Donatello
| Donatello | |
|---|---|
![]() Estátua de Donatello presente na Galleria degli Uffizi, em Florença. | |
| Nascimento | |
| Morte | Florença |
| Nacionalidade | |
| Principais trabalhos | David Gattamelata São Marcos |
| Área | Escultura |
| Formação | Lorenzo Ghiberti |
| Movimento(s) | Renascimento |
Donato di Niccoló di Betto Bardi, chamado Donatello (Florença, 1386 – 13 de dezembro de 1466) foi um escultor renascentista italiano. Trabalhou em Florença, Prato, Siena e Pádua, recorrendo a várias técnicas para a confecção de esculturas em baixo-relevo (tuttotondo, stiacciato) com o uso de materiais diversos como mármore, bronze e madeira.
Biografia
Formação (1386–1466)

Donatello nasceu em Florença no ano de 1386, filho de Niccolo di Betto Bardi, tecelão de lã. Inquieto e com uma família modesta, seu pai tinha uma vida tumultuada, tendo participado primeiro da revolta dos ciompi em 1378, e em outra revolta posterior, processado, teria sido condenado à morte se não houvesse um perdão geral.[1] O filho era muito diferente do pai. Em 1408, trabalhou na obra do Duomo de Florença, para o qual executou uma estátua de Davi em mármore, com uma coroa de amaranto e membros alongados, num estilo gótico tardio, com algumas tendências clássicas,[2] mas apoiada numa perna só ao qual corresponde uma torção do busto, e as mãos realistas, mostrando um estudo acurado da anatomia humana. Em 1416, a estátua foi transportada para o Palazzo Vecchio, estando hoje em dia conservada no Bargello.[3]
Entre 1409 e 1411, esculpiu o "São João Evangelista", para um nicho ao lado do portal central do Duomo, reagindo ao maneirismo do gótico tardio com uma composição clássica, mas humana e apoiada em estudos anatómicos, que viriam a ser um importante modelo do Moisés de Michelangelo.[4]
Em 1411, trabalhou a pedra para a Igreja de Orsanmichele. De 1411 a 1412 realizou o "São Marcos". Em 1417, completou uma estátua de "São Jorge" comissionado pela guilda dos artesãos de armaduras, pois estes queriam uma figura que apresentasse suas armas. Donatello apresentou uma figura animada pela torção e o jogo das pernas. A base em pedra apresenta um baixo-relevo construído com a técnica do stiacciato, e é um dos primeiros exemplos de perspectiva com único ponto de fuga, representando a luta com o dragão.[5]
Por volta de 1423 esculpiu o "São Ludovico em Tolosa", originalmente inserido em um tabernáculo de ordem coríntia. Entre 1415 e 1426, esculpiu cinco estátuas para o Duomo: "O Profeta imberbe", "O Profeta barbudo", "O Sacrifício de Isaac", "Profeta Abacuc" (chamado Zuccone pela calva) e "O Profeta Jeremias", caracterizados pelo modelo clássico de oradores, imponentes e dignos, mas com gestos pacatos e um forte efeito claro-escuro no manto.[6]
De 1422 é a Madona Pazi, que se encontra em Berlim. Em 1425, realizou o "Crucifixo" de madeira da igreja de Santa Cruz de Florença, onde o Cristo é retratado no momento da agonia, com os olhos semiabertos, corpo tenso.[7]
De 1425 a 1427, colaborou com Michelozzo no monumento fúnebre do Papa João XXIII (Baldassarre Cossa), no Battistero, onde executou a figura em bronze do defunto. Em 1427, em Pisa, elaborou os painéis de mármore do monumento fúnebre do "Cardeal Brancacci" para uma igreja de Nápoles. Para o batistério de Siena, entre 1425 e 1427, forneceu os relevos com "O Banquete de Herodes" e as estátuas "Esperança".[8]
Na Florença dos Médici (1428–1443)

Por volta de 1430, Donatello executou o "David" em bronze, um marco absoluto por ser a primeira estátua de vulto pleno de um nu masculino em tamanho real, produzido desde a Antiguidade clássica.[9] Encomendada por Cosme de Médici, a peça carrega uma dualidade iconográfica: pode ser lida tanto como o herói bíblico, símbolo das virtudes cívicas florentinas, quanto como o deus Mercúrio triunfante sobre Argo.[10] Com uma estética refinada e influência helénica, a obra utiliza o corpo jovem para simbolizar a vitória da razão sobre a força bruta. No mesmo período e sob o mesmo influxo cultural neoplatónico, o escultor produziu o enigmático Amore-Atys, peça que partilha com o David o ambiente do Palácio Médici e, actualmente, o Museu do Bargello.[11]
Entre 1431 e 1433, Donatello esteve em Roma, onde realizou o Tabernáculo do Sacramento para a Basílica de São Pedro. Ao retornar a Florença, dedicou-se à Cantoria (coro) do Duomo, onde explorou o dinamismo das figuras infantis em movimento frenético.[12] Em 1435, finalizou a "Anunciação Cavalcanti" em Santa Cruz, introduzindo detalhes em terracota dourada para ampliar a dramaticidade da cena.[13]
A fase final em Florença, antes da partida para Pádua, incluiu os trabalhos na Sacristia Velha de São Lourenço (1437–1443), onde esculpiu as portas de bronze com figuras de mártires e apóstolos. Destaca-se também o "Busto de um Jovem com Camafeu" (c. 1440). Esta obra rompe com a tradição dos bustos-relicários medievais, estabelecendo o busto como um monumento profano.[14] O camafeu ao peito da figura é uma alegoria da mente, representando a razão e a paixão conduzidas por um auriga.
A fase em Pádua (1443–1453)
Donatello mudou-se para Pádua para realizar o monumento equestre a Erasmo da Narni, o célebre mercenário conhecido como Gattamelata.[15] Executada entre 1443 e 1450, a obra buscou inspiração directa na Estátua de Marco Aurélio e nos cavalos da Praça de São Marcos.
A estátua apresenta uma reconstrução idealizada da autoridade militar; o bastão de comando em posição oblíqua cria um equilíbrio visual com a espada e as linhas horizontais do cavalo. O sucesso deste projecto foi tal que o Gattamelata se tornou o protótipo para monumentos equestres em toda a Europa até ao século XIX.[16]
Últimos anos (1453–1466)

De volta a Florença em 1453, o estilo de Donatello deu uma guinada em direcção ao que a crítica denomina "crise expressiva".[17] Desta fase data a "Madalena Arrependida" em madeira, que chocou os contemporâneos ao rejeitar a beleza idealizada em favor de um corpo esquelético e sofrido, focando-se na angústia espiritual.[18]
Por volta de 1455, trabalhou no grupo de bronze Giuditta e Oloferne, encomendado por Piero de Médici. A obra, que ostenta a assinatura Opus Donatelli flo, carrega um forte simbolismo republicano: a castidade que vence a luxúria e a virtude que derruba a tirania.[19]
As suas encomendas derradeiras foram os púlpitos de bronze da Basílica de São Lourenço. Nestes relevos, o estilo de Donatello atingiu um nível de drama e fragmentação (próximo do non-finito (por acabar) que desafiava os padrões da época e antecipava a modernidade.[20] O escultor faleceu em 1466 e foi sepultado, por desejo próprio, na cripta de São Lourenço, permanecendo próximo do seu amigo e patrono, Cosme de Médici.[21]
O estilo do relevo Stiacciato
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Donatello tornou-se famoso pelos seus relevos, particularmente pelo desenvolvimento de uma técnica de profundidade mínima denominada stiacciato (literalmente, "esmagado"). Neste estilo, todas as partes da composição apresentam um relevo extremamente baixo, o que contrastava com a prática de outros escultores contemporâneos, como Lorenzo Ghiberti, que nas suas Portas do Paraíso misturava elementos em alto e baixo-relevo numa única composição.[22]
O "primeiro marco" nesta técnica é o relevo em mármore de São Jorge Liberta a Princesa (c. 1416–1417), na base do nicho de Orsanmichele. As figuras projectam-se apenas ligeiramente para a frente, mas, através de sobreposições hábeis, são integradas num plano unificado que sugere um espaço profundo, embora não ilimitado.[23] Embora não apresente ainda um sistema de perspectiva totalmente coerente, o pórtico à direita já revela um esquema perspectivo parcial, antecipando as inovações que surgiriam na década seguinte.
O passo seguinte nesta evolução ocorreu com o uso do bronze. Em 1423, a encomenda do relevo para a pia baptismal do Baptistério de Siena, intitulado O Banquete de Herodes, foi transferida de Ghiberti para Donatello.[24] Nesta obra, a composição organiza as figuras em três planos sucessivos definidos pela arquitectura. À esquerda, Herodes recua horrorizado perante a cabeça de João Baptista; ao centro, Salomé continua a sua dança; e ao fundo, através de arcadas, vislumbram-se músicos e outros criados.[25] Curiosamente, a obra não utiliza um ponto de fuga único, mas sim dois, possivelmente com o intuito de criar uma tensão subliminar no espectador que reflicta a natureza macabra do tema.[26]
Outros exemplos notáveis de stiacciato incluem a Madona Pazi (c. 1425–1430), onde a ausência de fundo esculpido foca toda a atenção na relação íntima e humana entre a Virgem e o Menino, e a Assunção da Virgem no monumento Brancacci em Nápoles.[27] Nestas peças, Donatello demonstra que o relevo não precisa de volume físico para criar presença; a vibração da luz sobre a superfície quase plana é suficiente para conferir vida e profundidade à pedra.[28]
Principais obras
- "São Marcos" - Florença;
- "Tabernáculo de São Jorge" - Museu Nacional do Bargello, Florença;
- "Profetas" (Zuccone) - Duomo, Florença;
- "O Banquete de Herodes" - Pia batismal da catedral de Siena;
- "Davi" - Museu Nacional do Bargello, Florença;
- "Gattamelata" (estátua equestre ) - Pádua;
- "Maria Madalena" - Duomo, Florença;
- "Judite e Holofernes" - Palazzo Vecchio, Florença.
Ver também
Referências
- ↑ Janson 1957, p. 4.
- ↑ «Donatello». infopédia
- ↑ Poeschke 1993, p. 22.
- ↑ Rosenauer 1993, p. 45.
- ↑ Janson 1957, p. 23.
- ↑ Poeschke 1993, p. 38.
- ↑ Rosenauer 1993, p. 61.
- ↑ Janson 1957, p. 56.
- ↑ Poeschke 1993, p. 102.
- ↑ Janson 1957, p. 77.
- ↑ Rosenauer 1993, p. 158.
- ↑ Janson 1957, p. 82.
- ↑ Poeschke 1993, p. 115.
- ↑ Rosenauer 1993, p. 202.
- ↑ Hibbard 1965, p. 142.
- ↑ Janson 1957, p. 151.
- ↑ Rosenauer 1993, p. 310.
- ↑ Poeschke 1993, p. 148.
- ↑ Janson 1957, p. 198.
- ↑ Poeschke 1993, p. 155.
- ↑ Hibbard 1965, p. 150.
- ↑ Seymour 1966, pp. 65-66.
- ↑ Seymour 1966, p. 66.
- ↑ Coonin 2019, p. 85.
- ↑ Seymour 1966, p. 80.
- ↑ Olson 2002, p. 61.
- ↑ Coonin 2019, p. 98.
- ↑ Olson 2002, p. 79.
- ↑ Medico
Bibliografia
- Janson, H.W. (1963). The Sculpture of Donatello. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-00318-4
- Poeschke, Joachim (1993). Donatello and His World: Sculpture of the Italian Renaissance. Nova York: Harry N. Abrams. ISBN 978-0810932111
- Rosenauer, Artur (1993). Donatello. Milão: Electa. ISBN 88-435-4226-5
- Vasari, Giorgio (2011) [1550]. Vidas dos Artistas. São Paulo: Penguin Classics. ISBN 978-8563560261
- Hibbard, Howard (1965). The Metropolitan Museum of Art. Nova York: Harper & Row. ISBN 0-06-430020-9 Verifique
|isbn=(ajuda) - Seymour, Charles (1966). Sculpture in Italy, 1400–1500. [S.l.]: Penguin Books. ISBN 0-14-056026-X Verifique
|isbn=(ajuda) - Coonin, A. Victor (2019). Donatello and the Dawn of Renaissance Art. [S.l.]: Reaktion Books. ISBN 978-1-78914-130-6
- Olson, Roberta J.M. (2002). Italian Renaissance Sculpture. [S.l.]: Thames & Hudson. ISBN 978-0-500-20126-8
Ligações externas
- «Biografia» (em inglês)
- «A escultura italiana - Donatello - Galeria de fotos» (em italiano)
