Grupo Nervo Óptico

Capa do cartazete nº 10 do Grupo Nervo Óptico, produzido como um encarte da revista Ephemera n. 9, de julho de 1978, editada em Amsterdam. No interior do folheto, um ensaio fotográfico mostrava o grupo em trajes de vagabundos e mendigos, "vulneráveis tanto pela perseguição declarada do contexto de ditadura militar, quanto pelo imaginário comum".[1]

O Grupo Nervo Óptico foi um grupo de artistas brasileiros voltado à discussão e produção de arte contemporânea, atuando em Porto Alegre entre 1976 e 1978.

O grupo formou-se em reuniões informais e criativas dos artistas Ana Alegria, Carlos Pasquetti, Clóvis Dariano, Mara Álvares, Carlos Asp, Carlos Athanázio, Telmo Lanes, Romanita Disconzi, Jesus Escobar e Vera Chaves Barcellos, que debatiam aspectos da arte de vanguarda no contexto estadual. As duas primeiras reuniões ocorreram em meados de 1976 na sede do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), e depois foram transferidas para o estúdio fotográfico de Dariano.[2]

Estes encontros por fim resultaram, em dezembro do mesmo ano, na elaboração de um manifesto, expondo seus objetivos e posturas, publicado pela imprensa local e divulgado durante uma exposição-relâmpago no MARGS, intitulada Atividades Continuadas, desenvolvida em 9 e 10 de dezembro de 1976, apresentando fotografias, xerogravuras, instalações, performances, livros de artista, textos, objetos, projeções audiovisuais e outros trabalhos, acompanhados de debates com o público.[3] O manifesto teve alguma repercussão no centro do país, e atacava principalmente o mercado de arte e seus vícios, documento que, não obstante, não foi assinado por todos, e por seu caráter polêmico causou uma cisão entre os participantes e também com o público, já que parecia invalidar o que com muito custo se havia conseguido em Porto Alegre: a criação de um sistema de arte economicamente auto-sustentável e devidamente institucionalizado. Mas o grupo não combatia o comércio, não aceitava é que o mercado fosse o determinante em questões de arte.[2]

Com a saída de alguns participantes, a proposta foi levada adiante por Asp, Pasquetti, Dariano, Álvares, Lanes e Chaves Barcellos, tendo na fotografia o principal fio condutor para as suas experimentações, entendida como um meio que possibilitava uma ampla distribuição e comunicação, embora outros interesses entrassem em jogo. Segundo a pesquisadora Ana Albani de Carvalho, "o emprego da fotografia por parte desses artistas aliava-se a um interesse pelo trabalho com a imagem, com a relação desta com a linguagem, e pelas migrações semânticas que ocorriam destes contatos. Muito da ironia e do humor que caracterizava grande parte dos trabalhos realizados, decorria de um entendimento de arte para além das polarizações que distinguiam, com fronteiras rígidas, os territórios da arte erudita e os da cultura de massa, da cultura popular e do kitsch".[3]

O grupo também questionava as políticas culturais mantidas pelo Estado, reivindicando mais recursos para a cultura, e combatia a reiteração dos discursos identitários que pregavam um retorno ao tradicionalismo. Além disso, surgindo em plena ditadura militar, havia ainda uma preocupação com a formação de uma consciência crítica, a definição do papel social do artista e a revisão dos valores que regiam a sociedade, num momento em que a comunicação de ideias alternativas e libertárias enfrentava dura repressão.[1]

A partir de abril de 1977 o grupo começou a editar os cartazetes Nervo Óptico, apresentando trabalhos criados pelo grupo, muitas vezes criações coletivas, e ocasionalmente de convidados, usando como base a fotografia e sendo acompanhados por textos.[3] Totalizando 13 números, desta publicação mais tarde o crítico Frederico Morais batizaria o grupo em matéria publicada no jornal O Globo.[2] Paralelamente, foram realizadas duas exposições: a primeira na Galeria Eucatexpo, entre novembro e dezembro de 1977, e a segunda entre setembro e outubro de 1978 na Pinacoteca do Instituto de Artes da UFRGS, intitulada Mixtos e Manias, ironizando a primeira e única Bienal Latino-Americana de São Paulo, Mitos e Magias.[1]

As atividades do grupo tiveram impacto não apenas local, mas foi notado também no centro do país. O grupo dissolveu-se no fim de 1978,[2] mas sua proposta teve continuidade através da fundação, no ano seguinte, da importante galeria e centro cultural Espaço N.O., com a participação de Lanes e Chaves Barcellos, cujo nome é uma referência direta ao Nervo Óptico.[4] Em 2017 uma mostra organizada pela Fundação Vera Chaves Barcellos comemorou os 40 anos da sua criação e recuperou seu legado, acompanhada por um ciclo de debates.[5] Em 2018 foi lançado, na Fundação Iberê Camargo e no Instituto Goethe, o documentário Nervo Óptico, um olhar global na solidão local.[6]

Referências

  1. a b c Malmaceda, Luise Boeno. O Eixo Sul Experimental: conceitualismo e contracultura nos cenários artísticos de Curitiba e Porto Alegre, anos 1970. Universidade de São Paulo, 2018, pp. 336-375
  2. a b c d Carvalho, Ana Maria Albani de (org.) Espaço N.O. - Nervo Óptico. FUNARTE, 2004. Coleção Fala do Artista.
  3. a b c Carvalho, Ana Maria Albani de. "Nervo óptico (1977-1978): a questão da montagem como uma problemática contemporânea". In: Anais do XXIV Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Belo Horizonte, 2004
  4. Karwatzki, Walter & Rueda, Laura Ribero. "Centro Alternativo de Cultura Espaço N.O.: arena de experimentações de toda ordem". In: Palíndromo, 2024; 16 (38) — Dossiê Desafios de ensinar a ler linguagens
  5. Lerina, Roger. "Mostra comemora as quatro décadas do grupo Nervo Óptico". Zero Hora, 25 de maio de 2017
  6. "Documentário Nervo Óptico, um olhar global na solidão local. Lançamento em duas sessões". Fundação Vera Chaves Barcellos, 2018

Ligações externas