Campo de públicas
Campo de Públicas designa, no Brasil, a comunidade acadêmica e profissional dedicada à formação, pesquisa, extensão e atuação nas áreas de Administração Pública, Gestão Pública, Ciências do Estado, Gestão de Políticas Públicas e Gestão Social e Política Públicas.
Constitui um campo multidisciplinar centrado na análise do Estado em ação, nos processos de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas e na gestão de organizações públicas e sociais. Pertence à grande área das Ciências Sociais Aplicadas e das Ciências Humanas.
O Campo de Públicas resulta da convergência entre o avanço da análise de políticas públicas e a reformulação da gestão pública brasileira. Sua consolidação envolve a criação de instituições, revistas, cursos e discursos comuns, bem como a formação de uma identidade coletiva de pesquisadores e profissionais comprometidos com a melhoria das políticas e a defesa do interesse público.[1]
Origens e processo de institucionalização
A consolidação do Campo de Públicas decorre de um longo processo de formação de conhecimento e práticas sobre a ação estatal. Conforme descreve Marta Ferreira Santos Farah (2016), a análise de políticas públicas ocorre no Brasil desde a década de 1930, associada à produção e mobilização de conhecimento técnico para decisões governamentais. Contudo, até os anos 2000, essa prática não se configurava como um campo científico reconhecido.[2]
Farah identifica três etapas históricas:
- 1930–1964 – consolidação da burocracia técnica e das análises governamentais;
- 1964–1985 – hegemonia da racionalidade tecnocrática e expansão de centros de planejamento;
- Pós-1988 – diversificação de atores e institucionalização acadêmica do campo, articulando práticas de gestão e análise de políticas públicas.
Nos anos 2000, esse movimento se fortaleceu com a criação de graduações específicas, associações científicas e revistas especializadas, configurando um campo multidisciplinar em consolidação voltado à profissionalização e à prática analítica. O processo resultou da confluência entre políticas educacionais (como as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) de Administração Pública, de 2014), iniciativas do Ministério da Educação e articulações entre universidades e escolas de governo.[3][4][5]
| Período | Marcos históricos e institucionais | Relevância para o Campo de Públicas |
|---|---|---|
| 1930–1945 | Criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) (1936). | Introduz o modelo burocrático weberiano e a formação de uma burocracia técnica no Brasil. |
| 1964–1985 | Consolidação do planejamento estatal e criação do Ipea (1964). | Expansão das análises técnico-econômicas e fortalecimento da racionalidade tecnocrática. |
| 1988 | Constituição Federal de 1988. | Ampliação das funções estatais, descentralização e fortalecimento das políticas públicas. |
| 1990–2000 | Reformas administrativas e experiências de escolas de governo (ENAP, FJP). | Início da institucionalização do ensino e formação em gestão pública. |
| 2006–2010 | Expansão de cursos superiores e início do movimento do Campo de Públicas. | Surgimento de graduações específicas em gestão pública e políticas públicas. |
| 2010 | Audiência pública do CNE (5 abr. 2010) sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais. | Marco político do reconhecimento do Campo como área própria de formação. |
| 2013–2015 | Criação da Sociedade Brasileira de Administração Pública (SBAP) e da ANEPECP; publicação da Resolução CNE/CES nº 1/2014 (DCNs). | Consolidação institucional e curricular da área. |
| 2015–2020 | Realização do I ENEPCP (2015) e do ENADE específico (2015); publicação de dossiês temáticos sobre o Campo. | Afirmação científica e curricular; diversificação de cursos e agendas de pesquisa. |
| 2023 | Publicação do Diagnóstico Nacional da Rede de Pesquisa do Campo de Públicas (Andion et al.). | Sistematização de dados sobre cursos, PPCs, perfis de egresso e práticas de pesquisa, extensão e estágio. |
Eixos e dimensões constitutivas
O Campo de Públicas articula duas dimensões principais:
- Gestão pública e governança, vinculada a práticas de administração e coordenação intergovernamental;
- Políticas públicas, centrada na análise, formulação, implementação e avaliação de políticas públicas.
A literatura mais recente enfatiza a heterogeneidade institucional e a pluralidade epistemológica do Campo, que abriga distintas tradições disciplinares — administrativas, sociológicas, econômicas e jurídicas — e múltiplos referenciais teóricos. Essa pluralidade é considerada uma de suas forças estruturantes, pois permite o diálogo entre diferentes concepções de Estado, gestão e cidadania.[3]
Essa diversidade se manifesta também nas ênfases curriculares identificadas por Andion et al. (2023), que mostram como os cursos combinam abordagens de gestão, ciência política, sociologia, economia e planejamento, promovendo formação interdisciplinar voltada à análise e gestão de políticas públicas.[6]
O crescimento expressivo de cursos, núcleos de pesquisa e grupos de extensão vinculados ao Campo. O diagnóstico exploratório da Rede de Pesquisa do Campo de Públicas[6] identificou 132 cursos presenciais em 2019, distribuídos por todas as regiões do país, sendo a maioria em instituições públicas. As análises textuais dos projetos pedagógicos de curso (PPCs) indicam a incorporação de práticas de pesquisa, extensão e estágio supervisionado como pilares da formação e a valorização de competências democráticas e republicanas.[6]
Inspirada na teoria do campo científico de Pierre Bourdieu, Farah (2016) interpreta o Campo de Públicas como uma estrutura em disputa, na qual diferentes grupos buscam definir a legitimidade científica e a orientação normativa da área — oscilando entre ênfases tecnocráticas, gerenciais, participativas e analítico-críticas.[2]
Os estudos mais recentes ampliam essa reflexão ao apontar tensões entre universalização e diferenciação. Por um lado, o Campo busca consolidar uma identidade comum baseada em valores públicos, ética e gestão democrática; por outro, preserva a diversidade de agendas e referenciais que compõem sua riqueza acadêmica.[3]
Ver também
- Administração Pública
- Política pública
- Administração pública no Brasil
- Políticas públicas
- Capacidade estatal
- Escola Nacional de Administração Pública
Referências
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↑ KEINERT, T. M. M. O movimento “Campo de Públicas”: construindo uma comunidade científica dedicada ao interesse público e aos valores republicanos. Administração Pública e Gestão Social, 6(4), 169–176, 2014.
↑ a b FARAH, Marta Ferreira Santos. Análise de políticas públicas no Brasil: de uma prática não nomeada à institucionalização do “campo de públicas”. Revista de Administração Pública, 50(6), p. 959–979, 2016. DOI: 10.1590/0034-7612150981.
↑ a b c COELHO, F. S.; SCHOMMER, P.; ALMEIDA, L. S. B.; MIDLEJ, S.; TEIXEIRA, M. A. C. O Campo de Públicas após as DCNs: trajetória e desafios (2015–2020). Revista de Administração Pública, 54(4), 1009–1033, 2020. DOI: 10.1590/0034-761220200206.
↑ PIRES, V. et al. Campo de Públicas no Brasil: definição, movimento constitutivo e desafios atuais. Administração Pública e Gestão Social, 6(3), 110–126, 2014.
↑ COELHO, F. S. História do ensino de administração pública no Brasil (1854–2006). ENAP, 2019.
↑ a b c ANDION, C.; CRUZ, F. N. B.; MIDLEJ e SILVA, S. A.; SILVA, M. A. F.; RIBEIRO, E. C. Campo de Públicas no Brasil: diagnóstico exploratório realizado pela Rede de Pesquisa do Campo de Públicas. Cadernos Gestão Pública e Cidadania, 28, e86839, 2023.
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