Espaço N.O.
O Centro Alternativo de Cultura N.O., mais conhecido como Espaço N.O., foi uma galeria de arte e centro cultural atuante em Porto Alegre entre 1979 e 1982, instalado na sala 31 da Galeria Chaves.[1]
Originou-se da iniciativa da artista Ana Torrano, que procurou Vera Chaves Barcellos e propôs a criação de um espaço de arte e cultura contemporâneas, inspirado no Other Books and So, de Amsterdã, dirigido pelo mexicano Ulisses Carrión. A iniciativa teve a participação de Cris Vigiano, Karin Lambrecht, Regina Coeli, Heloísa Schneiders da Silva, Simone Michelin e Eugênia Wendhausen, e foi organizada na forma de uma associação, com estatuto próprio. Logo outros artistas se juntaram ao grupo, incluindo Carlos Wladimirsky, Mário Röhnelt, Milton Kurtz, Rogério Nazari e Telmo Lanes. O nome do espaço é uma referência ao Grupo Nervo Óptico, que havia atuado poucos anos antes, e do qual Lanes e Chaves Barcellos haviam sido membros.[1] O espaço foi inaugurado em 1 de outubro de 1979 com uma mostra de arte postal do pernambucano Paulo Bruscky. Através do Espaço N.O. Porto Alegre foi apresentada a artistas como Hélio Oiticica, Hudinilson, Carmela Gross e Marcelo Nitsche.[2]
Sua proposta era discutir variados aspectos da produção contemporânea e abrir espaço para manifestações de vanguarda e experimentalismos em termos de pesquisa formal, novos meios e novas linguagens, através de cursos, palestras, debates, concertos, exposições, eventos multimidia, leituras dramáticas e performances, ao mesmo tempo explorando as relações entre as artes visuais e outras categorias artísticas como a dança, o teatro, a música e a literatura.[1][3] A criação do Espaço se inseriu em um circuito local que desde o fim da década de 1960 começava a se mostrar mais favorável à experimentação e pesquisa em arte.[2] O Espaço N.O. patrocinou cerca de 90 eventos em sua trajetória, incluindo 22 mostras coletivas e 19 individuais, e 18 eventos nas áreas de teatro, dança, música e literatura, marcando presença também em mostras nacionais e internacionais.[1]
Para a pesquisadora Ana Albani de Carvalho, "ao estabelecer uma movimentação renovadora em Porto Alegre em termos de pesquisa, processo e experimentação de linguagem, o Espaço N.O. se alinhava a um sentido de contemporaneidade à época, que implicava não só na produção em si, mas antes na tomada de consciência de um maior comprometimento crítico quanto ao papel do artista e do processo criador na sociedade. Na defesa pela necessidade de novos valores e sentidos para a produção artística que não os mercadológicos, buscavam-se outros objetivos e enfoques para exercer a criação, assim como outras maneiras de veiculação".[1]
Segundo Karwatzki & Rueda, "o Espaço N.O. pode ser considerado o primeiro espaço da arte experimental da cidade de Porto Alegre e, até que se saiba, do Rio Grande do Sul. [...] Mesmo com o pouco tempo de existência, o Espaço N.O./Centro Alternativo de Cultura marcou significativamente o cenário artístico cultural de Porto Alegre. Em sua excelência de ser um espaço para exposições de arte contemporânea, foi um embrião para o exercício de uma arte experimental que nem mesmo o Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul oferecia aos seus acadêmicos".[1]
Em 2019, ao completarem os 40 anos de sua fundação, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul apresentou uma mostra homenageando o seu legado, intitulada Espaço N.O. 40 Anos: Arquivos de uma Experiência Coletiva.[3] Seu acervo documental hoje é administrado pela Fundação Vera Chaves Barcellos, sendo uma valiosa fonte de informações sobre o ambiente cultural da época.[1]
Referências
- ↑ a b c d e f g Karwatzki, Walter & Rueda, Laura Ribero. "Centro Alternativo de Cultura Espaço N.O.: arena de experimentações de toda ordem". In: Palíndromo, 2024; 16 (38) — Dossiê Desafios de ensinar a ler linguagens
- ↑ a b Carvalho, Ana Maria Albani de. "Conexões nervosas: arte contemporânea em Porto Alegre nos anos 70". In: XXIX Colóquio CBHA, 2009, pp. 129-139
- ↑ a b Lerina, Roger. "Margs inaugura exposição sobre os 40 anos de criação do Espaço N.O." Matinal Jornalismo, 7 de outubro de 2019