Choque do Alvito

O Choque do Alvito foi um encontro militar travado a 3 de Outubro de 1762 durante a Guerra Fantástica, entre as tropas franco-espanholas do conde de Aranda, que haviam invadido Portugal e as do conde de Santiago de Beduído, enquanto estas retiravam do Alvito para Sobreira Formosa, apoiadas por ingleses. O choque deu-se junto à ribeira do Alvito na zona da Catraia Cimeira, perto do Forte das Batarias I.[1]
História
No contexto da Guerra dos Sete Anos, Portugal foi invadido por forças franco-espanholas em 1762 e numerosas vilas da raia beirã foram ocupadas por forças comandadas pelo conde de Aranda, entre elas Castelo Branco. De Castelo Branco, o conde de Aranda determinou atravessar o Tejo em Vila Velha de Ródão em finais de Setembro. Ao tomar conhecimento disto, o conde de Lippe mandou conde de Santiago de Beduído Lourenço António de Sousa da Silva e Meneses retirar-se com o seu destacamento e instalar-se em Alvito para bloquear o avanço do exército invasor, na estrada de Sarzedas para a Sobreira Formosa.[2] O posto ocupado pelo conde de Santiago com 1000 homens, 200 cavalos e 8 canhões era forte pela frente e pelo flanco direito (desde que os portugueses mantivessem em seu poder as alturas de Perdigão, Vila Velha e de uma pequena passagem do rio Ocreza na confluência com o Alvito) mas fraco pelo esquerdo.[2] Construíram-se alguns redutos de terra e pedra mas que deixavam entre si grandes intervalos ao longo das montanhas, que apesar de altas e sem caminhos eram acessíveis à infantaria.[2] A 2 de Outubro, o conde de Lippe encontrou-se em Alvito em pessoa.[3]
A 3 de Outubro, o corpo militar sob o comando do Marechal de Campo Conde de Sampaio foi atacado por uma força espanhola sob o comando do conde de la Torre. Uma força de cerca de 4000 homens “posiciona-se na região de Sarzedas frente às posições de Alvito, ocupadas por unidades do Conde de Santiago. Uma outra força de 2000 a 3000 homens avança mais a Norte, pela estrada da Pampilhosa até à região de São Simão, na estrada para Oleiros e que também está guarnecida com um batalhão".[4] O conde de La Torre tentou flanquear o lado esquerdo da posição do conde de Santiago com 600 homens.[2]
O choque entre as forças deu-se a 3 de Outubro, quando o contingente português do conde de Santiago recuava do Alvito para a Sobreira Formosa.
[…] os repetidos avisos que se recebiam de Castelo Branco fazendo conhecer que tudo estava pronto para a entrada dos inimigos nas montanhas, o marechal conde de Lippe fez marchar alguns regimentos do campo de Mação para Cardigas: mandou ordem a Lord Loudoun que avançasse com quatro regimentos de infantaria inglesa adiante da Sobreira Formosa, junto às alturas de Talhadas, a fim de segurar a retirada das nossas tropas por Cortiçada, Cardigas e Mação, retirada que se tornava mui critica, porque o conde de Lippe tinha julgado não dever retirar as tropas do conde de Santiago e os postos dependentes senão mui tarde, com o receio de que os inimigos as não carregassem em seus movimentos.
[…].
A 3 de Outubro ao romper do dia o marechal-general retirou das vizinhanças de Alvito as tropas do conde de Santiago: os quatro regimentos ingleses ficaram sobre as alturas de Talhadas até que os regimentos portugueses se achassem já perto de Sobreira Formosa e que as obras do posto de Santiago fossem demolidas. Os piquetes dos quatro regimentos ingleses (cinquenta homens tirados cada um destes regimentos, cinquenta dragões ingleses, vinte e quatro portugueses), com oito peças dos regimentos ingleses, faziam os corpos da retaguarda. O corpo das tropas inimigas acampado em Sarzedas, que tinha abatido as barracas desde que amanheceu, avançava à medida que as nossas tropas se retiravam pelo caminho, que vai de Sobreira Formosa, o qual, depois de descer de uma altura, passa num pequeno espaço por entre duas altas colinas assaz aproximadas, para poder formar um vale estreito. Às cinco horas depois do meio-dia, quando as nossas últimas tropas desciam da altura, que ocupavam, para entrarem no vale, os inimigos avançaram rapidamente e os seus miquetes ou guerrilhas, espingardearam perto de cinquenta cavalos que fechavam a marcha. Dois batalhões forcejaram ao mesmo tempo para ocuparem a colina, que fica à esquerda do desfiladeiro, atacaram os piquetes que ali cobriam o flanco esquerdo, fazendo para isto alguns tiros. Adiantando-se os inimigos também em força e rapidamente para as alturas vizinhas, o conde de Lippe fez prontamente contramarchar os quatro regimentos ingleses, que precediam a retaguarda, para embaraçar que os inimigos se apoderassem da colina, donde nos teriam incomodado muito. Ocultando por algum tempo o cume da montanha este movimento dos dois batalhões, que subiam para desalojar dela os piquetes, eles ficaram tão espantados da súbita aparição dos regimentos ingleses que, quando o primeiro foi visto marchando rapidamente contra eles, os dois batalhões inimigos tornaram a descer a montanha com a maior precipitação, para se irem juntar ao grosso das suas tropas, atirando-se sobre eles algumas descargas de artilharia. O corpo dos inimigos, que marchava sobre as alturas que nós acabávamos de abandonar, fez alto: nós continuámos a ocupar a altura com uma partida da retaguarda até à entrada da noite e a nossa marcha não foi mais incomodada.[2]
Simão Coelho Torrezão, que participou na guerra como cadete e talvez tenha participado nas movimentações que se deram em Talhadas deixou um relato:
Demolidos os Fortes, e posta em seguro a Artelharia ordenou o Marechal Conde de La Lippe, se incorporassem os Regim.tos e formando huma grande columna de Infantaria, fez huma retirada tão airoza, q. os Castelhanos não se atreverão a atacallo, mandando q. dois Regim.tos de Infantaria Ingleza e huma grande parte da de Cavallaria, marchassem da Sovereira Formoza, aonde se achavão destacados, a incorporase com nossa columna do Campo de Alvito, e chegando a frente della, abrirão do centro para os lados, e se postarão na nossa retaguarda. Continuouse a marcha da nossa columna fazendo alto junto as vizinhas da Sovereira Formoza. Destacou o Conde de Aranda General do Exercito innimigo, huma grande partida de soldados miqueletes, e algumas Companhias de Infantaria, a picarnos a retaguarda, e chegando perto da Ribeira, forão sacudidos pelos Inglezes com tanto valor, que lhes foi precizo aos Castelhanos não continuar a marcha. Fez o Conde de La Lippe queimar hum grande Armazém de Pólvora, e esperdiçar muitas farinhas, para q. os innimigos se não podessem approveitar das nossas munições, e se pôs em marcha á Villa de Cardigos, e sendo apressada, e de noite, se guardou nella hum silencio inviolável.[5]
A retirada foi levada a cabo com sucesso, tendo todos os meios de subsistência na zona que pudessem ser utilizados pelo inimigo sido destruídos.[6] O exército franco-espanhol viu-se assim confrontado com um terreno difícil, um sistema defensivo em excelentes condições e a necessidade de mandar vir de Espanha a logística essencial para o seu avanço.[6]
Ver também
Referências
- ↑ «Sobreira Formosa: Choque do Alvito trava invasores». www.reconquista.pt. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ a b c d e Luz Soriano in Mário Monteiro e André Pereira, 2008, pp. 11-12.
- ↑ The Campaign in Portugal, 1762 - An edited version of the article published in 1981 by A. D. Francis, with the kind permission of the Journal of the Society for Army Historical Research. P. 40.
- ↑ Pretorius, 1762, p. 72 in Mário Monteiro e André Pereira: "O FORTE DAS BATARIAS SOBRE A RIBEIRA DO ALVITO (PROENÇA-A-NOVA). ANÁLISE PRELIMINAR DA INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA", AÇAFA On Line, nº 1 (2008) Associação de Estudos do Alto Tejo, p. 10.
- ↑ Simão Coelho Torrezão in Mário Monteiro e André Pereira, 2008, p. 12.
- ↑ a b Mário Monteiro e André Pereira, 2008, p. 11.