Colônia Juliano Moreira

Colônia Juliano Moreira
Apresentação
Tipo
Estatuto patrimonial
bem tombado pelo INEPAC (d)
Localização
Localização
22713-375 Curicica
 Brasil
Coordenadas

A Colônia Juliano Moreira (CJM), originalmente chamada de Colônia dos Psicopatas Homens de Jacarepaguá, foi uma colônia psiquiátrica brasileira localizada em Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro (então Distrito Federal).

Foi fundada em 1924 com o objetivo de abrigar os internos das colônias psiquiátricas da Ilha do Governador, tendo sido imaginada originalmente como uma instituição psiquiátrica modelo. Em seu auge na década de 1970, chegou a possuir 15 núcleos em funcionamento, totalizando cerca de 5 000 internos.[1] A partir dos anos 80, reduziu o escopo de suas atividades até ser fechada completamente em 2022 em resposta ao progresso da luta antimanicomial.

Atualmente, a maior parte dos edifícios da Colônia estão abandonados, enquanto outros foram reformados para abrigar novos serviços e instituições, como a Clínica da Família Arthur Bispo do Rosário e o Museu Bispo do Rosário. A região ao redor da Colônia é considerada um sub-bairro de mesmo nome, localizado dentro do bairro da Taquara.

História

Engenho de Nossa Senhora dos Remédios

Originalmente, as terras da Colônia Juliano Moreira fizeram parte do grande terreno de Jacarepaguá reivindicado por Salvador Correia de Sá, o Velho, após a vitória portuguesa na Batalha do Uruçumirim. O terreno foi herdado por seu filho, Gonçalo Correia de Sá, e em seguida pela filha de Gonçalo, Vitória Correia de Sá, que em 1653 as desmembrou da Fazenda do Camorim e as vendeu para os irmãos Tomé e João da Silva. Neste local, os irmãos construíram um dos engenhos de açúcar mais antigos da cidade do Rio de Janeiro, que veio a ser conhecido como Engenho de Nossa Senhora dos Remédios, em homenagem à santa para a qual também ergueram uma pequena capela na propriedade.[2]

Em 1715, Antônio Teles Barreto de Menezes, Juiz de Órfãos da cidade, comprou as terras dos descendentes de Tomé e João Silva. Como neste mesmo período Antônio Teles também adquirira as terras adjacentes da Fazenda da Taquara (à época conhecida como Engenho de Dentro), a área do Engenho de Nossa Senhora dos Remédios veio a constituir parte desta nova e maior propriedade. Após o falecimento de Antônio Teles em 1757, todas estas terras foram herdadas por seu filho, Francisco Teles Barreto de Menezes. Em 1778, Francisco ordenou a construção de um novo engenho, em uma parte mais baixa do terreno, que ficou conhecido como Engenho Novo da Taquara. Neste período, iniciou-se também a construção do aqueduto, cujo objetivo seria trazer a água do Maciço da Pedra Branca para movimentar o engenho.[2]

Engenho Novo da Taquara

Lançamento da Pedra Fundamental da Ermida de Nossa Senhora dos Remédios, em Jacarepaguá (Emil Bauch, 1863)

Em 1806, após o falecimento de Francisco Teles Barreto de Menezes, as terras do Engenho Novo foram herdadas por sua filha Catarina Josefa de Andrade Teles, enquanto as terras da Fazenda da Taquara ficaram para sua filha Ana Inocência Teles de Menezes. Devido à falta de clareza no inventário de Francisco Teles a respeito das divisas exatas entre as duas propriedades, iniciou-se uma série de disputas judiciais entre as duas herdeiras, no que ficou conhecida como "guerra dos concunhados".[2][3]

Após a morte de Catarina Josefa em 1838, as terras do Engenho Novo foram herdadas por suas duas filhas com Pascoal Cosme dos Reis: Tereza e Maria Teles Cosme dos Reis. Sob a posse dessas herdeiras, terminou-se a construção do aqueduto e ergueu-se a casa-grande da fazenda, que permanece de pé até hoje.[2][3]

Em 1862, Maria Teles ordenou a construção da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios junto à casa-grande. O momento foi capturado por uma pintura de Emil Bauch que foi encomendada por Nicolau Antônio Cosme dos Reis, esposo de Tereza.[2]

Criação da colônia

Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira tornou-se diretor-geral da Assistência a Alienados do Distrito Federal, órgão público criado em 1890 para garantir o tratamento psiquiátrico gratuito universal a todos os então chamados "alienados mentais" (portadores de distúrbios psicológicos, alcoólatras e desviantes de diversos tipos).[4]

À frente do órgão, Moreira lutou por um tratamento mais humanitário dos pacientes, especificamente defendendo o modelo de instituições psiquiátricas idealizado pelo alemão Wilhelm Griesinger. Segundo Griesinger, idealmente haveriam dois tipos de hospitais psiquiátricos: o hospício urbano, que deveria tratar casos agudos e em regime fechado a curto prazo, e a colônia agrícola, no qual deveriam ficar, em regime aberto, os pacientes crônicos. Tais hospícios rurais permitiriam o melhor tratamento dos enfermos (devido ao não-encarceramento, à distância das pressões urbanas e ao contato com a natureza) e também aliviariam a superlotação, além de permitirem com que os enfermos se dedicassem à atividade agrícola, o que era visto tanto como uma forma de praxiterapia quanto uma maneira da instituição se manter financeiramente independente.[4]

Nesta época, já existiam algumas instituições psiquiátricas brasileiras que se assemelhavam às colônias agrícolas idealizadas por Moreira, como as Colônias de São Bento e Conde de Mesquita, ambas localizadas na Ilha do Governador do Rio de Janeiro. No entanto, apesar de tratarem os enfermos em regime aberto, estas colônias não haviam sido projetadas originalmente com esse foco, além de se encontrarem superlotadas e com dificuldades de ampliação (necessidades estas manifestadas pelo diretor das colônias, João Rodrigues Caldas).[4]

Portanto, reunindo o desejo de criar uma colônia-modelo com a necessidade de transferir os pacientes da Ilha do Governador para um espaço mais amplo, em 1911 foi tomada a decisão de se criar uma nova colônia agrícola na capital federal, com a Fazenda do Engenho Novo sendo escolhida como terreno para tal (nesta época o engenho já havia atingido uma fase de declínio, tendo sido vendido pela família Cosme dos Reis a Antônio Mariano de Medeiros alguns anos antes). Também foi levantada a possibilidade de situar a instituição na Fazenda dos Affonsos (atual bairro de Realengo), mas tal ideia foi abandonada devido à proximidade da fazenda com a Vila Militar e à inferioridade de seu solo quando comparado ao da fazenda de Jacarepaguá.[4]

Em 1912, o governo federal iniciou o processo de desapropriação do terreno, que foi concluído em 1918. A construção teve início em 1920, e em 1924 foi inaugurado o primeiro pavilhão da então-chamada Colônia de Psicopatas Homens de Jacarepaguá (na grafia da época, "Colônia de Psychopathas").[5]

Período 1920-1950: expansão e transição

Em 1933 faleceu Juliano Moreira, idealizador da Colônia. Dois anos depois, o nome da instituição foi alterado em sua homenagem, passando a se chamar oficialmente Colônia Juliano Moreira.

Em 1934, Gustavo Capanema foi nomeado ministro da Educação e Saúde do governo de Getúlio Vargas. Logo no início de sua administração, apresentou planos de transferir para a Colônia de Jacarepaguá os internos do Hospital Nacional de Alienados na Praia Vermelha, que encontrava-se superlotado e decadente. Para atingir este objetivo, a infraestrutura da Colônia foi grandemente ampliada, com diversos novos pavilhões sendo construídos ao longo dos anos seguintes: como resultado, o total de leitos saltou de 700 em 1936 para 2 900 em 1940.[5] O número de novas entradas também aumentou drasticamente, superando as décadas anteriores e a década seguinte; apenas no ano de 1942, foram 994 novas internações.[6]

Novas entradas de pacientes masculinos, por década[7][nota 1]
Década de 1920 Década de 1930 Década de 1940 Década de 1950
122 1 602 2 805 1 054

Este número de entradas estabilizou após 1944, quando se concluiu a transferência de internos do Hospital Nacional para a Colônia (processo este que possibilitou a desativação do hospital).[5] No entanto, apesar desta diminuição e dos novos pavilhões, a Colônia passou a lidar com problemas de superlotação: em 1946, possuía cerca de 3 700 pacientes, mas menos de 2 800 leitos, desencadeando faltas de vestuário, roupa de cama, dentre outros.[6] Nesta época também foram inaugurados dois pavilhões de tisiologia (um para cada sexo), voltados ao tratamento de pacientes tuberculosos.[6]

Ao longo da década de 1950, a Colônia continuou a se expandir, com a inauguração de novos pavilhões e iniciativas dentro da instituição. Dentre elas, destaca-se a Clínica de Neurocirurgia, criada em 1952 para a realização de lobotomias; o Centro de Estudos Psiquiátricos, criado em 1954 para concentrar atividades de pesquisa científica psiquiátrica; o Parque Infantil, também de 1954 e destinado aos filhos dos funcionários; e o Pavilhão Hitzig, inaugurado em 1958 com 140 novos leitos.[7] Paralelo a isso, também houve uma transição nas atividades de praxiterapia oferecidas pela instituição: o trabalho agrícola, que antes era o foco, passou a ser apenas uma dentre os diversos tipos de trabalho oferecidos, que incluíam reparação de roupas, fabricação de vassouras, fabricação de móveis de vime, pintura, dentre outros.[8] Com isso, a Colônia gradualmente transicionou de "colônia agrícola" para "hospital-colônia".[9] Contudo, apesar do aumento de ofertas de atividade, a década de 1950 também viu uma redução percentual da participação dos internos em atividades praxiterápicas: dos 4107 internos registrados em 1958, apenas 24,81% (1019) estavam envolvidos em atividades ocupacionais, menos do que os 38,90% de 1948.[6]

Período 1960-1980: decadência e cobertura midiática

A partir de meados da década de 1960, a instituição passou por um período de decadência.[6] O governo Castelo Branco, empossado em 1964, adotou uma política de assistência focada na privatização, que se manifestou em mais da metade da verba pública para saúde sendo destinada ao setor privado.[10][11] No contexto da Colônia, os pavilhões de tisiologia foram fechados, a capela foi desativada por falta de reformas, e a taxa de óbitos disparou, tornando-se três vezes maior do que a de qualquer outro hospital para pacientes psiquiátricos crônicos no país.[3] Neste período também se iniciou um aumento crescente de ocupações irregulares nos terrenos da Colônia, processo este que se estende até os dias de hoje.[6]

A crise se arrastou pela década de 1970. Diversas iniciativas foram propostas, dentre elas o aumento da alocação de pacientes no trabalho agrícola para melhorar a produção alimentícia e a consequente independência financeira da instituição.[3] No entanto, os problemas permaneciam evidentes. Em um relatório interno de 1973, a administração destacava a alta frequência de assaltos e roubos no terreno da instituição, além do desvio de alimentos destinados aos pacientes. O problema mais crítico, no entanto, era a falta de pessoal: haviam cerca de 4900 internos para apenas 42 médicos – uma proporção que só aumentou nos anos seguintes, considerando que as contratações foram congeladas em 1969.[12] A falta de pessoal era tão grave que se perdeu o controle exato de quantos pacientes estavam internados, apesar de haver um consenso de que haviam mais de 5 mil pacientes (o número mais alto de toda a história da instituição).[3]

No final da década de 1970, órgãos públicos de saúde mental começaram a ser pressionados por movimentos sociais em defesa da reforma psiquiátrica, como o Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental, fundado em 1978. Esta pressão resultou na abertura da Colônia à imprensa e na consequente produção de diversas reportagens sobre a instituição, que provocaram enorme comoção pública.[10] Dentre as coberturas feitas, destaca-se a matéria veiculada no programa Fantástico, de 18 de maio de 1980, na qual as instalações da Colônia foram comparadas a um "campo de concentração nazista". Grande foco foi dado ao fato de que muitos dos tratamentos originalmente projetados como terapêuticos, como o eletrochoque e os medicamentos calmantes, estavam sendo aplicados nos pacientes sem qualquer prescrição médica, apenas com teor punitivo e disciplinatório. Além disso, também foram mostrados os quartos-forte, chamados de "bôlos": celas coletivas num estilo prisional, sem iluminação, onde os enfermos dormiam amontoados e recebiam alimentação por meio de uma fresta na porta.[12]

Em resposta à comoção popular, em 1980 foi realizada uma comissão técnica por parte do Ministério da Saúde, cujo relatório concluiu que a instituição "atentava contra os princípios básicos vigentes da assistência ao doente mental". No mesmo ano, diversas medidas foram tomadas para melhorar a situação dos pacientes: dentre elas, destacam-se a suspensão dos tratamentos por eletrochoque, a abertura dos quartos-forte, e o fechamento da instituição para novas internações. A nível administrativo, também passou a haver uma preocupação muito maior em criar um ambiente democrático, com o estabelecimento de espaços coletivos para debate e decisões administrativas sendo tomadas via votação.[10]

Em 1988, o Ministério da Saúde determinou uma intervenção federal na Colônia, para estadualizá-la e adequá-la à política de saúde mental do governo. Como parte da intervenção, o então diretor Clécio Gouveia foi exonerado de seu cargo, provocando protestos dos funcionários e dos pacientes, que viam nas ações do Governo Federal um desrespeito aos processos democráticos internos da instituição (que haviam eleito o diretor) e um retorno aos protocolos "retrógrados" de tratamento psiquiátrico.[13] Para garantir a posse do interventor Renir Paiva, o Governo Federal enviou uma força-tarefa de 20 policiais federais e militares armados, e num gesto extremo que recebeu destaque jornalístico à época, também incluiu a presença de dois blindados Cascavel do Exército Brasileiro, cuja presença foi declarada oficialmente como uma "coincidência".[14][15] Devido à resistência dos funcionários e pacientes, a intervenção foi suspensa e o Clécio Gouveia retornou ao cargo de diretor no ano seguinte.[16]

Período 1990-atual

Em 2022, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro encerrou as atividades de internação psiquiátrica da Colônia, última instituição em funcionamento na cidade com estas funções.[17] Grande parte dos edifícios foram ressignificados, e hoje abrigam estabelecimentos variados, dentre eles a Clínica da Família Arthur Bispo do Rosário e o Centro de Atenção Psicossocial Arthur Bispo do Rosário.[18][19]

Organização

Fachada do Núcleo Histórico Rodrigues Caldas

A Colônia era dividida em diversas unidades, normalmente chamadas de pavilhões ou núcleos, que em geral atendiam a grupos de internos distintos.[20] A grande maioria se encontrava em quatro núcleos principais, dois masculinos e dois femininos:

  • Núcleo Rodrigues Caldas – um dos primeiros pavilhões a serem construídos, destinado a pacientes masculinos. Originalmente possuía 700 leitos, sendo um dos maiores.
  • Núcleo Ulysses Viana – construído em 1938,[21] com 650 leitos destinados a pacientes masculinos.
  • Núcleo Franco da Rocha – construído em 1936, com 650 leitos destinados a pacientes masculinos. Posteriormente, tornou-se um pavilhão para pacientes femininas.
  • Núcleo Teixeira Brandão – construído em 1940, com 640 leitos destinados desde o início a pacientes femininas.

Outras unidades incluíam:

  • Pavilhão Zaqueu Esmeraldo – unidade para tratamento de pacientes seletos que, por prestígio pessoal ou familiar, recebiam atenção especial. Pelas suas acomodações confortáveis e padrão de tratamento diferente do restante da instituição, era conhecido como "Gaiola de Ouro" pelos pacientes. Dentre as figuras recebidas, destaca-se o maestro Ernesto Nazareth, internado em 1933.
  • Bloco Médico-Cirúrgico Álvaro Ramos – unidade construída na década de 1940 para tratamento de enfermidades não-psiquiátricas consideradas simples, com serviços de laboratório e radiologia.[20][22]
  • Hospital Jurandyr Manfredini – originalmente construído como Pavilhão Nossa Senhora dos Remédios, para pacientes com tuberculose. Foi eventualmente transformado em um hospital psiquiátrico com 60 leitos para atender pacientes psiquiátricos de toda a região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Pacientes da colônia apenas eram encaminhados ao hospital caso estivessem em fase aguda e não pudessem ser tratados nas próprias unidades internas.[20] Em 2022, com o encerramento das atividades da colônia, foi transformado na Clínica da Família Arthur Bispo do Rosário.[23]
  • Centro de Reabilitação e Integração Social (Cris) – originalmente construído como o Núcleo Mário Pinotti para pacientes femininas. Foi reformado e passou a abrigar pacientes, de ambos os sexos, que estivessem inscritos no Programa de Ressocialização. Estes pacientes, que eram chamados de "clientes", trabalhavam, recebia uma bolsa com o valor de um salário mínimo, e tinham direito a alojamentos individuais; eram acompanhados por profissionais de saúde mental e caso se apresentassem aptos a reingressar à sociedade, poderiam fazê-lo. Abrigava cerca de 60 pacientes.[20] Atualmente, o edifício do Cris abriga o Centro de Atenção Psicossocial Arthur Bispo do Rosário.[24]
  • Pavilhão Ulysses Pernambucano – também chamado de Faixa Azul, era destinado a pacientes adolescentes femininas.[25]
  • Pavilhão Egas Muniz – construído em 1952, era a unidade onde se realizavam lobotomias e outras cirurgias neurológicas.[26]
  • Pavilhão Adib Jabour – originalmente construído no final da década de 1950, como uma creche destinada a acolher os filhos de pacientes internadas na instituição. Posteriormente tornou-se uma unidade dedicada ao tratamento de adolescentes masculinos, e depois foi reformado para se tornar o Projeto Agropecuário Socioeconômico Terapêutico (Paset), voltado ao desenvolvimento de atividades agropecuárias.[20]
  • Pavilhão Agrícola – construído em 1962 para abrigar os internos masculinos que se dedicam à atividades agrícolas, principalmente o cultivo de hortaliças e capim (usado para fabricação de colchões em outra unidade).[20] Atualmente, é a sede do Campus Fiocruz da Mata Atlântica.[27]

Colônia Atlético Clube

Em 1936, um grupo de funcionários fundou o Colônia Atlético Clube, time de futebol masculino que treinava no campo de futebol da instituição. O campo também era usado para partidas de futebol de outros times, como o Madureira e o Niterói.[28] Posteriormente, foram criados times exclusivos para pacientes, como o Time Ulysses Viana e o Time Adib Jabour, que jogavam entre si e ocasionalmente inclusive contra times profissionais de fora da Colônia, usualmente da segunda divisão do campeonato carioca.[29] Durante muitos anos nas décadas de 70 e 80, Zico visitava anualmente a Colônia para participar de peladas.[30]

Estrutura

Aqueduto

Aqueduto da Colônia

O aqueduto da Colônia é um dos principais marcos arquitetônicos de Jacarepaguá. Sua construção teve início no final do século XVIII e foi concluída em 1839, tendo sido possivelmente atrasada devido às disputas judiciais pelas terras. Sua função era trazer água das nascentes do Maciço da Pedra Branca para abastecer a propriedade, aproveitando a inclinação natural da região para conduzir a água por aproximadamente 3 quilômetros. A água era usada não apenas ara movimentar as moendas de cana na preparação do açúcar, como também para o uso diário dos moradores.[31]

O aqueduto foi tombado pelo IPHAN em maio de 1938 sob a classificação de "infraestrutura ou equipamento urbano".[32]

Igreja de Nossa Senhora dos Remédios

A igreja (por vezes chamadas de "igrejinha" pela população local),[33] foi construída em 1862 por ordem de Maria Teles, tendo um projeto de inspiração neoclássica desenhado pelo arquiteto Theodoro Marx. Possui uma nave única, com uma torre sineira de planta octogonal erguendo-se sobre o nártex.[34]

Se encontrava desativada quando o governo federal desapropriou o engenho no início do século XX. Foi apenas em 1949, sob a gestão do diretor Heitor Péres (1946-1956), que iniciou-se a restauração do templo e uma aproximação entre a Colônia e a comunidade eclesiástica local.[35] Tal aproximação culminou, em 1953, com a chegada do padre Joaquim del Rodrigues, que passou a residir na Colônia e dedicar-se exclusivamente aos serviços religiosos da instituição.[33]

Igreja de Nossa Senhora dos Remédios

Nas décadas de 50 e 60, a igreja foi mantida pelo padre Joaquim com a ajuda de alguns internos da instituição: um tocava o órgão, outro trabalhava como zelador e um terceiro cuidava dos jardins.[33] Esta distribuição de tarefas estava intimamente ligada ao foco do diretor Péres em integrar a praxiterapia no cotidiano da instituição.[36] Nestes primeiros anos, também houve a organização de corais, missas dominicais e solenidades natalinas, que muitas vezes contavam com a presença de pessoas "de fora" (isto é, pessoas que não tinham nenhum vínculo com a Colônia, usualmente moradores do bairro da Taquara que desejavam participar das celebrações).[33]

A partir de meados da década de 60, houve uma queda notável na relevância concedida à capela por parte da administração. Em 1964, a igreja sofreu um curto-circuito no sistema elétrico que provocou um incêndio e deixou a construção em um estado precário, na qual permaneceu durante diversos anos. O templo só foi reaberto ao público em 1971, após uma reforma que contou com a participação de alguns pacientes e alterou o desenho original da construção.[33] Em 1972, foi tombada pelo INEPAC como patrimônio histórico estadual.[34]

Após sua reabertura, a igreja não conseguiu conquistar os mesmos níveis de público das décadas anteriores, e em 1973 a administração solicitou que o padre Joaquim liberasse sua residência no prédio-sede da instituição. Ainda assim, ele continuou ministrando celebrações religiosas na igreja durante muitos anos, até seu falecimento na década de 90, quando os serviços passaram a ser feitos por leigos. Assim permaneceu até 2006, quando foi interditada pela Defesa Civil por risco de desabamento.[33]

A igreja foi interditada pela Defesa Civil em 2006, por risco de desabamento, e foi reaberta em 2014 após reformas organizadas pelos moradores.[37]

A Colônia é citada na música "Neurastênico" de Betinho & Seu Conjunto, lançada em 1954, que ficou popular nacionalmente por fazer parte da trilha sonora da novela Estúpido Cupido. A música, teoricamente cantada por um cidadão com neurastenia, mas que fica subentendido tratar-se de um desviante, relata que se o mesmo não se tratar "iria para Jacarepaguá".

A instituição também foi tema do documentário Stultifera Navis, dirigido por Clodoaldo Lino e publicado em 1987. No documentário, são mostradas cenas do dia-a-dia da instituição na época, assim como entrevistas com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique de Escobar e o psicanalista Jurandir Freire. A obra ganhou o Grande Prêmio VHS no V Festival Fotóptica Videobrasil, ocorrido no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.[38]

O videoclipe da canção "O amanhã", do grupo Detonautas, foi gravado em 2007 na Colônia.[39] O local também serviu de cenário para o filme Os Mercenários, de 2010, estrelando Sylvester Stallone.[40]

Pacientes e funcionários ilustres

Ver mais

Notas e referências

Notas

  1. Não há dados publicados sobre pacientes femininas, apesar de representarem parte significativa do total de pacientes da Colônia, mesmo nas décadas de 1940 e 1950.

Referências

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  3. a b c d e Costa, Waldemar (1995). Imagens de Jacarepaguá. Rio de Janeiro: [s.n.] 
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  24. Paula, Beatriz Fartes de (17 de novembro de 2023). «Reconstruir é preciso: narrativas e memórias da antiga Colônia Juliano Moreira (1924-1982)». Consultado em 22 de novembro de 2025 
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