Dieta cetogênica

Dieta cetogênica (português brasileiro) ou dieta cetogénica (português europeu) é uma dieta de alta gordura, proteína moderada e baixo carboidrato que, na Medicina, é utilizada, primordialmente, para tratar epilepsia[1] refratária em crianças.

A dieta promove uma troca de combustível no corpo, que usualmente utiliza glicose e passa a utilizar gordura como fonte de energia. Normalmente, os carboidratos contidos na comida são convertidos em glicose, que é transportada pelo corpo e que é particularmente relevante na função cerebral. Contudo, se pouco carboidrato permanece na dieta, o fígado converte a gordura nos chamados corpos cetônicos, que passam a suprir o corpo com energia (daí, o nome da dieta cetogênica).

O número elevado de corpos cetônicos leva à redução da frequência de convulsões epilépticas[2] nos pacientes que a adotam. Em média, metade das crianças e jovens que utilizaram tal dieta ou alguma variação desta viu os episódios serem reduzidos pela metade. Esses benefícios prosseguem mesmo após o paciente ter saído da chamada cetose.[3]

Os corpos cetônicos podem ser medidos através de diferentes dispositivos que utilizam urina, hálito ou sangue como meio. Os números ideais de corpos cetônicos variam de acordo com o motivo pelo qual a dieta está sendo usada: emagrecimento e performance física, benefícios cognitivos ou tratamento de patologias.[4]

Dr. Thomas Seyfried utiliza a dieta cetogênica para tratamentos de doenças como câncer e prevê um número entre 3,0 mmol/L e 6,0 mmol/L nesses casos. Outros médicos e pesquisadores, como Stephen Phinney e Jeff Volek, que usam essa dieta para o tratamento de Diabetes mellitus tipo 2, preconizam números como 0,5 mmol/L para emagrecimento, e entre 1,0 e 3,0 para cognição e performance física.[5]

Efeitos colaterais desse tipo de regime alimentar podem ser prisão de ventre, colesterol elevado e pedras nos rins.

A chamada dieta cetogênica clássica foi desenvolvida na década de 1920 e amplamente utilizada através dos anos seguintes, mas sua popularidade caiu em virtude da criação de remédios anticonvulsivos.

Essa dieta tradicional mantém uma relação de 4:1 entre gorduras e proteínas + carboidratos. Isso é alcançado ao excluir alimentos com alto índice de carboidratos, como frutas e vegetais amiláceos, grãos, leguminosas e açúcar, enquanto a ingesta de alimentos com alto índice de gordura é elevada (castanhas, nozes, amêndoas, manteiga e laticínios integrais).[6]

A maior parte da gordura na dieta cetogênica provém do que se denomina Triglicerídeos de Cadeia Média (TCM), composto por ácido graxo com cadeias de carbono mais curtas do que as longas. Uma variável da dieta cetogênica, chamada de dieta cetogênica TCM, utiliza uma forma de óleo de coco que é rica em TCM para prover em torno da metade das calorias diárias. Nesse caso, o consumo de carboidratos e proteínas pode ser aumentado, o que permite uma variedade de alimentos maior.[7]

Nos últimos anos, novas utilizações terapêuticas desse regime foram sendo investigadas para desordens neurológicas como doença de Alzheimer,[8] esclerose lateral amiotrófica, autismo, tumor cerebral, enxaqueca, transtorno bipolar, compulsão alimentar, traumas cerebrais, dores e inflamações, doença de Parkinson e desordens do sono.

Popularmente, tem sido utilizada para otimização cognitiva, estabilização emocional, ganho de energia e perda de peso.

Efeitos colaterais

A dieta cetogênica não é considerada um método benigno, holístico ou completamente natural de tratamento.[9] Como qualquer terapia médica séria, ela pode causar complicações, embora geralmente sejam menos graves e menos frequentes do que aquelas observadas com o uso de medicamentos anticonvulsivantes ou intervenções cirúrgicas.[10][11] Entre os efeitos colaterais comuns, mas facilmente tratáveis a curto prazo, estão a constipação, acidose leve e hipoglicemia, caso seja mantido o jejum inicial. O aumento dos níveis de lipídios no sangue é observado em 60% das crianças, e o nível de colesterol pode aumentar cerca de 30%. Isso pode ser tratado alterando o teor de gordura na dieta, por exemplo, mudando de gorduras saturadas para poli-insaturadas, e, em casos de aumento persistente, reduzindo a proporção cetogênica. Suplementos são necessários para compensar a deficiência de muitos micronutrientes na dieta.[12]

A “gripe cetogênica” é um termo que designa o conjunto de sintomas relacionados à falta de energia e fadiga que se manifestam no início da dieta cetogênica. A razão para isso é que o organismo estava acostumado a depender do processo de quebra dos carboidratos e estava preparado para isso. Portanto, há um estoque de enzimas que facilitam esse processo. Com a restrição do consumo de carboidratos, o organismo não saberá como lidar com o excesso dessas enzimas. Também será necessário que o organismo produza novas enzimas para processar as gorduras. Outro resultado será a redução dos níveis de glicogênio nos músculos, o que causa a mencionada perda de energia e fadiga.[13]

O uso prolongado da dieta cetogênica em crianças aumenta o risco de crescimento lento ou atrasado, fraturas ósseas e formação de cálculos renais.[14][15][16] A dieta reduz os níveis do fator de crescimento semelhante à insulina 1, que é importante para o crescimento infantil. Assim como muitos medicamentos anticonvulsivantes, a dieta cetogênica tem efeitos adversos sobre a saúde óssea. Muitos fatores podem estar envolvidos, como acidose e supressão do hormônio do crescimento. Aproximadamente uma em cada 20 crianças em dieta cetogênica desenvolve cálculos renais (em comparação com uma em vários milhares na população geral). Sabe-se que a classe de medicamentos anticonvulsivantes conhecidos como inibidores da anidrase carbônica (topiramato, zonisamida) aumenta o risco de formar cálculos renais, mas a combinação desses medicamentos com a dieta cetogênica aparentemente não aumenta o risco em relação ao risco da dieta isoladamente. Os cálculos podem ser tratados e não justificam a interrupção da dieta. Cerca de metade das clínicas prescreve empiricamente suplementos orais de citrato de potássio para todos os pacientes em dieta cetogênica, e há alguns dados que indicam que isso reduz a frequência de formação de cálculos. No entanto, isso não foi testado em um estudo prospectivo controlado.[17]

Referências

  1. «Dieta cetogênica». ABE | Associação Brasileira de Epilepsia. 12 de agosto de 2014. Consultado em 27 de junho de 2019 
  2. Hartman, Adam L.; Kossoff, Eric H.; Freeman, John M. (1 de março de 2007). «The Ketogenic Diet: One Decade Later». Pediatrics (em inglês). 119 (3): 535–543. ISSN 0031-4005. PMID 17332207. doi:10.1542/peds.2006-2447 
  3. Martin-McGill, Kirsty J; Jackson, Cerian F; Bresnahan, Rebecca; Levy, Robert G; Cooper, Paul N (7 de novembro de 2018). «Ketogenic diets for drug-resistant epilepsy». Cochrane Database of Systematic Reviews. ISSN 1465-1858. doi:10.1002/14651858.cd001903.pub4 
  4. Szabluk, Juliana (25 de junho de 2019). «Como começar a Dieta Cetogênica? [Dicas e passos para a sua revolução]». Revolução Keto. Consultado em 27 de junho de 2019 
  5. «Ketones and Nutritional Ketosis: Basic Terms and Concepts». Blog | Virta Health (em inglês). 18 de abril de 2018. Consultado em 27 de junho de 2019 
  6. jcsouto, Postado por. «Cetose». Consultado em 27 de junho de 2019 
  7. «The MCT Diet». Epilepsy Foundation (em inglês). Consultado em 27 de junho de 2019 
  8. «Dieta cetogênica é promissora no tratamento do Alzheimer». Primal Brasil. 18 de abril de 2018. Consultado em 27 de junho de 2019 
  9. «Is the Keto Diet Safe? What are the Risks?». www.uchicagomedicine.org. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  10. «The role for ketogenic diets in epilepsy and status epilepticus in adults». www.sciencedirect.com. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  11. «To treat or not to treat drug-refractory epilepsy by the ketogenic diet? That is the question» (PDF). www.aaem.pl. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  12. «Micronutrient-dense foods to combat malnutrition». www.gainhealth.org. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  13. «11 Dangers of a Ketogenic Diet». thingshealth.com. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  14. «long-term effects of the ketogenic diet on bone health and kidney stone formation in pediatric patients». aesnet.org. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  15. «Kidney stones and the ketogenic diet: Risk factors and prevention». pure.johnshopkins.edu. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  16. «Side Effects of Ketogenic Therapy». www.matthewsfriends.org. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  17. «Optimal clinical management of children receiving dietary therapies for epilepsy: Updated recommendations of the International Ketogenic Diet Study Group». pmc.ncbi.nlm.nih.gov. Consultado em 2 de novembro de 2025