Chinatown de Melbourne

Little Bourke Street, no centro da Chinatown
Chinatown à noite

Chinatown de Melbourne é um enclave étnico no distrito comercial central de Melbourne, Vitória, Austrália. Localizada no extremo leste da Little Bourke Street, se estende pelas esquinas das ruas Swanston e Spring, sendo composta por várias ruas, becos e fliperamas. Estabelecida na década de 1850, durante a corrida do ouro vitoriana, é notável por ser o mais longo assentamento étnico chinês contínuo no mundo ocidental e a Chinatown mais antiga do hemisfério sul.[1][2][3][4]

A Chinatown de Melbourne desempenhou um papel importante no estabelecimento da cultura dos imigrantes chineses na Austrália e ainda abriga muitos restaurantes chineses, espaços culturais, empresas e locais de culto, incluindo o Museum of Chinese Australian History. Atualmente, a Chinatown é um grande símbolo e atração turística da cidade, conhecida por sua arquitetura, festivais e culinária de matriz asiática;[5] além de karaokê, bares e lojas de moda.[6][7]

Além do distrito comercial central, a comunidade chinesa de Melbourne está bem representada em outras áreas da cidade, principalmente em Box Hill, onde foi investido US$ 450 milhões para construção de um local chamado "New Chinatown".

História

Início da corrida do ouro e era colonial (décadas de 1850 a 1890)

Imigrantes chineses chegando na Chinatown, 1866

O início da corrida do ouro vitoriana, em 1851, atraiu imigrantes de todo o mundo, incluindo dezenas de milhares de garimpeiros chineses. A maioria era camponeses que falavam cantonês, vindos de Hong Kong e seus arredores, incluindo os distritos do sudoeste de Guangdong e sua capital, Guangzhou. A parte leste da Little Bourke Street era vista como conveniente para esses imigrantes, tanto como uma parada quanto um lugar para pegar suprimentos a caminho das minas de ouro no centro de Vitória. As primeiras moradas foram construídas na Celestial Avenue, perto da Little Bourke Street,[8] e em 1855, casas e empresas chinesas ocupavam a maioria da Little Bourke Street, das ruas Elizabeth à Russell.

Se destaca por ser a Chinatown mais antiga do Hemisfério Sul,[9] e o assentamento chinês contínuo mais longo fora da Ásia, devido à realocação da Chinatown de São Francisco após o terremoto de 1906.[10] Com o declino da corrida de ouro, houve um êxodo rural dos trabalhadores chineses para a área metropolitana de Melbourne, particularmente para Little Bourke Street, que já tinha uma população predominantemente chinesa.

Chinatown iluminada à noite com decorações que dão boas-vindas à chegada do Príncipe Alfredo, 1867

Os moradores de Chinatown se estabeleceram como lojistas, importadores, fabricantes de móveis, herbalistas e nos trabalhadores nas indústrias atacadistas de frutas e vegetais, com uma forte presença no vizinho Eastern Market, na Bourke Street. Foram construídas igrejas cristãs e posteriormente foram formados grupos políticos e jornais chineses.[8] Outros membros da comunidade chinesa que viviam e trabalhavam em outros lugares usavam Chinatown como um espaço de socialização. A área também fornecia apoio aos novos imigrantes chineses.

Inicialmente, a Chinatown tinha uma reputação de empreendimentos “salubres”, incluindo casas de ópio, casinos e bordéis, mas manteve um “ar distintamente empreendedor”.[11] Em 1859, a população chinesa de Victoria atingiu aproximadamente 45.000, representando quase 8,5% da população total da colônia.[12]

O autor australiano Marcus Clarke escreveu em 1868:

Uma metade da Little Bourke Street não é Melbourne, mas sim China. É como se algum djinn ou gênio tivesse pegado um punhado de casas do meio de uma das cidades celestiais e as tivesse jogado no chão, com todos os seus habitantes, nas Antípodas. Um quase espera ver a princesa a caminho do banho, ou encontrar aquele poderoso potentado, irmão do sol, tio da lua e primo-irmão das sete estrelas.[13]

Apesar da divisão cultural, vários líderes comunitários com vínculo a Chinatown tornaram-se ganhar influência e prestígio entre os habitantes de Melbourne, incluindo o empresário Lowe Kong Meng, o detetive policial Fook Shing e o missionário Cheok Hong Cheong. Também durante o período colonial, vários negócios administrados por australianos de ascendência europeia estavam sediados no local, incluindo os escritórios da Table Talk, uma das revistas mais populares de Melbourne na década de 1880.

Federação, declínio populacional e renascimento (1901–presente)

Edifício PN Hong Nam, Rua da Exposição, construído como uma fábrica em 1910
A fachada da sede do Kuomintang em Melbourne, remodelada por Walter Burley Griffin em 1921

Chinatown atingiu seu auge populacional e territorial no início do século XX, com empresas se expandindo para o distrito da luz vermelha de Little Lon, transformando-o em uma área predominantemente chinesa. Esse crescimento foi interrompido pela Lei de Restrição à Imigração, implementada após a federação da Austrália, em 1901. O declínio subsequente da Chinatown foi agravado por uma migração de empresas e residentes do distrito comercial central de Melbourne para os distritos vizinhos.[8]

Durante a década de 1920, mais australianos de ascendência europeia começaram a frequentar os restaurantes de Chinatown, como Chung Wah na Heffernan Lane, um refúgio para membros do ALP Club da Universidade de Melbourne.[14] Esse fluxo de pessoas, ajudou a abrir caminho para a culinária chinesa australiana, que se popularizou em meados do século XX. Dim sim, um alimento essencial da culinária chinesa australiana, foi criado nessa Chinatown por William Wing Young, em 1945, no seu restaurante Wing Lee, se tornando um lanche popular em restaurantes de beirra-de-estrada e supermercados por todo o país. A filha de Young, Elizabeth Chong, tornou-se uma celebridade da televisão e guia turística de Chinatown. O potencial de Chinatown como um ponto turístico foi reconhecido na década de 1960, pelo empresário e político local David Wang, cujo impulso para a reconstrução da Little Bourke Street levou aos arcos de hoje.[15]

Celebrações do Ano Novo Chinês

Durante as décadas de 1960 e 1970, a política Austrália Branca foi encerrada, resultando em um aumento imigratório da Indochina, Singapura, Malásia, Taiwan, Hong Kong e da República Popular da China. Isso resultou com que a demografia de Chinatown e sua culinária se diversificassem como resultado.

Em 2010, o terreno do Museum of Chinese Australian History foi remodelado como um centro de visitantes da Chinatown de Melbourne. No ano seguinte, uma estátua memorial do Sun Yat-sen foi inaugurada na entrada do museu, em comemoração ao 100º aniversário da fundação da República da China. A tradicional Dança do Leão do Ano Novo Chinês sempre terminava neste local, porém atualmente termina com uma bênção da estátua.[16][17]

Cultura

Ano Novo Chinês

O Ano Novo Chinês é comemorado principalmente no primeiro domingo do novo ano lunissolar. É o principal local do festival de Ano Novo Chinês de Melbourne, além de ser sua origem, mesmo depois que o festival se expandiu para o resto da cidade nos últimos anos, incluindo o Crown Casino. As celebrações incluem atividades e festividades tradicionais e contemporâneas chinesas, danças, ópera e canto chinês, competição de karaokê, inúmeras barracas culinárias, artísticas e artesanais, torneios de xiangqi, caligrafia e eventos infantis.

O Desfile do Dragão Dai Loong, assim como as principais Danças do Leão (realizadas pela Chinese Youth Society of Melbourne, Chinese Masonic Society e Hung Gar Martial Arts School) começam por volta das 10 da manhã do domingo seguinte ao Ano Novo e seguem até por volta das 16 da tarde. O desfile do dragão começa e termina no Museum of Chinese Australian History.[18]

O dim sim, um exemplo popular da culinária chinesa australiana, teve origem na Chinatown

Outras comunidades chinesas

Além da Chinatown original, várias comunidades chinesas mais novas se desenvolveram nos subúrbios orientais de Melbourne, como Box Hill, Glen Waverley e Springvale.

Uma comunidade mais antiga, originaria da corrida do ouro, pode ser encontrada na em Bendigo, 150 km a noroeste de Melbourne.

Representações culturais

Tom Roberts, uma das principais figuras do impressionismo australiano, criou esboços do cotidiano da Little Bourke Street na década de 1880. Durante a Segunda Guerra Mundial, o modernista Eric Thake criou uma série de obras retratando fachadas de lojas da Chinatown, que agora pertencem à coleção de pinturas da Biblioteca Estatal de Vitória.

The Mystery of a Hansom Cab (1886), de Fergus Hume, um dos romances policiais de mistério mais famosos da era vitoriana, é baseado em grande parte nas observações do autor sobre a vida na Little Bourke Street. Nisso, inclui-se os "recantos escuros" do Bairro Chinês, onde o detetive Kilsip, protagonista do romance, persegue seu suspeito. A peça Marvellous Melbourne de Alfred Dampier, do mesmo ano, apresenta uma cena em um antro de ópio em Chinatown.

Entre 1909 e 1910, o primeiro jornal de língua chinesa de Melbourne, o Chinese Times, serializou o romance de Wong Shee Ping, O Veneno da Poligamia, sendo o primeiro romance escrito em chinês clássico a ser publicado na Austrália e possivelmente no Ocidente. Ambientado em Vitória durante a corrida do ouro de 1850, o romance descreve a vida na Chinatown.[19]

Ambientado na Little Bourke Street, o romance de 1919 de Elinor Mordaunt, The Ginger Jar, é sobre um caso de amor entre um vendedor ambulante chinês-australiano e uma mulher europeia.

Uma cena crucial do filme mudo de 1911, The Double Event, dirigido por W.J. Lincoln, passa na Chinatown de Melbourne.[20]

O filme de ação de Hong Kong de 1997, Mr. Nice Guy, estrelado por Jackie Chan, se passa em Melbourne, com várias cenas filmadas em Chinatown.[21]

Chinatown aparece em episódios da série dramática policial de época Miss Fisher's Murder Mysteries (2012–2015), incluindo “Ruddy Gore” (episódio 6, temporada 1), que se concentra principalmente na Chinatown e sua conexão com o East End Theatre District.

Galeria

Arcos

Edifícios

Outros lugares

Ver também

Referências

  1. «Chinatown Melbourne» (em inglês). Consultado em 23 de janeiro de 2014 
  2. «Melbourne's multicultural history» (em inglês). Cidade de Melbourne. Consultado em 23 de janeiro de 2014 
  3. «World's 8 most colourful Chinatowns» (em inglês). Consultado em 23 de janeiro de 2014 
  4. «The essential guide to Chinatown». Melbourne Food and Wine Festival (em inglês). Food + Drink Victoria. Consultado em 11 de fevereiro de 2022 
  5. «Archived copy» (PDF) (em inglês). Consultado em 21 de janeiro de 2016. Arquivado do original (PDF) em 16 de outubro de 2016 
  6. «Chinatown». Visit Victoria (em inglês). Governo de Vitória. Consultado em 11 de janeiro de 2022 
  7. «Chinatown». What's On Melbourne. City of Melbourne. Consultado em 11 de fevereiro de 2022 
  8. a b c «Melbourne's Chinatown - Little Bourke Street area (Victoria) (c. 1854 - )» (em inglês). Chinese Museum of Australia. Consultado em 23 de janeiro de 2014 
  9. City of Melbourne. «Multicultural communities - Chinese» (em inglês). Consultado em 13 de outubro de 2006. Arquivado do original em 4 de outubro de 2006 
  10. Bacon, Daniel: Walking the Barbary Coast Trail 2nd ed., paginas 52-53, Quicksilver Press, 1997
  11. Brown, Lindsay; Vaisutis, Justine; D'Arcy, Jayne (2010). Australia (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  12. Hing-wah, Chau; Karine, Dupre; Xu, Bixia (2016). Melbourne Chinatown as an Iconic Enclave (PDF) (em inglês). Melbourne: Griffith University. pp. 39–40 
  13. The Argus, 9 de Março de 1868, p. 5.
  14. Taft, Ron (19-12-2015). "When Chinese Food Was Exotic", Quadrant.
  15. Fincher, Ruth; Jacobs, Jane Margaret (1998). Cities of Difference (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  16. «Chinese Museum Profile 2012» (PDF) (em inglês). Museum of Chinese Australian History Incorporated. Consultado em 9 de junho de 2013. Arquivado do original (PDF) em 12 de abril de 2019 
  17. «Chinese Youth Society of Melbourne». cysm.org (em inglês). Chinese Youth Society of Melbourne. Consultado em 23 de janeiro de 2012. Arquivado do original em 29 de julho de 2012 
  18. «Chinese New Year Festival 2014» (em inglês). Consultado em 23 de janeiro de 2014 
  19. Wong, Shee Ping (2019). The poison of polygamy : a social novel. Sydney: Sydney University Press. ISBN 9781743326022. OCLC 1101172962 
  20. 'The Double Event' at www.natgould.org
  21. Gentry, Clyde III (Abril de 1997). Jackie Chan: Inside the Dragon (em inglês). Dallas, Texas: Taylor Publishing. p. 59. ISBN 978-0-87833-970-9. Consultado em 19 de setembro de 2024 

Bibliografia

Livros   Bibliografia