Cerco de Chaul (1570-1571)
| Cerco de Chaul (1570-1571) | |||
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| Guerra Geral da Índia | |||
![]() O local de Chaul e a fortaleza portuguesa (construída mais tarde). | |||
| Data | 15 de Dezembro 1570-24 de Julho de 1571 | ||
| Local | Chaul, Índia | ||
| Desfecho | Vitória portuguesa | ||
| Beligerantes | |||
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O cerco de Chaul de 1570 a 1571 foi um episódio bélico da Guerra Geral da Índia. O sultão de Ahmadnagar sitiou a cidade portuguesa de Chaul, que à data não era amuralhada mas ao fim de um duro cerco de sete meses os portugueses repeliram o ataque naquela que foi uma das mais duras provações que enfrentaram na Índia.[2]
O sucesso português neste cerco atraiu a atenção de especialistas no séc. XX, devido às tácticas utilizadas.[2]
Contexto
O sultanato de Ahmadnagar era um estado indiano situado no planalto do Decão que autorizara o governador Diogo Lopes de Sequeira a fundar uma fortaleza e cidade em Chaul.[3] Deste modo os portugueses garantiram um fornecimento de algodão em rama, o fabrico de tecidos de algodão e a sua exportação.[3] O seu sultão, o Nizamaluco, mantivera boas relações com o Estado da Índia e pagava a Portugal um tributo de 7000 pardaus em troca de ajuda a combater pirataria mas em meados do século XVI integrou uma aliança de sultanatos islâmicos que, na Batalha de Talicota, infligiu uma pesada derrota ao grande reino hindu de Bisnaga, também um parceiro dos portugueses.[3] Morto o rei Ramaraja, o Nizamaluco e os confederados viraram-se contra os portugueses.[3] O Hidalcão, sultão de Bijapur, atacou Goa e ao Nizamaluco competiu atacar Chaul, desprezando todos os tratados de comércio e amizade que até então mantivera com os portugueses.
Em Chaul residiam cerca de 2000 portugueses que viviam do comércio com Moçambique, Golfo Pérsico, China e Manila.[3] Para além disto, em Chaul ancoravam todos os anos, entre Dezembro e Março, centenas de zambucos vindos principalmente do Malabar mas também do Médio Oriente, e do Guzerate.[3] Além dos edifícios necessários à administração, justiça e defesa do porto, a cidade possuía um hospital, uma Misericórdia, algumas igrejas e cinco conventos, de Franciscanos, Dominicanos, Agostinhos, Jesuítas e Capuchos.[3] Também os seus habitantes mais importantes e influentes possuíam altivos domicílios.[3]
Preparativos portugueses
Embora protegida por um pequeno forte construído junto à foz do rio em 1521, a cidade de Chaul não dispunha de muralhas. No momento em que a ameaça de cerco se tornou evidente, o capitão da cidade, Luís Freire de Andrade, evacuou as mulheres, crianças e idosos para Goa e, a 15 de Outubro, começou a construção de barricadas nas ruas principais, equipadas com artilharia.[4] Havia falta de trabalhadores, dinheiro e materiais, pelo que o capitão recorreu aos 300 soldados da guarnição para construir as obras de fortificação.[2]
| “ | Chaul é um castelo muito pequeno e velho e mui fraco e porque estava certo em chegando o inimigo tomar-mo pelo mui grande poder de gente e poderosa artilharia que trouxe me determinei de esperá-lo no campo e com conselho dos moradores de Chaul me pus a fazer tranqueiras de paus e paredes de pedra e barros e entulhos e nelas esperei o inimigo... | ” |
— Luís Freire de Andrade em carta para o rei D. Sebastião.[2] | ||
De início, os moradores de Chaul resistiram à abertura de trincheiras, ao barricamento de ruas, à demolição de casas e aos trabalhos nas obras de defesa e era necessário trazer madeira, pedras e terra de longe mas as à medida que se tornava evidente a ameaça passaram a participar mais mas também a reclamar ao capitão para que não deixasse as suas casas fora das obras de fortificação.[2] Em Outubro, chegou de Goa uma frota com um reforço de 600 homens, comandado pelo capitão-mor D. Francisco de Mascarenhas que mandou imediatamente abrir uma extensa rede de fossos, trincheiras, muros de terra e obras defensivas em todo o perímetro externo da cidade, fortificando casas externas e mosteiros em fortificações e demolindo outros para desimpedir a linha de fogo da artilharia.[5] Foram construídos baluartes a cada 200 metros, instaladas baterias de artilharia a cada 50 metros e a última linha de defesa formava um triângulo.[2]

Os navios de guerra foram distribuídos no rio, para negarem ao inimigo uma via de aproximação à cidade por leste, junto à margem.[6] Desta forma, só seria possível aproximarem-se da cidade através de um troço estreito e pantanoso a norte, obrigando o inimigo a afunilar as suas forças.[7]
O cerco
O exército de Ahmadnagar também enfrentou desafios para atacar Chaul.[2] Foi necessário talhar estradas novas para transportar a artilharia pela cordilheira dos Gates ocidentais.[2]
A 15 de Dezembro, a vanguarda do exército de Ahmadnagar chegou, composta por 20 elefantes, 8,000 cavaleiros, milhares de peões e incontável número de sapadores hindus, sob o comando de um general etíope, Faratecão, anteriormente ao serviço do sultão de Guzerate.[2][8] Este acampou com as suas tropas fora do alcance da artilharia e a 21 de Dezembro atacou os portugueses, que rechaçaram o ataque.[2][8] Neste dia chegou a Chaul o resto do exército de Ahmadnagar liderado pelo sultão em pessoa, Murtaza Nizam ul-Mulk Shah.[8] Durante todo o mês de Dezembro Nizamaluco concentrou as suas tropas em redor da cidade e por meio de um espião, os portugueses determinaram que as suas forças ascendiam a 120,000 homens, incluindo muitos mercenários turcos, abexins, persas, afegãos e mogores, 38,000 cavaleiros e 370 elefantes de guerra, apoiados por 38 bombardas, das quais nove de tamanho gigantesco.[9] Nem todos eram guerreiros, pois incluía muitos carregadores, oficiais mecânicos, trabalhadores forçados e sapadores. Segundo António Pinto Pereira:
A gente de pé passava de cento & vinte mil, mas nesta não fundam elles o poder, nem fazem caso pera os effeitos de Guerra, senão da cavaleria, & artelharia: e porque a peonagem mais a trazem pera os abalos & serviço do arrayal & em lugar de gastadores, que por outra confiança que tenham della. Com quanto em este campo vinham doze mil piões Conquanis muito boa gente de Guerra, que os Tenadares tiraram da terra do Concão, na fralda da terra do Gate até ao mar, que sam bombeiros, frecheiros & alguns espingardeiros & quarto mil officiaes de campo, ferreiros, pedreiros, & carpinteiros.[10]
A artilharia do Nizamaluco tinha maior alcanço que a portuguesa.[2] Os portugueses dispunham de canhões de 12 libras no máximo, que necessitavam de parelhas de 20

cavalos para serem colocados em posição.[2] Os muçulmanos por sua vez dispunham 11 grandes canhões de 45 a 80 libras.[2]
O grande trunfo dos portugueses eram os seus soldados de infantaria, contabilizando apenas 900 porém cada um equipado com armaduras e arcabuzes ou mosquetes, capazes de disparar uma bala 50g a uma distância de 400 metros, por comparação a apenas 300 arcabuzeiros do lado inimigo, com armas menos potentes ou certeiras.[11] O número total de defensores do lado português ascendia a 1100 ou 1200 homens ao todo entre soldados, auxiliares e civis.[12] Divulgada a situação crítica em Chaul, numerosos portugueses voluntariaram-se para partir em ajuda da cidade, de maneira que em breve haviam 2000 soldados.[13]
O Nizamaluco reuniu o resto das suas forças a norte e nordeste de Chaul. Como a sua cavalaria e os seus elefantes eram inúteis num cerco, a sua infantaria teria que suportar o peso do ataque.[7] A 21 de Dezembro as suas tropas invadiram o perímetro fortificado construído em torno do mosteiro de São Francisco, mas o fogo cerrado dos arcabuzes portugueses e um rápido contra-ataque obrigaram-nos a recuar. Enquanto isto acontecia, o Nizamaluco posicionou a sua poderosa artilharia a leste da cidade sob a supervisão de um general turco, Rumecão, perto de uma vila chamada Chaul de Cima.
Entretanto, cerca de 2,000 cavaleiros devastaram das terras portuguesas em torno de Baçaim e Damão mas foram repelidos em Asserim, Damão, e na Ilha de Caranjá, perto de Bombaim, quando tentaram assaltar um pequeno forte português defendido por 70 soldados portugueses e que emboscaram o seu acampamento.[14][15]
Começo do bombardeamento

A 10 de Janeiro, a artilharia do Nizamo começou a bombardear as fortificações externas de Chaul, reduzindo-as a escombros após alguns dias.[4] Uma dessas peças recebeu dos portugueses a alcunha de "Orlando Furioso".[16] Afogados sob as pedras e traves das casas transformadas em redutos e fortins mas que desabavam sobre o peso do bombardeamento, os portugueses executavam surtidas e golpes de mão contra as linhas inimigas. Sofriam grandes baixas devido ao bombardeamento e os sitiantes devido às escaramuças constantes com os portugueses, que geralmente as levavam a melhor.[4]
Os combates em torno de Chaul degeneraram em guerra de trincheiras. Paulatinamente os sitiantes aproximavam-se das posições portuguesas escavando trincheiras, para se protegerem do seus tiros, entre a frequentes surtidas portuguesas contra as linhas inimigas, a dezenas de metros apenas.[4] Os portugueses, por sua vez escavavam contra-minas para neutralizá-los.[4] Dia a dia os combates iam-se tornando mais violentos e os portugueses abandonavam as casas fortificadas exteriores.[4]
Em meados de Fevereiro, o capitão português Agostinho Nunes introduziu pela primeira vez uma inovação que o historiador português António Pinto Pereira considerou fundamental para resistir ao assédio inimigo: mandou os seus soldados cavar uma trincheira especial com parapeito de tiro, protegido por terra inclinada - uma "trincheira de fogo", a que os portugueses chamavam "trincheira entulhada".[7] Esta invenção portuguesa veio a ser mais tarde mal atribuída aos holandeses.[2]
Ainda em Fevereiro, chegou de Calecute sob o manto da noite uma pequena frota de 30 embarcações com 2,000 malabares, comandada por Catiproca Marcá, para apoiar as forças do Nizamaluco. Os portugueses tinham cinco galés e onze fustas no porto, mas os malabares evitaram combater com as galés portuguesas.[17]

Os portugueses receberam importantes reforços por mar de Goa e Baçaim e pouco depois, em fins de Fevereiro, o Nizamaluco ordenou um assalto geral mas foi repelido com pesadas baixas.[4] O Nizamaluco observava todas as acções e no seu exército repreendia os seus homens pela sua cobardia e ameaçava-os de chicote na mão.[18] A luta continuou pela posse dos redutos exteriores que serviam de postos avançados ao longo dos meses de Março e Abril, enquanto o exército do Nizamaluco sofria pesadas baixas dos portugueses que faziam constantes surtidas.[4] Após uma surtida dos portugueses a 11 de Abril, o sultão ordenou que a cidade fosse submetida a um bombardeio geral, que demoliu vários redutos e afundou a galé do vice-rei ancorada no porto.
Por então começara a monção, com as suas chuvas torrenciais e tempestades que inviabilizavam o envio de reforços.[19] Mais de 200 portugueses desertaram mas Chaul ainda recebeu 300 homens de reforço.[19] A casa de um morador chamado Nuno Álvares Pereira foi atacada por 500 guerreiros mas foi defendida durante 40 dias por 42 portugueses.[20] A casa de Nuno Velho foi sitiada durante trinta dias.[20] As tropas do sultão capturaram o mosteiro de São Domingos e tentaram ocupar as casas na rua que ligava à Misericórdia mas sofreram quase 900 baixas e os portugueses recuperaram o mosteiro de São Francisco.[20]
Não obstante a valorosa resistência, a disparidade numérica não deixava de ser enorme, pelo que, apesar das frequentes surtidas, pouco a pouco os portugueses viram-se obrigados a ceder terreno à grande massa de inimigos até que a 22 Maio encontravam-se finalmente encurralados na sua derradeira linha de defesa.[21] Passados poucos dias, o exército de Ahmadnagar assentou novas baterias sobre as ruínas da Misericórdia e do Convento de São Domingos.[21]
Defesa da última linha

Reduzidos a um triângulo que compunha a sua última linha de defesa, os portugueses defenderam desesperadamente as suas linhas contra várias vagas de atacantes durante um mês em guerra urbana, descarregando salvas de arcabuzaria e lançando granadas de pólvora dia e noite. O número de baixas mortais portuguesas alcançou mais de 400 soldados, fora os civis, os seus auxiliares hindus e os feridos.[21] Comentou R. O. W. Goertz que "desafia a compreensão como é que os portugueses resistiram nos trinta dias que se seguiram. Reconstruíndo os seus redutos após cada impacto o melhor que podiam, mantinham os morrões acesos sob as torrenciais chuvas da monção e com inabalável disciplina colocavam-se a postos para lançar bombas de fogo, disparar e recarregar os seus arcabuzes, repelindo vaga após vaga de atacantes por dias e noites sem fim. Quatrocentos portugueses tinham já morrido, sem contar com os civis e os seus aliados hindus; muitas centenas mais encontravam-se feridos".[2] As forças do Nizamaluco, no entanto, não conseguiram vencer a tempo os portugueses, que lograram resistir durante toda a monção. Agora que esta tinha passado, o tempo permitia que à cidade fluíssem livremente navios com reforços quase todos os dias. O Nizamaluco ordenou um novo ataque geral à cidade, e quando o seu exército avançou a 29 de Junho ao som de gritos de guerra e instrumentos bélicos, os portugueses rechaçaram o ataque ao fim de seis horas de combate; depois empurraram o seu exército em debandada completa até ao seu acampamento, por entre "um labirinto mortal" de trincheiras escavadas aos ziguezagues, capturando canhões, armas e destruindo as trincheiras e minas pelo caminho, tendo morrido mais de 3,000 dos sitiantes.[4]

Após este revés, Murtaza Nizamo Xá pediu a paz e, assinada esta a 24 de Julho, retirou-se com o seu exército.[21] Uma comissão de duas pessoas de cada lado foi formada para avaliar os estragos e o sultão comprometeu-se a compensar os portugueses.[20]
A excelente cooperação entre o exército e a marinha foi um dos factores que permitiram a resistência de Chaul.[2] O capitão-mor D. Francisco de Mascarenhas também dispunha das qualidades de um bom líder, reagindo com celeridade, mantendo a calma em situações de grande perigo e dispunha de conhecimento, experiência e determinação que inspirava a confiança aos seus homens, com quem partilhava todos os perigos e trabalhos.[2] A vitoriosa defesa de uma cidade não amuralhada foi uma novidade à época. Em carta ao rei D. Sebastião, Luís Freire de Andrade refletiu:
| “ | A maior coisa que é acontecido no mundo é defender-se uma cidade sem muros e com os peitos dos fidalgos e soldados e casados de Chaul... | ” |
— Luís Freire de Andrade em carta para o rei D. Sebastião.[2] | ||

Após o cerco de Chaul, algum território nos arredores da cidade, nos qual os moradores portugueses tinham propriedades, foi anexado a título de guerra justa para ser distribuída a indivíduos merecedores e a cidade foi fortificada com muralhas.[3][22][20]
Ver também
Referências
- ↑ Danvers, 1895, p. 566.
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r R. O. W. Goertz: "Attack and Defense Techniques in the Siege of Chaul, 1570-1571." in II Seminário Internacional de História Indo-Portuguesa - Actas, Instituto de Investigação Científica e Tropical, Lisboa 1985, pp. 267-287.
- ↑ a b c d e f g h i Luís Frederico Antunes: "Chaul | Enciclopédia Virtual da Expansão" in eve.fcsh.unl.pt/pt
- ↑ a b c d e f g h i Monteiro, 1992, p. 338.
- ↑ Pereira 1617, p. 361-353.
- ↑ Goertz 1985, p. 274.
- ↑ a b c Goertz 1985, p. 282.
- ↑ a b c Pereira 1617, p. 368.
- ↑ Saturnino Monteiro: Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, volume III, Livraria Sá da Costa Editora, 1992, p. 336.
- ↑ Pereira, 1617, pg.380
- ↑ Goertz 1985, p. 276.
- ↑ Goertz 1985, p. 277.
- ↑ Danvers, Frederick Charles (1894). The Portuguese in India A.D. 1481-1571, W. H. Allen Company Limited, p. 561.
- ↑ Monteiro, 1992, p. 339.
- ↑ Danvers, 1894, p. 563.
- ↑ Pereira 1617, p. 381.
- ↑ Monteiro 2011, pp. 344–346.
- ↑ Danvers, 1894, p. 566.
- ↑ a b Danvers, 1894, p. 565.
- ↑ a b c d e Ashok B. Rejshirke: "Cidade de Chaul-The Portuguese Town Building Experience and Its Urban Landscape, 1509-1635: Historical Perspective" in ''INTERNATIONAL JOURNAL FOR INNOVATIVE RESEARCH IN MULTIDISCIPLINARY FIELD'', ISSN – 2455-0620 Volume - 3, Issue - 5, May - 2017, pp 30-38.
- ↑ a b c d Goertz 1985, p. 280.
- ↑ edittip (6 de janeiro de 2014). «Chaul». da Terra e do Território no Império Português. Consultado em 8 de outubro de 2025
