Esther Ita Feldman

Esther Ita Feldman
Nome completoEsther Ita Cukierkorn
Conhecido(a) porEditora-chefe da revista Aonde Vamos?
Nascimento
23 de novembro de 1909

Varsóvia, Partilha Russa da Polônia
Morte
2 de julho de 1999

NacionalidadePolonesa naturalizada brasileira
ProgenitoresMãe: Rachel (Rukla) Segal
Pai: Noach Cukierkorn
CônjugeJoseph Feldman
Filho(a)(s)Guili Alexandre Feldman; Daniel Feldman; Eliahu Feldman
Alma materEscola Sofia Kalewska; Escola Reali; Wolna Wszechnica Polska; Instituto La-Fayette
OcupaçãoEditora, tradutora, ativista comunitária

Esther Ita Feldman (nascida Cukierkorn; 23 de novembro de 1909 – 7 de março de 1999) foi uma editora, tradutora e ativista comunitária judaico-brasileira, mais conhecida por seu papel como editora sênior da revista semanal Aonde Vamos?, sediada no Rio de Janeiro. Ativa na publicação de 1960 até o seu fechamento em 1977, tornou-se uma das mulheres mais influentes na imprensa judaica brasileira de meados do século XX.

Seu depoimento pessoal foi registrado pelo Museu da Pessoa em 1988, como parte do projeto "Heranças e Lembranças", sobre imigrantes judeus no Brasil.

Juventude

Pode se imaginar o que aconteceu, História no Museu da Pessoa (165462)

Esther Ita Feldman nasceu em 23 de novembro de 1909 em Varsóvia, então parte da Partilha Russa da Polônia.[1][2]

Nascida Esther Ita Cukierkorn, era a mais velha de quatro filhos de uma família judaica de classe média modesta. Seu pai, Noach Cukierkorn, era atacadista de tabaco, e sua mãe, Rachel (Rukla) Segal, era natural da cidade de Maków, onde sua família administrava uma grande loja de departamentos antes de se mudar para Varsóvia.

Feldman frequentou a Escola Sofia Kalewska, uma escola judaica progressista para meninas em Varsóvia, conhecida por seus altos padrões acadêmicos. Ela recordava ser dois anos mais nova que a maioria das colegas e descreveu a escola como "inaudivelmente superior" às experiências educacionais posteriores no Brasil. Seus professores incluíam Natalia Kaczorowska, ex-professora da Universidade de Zurique, e Leopold Infeld, físico que trabalhou com Albert Einstein.[2]

A família de Feldman falava iídiche em casa, e ela se lembrava de seu pai lendo histórias em hebraico para ela quando criança. Ela teve três irmãos: Alexander, Moshe e Simcha. Moshe estabeleceu-se posteriormente na Palestina Mandatária (que viria a ser Israel), enquanto o restante de sua família extensa pereceu durante o Holocausto. Ela estimou que mais de cinquenta parentes foram perdidos, com apenas um primo sobrevivendo ao fugir para a Rússia e depois chegar a Chipre.[2]

Primeiro período em Israel e retorno à Polônia

Em 1924, a família de Feldman emigrou para a Palestina Mandatária, estabelecendo-se no Monte Carmelo, perto de Haifa. Seu avô, um judeu ortodoxo devoto, havia comprado terras e construído casas para vários membros da família. Esther completou seu ensino secundário na Escola Reali e retornou à Polônia em 1928 com seus pais e dois tios. Matriculou-se na Wolna Wszechnica Polska, uma universidade progressista em Varsóvia, onde estudou biblioteconomia. Também trabalhou brevemente em uma biblioteca, embora as oportunidades de emprego para judeus fossem limitadas.[2]

Antissemitismo na Polônia

Feldman descreveu o crescimento do antissemitismo na Polônia do entreguerras, incluindo políticas de segregação universitária e violência de rua. Ela relatou incidentes como estudantes judeus sendo forçados a sentar-se separadamente nas salas de aula e seu tio sendo agredido em público. Seu irmão Alexander contornou as quotas restritivas ao completar um diploma de filosofia antes de se transferir para a engenharia.[2]

Casamento e migração para o Brasil

Em sua história oral registrada pelo Museu da Pessoa em 1988, Feldman lembrou ter conhecido seu futuro marido, o artesão e fotógrafo de origem russa Joseph Feldman, ainda na Polônia. Ela descreveu que foram apresentados por conhecidos mútuos. Seu depoimento não especifica as circunstâncias exatas de sua própria migração para o Brasil, mas indica que ela se juntou a Joseph no Rio de Janeiro algum tempo antes do início da década de 1940, onde o casal estabeleceu residência e criou sua família.[2]

Educação complementar no Brasil

Em 1936, Esther Ita Feldman concluiu o curso de segundo ano de guarda-livros no Departamento Feminino do Instituto La-Fayette, no Rio de Janeiro. O instituto era conhecido por capacitar mulheres em áreas comerciais e técnicas, e Feldman foi listada entre as formandas em um anúncio publicado da cerimônia de encerramento daquele ano.[3]

Carreira

Trabalho na Aonde Vamos?

Feldman começou a trabalhar para a revista semanal Aonde Vamos? em 1960, inicialmente como tradutora e colaboradora.[1] A publicação, fundada em 1943, era um dos periódicos judaicos de maior circulação no Brasil e servia como um fórum importante para debates sobre sionismo, identidade judaica e assuntos comunitários.

Após a morte do editor de longa data Aron Neumann em fevereiro de 1973, Feldman assumiu o cargo de editora-chefe, posição que ocupou por aproximadamente três anos.[1] Em uma carta publicada no Jornal do Brasil em 15 de janeiro de 1976, ela enfatizou o papel central de Neumann na formação da revista e esclareceu seu próprio envolvimento de longa data com a publicação.

Durante sua gestão, Feldman trabalhou ao lado do diretor Ronald Fucs e, posteriormente, com o jornalista Isaac Akcelrud, contribuindo para um período de profissionalização e expansão cultural da revista.[1]

Em uma reportagem de 1976 no Jornal do Brasil, ela foi descrita como tendo acompanhado a publicação “desde os primeiros tempos” e como a pessoa que definia seus objetivos editoriais. A revista, criada durante a Segunda Guerra Mundial com sua primeira edição datada de 11 de março de 1943, nasceu sob condições restritivas impostas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Seu fundador, Aron Neumann, adquiriu o título de um suplemento de turismo para contornar as barreiras de registro. Sob a liderança editorial de Feldman, a revista manteve políticas publicitárias rígidas, recusando anúncios de empresas com posições ideológicas contrárias ao judaísmo. Visava representar os interesses judaicos, particularmente entre os jovens judeus brasileiros, e publicava tanto literatura judaica original quanto artigos traduzidos de fontes internacionais.[4]

A revista Aonde Vamos? encerrou suas atividades em 1977.

Envolvimento cultural e comunitário

Feldman foi ativa na esfera cultural judaica do Rio de Janeiro. O Museu Judaico do Rio de Janeiro — fundado em 1977 — preserva vasta documentação da vida comunitária judaica na cidade, incluindo periódicos como Aonde Vamos? e outros materiais relacionados à imprensa judaica.[5]

Vida pessoal

Esther Ita Feldman foi casada com Joseph Feldman, um artesão e fotógrafo nascido na Rússia que se estabeleceu no Rio de Janeiro em 1925. Joseph era conhecido por confeccionar objetos rituais, como hanukiot, e seu trabalho está preservado na Coleção Feldman no Museu Judaico do Rio de Janeiro.[5]

O casal teve pelo menos dois filhos, Guili Alexandre Feldman e Eliahu Feldman. Uma nota de falecimento publicada no Jornal do Brasil confirma a participação de Esther Feldman na descoberta da matzeiva (lápide) de Joseph Feldman no Cemitério Israelita de Vila Rosali, ao lado de outros familiares, incluindo Eliahu Feldman e seus filhos.[6]

Esther Ita Feldman foi também sogra da musicóloga e gambista israelense Myrna Herzog, que se casou com seu filho Eliahu. Herzog escreveu posteriormente sobre a família Feldman em seu trabalho acadêmico, referindo-se a Joseph Feldman como “um colecionador apaixonado por instrumentos” que a introduziu a instrumentos históricos raros.[7]

Últimos anos e morte

Após se aposentar do trabalho editorial, Feldman emigrou para Israel, onde viveu em Ra'anana.[1]

Esther Ita Feldman faleceu em 7 de fevereiro de 1999 em Ra'anana, Israel. Seu falecimento foi anunciado por familiares em Israel e no Brasil, incluindo Eliahu, Myrna, Daniel, David e Michel Feldman (Ra'anana), e Aurora, Raphael, Gabriel e Natan Feldman (Rio de Janeiro).[8]

Legado

Feldman é lembrada como uma das figuras-chave que sustentaram e moldaram a imprensa judaica brasileira durante um período de debate ideológico, consolidação comunitária e transformação pós-guerra. Sua liderança editorial ajudou a manter a Aonde Vamos? como uma plataforma central para o discurso cultural e político judaico no Brasil por mais de três décadas.

Ver também

Referências

Referências

  1. a b c d e Chermont, Lucia (2020). «Revista Aonde Vamos? – Um Projeto Judaico Brasileiro». Cadernos de Língua e Literatura Hebraica (17): 27–39 
  2. a b c d e f «Depoimento de Esther Ita Feldman». Museu da Pessoa. Consultado em 20 de dezembro de 2025 
  3. «Novas professoras – Instituto La-Fayette». Jornal do Brasil. 1936 
  4. «Aonde Vamos? – Revista Judaica Independente». Jornal do Brasil. 1976 
  5. a b «Museu Judaico do Rio de Janeiro». Museu Judaico do Rio de Janeiro. Consultado em 20 de dezembro de 2025 
  6. «Descoberta da Matzeiva – Joseph Feldman». Jornal do Brasil. 11 de março de 1979 
  7. Herzog, Myrna (2003). «Is the Quinton a Viol? A Puzzle Unraveled». Journal of the Viola da Gamba Society of America. 40: 5–31 
  8. «Obituário – Esther Ita Feldman». Jornal do Brasil. Fevereiro de 1999 

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