Concílio de Aquileia (381)

Ambrósio, Bispo de Milão, buscou refutar teologicamente as proposições do Arianismo, e foi a figura mais atuante no contexto do Concílio de Aquileia.

Concílio de Aquileia (3 de setembro de 381) foi um sínodo eclesiástico, parte da campanha empreendida por Ambrósio de Milão para eliminar os últimos focos de resistência ariana no mundo latino, persistentes nas províncias do Danúbio, onde, por razões históricas, a oposição ao Concílio de Niceia havia se enraizado muito mais profundamente do que em outras áreas do Ocidente.[1]

Foi o primeiro de um total de seis concílios ocorridos na antiga cidade romana de Aquileia,[2] e o primeiro a fornecer um protocolo significativo de registro dos diálogos realizados entre os oradores individuais, na forma de oratio recta.[3] Embora o concílio aquileiano não se compare ao Concílio de Constantinopla em termos de número de participantes, sua importância consistiu na consolidação efetiva da ortodoxia nicena no Império do Ocidente.[1]

O teólogo Frederick Homes Dudden, no início do século XX, considerou o Concílio de Aquileia como "a vitória do catolicismo sobre o arianismo".[4]

Antecedentes

Graciano, imperador do Ocidente à época da realização do Concílio de Aquileia.

Em julho de 381, o imperador Teodósio convocou o Concílio de Constantinopla, que consolidou a doutrina cristã baseada no Concílio de Niceia, ocorrido em 325, ao reconhecer oficialmente o dogma da Trindade — Deus, Jesus e Espírito Santo como uma só essência —, e fortalecer os bispos que seguiam essa doutrina, garantindo-lhes espaços de culto e respaldo legal, além de ser um ponto essencial na construção da ortodoxia cristã.[4]

Desde 380, em Sírmio, o imperador Graciano se mobilizava para também reforçar a validade do credo niceno nos territórios romano-ocidentais, ao promover o Concílio de Aquileia.[4] Ao defenderem a crença na Trindade, que vinha ganhando cada vez mais adeptos nas diversas camadas socias romanas, ambos imperadores ampliavam o alcance de seu poder, a percepção de sua utilidade pública e supremacia perante os romanos, o que diminuía os anseios usurpatórios de seus inimigos.[4]

À época, Teodósio e Graciano também disputavam a Ilíria — região rica em recursos e muito estratégica e, com ambos enfrentando os godos, que também almejavam o controle daquela área, constituições favoráveis à crença nicena foram criadas, apresentando os imperadores como protetores da Ilíria contra ameaças externas e heréticas.[4]

Ambrósio de Milão

Os círculos eclesiástico e estatal já discutiam a convocação de um concílio ecumênico em Aquileia há bastante tempo,[1] e a atuação de Teodósio e Graciano, além de suas leis, demonstravam que o fortalecimento dos princípios nicenos também era relevante nos aspectos político e social, o que fortalecia também o aspecto teológico,[4] o que tornou frutíferos os esforços de Ambrósio para organizar um sínodo naquela cidade.[1]

O Papa Libério, que havia sido o primeiro a apresentar uma proposta de convocação de um concílio em Aquileia, imediatamente após assumir a Sé de São Pedro, desejava a reconciliação entre os bispos do Oriente e do Ocidente, divididos desde o duplo sínodo de Sárdica, em 343 e 347 e precisava de uma oportunidade, que até então não havia surgido, devido às políticas eclesiásticas do imperador Constâncio. Passados vinte e cinco anos, Ambrósio retornou à ideia apresentada por Libério.[1]

O Bispo de Milão percebeu que, a partir do Concílio de Sírmio de 378, a ortodoxia nicena prevaleceu na Ilíria, ao mesmo tempo em que o problema da existência de dois bispos arianos da Dácia, Paládio de Raciária e Secundiano de Singiduno — que não haviam participado daquele sínodo —, permanecia sem solução.[1] Ambrósio recorreu ao Imperador Graciano, a quem os territórios do Ilírio Oriental estavam subordinados a partir do outono de 380, apresentando a proposta de um sínodo especial, que decidiria a questão dos bispos arianos de maneira definitiva.[1]

Ambrósio buscava, ao mesmo tempo, garantir que o sínodo aquileiano tivesse todas as características da mais ampla representação possível e impedir a participação dos bispos orientais, que poderiam apoiar a causa de Paládio e Secundiano. Como resultado de seus esforços, o imperador Graciano primeiro prometeu verbalmente a Paládio, em Sírmio, que os bispos orientais seriam convocados para Aquileia. Ambrósio, no entanto, argumentou que não havia necessidade de comover todo o mundo cristão somente para condenar dois hereges declarados, e que ele, e os bispos vizinhos, seriam suficientes para garantir a vitória da verdade. Convencido por este raciocínio, Graciano aconselhou aos bispos de países distantes que não comparecessem.[1]

Paládio e Secundiano

Dois bispos ilírios, Paládio de Raciária e Secundiano de Singiduno, cujas sedes são desconhecidas, embora não admitissem seguir a doutrina ariana, foram acusados ​​diversas vezes de heresia por outros bispos ocidentais. Em algum momento entre os anos de 378 e 379 — época em que Graciano era o único regente de todo o império —, ambos solicitaram ao imperador que convocasse um grande Concílio Geral, do qual participassem bispos orientais e ocidentais, para debater o assunto, imaginando poderem depositar suas esperanças nos muitos bispos arianistas existentes no Oriente.[5]

Paládio de Raciária, que havia escrito um tratado ao qual chamou de "Sobre a Fé", uma resposta ao livro homônimo escrito por Ambrósio, bispo de Milão, acabou se desentendendo com este último por conta do fato. Em setembro de 380, Paládio conseguiu uma audiência com Graciano, em que o imperador consentiu em convocar um Concílio Geral em Aquileia.[6] Incomodado e receoso de que muitos bispos orientais ainda fossem heterodoxos — e que, por isso, apoiariam Paládio —, Ambrósio conseguiu convencer Graciano[6] a ordenar que apenas os bispos vizinhos se reunissem para um sínodo em Aquileia, deixando todos os demais bispos, especialmente os orientais, livres para comparecer ou não.[5]

O concílio de Aquileia

Trinta e dois bispos foram reunidos, provenientes de diferentes partes do Ocidente: Itália, Panônia e África. Muitos destes atuaram individualmente como plenipotenciários de províncias inteiras. Somente Espanha e Roma não estavam representadas, a última provavelmente porque Ursino estava disputando a posse da Sé Apostólica com o Papa Dâmaso I.[5] Os bispos de Orange e Marselha atuaram como representantes da Gália.

Dentre os bispos mais célebres que ali se reuniram estavam São Valeriano de Aquileia, que foi o presidente do sínodo, Anêmio, bispo de Sírmio, capital da Ilíria, Eusébio de Bolonha, Justo de Lyon e Ambrósio de Milão, que se mostrou o membro mais ativo e a alma de todo o caso. Também presentes, estavam Abundâncio de Trento, Teodoro de Octodurum, o apóstolo de Wallis, e Filástio de Bréscia.[5] Paládio e Secundiano foram os únicos bispos arianos presentes,[2] muito ofendidos por não haverem encontrado outros apoiadores orientais no concílio.[6]

Os bispos se reuniram em 3 de setembro de 381,[2][5][6] e a discussão — constantemente interrompida pelos bispos arianos[1][2] — concentrou-se em estabelecer a base da posição de Paládio e Secundiano quanto às principais declarações de Ário sobre Jesus Cristo, contidas em sua confissão de fé dirigida ao bispo Alexandre de Alexandria.[1][5] Paládio reclamou que Ambrósio havia impedido a realização de um Concílio Geral — insistindo na presença de seus irmãos, os bispos orientais,[5] e fez constantes evasivas, respondendo que não conhecia Ário, além de declarar, quanto aos assuntos em discussão, que reconhecia apenas a autoridade da Sagrada Escritura. No entanto, suas diversas declarações demonstraram que ele reconhecia Cristo como o verdadeiro Filho de Deus, mas não como o verdadeiro Deus, uma vez que para ele Cristo seria apenas o senhor da criação, enquanto o verdadeiro Senhor seria apenas o Pai.[1] Todas estas táticas foram empregadas também por Secundiano, e juntos, os dois bispos arianos exigiram o adiamento do sínodo, até que um número maior de leigos também chegasse. No entanto, seguindo proposta feita por Ambrósio, os presentes ao sínodo pronunciaram o anátema e a sentença de deposição sobre Paládio e Secundiano,[5] declarados condenados por arianismo[6] e considerados indignos de seus ofícios sacerdotais,[2] à uma hora da tarde daquele mesmo dia.[5]

Os decretos gerados durante o concílio foram transmitidos aos imperadores Teodósio e Graciano, juntamente com uma súplica para que ambos os apoiassem com sua autoridade. Visando acabar com o cisma que dividia a Igreja de Antioquia desde o ano 362 — com um partido formado sob Melécio, apoiado por toda a Igreja Oriental, e outro sob Paulino, que era favorecido pelo Ocidente —, o concílio solicitou ainda que um novo sínodo fosse convocado em Alexandria, composto por todos os bispos católicos,para que se pudesse decidir a quem a comunhão seria concedida e recusada, o que acabou por dar origem ao Concílio de Roma, em 382.[2]

Embora o Concílio de Aquileia tenha removido os remanescentes do arianismo no mundo latino, não foi capaz de erradicá-los completamente no Ocidente. O arianismo continuou a existir entre as tribos germânicas que avançavam sobre o Império Ocidental. A causa católica levou vários séculos para ganhar ascendência também entre os germânicos. No entanto, tais fatos não diminuem o valor e a importância histórica do concílio de 381.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l Śrutwa, Jan (6 de agosto de 1983). «Synod akwilejski 381 - zachodni odpowiednik soboru Konstantynopolskiego» [Sínodo de Aquileia 381 - O Equivalente Ocidental do Concílio de Constantinopla]. Vox Patrum (em polaco): 190–199. ISSN 2719-3586. doi:10.31743/vp.10288. Consultado em 23 de setembro de 2025 
  2. a b c d e f Landon, Edward Henry (1893). Landon, Perceval, ed. A manual of councils of the Holy Catholick Church, comprising the substance of the most remarkable and important canons (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. pp. 39–40. Consultado em 23 de setembro de 2025 
  3. Graumann, Thomas (2021). The Acts of the Early Church Councils: Production and Character (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. pp. 20–21. ISBN 9780198868170. Consultado em 23 de setembro de 2025 
  4. a b c d e f Pohlmann, Janira Feliciano (5 de setembro de 2016). «Concílio de Aquileia de 381: propagação da fé nicena e da unidade imperial pela pena de Ambrósio, bispo de Milão». Scielo Brasil. doi:10.1590/2237-101x0183406. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  5. a b c d e f g h i Hefele, Karl Joseph von; Oxenham, Henry Nutcombe (1876). A History of the Councils of the Church: From the Original Documents. Volume II. A.D. 326 to A.D. 429 (em inglês). [S.l.]: T. & T. Clark, 38 George Street. pp. 375–376. Consultado em 23 de setembro de 2025 
  6. a b c d e Greenslade, Stanley Lawrence (1 de janeiro de 1956). Early Latin Theology: Selections from Tertullian, Cyprian, Ambrose, and Jerome (em inglês). [S.l.]: Westminster John Knox Press. pp. 182–183. ISBN 9780664241544. Consultado em 23 de setembro de 2025