Crise da habitação em Portugal

A crise da habitação em Portugal vem-se acirrando cada vez mais desde 2011, quando o país, ameaçado pela falência, recorreu à assistência financeira internacional.[1][2] Para equilibrar as contas e atender às exigências dos credores, Portugal adotou uma série de medidas, como os "vistos gold", autorização de residência a investidores ricos, vantagens fiscais para aposentados estrangeiros e nômades digitais. Os investidores desempenharam um papel importante no reaquecimento do mercado imobiliário e na transformação de grandes cidades portuguesas, que viram um aumento nas locações de curto prazo devido ao turismo. De acordo com um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, os custos de habitação aumentaram em 78% entre 2012 e 2021 em Portugal, enquanto na União Europeia esse aumento foi de 35%. Além disso, conforme os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), no segundo trimestre de 2023 as rendas das casas em Portugal voltou a subir em 11%, para 7,27 euros por metro quadrado (m2), sendo as mais elevadas na Área Metropolitana de Lisboa (11,03 euros por m2), Algarve (8,35 euros), Madeira (8,04 euros) e na Área Metropolitana do Porto (7,87 euros). Para 2024 a renda mediana de novos contratos aumentou 10,0% e o número de novos contratos diminuiu 10,4%, sendo as mais elevadas na Grande Lisboa (13,16 €/m2), Região Autónoma da Madeira (10,44 €/m2), Península de Setúbal (10,24 €/m2), Algarve (9,92 €/m2) e Área Metropolitana do Porto (9,12 €/m2). Para o primer trimestre de 2025, verificou-se um aumento homólogo da renda mediana em 23 dos 24 municípios com mais de 100 mil habitantes, destacando-se Gondomar (24,4%) , Lisboa continua a ter a maior renda mediana (16,00 €/m2), Braga foi o único município a apresentar um decréscimo (-0.9%) no valor da renda. O coeficiente de atualização de rendas para contratos já existentes em 2025 foi fixado em 2,16%, para 2026 este valor pode subir até 2,25%.
Em junho de 2023, um apartamento tipologia 1 (1 quarto) custava em média 2.500 euros por mês, 200 euros mais caro que em Amesterdão, tida como a cidade mais cara da Europa, segundo o índice internacional Housing Anywhere, que analisou 64 mil imóveis em 23 cidades europeias.[3][4]
O aumento do preço das casas e do arrendamento em relação ao crescimento dos salários é um problema que afeta muitas cidades ao redor do mundo, e Portugal, em particular Lisboa e Porto, não são exceção. A crise habitacional em Portugal vem levando moradores ao despejo e ao desequilíbrio do mercado imobiliário. O aumento das taxas de juros tornou a situação ainda mais dramática em um país onde 87% dos titulares de empréstimos hipotecários enfrentam taxas variáveis.[5]
O aumento dos preços das casas em Portugal a partir de 2017 teve um impacto negativo na acessibilidade ao mercado imobiliário, tanto para a compra quanto para o arrendamento, principalmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto onde a especulação imobiliária resultou em famílias alocando uma parcela maior de sua renda para adquirir ou alugar uma casa. O rendimento necessário para comprar uma habitação mediana aumentou significativamente enquanto a instabilidade no emprego e condições de crédito mais restritivas têm contribuído para tornar o acesso à habitação mais difícil. Essa combinação de fatores tem levado a um cenário em que muitas pessoas enfrentam desafios significativos para encontrar uma habitação adequada e acessível, afetando negativamente a qualidade de vida e a estabilidade financeira das famílias em Portugal, especialmente nas regiões metropolitanas de Lisboa e Porto.[6]
Recomendações do Fundo Monetário Internacional
Face aos riscos macrofinanceiros da exposição ao setor imobiliário, o Fundo Monetário Internacional (FMI) sugeriu em maio de 2023 que Portugal constituísse uma reserva de capital destinada a reforçar a resiliência da banca portuguesa.[7]
Manifestações populares

Em 30 de setembro de 2023 saiu-se pela segunda vez às ruas em mais de 20 cidades como Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Coimbra, Covilhã, Guimarães, Lagos, Leiria, Portimão, Viseu, Samora Correia e Alcácer do Sal.[8] Em Lisboa os protestos começaram na Alameda D. Afonso Henriques e foram até ao Rossio, onde foi montado um palco para se ouvirem palavras contra a crise da habitação. O protesto ocorrido na capital do país, enquadrado na plataforma “Casa para viver, Planeta para habitar”, agregou mais de uma centena de associações e coletivos, e aconteceu na sequência da manifestação realizada a 1 de abril. Naquele momento, ainda estava em discussão o pacote Mais Habitação,[9] aprovado no Parlamento em 22 de setembro de 2023.[8][10]

No Porto, pelo menos oito mil pessoas ocuparam toda a extensão da rua de Santa Catarina, desde a Praça da Batalha até à Rua de Fernandes Tomás, manifestando-se pelo direito à habitação enquanto os turistas observavam a marcha.[8]
Em Braga, para chamar à atenção da crise na habitação em Portugal o movimento Porta a Porta - Casa Para Todos decidiu acampar junto ao Banco de Portugal. O porta-voz da organização explicou que o objetivo da ação era evidenciar ao governo que o problema da habitação vai para além de Lisboa.[11]

As manifestações pelo direito à habitação do dia 01 de abril 2023 decorreram nas cidades de Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa, Porto e Viseu. Direito à habitação, à cidade e o fim da exploração e do aumento do custo de vida foram as três principais reivindicações para garantir “casa digna para todas as pessoas”. Integrada numa ação europeia pelo direito à habitação (Housing Action Days 2023/ Dias de Ação pela Habitação 2023), coordenada pela European Action Coalition for the Right to Housing and the City, a manifestação “Casa Para Viver” reuniu cerca de cem associações, algumas dedicadas especificamente à habitação, como a Associação de Inquilinos Lisbonenses, a Habita! ou a Stop Despejos, e outras cívicas, ecologistas e ambientais, feministas e de pessoas LGBTQIA+ (minorias sexuais e de género), antirracistas e de migrantes, anticapitalistas e por direitos laborais (incluindo o Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social e os Precários Inflexíveis), além de muitos outros coletivos comunitários e de moradores.[12]
Anualmente desde o 2023, o coletivo "Casa para viver" junto com diferentes coletivos pela habitação convocam milhares de pessoas a protestar ao longo do territorio portugues.[13]
Impacto na comunidade estudantil

As dificuldades para estudantes universitários em encontrar habitação em Lisboa vêm sendo denunciadas por diversas organizações através de protestos. Na Cidade Universitária da capital do país “alugou-se” uma barraca por 1.800 euros. O artista Ticiano Rottenstein ergueu, em frente da Reitoria da Universidade de Lisboa, um cubículo feito de pedaços de madeira, com porta e móveis dentro, e um cartaz à porta a dizer “Arrenda-se T0” e depois os sucessivos valores, riscados, de 300 e 600 euros, seguidos do valor atual, de 1.800 euros. A ação visou chamar a atenção para a crise da habitação e os seus efeitos na comunidade estudantil e também promover as manifestações ocorridas em 2 de outubro de 2023 em diversas cidades do país em protesto contra a crise na habitação em Portugal.[14]
Num inquerito feito pela Federação Académica de Lisboa (FAL) um de cada quatro estudantes do insino superior ponderou abandonar os estudos por causa dos custos de habitação. O inquerito mostrou que 43% dos estudantes deslocados não terem qualquer contrato de arrendamento: 60% referem que a ausência de contrato resulta da recusa do senhorio e 26% denunciam que o valor da renda aumentaria caso o contrato seja formalizado [15].
Despejos em meio à crise habitacional

Com ordens de saída até final de novembro de 2023, 32 famílias vão ter de abandonar as próprias casas, em Lisboa, na sequência do projeto de extensão da linha vermelha do metro, de São Sebastião até Alcântara. Entre os 20 edifícios afetados pelas obras, onze são imóveis de habitação social da Câmara de Lisboa. As indemnizações oferecidas pelo Metropolitano de Lisboa para mitigar os impactos negativos das expropriações na zona da Estrela, causaram indignação junto dos proprietários.[16]
Em meio à crise habitacional, as expropriações para a construção da linha vermelha do metro de Lisboa em Alcântara incluem o despejo de 12 famílias residentes em imóvel pertencente à Câmara municipal na Calçada do Livramento, onde se encontra o patrimônio histórico-arquitetônico do Baluarte do Livramento, construção militar edificada no século XVII. As famílias conheceram a notícia através da comunicação social e do estudo de impacto ambiental no começo de 2022, e somente obtiveram informação oficial de que suas casas seriam demolidas com a extensão do metro a Alcântara em setembro de 2023, cerca de dois meses antes da data prevista para a demolição de suas casas.[17][18] A alegada falta de diálogo e apoio por parte da Câmara de Lisboa aos seus inquilinos na Calçada do Livramento foi denunciada por Paula Marques, vereadora dos Cidadãos Por Lisboa (CPL), que apresentou um requerimento à autarquia solicitando uma clarificação sobre o assunto.[18]
No primer semestre de 2025, dados da Direção-Geral da Administração da Justiça mostram um crescimento dos despejos em Portugal na ordem dos 14% quando comparados os de 2024, e tem milhares de processos de despejo abertos nos tribunais. Entre Janeiro e Maio de 2025 houve mais 1.107 novos pedidos de “procedimento especial de despejo” no Balcão do Arrendatário e do Senhorio, 6% menos que no 2024. Grande parte destes procedimentos especiais de despejo, à volta de 40%, ou seja 441, dizem respeito ao distrito de Lisboa, onde se registou um aumento de perto de 1%. No 2025 houve 659 despejos concretizados. Lisboa novamente surge como o distrito em que o fenómeno mais se regista com 282, o que representa um aumento de 21% respeto ao 2024. O Porto com 108 despejos, representa uma subida de cerca de 6% [19].
Bairros de Lata
Semelhantes às favelas do Brasil, bairros de lata são aglomerado de casas, sem infraestruturas fundamentais, que são habitados por pessoas carenciadas. Normalmente ficam localizados nos subúrbios ou nas periferias dos centros urbanos. Tornaram-se comuns em Portugal a partir da década de 60, com a chegada de várias pessoas aos centros urbanos de Lisboa e do Porto vindos da zonas rurais. Mais tarde, foram também utilizados pelas pessoas oriundas dos PALOP que chegavam a Portugal. Embora muitos já não existam devido a políticas de realojamento, alguns ainda existem e novos foram criados.
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Em 2019, havia cerca de 13 bairros de lata na Área Metropolitana de Lisboa. [20] No entanto, em 2025, estimava que o número de bairros de barracas tive aumentado para cerca de 30 por causa da crise habitacional. [21]
Para além da falta de condições e necessidades básicas, os habitantes destes bairros sofrem, por vezes, demolições das suas casas que as obrigam a viver na rua. Em 2025, a Câmara de Loures demoliu várias barracas do Bairro do Talude, tendo os moradores negado qualquer apoio da parte da Câmara para encontrar uma solução.[22][23]
Ver também
Referências
- ↑ «Programa de Assistência Económica e Financeira». Banco de Portugal. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «Portugal to scrap 'unjust' tax breaks for foreign residents». The Guardian (em inglês). 3 de outubro de 2023. ISSN 0261-3077. Consultado em 6 de outubro de 2023
- ↑ «Lisboa é a cidade mais cara da Europa para arrendar casa». SIC Notícias. 13 de agosto de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «De mudança para Lisboa? Prepare o bolso: cidade tem aluguel mais caro da Europa». O Globo. 14 de agosto de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «Crise habitacional em Portugal leva moradores ao despejo e desequilibra mercado imobiliário». Exame. 30 de setembro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «A crise da habitação nas grandes cidades - uma análise». Fundação Francisco Manuel dos Santos. 27 de julho de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «FMI sugere reserva de capital na banca para lidar com riscos do setor imobiliário». SIC Notícias. 9 de maio de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ a b c «Manifestações pelo direito à habitação juntaram milhares de pessoas em todo o país». Jornal de Negócios. 30 de setembro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «Governo aprova pacote Mais Habitação». portugal.gov.pt. 16 de fevereiro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «À segunda, Marcelo promulgou pacote Mais Habitação: "Eu espero que corra bem"». Expresso. 30 de setembro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «Movimento "porta a porta" monta acampamento junto ao Banco de Portugal em Braga». RTP. 14 de setembro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ «Habitação. Manifestações marcadas para seis cidades no dia 1 de abril». Observador. 27 de março de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ https://executivedigest.sapo.pt/casa-para-viver-milhares-esperados-nas-ruas-de-portugal-em-manifestacao-de-defesa-do-direito-a-habitacao/ Em falta ou vazio
|título=(ajuda) - ↑ «Dificuldades de habitação para estudantes denunciadas em protesto em Lisboa». Observador. 29 de setembro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ https://expresso.pt/geracao-e/2025-10-06-25-dos-universitarios-de-lisboa-ja-pensou-abandonar-estudos-por-causa-das-rendas-a8cb81ef Em falta ou vazio
|título=(ajuda) - ↑ «Expropriações do Metro de Lisboa. Proprietários dizem que indemnizações são "injustas e incoerentes"». Rádio Renascença. 3 de outubro de 2023. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ Fieschi, Matilde; Faria Moreira, Cristiana (2 de maio de 2022). «Moradores souberam pelas notícias que as suas casas podem estar em risco com a extensão do metro a Alcântara». PÚBLICO. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ a b Alemão, Samuel (26 de setembro de 2023). «Expropriações da Linha Vermelha em Alcântara ameaçam deixar moradores sem tecto». PÚBLICO. Consultado em 5 de outubro de 2023
- ↑ https://www.esquerda.net/artigo/despejos-voltam-aumentar-situacao-e-dramatica-dizem-associacoes/95667 Em falta ou vazio
|título=(ajuda) - ↑ Portugal, Rádio e Televisão de (10 de fevereiro de 2019). «Lisboa. Subsistem 13 bairros de lata na zona metropolitana». Lisboa. Subsistem 13 bairros de lata na zona metropolitana. Consultado em 6 de janeiro de 2026
- ↑ Portugal, Rádio e Televisão de (10 de julho de 2025). «Linha da Frente. Bairros de lata estão a regressar à região metropolitana de Lisboa». Linha da Frente. Bairros de lata estão a regressar à região metropolitana de Lisboa. Consultado em 6 de janeiro de 2026
- ↑ «Bairro do Talude: "Não tenho como pagar renda num prédio, Há mosquitos e mordem-nos, mas temos de estar aqui"». SIC Notícias. 23 de julho de 2025. Consultado em 6 de janeiro de 2026
- ↑ «"Para mim não é barraca, é casa": dezenas de pessoas continuam a viver no bairro do Talude». SIC Notícias. 19 de julho de 2025. Consultado em 6 de janeiro de 2026