Matinha (Feira de Santana)

Localização do distrito, em cor laranja.

Matinha é um distrito do município de Feira de Santana, localizado a leste da BR 116 Norte. Até o ano de 2008, era um povoado do distrito de Maria Quitéria (antigo São José das Itapororocas), qusndo foi elevada a condição de distrito de Feira de Santana.

O distrito abriga diversas localizações (povoados) em seu território, dentre eles estão: Olhos D’Águas das Moças, Candeal II, Moita Onça, Vila Menilha (Salgada), Baixão, Sítio do Padre, Tanquinho, Genipapo II, Alto do Tanque, Alto do Canuto, Alecrim Miúdo, Jacu, Capoeira do Rosário e Candeia Grossa.[1]

Dentro do município de Feira de Santana, o Distrito da Matinha abriga o maior número de comunidades remanescentes de quilombo certificadas pela Fundação Cultural Palmares, sendo elas: a comunidade quilombola da Matinha dos Pretos (sede do distrito), certificada em 2014; Comunidade Quilombola de Candeal II, certificada em 2017 e Comunidade Quilombola de Moita da Onça, certificada em 2024 .[2] Por conta disso, o Distrito abriga a maior quantidade de quilombolas do município de Feira de Santana.

História

Período Pré-Colonial

Pouco se discute historiograficamente acerca dos primeiros habitantes da região do Distrito da Matinha, contudo, pela proximidade geográfica da região de São José das Itapororocas, assume-se que antes do século XVIII, a região era habitada por indigenas da etnia Paiaiá, o que muitas vezes é sustentado pela memória oral dos moradores locais[3].

Colonização, escravidão e formação

A região que hoje é parte do Distrito da Matinha está intimamente ligada ao período de colonização da história do Brasil, sobretudo com o período de interiorização do processo colonial e com o processo de uso das terras do interior do Brasil para a criação de gado e plantação de fumo durante o século XVIII. Nesse movimento, a região foi ocupada por fazendeiros que fundaram fazendas com este propósito econômico, dentre eles a família Souza Estrella, que possuiu as terras da "Fazenda Candial", uma enorme propriedade escravista que englobou boa parte ou até toda a região que hoje é o distrito[4].

Durante o século XIX, a propriedade sustentou o enriquecimento de diversas famílias de influência na região do recôncavo, uma vez que ela passou nas mãos de diversos donos de famílias distintas neste período, até chegar, na metade do século XIX, as mãos do Coronel Antônio Alves de Freitas Borja, que seria o último dono da propriedade[5].

Tanque da Matinha dos Pretos em julho de 2022, reservatório aquífero considerado um dos espaços iniciais de aquilombamento da região.

Por conta deste histórico, a escravidão foi um elemento fundamental para a ocupação da região[6]. A Fazenda Candial chegou até, em meados do ano de 1840, cerca de 125 escravizados, que eram utilizados para diversos fins produtivos dentro da propriedade. Contudo, ao mesmo tempo, os escravizados buscavam estratégias de resistência ao regime escravista na região, constantemente empreendendo em fugas e se escondendo em uma mata de Baraúna baixa próxima a um reservatório aquífero que logo ficou conhecido pelos capitães do mato da propriedade como o "Tanque da Matinha dos Pretos"[7], referindo-se ao ato do refúgio dos escravidão em meio as matas, o que apelidou o povoado de "Matinha dos Pretos".

Com a formação do quilombo da Matinha dos Pretos na região e a continuidade das fugas e resistência dos negros escravizados, a Fazenda Candial teve seu declínio ao longo do século, na medida em que se subdividiu em várias propriedades que acabaram, por sua vez, formando outras localidades, quilombolas e não quilombolas.[5]

Formação do Povoado da Matinha dos Pretos e eventual emancipação de São José

Nos anos de 1920, já com Feira de Santana emancipada e com a propriedade dissolvida, o Jacú, uma das localidades formadas na antiga região da Fazenda Candial foi acometida com casos da Peste Bubônica. Segundo a memória da comunidade, uma senhora de nome Antônia haveria feito uma promessa a São Roque, santo guardião das enfermidades no catolicismo, que, caso a doença não chegasse a Matinha, ela mandaria erguer um cruzeiro em homenagem ao santo. De fato, a doença não chegou e a promessa foi cumprida, demarcando o início do Povoado da Matinha dos Pretos, que virou um centro comunitário de encontro da população das diversas localidades formadas a partir da propriedade.[8]

Antiga placa de boas vindas ao Distrito da Matinha dos Pretos em Feira de Santana

Com a incorporação da antiga Freguesia de São José das Itapororocas ao município de Feira de Santana em 1938, o povoado fora incorporado a região do Distrito de Maria Quitéria (referente a região da antiga freguesia), situação em que permaneceu até o ano de 2008, quando finalmente foi emancipado através de reivindicações dos moradores locais. Na ocasião, o povo da Matinha travou diversos conflitos com o poder municipal para a manutenção do território do Distrito e, sobretudo, para manter o nome original de seu povoado "Matinha dos Pretos", o que foi limitado, provocando oficialmente a exclusão do sufixo "dos Pretos" pela poder público municipal.

Referências

  1. Jesus, Juliele Nascimento (9 de abril de 2018). «GEOESPACIALIZAÇÃO DAS INFORMAÇÕES DO MEIO FÍSICO DO DISTRITO DE MATINHA DOS PRETOS - FEIRA DE SANTANA (BA)». Anais Seminário de Iniciação Científica. 0 (20). ISSN 2595-0339 
  2. «Comunidades certificadas pela fundação Palmares» (PDF). Fundação Palmares. 1 de junho de 2016. Consultado em 6 de novembro de 2018 
  3. Rios, Matheus (17 de dezembro de 2018). «São José das Itapororocas (Maria Quitéria): passado e presente». Feirenses - Feira de Santana aprofundada. Consultado em 10 de dezembro de 2025 
  4. Freire, Luiz Cleber Moraes (2007). «Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: agropecuária, escravidão e riqueza em Feira de Santana, 1850-1888». Consultado em 10 de dezembro de 2025 
  5. a b CARMO, Yuri C. "Resistir para existir": lutas populares e continuidades da resistência negra nas comunidades quilombolas de Feira de Santana-BA no pós-abolição. Orientador: Profº Drº Emmanuel Oguri Freitas. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) - Curso de Licenciatura em História, Feira de Santana, BA, 2024.
  6. SOUZA, Railma dos Santos. Memória E História Quilombola: Experiência Negra Em Matinha Dos Pretos E Candeal (Feira De Santana/Ba). Orientador: Prof.ª Dr.ª Rosy de Oliveira. 2016. 138 f. Dissertação (mestrado) – Mestrado Profissional Em História Da África, Da Diáspora E Dos Povos Indígenas, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Centro de Artes, Humanidades e Letras, 2016.
  7. Yuri Caetano do Carmo; Emmanuel Oguri Freitas (13 de dezembro de 2023). «OS LUGARES QUE CONTAM HISTÓRIAS E RESGATAM A MEMÓRIA DA COMUNIDADE QUILOMBOLA MATINHA DOS PRETOS». Anais dos Seminários de Iniciação Científica (26). ISSN 2595-0339. doi:10.13102/semic.vi26.10398. Consultado em 10 de dezembro de 2025 
  8. SÉ, Frederico N. S. Memórias da Matinha. 2009. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) - Curso de Licenciatura em História, Feira de Santana, BA, 2009.