Esquerda e direita (umbanda)

Esquerda e direita (umbanda)
na Cosmologia da Umbanda
Esquerda e Direita
A dualidade é um princípio organizador dos rituais e da teologia umbandista.
Sistema Religioso Umbanda
Natureza Polaridade energética e ritualística
Princípio Complementaridade (Equilíbrio)
Atuação Irradiadora, passiva, ordenadora
Domínio Lei, razão, espiritualidade sutil
Entidades Caboclos, Pretos-Velhos, Erês
Atuação Consumidora, ativa, executora
Domínio Vitalidade, proteção, caminhos materiais
Entidades Exus, Pombajiras, Exus-Mirins

Esquerda e direita, na cosmologia da umbanda, são conceitos que definem campos de atuação energética e ritualística das entidades, estabelecendo uma binaridade complementar fundamental para a prática religiosa.[1] Embora por vezes associadas no imaginário popular a noções maniqueístas de "bem" e "mal", na teologia umbandista estas polaridades referem-se a funções de equilíbrio, onde a direita está ligada à ordem e a esquerda à dinâmica e proteção.[2]

Direita

A chamada "Linha de Direita" abrange as entidades que atuam sob a égide da ordem, da norma e da hierarquia, sendo frequentemente associadas a virtudes "elevadas" dentro de uma leitura moral influenciada pelo catolicismo e pelo espiritismo.[3]

Tradicionalmente, compõem a direita as falanges de:

No aspecto funcional, teóricos e praticantes descrevem a atuação da direita como "irradiadora" ou estabilizadora, responsável pela manutenção do equilíbrio emocional e físico dos consulentes através de passes magnéticos e conselhos morais.[4]

Embora Baianos, Boiadeiros e Marinheiros sejam frequentemente cultuados na direita, estas linhas possuem uma característica de "transição" ou "intermediação", apresentando comportamentos mais soltos e próximos das questões mundanas, o que por vezes os aproxima energeticamente da esquerda.[5]

Esquerda

A "Linha de Esquerda" é composta primordialmente pelas entidades conhecidas como Exus, Pombajiras e Exus-Mirins. Ao contrário da visão externa que demoniza estas figuras (frequentemente devido ao sincretismo histórico com o Diabo cristão), dentro da teologia umbandista a esquerda cumpre o papel de "polícia de choque" do mundo espiritual.[6]

As funções da esquerda incluem:

  • Proteção: Defesa contra energias deletérias e espíritos obsessores (kiumbas);
  • Vitalidade: Atuação direta nas questões materiais (trabalho, sexualidade, desejos humanos);
  • Descarrego: Absorção e transmutação de cargas energéticas densas que entidades de direita, por sua própria natureza sutil, teriam dificuldade de manipular.[7]

A moralidade da esquerda é frequentemente descrita como "amoral" (distinta de imoral), no sentido de que estas entidades operam através de uma ética pragmática, lidando com a realidade humana sem os filtros de julgamento rígido característicos das linhas de direita.[8]

Interdependência

A relação entre esquerda e direita na Umbanda não é de oposição antagônica, mas de interdependência estrutural, operando sob uma lógica de sistema. Enquanto a direita representa o estático e a lei, a esquerda representa o dinâmico e a execução.[9] Rituais completos de Umbanda frequentemente iniciam-se com a saudação à esquerda (para proteção da porteira/entrada) e seguem com os trabalhos de direita, ou reservam dias específicos para cada polaridade, garantindo o equilíbrio do terreiro.[10]

Referências

Bibliografia

  • Brown, Diana DeG. (1986). Umbanda: Religion and Politics in Urban Brazil. Ann Arbor: UMI Research Press. ISBN 0-8357-1556-6 
  • Brumana, Fernando Giobellina (2003). O perigo do sagrado: a estrutura do campo religioso da umbanda. São Paulo: Edições Loyola. ISBN 9788515027582 Verifique |isbn= (ajuda) 
  • Concone, Maria Helena Villas Boas (1987). Umbanda: Uma religião brasileira. São Paulo: FFLCH/USP 
  • Negrão, Lísias Nogueira (1996). Entre a cruz e a encruzilhada: formação do campo umbandista em São Paulo. São Paulo: Edusp. ISBN 8531403366 Verifique |isbn= (ajuda) 
  • Prandi, Reginaldo (2005). Segredos guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 8535906274 
  • Trindade, Liana (1985). Exu: Símbolo e Função. São Paulo: FFLCH/USP