modelo de habitabilidade, sendo o principal, e mais utilizado atualmente, o apresentado no artigos [7][8]

Modelo Koparapu

O método de determinação de habitabilidade apresentado nos trabalhos [7] e,[8] trazem uma remodelação e melhoria do conceito e limites de habitabilidade apresentados no modelo citado anteriormente, apresentado no artigo.[6] Diferente do modelo apresentado por Kasting et al, o modelo apresentado por Koparrapu et al,utiliza modelos de banda que foram baseados nos bancos de dados espectroscópicos HITRAN e HITEMP. A partir deste banco de dados, o modelo proposto por Koparrapu et al utilizou um modelo climático radiativo-convectivo unidimensional, para obter as zonas habitáveis dos exoplanetas. Este modelo pode-ser aplicado para estrelas na sequência principal tipo F, G, K e M, podendo ser aplicado para estrelas com temperatura superficial entre 2600<T_eff< 7200 K.

A partir desse estudo, foi possível determinar cinco regiões que delimitam a habitabilidade, além de trazer informações prévias sobre a atmosfera do exoplaneta, dependendo da sua posição na zona habitável. As regiões são

  • Recent Vênus: É definido como o limite onde um planeta semelhante à Terra perderia sua água através de fotodissociação e escape de hidrogênio
  • Runaway Greenhouse: É definido como o limite onde a radiação emitida pela estrela atinge um valor limite e o oceano evapora completamente.
  • Moist Greenhouse: É definido como o limite onde a estratosfera fica úmida, com grande presença de vapor d'água.
  • Maximum Greenhouse: Define uma estimativa conservadora da borda externa da zona habitável. É determinado pelo mínimo no fluxo estelar efetivo (S_eff), representando o máximo aquecimento por efeito estufa que gases como podem proporcionar para manter água líquida.
  • Early mars: Representa o limite externo mais otimista, baseado nas condições que Marte pode ter tido no início de sua história, quando possivelmente havia água líquida em sua superfície. Esse limite considera que com uma atmosfera mais densa de , Marte antigo poderia ter sido habitável.

Existem dois métodos para definir a zona habitável, sendo o método rígido no qual considera a borda interna e externa da zona habitável a região entre a Runaway Greenhouse e Maximum Greenhouse, e o método otimista, que considera o a zona habitável a região entre Recent Vênus e Early mars.

Matematicamente, o modelo apresentado por Koparrapu et al em [7] e,[8] utiliza o fluxo estelar efetivo, o qual é determinado como a quantidade de energia luminosa por unidade de área por unidade de tempo que atinge uma determinada localização, em conjunto com a temperatura  efetiva da estrela hospedeira e sua luminosidade. A equação o fluxo estelar efetivo é dado por

Onde é o fluxo estelar efetivo do sol e . Os valores das constantes a, b, c e d são dados por.[7]

A partir desta equação e dos seus coeficientes, pode-se calcular a posição de cada uma das regiões que definem a zona habitável. Para determinar a posição de cada região, é utilizada a equação

Onde d representa a posição em unidades astronômicas, que pode calcular cada uma das posições das cinco regiões, ajustando o valor de . Os parâmetros e , representam a luminosidade da estrela hospedeira e do sol, respectivamente. A luminosidade de uma estrela pode ser obtida pela equação de Stefan-Boltzmann, a qual é dada por Onde a luminosidade da estrela depende do raio e temperatura efetiva da estrela, bem como da constante de Stefan-Boltzmann, que tem valor

Caracterização

Além da habitabilidade de um exoplaneta, outro ponto de conexão entre a astrobiologia e geobiologia, no tocante a busca por vida fora da terra, está presente nas caracterizações e classificações planetários, as quais podem ajudar a detectar possíveis exoplanetas semelhantes à Terra, ou mesmo habitáveis. A caracterização planetária é necessária para que seja possível aplicar filtros de habitabilidades conhecidos na Terra, e assim investigar a possibilidade e probabilidade de vida em outros exoplanetas, limites estes, por muitas vezes, atribuídos a estudos geobiológicos das interações presentes na terra, como por exemplo o estudo de extremófilos. A caracterização planetária, uma área que transita entre a exoplanetologia, astrobiologia e geobiologia, inicia-se com a detecção planetária, que pode ocorre de diversas formas, sendo as principais:

  • Trânsito planetário
  • Velocidade radial
  • Imageamento direto

Cada uma apresenta sua peculiaridade. Após a detecção, alguns parâmetros podem ser obtidos, como raio, através da equação

Onde é o raio do planeta, $$\delta$$ é a profundidade de trânsito e é o raio da estrela. Ainda em uma caracterização física do exoplaneta, a massa pode ser dada por

Esta equação pode ser vista nos trabalhos [9][10][11]

Continuando a caracterização, pode-se determinar parâmetros como densidade e gravidade superficial, utilizando a aproximação que os exoplanetas são esferas perfeitas. Desta forma, temos que a densidade é dada por

Já a gravidade é dada por

Ainda, pode-se determinar parâmetros que inferem sobre a possibilidade de habitabilidade, como temperatura efetiva e superficial do exoplaneta, bem como a pressão superficial presente na superfície do exoplaneta. Para a temperatura efetiva, pode-se utilizar a equação utilizado pelo artigo,[12] a qual é dada por

Onde é a temperatura de equilíbrio do exoplaneta, e   são respectivamente a temperatura efetiva e o raio da estrela hospedeira, e são o semi-eixo maior e  o albedo do exoplaneta. Já a temperatura superficial do exoplaneta, presente no artigo,[12] é da forma

Onde $$G_a$$ é uma função que depende do tipo planetário que o exoplaneta foi caracterizado. pode ter os seguintes valores

  • Para uma exoplaneta análogo a Mercúrio:
  • Para uma exoplaneta análogo a Marte:
  • Para uma exoplaneta análogo a Vênus:
  • Para uma exoplaneta análogo a Terra:

E por fim, a pressão superficial do exoplaneta, presente também no artigo,[12] é dada por

Onde é a pressão superficial terrestre, e é uma constante que varia de acordo com o tipo planetário análogo. Os valores de podem ser

  • Para uma exoplaneta análogo a Mercúrio:
  • Para uma exoplaneta análogo a Marte:
  • Para uma exoplaneta análogo a Vênus:
  • Para uma exoplaneta análogo a Terra:

Através destas equações, é possível caracterização diversos parâmetros do exoplaneta que está sendo analisando, trazendo ferramentas para classificar-lo quanto a possibilidade de conter vida.

Extremófilos

Outro ponto importante na busca de vida na imensidão do universo, foi a descoberta de Thomas Brock, o qual observou micro-organismos que eram capazes de sobreviver nos gêiseres do Parque Nacional de Yellowstone (EUA), onde as temperaturas ultrapassaram os 80ºC, uma condição  na qual se acreditava que a vida não poderia existir vida.[13]

Esses organismos foram definidos como extremófilos, o qual representa um organismo capaz de sobreviver a condições extremas em relação a diversos parâmetros do seu habitat, como temperatura, radiação UV, pressão, pH dentro outros.[14] Após a descoberta destes primeiros extremófilos, diversos outros estudos em regiões extremas foram realizadas, sendo identificados diversas categorias de extremófilos, as quais são

Extremófilo ambiente extremo
Termófilos Altas temperaturas (T>50º)
Hipertermófilos Altas temperaturas (T>80º)
Psicrófilos Baixas Temperaturas (T<10º)
Barófilos Altas pressões
Radiotolerantes Resistentes à radiação
Acidófilos Meio ácido (pH<6)
Alcalófilos Meio básico (pH>8)
Xerófilos Capacidade de realizar anidrobiose
Halófilos Meio hipersalino

Estas denominações podem ser obtidas no trabalho.[15] Estes organismos abrem margem para a busca de vida, possibilitando portanto, procurar por vida em exoplanetas extremófilos, os quais podem possuir uma ou mais características extremófilas. Ou seja, com o estudo geobiológico da interação entre os extremófilos e as condições que eles que se adaptam, este conhecimento pode ser amplificado e utilizado na busca de vida fora da Terra.

Ambientes análogos terrestres

Outro ponto onde a geobiologia e a astrobiologia atuam mutuamente, é no estudo de ambientes análogos terrestres, que podem trazer informações sobre habitabilidade de regiões do universo, ou mesmo do nosso sistema solar (como Marte e a lua de Júpiter, Europa). Ambientes análogos terrestres são denominados como regiões da Terra que possuem semelhanças em aspectos importantes de locais extraterrestres, seja em quesito de parâmetros ambientais ou superficiais.[16] Ainda, ambientes análogos muitas vezes estão ligados, direta ou indiretamente, ao estudo de organismos extremófilos. Alguns ambientes considerados análogos são:

Região da Puna

A Puna do Atacama é uma região caracterizada pela alta altitude, sendo um planalto árido presente nos Andes. A Puna estende-se, principalmente, entre a Argentina e o Chile. Suas principais características são as altas altitudes, clima árido, com presença de vulcões, salares e montanhas. Devido sua altitude, os lagos presentes nesta região apresentam alta radiação UV, aridez e lagos hipersalinos.

Por conta destes fatores, muitos lagos e lagoas presentes na Puna do Atacama, são considerados como análogos terrestres aos possíveis lagos presentes no Marte primitivo.[17] Estes lagos são geralmente denominados de Lagos Andinos de Alta Altitude (HAAL), e são muito estudados por suas semelhanças aos teóricos lagos de Marte.

Lago Vostok

O lago Vostok, localizado na Antártida, apresenta-se como um lago com pelo menos 240 km de comprimento e 50 de largura, que fica 4 km abaixo da camada de gelo.[18] Este lago possui condições extremas, que vão desde de altas pressões, chegando a 400 bar, temperaturas próximas ao ponto de congelamento, falta de luz e outros fatores,[19] que corroboram para sua classificação como lugar extremo.

Estas condições tornam o lago Vostok como um possível  análogo terrestre a lua gelada de Júpiter, Europa.[16] Europa possuí uma superfície coberta por gelo, entretanto em camadas mais profundas da lua Europa, próximas a base da camada de gelo, possa existir um oceano com temperaturas mais favoráveis à vida. Por este fator, Vostok é visto como um bom análogo a este possível oceano presente sobre a camada de gelo da superfície da lua Europa.

Bioassinaturas

Outro ponto de conexão entre a astrobiologia e a geobiologia, são as possíveis bioassinaturas presentes em exoplanetas, e como elas poderiam modificar o exoplaneta de forma a serem detectáveis. O termo bioassinatura pode ser definido como sinais, traços ou substâncias cuja origem pode ser atribuída exclusivamente a processos biológicos, descartando uma origem inorgânica.[20]

Em exoplanetas, estas bioassinaturas podem se manifestar em sinais espectroscópicos, através de medições, por exemplo, de gases presentes na atmosfera do exoplaneta, que possam representar necessariamente um processo biológico. Atualmente, busca de sinais como estes estão sendo realizados principalmente pelo telescópio espacial James Webb (JWST), o qual além de outros objetivos, realiza detecção de trânsito planetário para medir composições, estruturas e dinâmicas atmosféricas.[21] Ainda, bioassinaturas vão além de gases presentes em atmosferas, possuindo três categorias principais, as quais são: gasosas, de superfície e temporais.[20]

As bioassinaturas gasosas, são bioassinaturas de produtos diretos ou indiretos do metabolismo de organismos, e potencialmente detectáveis na atmosfera do exoplaneta. A detecção destes gases na atmosfera ocorre pelo processo de absorção característicos do gases, onde banco de dados espectrais como HITRAN e PNNL podem ser utilizados como referências no processo de identificação dos gases através de espectros de transmissão. Os  principais gases buscados como bioassinaturas em atmosferas de exoplanetas são: , , , cloreto de metila (), etano (), , sulfeto de dimetila (DMS) e dissulfeto de dimetila (DMDS) [8]. Atualmente, essa caracterização e busca de bioassinaturas mostra-se muito presente devido ao James Webb Space Telescope, que tem como um de seus objetivos caracterizar (no infravermelho) as atmosferas de exoplanetas alvo.

As bioassinaturas de superfície referem-se a indicadores da presença de vida que podem ser detectados através da análise das características físicas e químicas da superfície de um exoplaneta ou lua.[20] Essas assinaturas incluem pigmentos biológicos como a clorofila, que absorve fortemente a luz na região do vermelho do e reflete intensamente no infravermelho próximo. Outros exemplos incluem padrões geométricos ou estruturas organizadas que dificilmente seriam produzidas por processos geológicos naturais, bem como a presença de minerais específicos que são tipicamente produtos de metabolismo biológico, como certos tipos de carbonatos, sulfetos ou óxidos de ferro. Alguns dos principais tipos de possíveis bioassinaturas de superfície, segundo,[20] são

  • Fotossíntese
  • Pigmentos
  • Bioassinaturas quirais e de polarização
  • Fluorescência e bioluminescência

A detecção dessas bioassinaturas mostra-se como um grande desafio para a astrobiologia moderna, tornando se praticamente impraticável para especialmente exoplanetas muito distantes. Entretanto, telescópios como o James Webb Space Telescope e futuras missões como a PLAnetary Transits and Oscillations of stars (PLATO), Large Interferometer For Exoplanets (LIFE), apresentam tecnologia potencial para a possibilidade da melhoria das análises destas bioassinaturas. Além da dificuldade de detecção, este processo necessita de uma exclusão de produção abiogênica para a bioassinatura, para que seja assegurado que somente por vias biológicas a mesma possa ser produzida

Por fim, bioassinaturas temporais são variações cíclicas ou padrões de mudança ao longo do tempo em propriedades atmosféricas, espectrais ou químicas de um planeta que indicam possibilidade da presença de processos biológicos ativos.[20] Essas variações podem incluir flutuações sazonais na concentração de gases atmosféricos como metano e oxigênio, mudanças na refletividade da superfície relacionadas ao crescimento e declínio de vegetação, ou oscilações na temperatura e umidade causadas por ciclos biológicos em grande escala. Para tal detecção, há a necessidade de regularidade e previsibilidade dos padrões, que distinguem processos biológicos de eventos geológicos esporádicos ou fenômenos climáticos aleatórios.

Por causa disto, o monitoramento deste tipo de bioassinatura necessita de observações prolongadas e repetidas do mesmo alvo, idealmente cobrindo múltiplos ciclos orbitais ou estações. Essas variações temporais podem ser especialmente valiosas porque são difíceis de explicar através de processos puramente geoquímicos, oferecendo uma evidência mais robusta de atividade biológica do que medições pontuais.

História

O termo geobiologia foi cunhado por Lourens Baas Becking em 1934. Em suas palavras, a geobiologia “é uma tentativa de descrever a relação entre os organismos e a Terra”, pois “o organismo faz parte da Terra e seu lote está entrelaçado com o da Terra”. A definição de geobiologia de Baas Becking nasceu do desejo de unificar a biologia ambiental com a biologia laboratorial. A forma como ele praticou isso se alinha estreitamente com a ecologia microbiana ambiental moderna, embora sua definição permaneça aplicável a toda a geobiologia. Em seu livro Geobiologia, Bass Becking afirmou que não tinha intenção de inventar um novo campo de estudo.[22] A compreensão da geobiologia de Baas Becking foi fortemente influenciada por seus antecessores, incluindo Martinus Beyerinck, seu professor na Escola Holandesa de Microbiologia. Outros incluíram Vladimir Vernadsky, que argumentou que a vida muda o ambiente da superfície da Terra em A Biosfera, seu livro de 1926,[3] e Sergei Vinogradsky, famoso por descobrir bactérias litotróficas.[23]

O primeiro laboratório oficialmente dedicado ao estudo da geobiologia foi o Laboratório Geobiológico Baas Becking, na Austrália, que abriu suas portas em 1965.[22]

Na década de 1930, Alfred Treibs descobriu porfirinas semelhantes à clorofila no petróleo, confirmando sua origem biológica,[24] fundando assim a geoquímica orgânica e estabelecendo a noção de biomarcadores, um aspecto crítico da geobiologia. Mas várias décadas se passaram antes que as ferramentas estivessem disponíveis para começar a procurar seriamente por marcas químicas de vida nas rochas. Nas décadas de 1970 e 80, cientistas como Geoffrey Eglington e Roger Summons começaram a encontrar biomarcadores lipídicos no registro rochoso usando equipamentos como o GCMS.[25]

Hoje, a geobiologia possui periódicos próprios, como Geobiology, criada em 2003,[26] e Biogeosciences, criada em 2004,[5] além de reconhecimento nas principais conferências científicas. Teve sua própria Conferência de Pesquisa Gordon em 2011,[27] vários livros didáticos de geobiologia foram publicados.[2][4]

Conclusão

Por fim a geobiologia oferece uma visão sobre a Terra que integra as diferentes áreas de estudos dos estudos da vida e das ciências da terra, revelando como a vida e o ambiente terrestre coevoluíram ao longo do tempo. Através da compreensão dos processos geobiológicos, não só adquirimos conhecimento sobre as condições primordiais que permitiram o surgimento da vida, mas também avançamos na busca de vida fora do nosso planeta. Atualmente a graduação de ciências da Terra e sociedade da universidade de São Paulo possui em seu currículo o curso de geobiologia que é ministrado durante um semestre, esse curso é oferecido tanto para a graduação quanto para a pós-graduação. A UNESP também oferece um curso de Geobiologia que é realizado durante dois meses e o centro universitário FUNCESI possui um projeto de extensão na área chamado “Geobiologia: a vida interage com a terra".

Notas

  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês cujo título é «Geobiology».

Referências

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