Cecilia de Assis Brasil

Cecília de Assis Brasil
Nome completoCecília de Assis Brasil
Nascimento
Morte
11 de março de 1934 (34 anos)

NacionalidadeBrasileira
ProgenitoresMãe: Lydia Pereira Felício de São Mamede
Pai: Joaquim Francisco de Assis Brasil
Ocupaçãoescritora
Anos de serviço1916-1934

Cecília de Assis Brasil (Washington D.C., 26 de maio de 1899Pedras Altas, 11 de março de 1934), é conhecida por ter mantido diários que foram compilados e publicados em um livro, com o nome “Diário de Cecília de Assis Brasil”. A obra serve de testemunho para vários fatos históricos da história do Rio Grande do Sul, e também revela uma visão íntima da vida familiar e social de uma mulher gaúcha no início do século XX, revelando os aspectos peculiares dela ver o mundo e de seus interesses como a vida no campo e o amor aos animais.

Biografia

Cecília nasceu em Washington, época em que seu pai, o grande estadista brasileiro Joaquim Francisco de Assis Brasil, representava o Brasil diplomaticamente nos Estados Unidos. Ela morreu com 34 anos, vítima de um raio, enquanto cavalgava com os seus irmãos, próximo ao castelo onde morava; o Castelo de Pedras Altas, localizado no Rio Grande do Sul.[1]

A vocação de escrever diários foi uma influência obtida através de seu pai. Com anotações diárias, ela iniciou a escrever ainda jovem.[2]

Lia autores clássicos e revistas como a “Life” e “Les Annales” quase que diariamente. Cecília era poliglota; falava inglês, francês e espanhol, mas também entendia o linguajar rude dos gaúchos. Tanto podia ler “The Jungle Book”, de Rudyard Kipling, como citar expressões gauchescas como "de vereda" (de repente), "mateando" (tomando chimarrão) e "bóia"(refeição/comida).[3]

Sua devoção à vida no campo fizera com que ela entendesse em como “deitar” uma galinha com ovos, cuidar de uma ninhada de pintos ou cuidar de cordeiros órfãos. Sabia exatamente o “ponto” certo da calda do doce de figo.[4]

Também acompanhava o desenvolvimento das vacas jersey, importadas da Inglaterra, e do gado da raça Devon, que seu pai também introduziu no Brasil.[1]

Cecília de Assis Brasil aos 32 anos em Pedras Altas.

Divertia-se com os seus irmãos em pescarias de lambaris ou longas cavalgadas. Atenta e politizada, observava a movimentação de políticos e revolucionários que iam ao castelo se aconselhar com seu pai, Joaquim Francisco de Assis Brasil.[5]

O seu nome foi uma promessa de Assis Brasil, em que as suas duas primeiras filhas, teriam o mesmo nome, em homenagem a suas duas esposas. Assim nasceram Cecília e Lydia.[6]

Assis Brasil ficou viúvo em Portugal, no ano de 1894, de Maria Cecília Prates de Castilhos ( irmã de Júlio de Castilhos).

Também, além da sua esposa muito jovem ele também perde dois filhos homens, ainda crianças. (Joaquim e Francisco). Os três, vítimas de Tifo, doença fatal para a época. Assis Brasil fica viúvo e com duas filhas pequenas do primeiro casamento: Maria Cecília e Carolina.[4]

Contudo, quatro anos depois, ele vem a conhecer a nobre portuguesa Lydia Pereira Felício de São Mamede.

Juntos, o casal tiveram oito filhos: destes, Cecília e Lydia, nasceram nos Estados Unidos. Os demais filhos, no Brasil.

Assis Brasil com a esposa Lydia, em 1901 e suas quatro primeiras filhas: Maria Cecília e Carolina, do seu primeiro casamento; são as maiores. Cecília é a segunda. E a mãe Lydia, segurando a bebê também com o seu mesmo nome, Lydia.

Depois de terminado o mandato de embaixador nos Estados Unidos, a família passa a residir definitivamente no Brasil. Adquirem as terras para a granja e assim inicia a construção do castelo de Assis Brasil. Levou aproximadamente cinco anos para que fosse erguido.

Na noite de 24 de Junho de 1913 toda a família pernoitou a primeira noite no castelo de Pedras Altas.[7]

Cecilia, era a mais velha do segundo matrimônio. Acompanhou os momentos tensos de revoluções e embates da época. Viveu uma parte de sua vida exilada, seja no Rio de Janeiro, quanto no Uruguai, juntamente com sua família.[3]

A sua irmã mais nova, casa-se, em março de 1934. Um dia antes da fatídica morte de Cecília por um raio.

Ainda estavam comemorando os festejos do casamento de sua irmã Lina, enquanto Cecília passeava com seus irmãos Joaquim e Dolores a cavalo, ao redor do castelo, na região denominada de Cerro da Guarda, num dia de verão ensolarado; quando de repente, o tempo ficou nublado rapidamente, vindo uma garoa de verão, junto com uma breve tempestade.[4]

Cecília falou para os seus irmãos: “já passou a tempestade.” Essas foram suas últimas palavras antes de ser fulminada pela descarga elétrica, matando junto o seu cavalo.[4]

A prataria que ela usava em seu cavalo, derreteu toda. Sua irmã ficou um dia inteiro sem conseguir escutar, devido ao barulho do raio.[8]

Assis Brasil escreve em seu diário que ele mesmo fizera o caixão da filha e que Cecília “estava com um semblante feliz, não parecendo que sentiu dor”, e também que ela merecia o “título de filha predileta, não fosse, o fato dos pais amarem todos da mesma forma.” Vários jornais do estado e do país inteiro noticiariam o acidente e a tragédia da filha de Assis Brasil.[4]

O Diário de Cecília

A família de Cecília conseguiu conservar apenas os cadernos que iniciam em 1916, quando a jovem de Pedras Altas estava com cerca de dezessete anos de idade. Mesmo assim, muitos cadernos se perderam e longas são as intermitências entre eles.[3]

Com a autorização da família, o jornalista Carlos Reverbel, teve acesso aos escritos da jovem, e foi responsável pela seleção do conteúdo e pela publicação do livro, no ano de 1983. Reverbel selecionou os escritos de 1916 até 1928.[9]

O diário ainda continuou a ser escrito após essa data. Desde quando foi publicado, até os dias de hoje, o livro “Diário de Cecília de Assis Brasil”, sensibiliza os leitores.

Seja pela autenticidade da autora, pelo seu singular modo de vida, seja pela sua paixão pela vida no campo e pelos animais.[1]

A jovem, que devorava as poesias do norte-americano Henry Longfellow em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven, registrou o seu cotidiano, como também foi testemunha das revoluções do início do século passado.[4]

Em seu diário, Cecília além de contar a vida no castelo, também relata as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço e aliados de Assis Brasil) e chimangos(republicanos de lenço branco).

Embora escrito de maneira simples, sem a intenção de fazer literatura, as críticas positivas ao livro, foram inúmeras na época de seu lançamento.

Abaixo segue uma matéria, publicada no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, uma crônica da escritora Rachel de Queiroz, sobre o Diário, no ano de lançamento:

Jornal do Brasil- Matéria de Rachel de Queiroz

No dia 19 de fevereiro de 1918, Cecília registra um dia bem atarefado em Pedras Altas, segue: “Chegaram dois senhores: o engenheiro Charles Vincent, belga, administrador de um posto zootécnico em Santa Catarina, e um brasileiro, mestiço de grego e italiano, chamado Miguel Savas. Vão com Papai a Ibirapuitã comprar Devon. Papai também levará as éguas de corrida. Para nos despedirmos delas, fizemos outro passeio ao Cerro da Guarda. A Quimquim foi na Galé, o Seu Alípio na Morena, Nia na Hipócrita e eu na Enérgica, que considero minha. Troquei-a com o Papai pelo Junius Brutus”.[1]

Nos páginas do diário, pode-se perceber também o apreço da autora pela cultura gaúcha. Ela, que vivia no campo, deixa claro que a vida que escolhera, a deixa muito satisfeita, como se percebe nesse trecho do dia 24 de outubro de 1916, terça-feira: “Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto, agarro- me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora? Tenho plena confiança de que meu amor ao campo nunca cessará de crescer”.[10]

Em 3 de janeiro de 1923, uma terça-feira, ela antecipou a inconformidade dos libertadores, liderados por Assis Brasil, com as fraudes eleitorais que reconduziram Borges de Medeiros pela quinta vez em seu mandato ao governo do estado.[11]

Com o clima tenso no Rio Grande do Sul, em 1923. Cecília e seus irmãos passam a morar no Rio de Janeiro, aonde já estavam seus pais. Em aproximadamente dois anos, o diário passa a ser escrito da Avenida Atlântica, época das primeiras casas do bairro de Copacabana.[4]

Ela retorna ainda a Pedras Altas algumas vezes, até que nos próximos anos com o movimento chamado de tenentismo e a Coluna Prestes no Brasil ganhando forças, a família mais uma vez, vê-se obrigada a deixar o castelo, dessa vez, procurando abrigo no Uruguai na cidade de Melo.

Seu diário passa a ser escrito em quatro pequenos estabelecimentos rurais – Chácara Bela Vista, Estância Nova, Coxilha Grande e Berachi.

Nessa época, os opositores políticos, chimangos, invadiram o castelo, saquearam objetos e deixaram tiros nas janelas, que Assis Brasil nunca os consertou. Pois dizia que “todo o castelo deveria ter suas cicatrizes.”[11]

Seu diário serviu de testemunho único além de sua visão sobre esses fatos políticos, ela também vivenciou as inúmeras visitas de chefes políticos que lá iam visitar seu pai, Joaquim Francisco de Assis Brasil. Nomes como Luis Carlos Prestes, Oswaldo Aranha, Zeca Netto, Juarez Távora, Siqueira Campos, dentre muitos outros.[4]

Os anos de exílio foram bem diferentes na qual Cecília estava habituada com o conforto do castelo. Das localidades em que a família morou no Uruguai, duas delas não passavam de simples ranchos com o chão de terra batida.[12]

Mas ao contrário disso, a autora sequer menciona absolutamente qualquer tipo de lamentação por conta disso.

Contudo, o diário narra nessa fase, Cecília ocupada, vendendo leite e manteiga, juntamente com suas irmãs, para manterem os seus sustentos. Apesar de preocupada com o desfecho das revoluções, ela também se mostra ao mesmo tempo feliz em trabalhar. Nessa época, ela escreve muitos termos em espanhol e se diverte com a cultura diferente da sua.[4]

Cecília só retorna para Pedras Altas por volta de 1928. A dignidade através da educação e a dedicação ao trabalho em família, maior legado que Joaquim Francisco de Assis Brasil quis passar aos seus filhos, pode ser percebido também nos anos vividos no exílio, pela maneira que souberam enfrentar as adversidades.[3]

A moça de Pedras Altas, estava finalmente de volta ao seu lar, porém nunca pensara que o destino lhe reservaria poucos anos pela frente. Como escreveu o autor, que compilou seu diário em livro, o jornalista Carlos Reverbel.

Ele finaliza seu prefácio no livro, dizendo, que, Cecília amava tanto a natureza, que o destino fez com que, ali, ela, “finalmente repousasse, transformando-se em um rebento da Granja de Pedras Altas, assim como as flores, as espigas, as frutas, os pássaros, as árvores, os sulcos do arado e o mugido do gado”.[13]


Referências

  1. a b c d «Cecília, a cronista de Pedras Altas». Site da PUC-RS-Pontificia Universidade Católica. Consultado em 27 de março de 2025 
  2. Silveira Osório, Pedro Luiz da. "Assis Brasil - Coleção Esses Gaúchos". Porto Alegre: Editora Pallotti, 1986, 30 pp.
  3. a b c d «Diário de Cecília narra a vida no campo» (PDF). Site do Observatório Geográfico da América Latina-Município de Pinheiro Machado. Consultado em 31 de março de 2025 
  4. a b c d e f g h i «Perfis Parlamentares- Joaquim Francisco de Assis Brasil». Site da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Consultado em 30 de março de 2025 
  5. Silveira Osório, Pedro Luiz da. "Assis Brasil - Coleção Esses Gaúchos". Porto Alegre: Editora Pallotti, 1986, 31 pp.
  6. «Castelo de Pedras Altas-RS». Site de Joanes Araújo. Consultado em 26 de março de 2025 
  7. Silveira Osório, Pedro Luiz da. "Assis Brasil - Coleção Esses Gaúchos". Porto Alegre: Editora Pallotti, 1986, 38 pp.
  8. «Cecília de Assis Brasil na Hemeroteca Digital» (PDF). Site da UFPEL- Universidade Federal de Pelotas. Consultado em 31 de março de 2025 
  9. «A revolução gaúcha vista por uma jovem em Jornal do Brasil-Ano 1983-Edição 179A-Pág 36». Jornal do Brasil. Consultado em 27 de março de 2025 
  10. «Desterradas na própria terra? O nacional e o estrangeiro nos diários de Helena Morlev e de Cecília de Assis Brasil». Site da UFU-MG- Universidade Federal de Uberlândia. Consultado em 25 de março de 2025 
  11. a b «Um castelo ressuscita». Site Jornalismo Matinal. Consultado em 29 de março de 2025 
  12. Reverbel, "Diário de Cecília de Assis Brasil". Porto Alegre: Editora L&PM, 1983, 05 pp.
  13. Reverbel, "Diário de Cecília de Assis Brasil". Porto Alegre: Editora L&PM, 1983, 10 pp.