Fringillidae

Fringillidae
Dom-fafe (fêmea acima, macho abaixo)
Classificação científica e
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Parvordem: Passerida
Família: Fringillidae
Leach, 1819
Género tipo
Fringilla
Linnaeus, 1758
Subfamílias

Fringillinae
Carduelinae
Euphoniinae

Os fringilídeos (família Fringillidae) são aves passeriformes de pequeno a médio porte. Conhecidos popularmente como tentilhões, possuem bicos cônicos robustos adaptados para comer sementes e nozes, exibindo frequentemente plumagem colorida. Ocupam uma grande variedade de habitats, são geralmente residentes e não migratórios. Possuem distribuição mundial, exceto na Austrália e nas regiões polares. A família contém mais de duzentas espécies divididas em cinquenta gêneros, incluindo canários, pintarroxos, pintassilgos, cruza-bicos, eufonias e as morfologicamente divergentes trepadeiras-havaianas.

Muitas aves de outras famílias são também chamadas popularmente de "tentilhões" ou "finches" (em inglês). Estes grupos incluem os estrildídeos (bicos-de-lacre) dos trópicos do Velho Mundo e da Austrália; alguns membros da família das escrevedeiras e a família dos pardais do Novo Mundo; e os tentilhões de Darwin das ilhas Galápagos, agora considerados membros da família dos traupídeos (tangarás).[1]

Os tentilhões e canários foram usados do século XVIII ao XX no Reino Unido, EUA e Canadá na indústria de mineração de carvão para detectar monóxido de carbono. Esta prática cessou no Reino Unido apenas em 1986.[2]

Sistemática e taxonomia

O nome Fringillidae para a família dos tentilhões foi introduzido em 1819 pelo zoólogo inglês William Elford Leach num guia sobre o conteúdo do Museu Britânico.[3][4] A taxonomia da família, em particular dos fringilídeos carduelinos (subfamília Carduelinae), tem uma história longa e complexa. O estudo das relações entre os táxons foi dificultado pela recorrência de morfologias semelhantes devido à convergência evolutiva de espécies que ocupam nichos ecológicos parecidos.[5] Em 1968, o ornitólogo americano Raymond Andrew Paynter, Jr. escreveu:

Os limites dos gêneros e as relações entre as espécies são menos compreendidos – e sujeitos a mais controvérsia – nos carduelinos do que em qualquer outro grupo de passeriformes, com a possível exceção dos estrildídeos (bicos-de-lacre).[6]

A partir de 1990, uma série de estudos filogenéticos baseados em sequências de DNA mitocondrial e nuclear resultou em revisões substanciais na taxonomia. Descobriu-se que vários grupos de aves anteriormente atribuídos a outras famílias estavam relacionados aos tentilhões.

Os gêneros neotropicais Euphonia (gaturamos) e Chlorophonia foram anteriormente colocados na família dos tiês e sanhaços (Thraupidae) devido à sua aparência semelhante. No entanto, a análise de sequências de DNA mitocondrial revelou que ambos os gêneros estavam mais intimamente relacionados aos tentilhões. Eles são agora colocados numa subfamília separada, Euphoniinae, dentro de Fringillidae.[7][8]

As trepadeiras-havaianas (Hawaiian honeycreepers) foram em tempos colocadas na sua própria família, Drepanididae, mas descobriu-se que eram parentes próximos dos pintarroxos do gênero Carpodacus e são agora colocadas dentro da subfamília Carduelinae.[5]

Os três maiores gêneros, Carpodacus, Carduelis e Serinus revelaram-se polifiléticos.[5][9][10] Cada um foi dividido em gêneros monofiléticos:

  • Os pintarroxos americanos foram movidos de Carpodacus para Haemorhous.
  • Carduelis foi dividido, movendo os verdilhões para Chloris e um grande clado para Spinus, deixando apenas três espécies no gênero original.
  • Trinta e sete espécies foram movidas de Serinus para Crithagra, deixando oito espécies no gênero original.[7]

Hoje, a família Fringillidae está dividida em três subfamílias: Fringillinae, contendo um único gênero com os tentilhões; Carduelinae, contendo 183 espécies divididas em 49 gêneros; e Euphoniinae, contendo Euphonia e Chlorophonia.[5]

Embora o Pintassilgo-de-przewalski (Urocynchramus pylzowi) possua dez penas de voo primárias em vez das nove primárias dos outros fringilídeos, ele foi por vezes classificado em Carduelinae. É agora atribuído a uma família distinta, Urocynchramidae, monotípica quanto ao gênero e espécie, e sem parentes particularmente próximos entre os Passeroidea.[7][11]

Filogenia dos Fringilídeos
Fringillinae

Fringilla (tentilhões)

Euphoniinae

Chlorophonia

Euphonia

Carduelinae

Mycerobas

Hesperiphona

Coccothraustes

Eophona

Carpodacus

Fringilídeos
Havaianos

Drepanidini

Pinicola

Pyrrhula

Bucanetes

Rhodopechys

Leucosticte

Procarduelis

Agraphospiza

Callacanthis

Pyrrhoplectes

Haemorhous

Chloris

Rhodospiza

Rhynchostruthus

Crithagra

Linurgus

Linaria

Acanthis

Loxia

Carduelis

Chrysocorythus

Serinus

Spinus

Cladograma baseado na análise de Zuccon e colegas publicada em 2012,[5] filogenia das trepadeiras-havaianas baseada em Lerner e colegas (2011)[12] e Pratt (2014).[13] Gêneros ou clados com pontos de interrogação (?) têm colocação taxonômica controversa ou incerta. O gênero de pintarroxos Carpodacus foi expandido para incluir o Carpodacus erythrinus conforme sugerido por Tietze e colegas[14] e adotado pelo Comitê Ornitológico Internacional (IOC).[7]

Registro fóssil

Os fósseis de tentilhões verdadeiros são raros e aqueles que são conhecidos podem, na sua maioria, ser atribuídos pelo menos a gêneros existentes. Tal como as outras famílias da superordem Passeroidea, os tentilhões verdadeiros parecem ter origem aproximadamente no Mioceno Médio, há cerca de 10 a 20 milhões de anos (Ma). Um fóssil de tentilhão não identificável da idade Messiniano (Mioceno Tardio, c. 12 a 7,3 Ma) foi encontrado em Polgárdi, na Hungria.[15][16][17]

Etimologia

O nome científico Fringillidae vem da palavra latina fringilla para o tentilhão comum (Fringilla coelebs), um membro da família que é comum na Europa. O nome foi cunhado (como Fringilladæ) pelo zoólogo inglês William Elford Leach em um guia para o conteúdo do Museu Britânico publicado em 1820.[18][19]

Descrição

As eufonias (gaturamos), como este gaturamo-de-bico-grosso, foram em tempos tratadas como traupídeos em vez de fringilídeos.

Os menores fringilídeos "clássicos" são o pintassilgo-dos-andes (Spinus spinescens), que mede apenas 9,5 cm (3,7 in), e o pintassilgo-capa-preta (Spinus psaltria), que pesa apenas 8 g (0,28 oz). A maior espécie é provavelmente o bicudo-de-colar (Mycerobas affinis), que atinge até 24 cm (9,4 in) de comprimento e 83 g (2,9 oz) de peso, embora comprimentos maiores (até 25,5 cm) tenham sido registrados no pintarroxo-de-bico-grosso (Pinicola enucleator) e pesos maiores (até 86,1 g) no bico-grossudo-americano (Hesperiphona vespertina).[20][21]

Geralmente possuem bicos fortes e cônicos, que em algumas espécies podem ser bastante grandes. No entanto, as trepadeiras-havaianas são famosas pela ampla variedade de formas e tamanhos de bico resultantes de radiação adaptativa. Todos os fringilídeos possuem 9 rémiges primárias e 12 retrizes. A cor básica da plumagem é acastanhada, por vezes esverdeada; muitas espécies têm quantidades consideráveis de preto, enquanto a plumagem branca geralmente está ausente, exceto como barras nas asas ou outras marcas de sinalização. Pigmentos carotenoides amarelos e vermelhos brilhantes são comuns nesta família. As cores estruturais azuis são raras, pois os pigmentos amarelos transformam a cor azul em verde. Muitos fringilídeos, mas não todos, apresentam forte dicromatismo sexual, sendo que as fêmeas normalmente carecem das marcas brilhantes de carotenoides típicas dos machos.[1]

Distribuição e habitat

Pintassilgo-americano (Spinus tristis) macho (esquerda) e fêmea (direita) na Carolina do Norte, EUA.

Os fringilídeos têm uma distribuição quase global, sendo encontrados nas Américas, Eurásia e África, bem como em alguns grupos de ilhas, como o arquipélago do Havaí. Estão ausentes da Australásia, Antártida, Pacífico Sul e ilhas do Oceano Índico, embora algumas espécies europeias tenham sido amplamente introduzidas na Austrália e na Nova Zelândia.

Habitam tipicamente áreas bem arborizadas, mas algumas espécies podem ser encontradas em montanhas ou mesmo em desertos.

Comportamento

Os fringilídeos são primariamente granívoros (alimentam-se de sementes), mas os eufonídeos incluem quantidades consideráveis de artrópodes e frutos na sua dieta, e as trepadeiras-havaianas evoluíram para utilizar uma ampla gama de fontes de alimento, incluindo o néctar. A dieta dos borrachos inclui uma quantidade variável de pequenos artrópodes.

O voo é ondulante (aos "saltos"), como na maioria dos pequenos passeriformes, alternando curtos batimentos de asas com planeio de asas fechadas. A maioria canta bem e várias espécies são aves de gaiola comuns; o principal deles é o canário domesticado (Serinus canaria domestica). Os ninhos têm forma de cesto e são geralmente construídos em árvores, mais raramente em arbustos, entre rochas ou em substratos semelhantes.[1]

Lista de gêneros

A família Fringillidae contém 231 espécies divididas em 50 géneros e três subfamílias. A subfamília Carduelinae inclui 18 trepadeiras havaianas extintas e o extinto bico-grosso-de-bonin (Chaunoproctus ferreorostris).[7]

Subfamília Fringillinae

Subfamília Carduelinae

Subfamília Euphoniinae

  • Euphonia – 27 espécies de gaturamos (eufonias)
  • Chlorophonia – 5 espécies de clorofonias (bonitos)

Galeria

Referências

  1. a b c Newton (1973), Clement et al. (1993)
  2. Eschner, Kat. «What Happened to the Canary in the Coal Mine?». Smithsonian 
  3. Leach, William Elford (1819). «Eleventh Room». Synopsis of the Contents of the British Museum 15th ed. London: British Museum. pp. 63–68 [65]. Consultado em 1 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 1 de outubro de 2024  Embora o nome do autor não esteja especificado no documento, Leach era o Guardião de Zoologia na época.
  4. Bock, Walter J. (1994). History and Nomenclature of Avian Family-Group Names. Col: Bulletin of the American Museum of Natural History. 222. New York: American Museum of Natural History. pp. 156, 245. hdl:2246/830 
  5. a b c d e Zuccon, Dario; Prŷs-Jones, Robert; Rasmussen, Pamela C.; Ericson, Per G.P. (2012). «The phylogenetic relationships and generic limits of finches (Fringillidae)» (PDF). Molecular Phylogenetics and Evolution. 62 (2): 581–596. Bibcode:2012MolPE..62..581Z. PMID 22023825. doi:10.1016/j.ympev.2011.10.002. Cópia arquivada (PDF) em 10 de junho de 2015 
  6. Paynter, Raymond A. Jnr., ed. (1968). Check-list of birds of the world, Volume 14. 14. Cambridge, Massachusetts: Museum of Comparative Zoology. p. 207. Cópia arquivada em 15 de julho de 2015 
  7. a b c d e Gill, Frank; Donsker, David (eds.). «Finches, euphonias». World Bird List Version 5.3. International Ornithologists' Union. Consultado em 23 de julho de 2015. Cópia arquivada em 26 de junho de 2015 
  8. Banks, Richard C.; Cicero, Carla; Dunn, Jon L.; Kratter, Andrew W.; Rasmussen, Pamela C.; Remsen, J.V. Jr.; Rising, James D.; Stotz, Douglas F. (2003). «Forty-fourth supplement to the American Ornithologists' Union Check-List of North American Birds». The Auk. 120 (3): 923–931. doi:10.1642/0004-8038(2003)120[0923:FSTTAO]2.0.CO;2 
  9. Arnaiz-Villena, A.; Guillén, J.; Ruiz-del-Valle, V.; Lowy, E.; Zamora, J.; Varela, P.; Stefani, D.; Allende, L.M. (2001). «Phylogeography of crossbills, bullfinches, grosbeaks, and rosefinches». Cellular and Molecular Life Sciences. 58 (8): 1159–1166. PMC 11337388Acessível livremente. PMID 11529508. doi:10.1007/PL00000930 
  10. Nguembock, B.; Fjeldså, J.; Couloux, A.; Pasquet, E. (2009). «Molecular phylogeny of Carduelinae (Aves, Passeriformes, Fringillidae) proves polyphyletic origin of the genera Serinus and Carduelis and suggests redefined generic limits». Molecular Phylogenetics and Evolution. 51 (2): 169–181. Bibcode:2009MolPE..51..169N. PMID 19027082. doi:10.1016/j.ympev.2008.10.022 
  11. Groth, J. (julho de 2000). «Molecular evidence for the systematic position of Urocynchramus pylzowi». The Auk. 117 (3): 787–792. JSTOR 4089604. doi:10.1642/0004-8038(2000)117[0787:MEFTSP]2.0.CO;2. Cópia arquivada em 25 de fevereiro de 2014 
  12. Lerner, Heather R.L.; Meyer, Matthias; James, Helen F.; Hofreiter, Michael; Fleischer, Robert C. (8 de novembro de 2011). «Multilocus Resolution of Phylogeny and Timescale in the Extant Adaptive Radiation of Hawaiian Honeycreepers». Current Biology (em inglês). 21 (21): 1838–1844. Bibcode:2011CBio...21.1838L. ISSN 0960-9822. PMID 22018543. doi:10.1016/j.cub.2011.09.039Acessível livremente 
  13. «A consensus taxonomy for the Hawaiian honeycreepers » Malama Mauna Kea Library Catalog» (PDF). lsu.edu. Consultado em 28 de junho de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 19 de setembro de 2015 
  14. Tietze, D.T.; Päckert, M.; Martens, J.; Lehmann , H.; Sun, Y.-H. (2013). «Complete phylogeny and historical biogeography of true rosefinches (Aves: Carpodacus)». Zoological Journal of the Linnean Society. 169: 215–234. doi:10.1111/zoj.12057Acessível livremente 
  15. Hír et al. (2001), Mlíkovský (2002)
  16. Zamora, Jorge; Lowy, E.; Ruiz-del-Valle, V.; Moscoso, J.; Serrano-Vela, J. I.; Rivero-de-Aguilar, J.; Arnaiz-Villena, A. (julho de 2006). «Rhodopechys obsoleta (desert finch): a pale ancestor of greenfinches according to molecular phylogeny». J Ornithol. 147: 448–56. doi:10.1007/s10336-005-0036-2. Consultado em 7 de março de 2013. Cópia arquivada em 3 de julho de 2013 
  17. Arnaiz-Villena, A.; Gómez-Prieto, P.; Ruiz-de-Valle, V. (2009). «Phylogeography of finches and sparrows». Animal Genetics. [S.l.]: Nova Science Publishers. ISBN 978-1-60741-844-3. Cópia arquivada em 2 de setembro de 2012 
  18. Bock, Walter J. (1994). History and nomenclature of avian family-group names. Col: Bulletin of the American Museum of Natural History Issue 222. [S.l.: s.n.] pp. 156, 245 
  19. Leach, William Elford (1820). «Eleventh Room». Synopsis of the Contents of the British Museum. 17 17th ed. [S.l.]: British Museum  The name of the author is not specified in the document but Leach was the Keeper of Zoology at the time.
  20. Finches and Sparrows by Peter Clement. Princeton University Press (1999). ISBN 978-0691048789.
  21. CRC Handbook of Avian Body Masses by John B. Dunning Jr. (Editor). CRC Press (1992), ISBN 978-0-8493-4258-5.
  22. «Eophona migratoria - Avibase». Consultado em 24 de abril de 2016 
  23. «Eophona personata - Avibase». Consultado em 24 de abril de 2016 
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  31. a b c «Loxioides bailleui - Avibase». Consultado em 25 de abril de 2016 
  32. «Psittirostra psittacea - Avibase». Consultado em 25 de abril de 2016 
  33. «Drepanis pacifica - Avibase». Consultado em 25 de abril de 2016 
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  39. «Chlorodrepanis flava - Avibase». Consultado em 25 de abril de 2016 
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