Expedição Persa de Juliano
| Expedição Persa de Juliano | |||
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| Guerras romano-persas | |||
![]() Mapa da progressão da campanha | |||
| Data | Março – julho de 363 | ||
| Local | Mesopotâmia, Irã Ocidental e Armênia | ||
| Desfecho | Vitória sassânida | ||
| Mudanças territoriais | Paz de Nísibis | ||
| Beligerantes | |||
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| Comandantes | |||
A Expedição Persa de Juliano foi uma expedição militar romana contra o Império Sassânida, conduzida em 363 pelo imperador Juliano (r. 361–363). As fontes relativas à campanha de Juliano contra os sassânidas são profundamente assimétricas. As crônicas persas contemporâneas perderam-se, e o conhecimento do ponto de vista oriental depende sobretudo de obras tardias, como a História dos profetas e dos reis de Atabari, além de dados arqueológicos, epigráficos e numismáticos. Já do lado romano, subsiste um conjunto abundante de textos, ainda que fortemente marcados por posições ideológicas. Autores como Libânio exaltam Juliano como rei-filósofo e restaurador do politeísmo, enquanto Gregório de Nazianzo o retrata como apóstata e governante inepto, oferecendo uma imagem diametralmente oposta.
Entre essas leituras extremas, algumas fontes se destacam pelo tom mais equilibrado. Eutrópio fornece uma narrativa sucinta, mas relativamente sóbria, ao passo que Amiano Marcelino, participante direto da expedição, constitui a principal base para a reconstrução do conflito. Embora não isento de simpatia por Juliano, Amiano demonstra atenção crítica aos erros estratégicos e às dificuldades logísticas da campanha, permitindo uma visão mais nuançada dos acontecimentos militares e políticos de 363.
O conflito insere-se numa longa sequência de guerras romano-persas, iniciadas ainda sob o Império Arsácida e intensificadas com a ascensão do Império Sassânida, que reivindicava a herança aquemênida. Sob Sapor II (r. 309–379), os sassânidas retomaram a ofensiva no século IV, impulsionados por ambições territoriais, sobretudo sobre a Armênia e a béria, e por uma política de fortalecimento do zoroastrismo. Juliano, recém-chegado ao poder e empenhado em restaurar o politeísmo romano, via na guerra uma oportunidade de legitimação política e religiosa, confiando excessivamente no êxito militar.
A campanha começou com avanços significativos, incluindo a tomada de fortalezas e uma vitória diante de Ctesifonte, mas fracassou em alcançar seu objetivo principal: a conquista da capital sassânida. A estratégia persa de terra arrasada, aliada à escassez de suprimentos, forçou uma retirada difícil, durante a qual Juliano foi mortalmente ferido. Seu sucessor, Joviano (r. 363–364), negociou uma paz desfavorável a Roma, cedendo territórios estratégicos e influência regional. As consequências foram duradouras: consolidou-se a supremacia sassânida no Oriente e, no Império Romano, a morte de Juliano acelerou o declínio definitivo do politeísmo e a afirmação da hegemonia cristã.
Fontes e historiografia
As crônicas persas contemporâneas aos acontecimentos perderam-se. Os historiadores dispõem da História dos profetas e dos reis do exegeta árabe Atabari, que teve acesso a essas fontes primárias. Contudo, ele as traduziu e retranscreveu mais de cinco séculos depois, num contexto cultural e religioso completamente distinto. Sua História é, portanto, de uso difícil. A arqueologia, a epigrafia e a numismática fornecem um esclarecimento útil sobre o período por meio de relevos, moedas e selos impressos na argila.[1][2]
As fontes escritas, em grego ou em latim, são muito mais abundantes e diversificadas do lado romano. Várias grandes figuras intelectuais romanas conheceram o imperador Juliano em vida, e seus testemunhos são preciosos. O retor Libânio manteve correspondência com o imperador muito antes de sua ascensão ao poder e redigiu um Elogio fúnebre de Juliano. Ele o vê como um amigo das letras, um rei-filósofo e um campeão do politeísmo perseguido pelos cristãos. Seus escritos são, portanto, muito parciais, por vezes hagiográficos. Em sentido oposto, o teólogo, bispo e pai da Igreja Gregório de Nazianzo, que conheceu bem Juliano — pois estudou com ele na Academia de Atenas —, o detestava: via-o como um apóstata demoníaco, além de um governante incapaz. O que relata da campanha é, assim, inteiramente desfavorável ao imperador.[3]
Os escritos do alto funcionário Eutrópio são mais factuais: ele participou da campanha e seu Breviário da história romana foi publicado apenas seis anos após os acontecimentos. É o oficial e historiador Amiano Marcelino quem fornece o melhor testemunho. Embora não seja “objetivo”, pois era politeísta como Juliano e fez carreira sob suas ordens, mantém espírito crítico. Sobretudo, conhecia bem as vicissitudes militares, a política, a diplomacia, a tática, a logística e os persas, contra os quais já havia combatido quando servia no exército de Constâncio II (r. 337–361).[4]
Origens do conflito
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O conflito de 363 insere-se numa história longa: o fundador do Império Sassânida, Artaxer I (r. 224–272), no início do século anterior, suplantou seus suseranos, os partas, que já estavam em guerra com os romanos desde o século I a.C.. A ideologia sassânida reivindicou a herança aquemênida, cujo poder se estendia até o Mediterrâneo e incluía numerosos territórios então ocupados pelos romanos. Estes se viam nesse esquema por se considerarem continuadores dos gregos, cuja língua dominava a parte oriental do império e era falada pelos últimos imperadores. A memória dos feitos de armas, reais ou lendários, estava muito presente nos espíritos, tanto do lado persa quanto do romano.[5]
Ao norte, o Reino da Armênia tornou-se rapidamente alvo dos persas. Estes desejam, ao mesmo tempo, eliminar seus soberanos de ascendência parta e restabelecer o zoroastrismo, abandonado pelo Estado armênio em favor do cristianismo.[6] O zoroastrismo é uma religião politeísta, com seus grandes deuses Aúra-Masda, deus do céu, Anaíta, deusa guerreira e da fecundidade, e Mitra, deus do sol e da justiça. Os sassânidas fundamentavam seu poder nessa religião, à qual acrescentaram uma dimensão dualista de combate entre o Bem e o Mal, e sua dinastia pretendia ligar-se diretamente às vontades divinas.[7]
Os dois impérios possuíam forças equivalentes e as guerras ferozes que travaram alternaram-se em vantagem de um e de outro: o sucessor de Artaxer, Sapor I (r. 240–270), tomou numerosas cidades romanas, deportou suas populações e humilhou os romanos ao capturar Valeriano (r. 253–260) em 260. Em seguida, os romanos retomaram a vantagem. Caro (r. 282–283) tomou e saqueou a capital persa, Ctesifonte, em 283, e os coimperadores Galério (r. 293–311) e Diocleciano (r. 284–305) derrotaram o xainxá Narses I (r. 293–302) e lhe impuseram a Paz de Nísibis de 298: a suserania romana sobre a Armênia foi reconhecida, e os persas cederam as províncias transtigritanas, administradas por sátrapas armênios sob a autoridade de Roma. Essa trégua perdurou até Sapor II a romper em 337.[8]
Soberanos
Quase tudo separa o xainxá Sapor II do imperador Juliano: nascido rei, o persa de 54 anos, muito experiente e prudente, conduzia os exércitos com mão de ferro, mas apoiou-se em seus generais e, em nenhum momento da campanha, aproximou-se do campo de batalha. O romano de 31 anos não estava destinado a vestir a púrpura; imperador há apenas dois anos, assumiu todos os riscos e não hesitou em participar dos combates para galvanizar suas tropas. Ambos, porém, têm em comum uma grande fé e forte confiança em si mesmos, graças às vitórias passadas. Ambos desejavam essa guerra por razões de política externa e interna.[9]
Sapor II

Filho de Hormisda II (r. 302–309), Sapor tornou-se rei in utero após um golpe de Estado de nobres e do alto clero zoroastrista, que executaram, prenderam ou exilaram seus irmãos adultos. Em 325, aos 16 anos, os regentes lhe permitiram assumir o comando do exército para pôr fim aos raides árabes no império, o que realizou com sucesso. Durante o reinado de Constantino I (r. 306–337), Sapor passou à ofensiva e tentou, por três vezes, em vão, sitiar Nísibis. Ele não escolheu essa cidade ao acaso: desejava apagar a afronta do tratado concluído em 298, pelo qual seu avô tivera de ceder numerosos territórios e vantagens aos romanos. O sistema defensivo romano frustrou seus planos, mas Constantino e depois Constâncio II (r. 337–361) não conseguiram pôr fim às suas incursões.[10]
Para além da revanche, do saque e da expansão territorial, os objetivos de guerra de Sapor também eram religiosos. Ao norte, os reinos da Armênia e da Ibéria oscilaram entre a influência dos dois mundos. No século anterior, os sassânidas haviam conseguido estabelecer o zoroastrismo como religião de Estado, à sua imagem. Mas, em 301 para os armênios e em 337 para os iberos, esses reinos optaram oficialmente pelo cristianismo. Os zoroastristas, contudo, conservaram apoios na população e entre os notáveis. Ao restaurar a ordem de Aúra-Masda, Sapor apresentou-se como seu campeão e, ao mesmo tempo, reforçou sua autoridade e seu prestígio no interior do próprio império.[11]
Em 359, Sapor reuniu um grande exército e cercou por 73 dias a cidade fortificada de Amida, defendida por várias legiões. O xainxá dirigiu pessoalmente o cerco. Amiano Marcelino, uma das principais fontes para a campanha de Juliano, estava entre os defensores. Amida foi tomada e saqueada, e sua população foi deportada para o interior do império. No ano seguinte, várias fortalezas romanas caíram.[12]
Juliano
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Constâncio II tinha plena consciência do perigo persa. Recrutou maciçamente tropas, preparou pontos de abastecimento com vistas a uma contraofensiva e armazenou víveres e armas na cidade de Antioquia, com o objetivo de fazer dela a base das operações. Tinha ainda um objetivo secundário: precaver-se contra uma eventual traição de seu César, seu primo Juliano. Paradoxalmente, foi essa desconfiança que provocou o levante das tropas deste, quando Constâncio solicitou que várias legiões deixassem a Gália para se reunirem a ele na frente persa. A guerra civil não ocorreu porque Constâncio morreu de febres em 3 de novembro de 361, designando Juliano como seu sucessor.[4][13]}
Nascido em 331/2, Juliano viu sua família ser assassinada por Constâncio II em 337, por ocasião da morte de seu tio Constantino I. Com então seis anos, foi poupado juntamente com seu meio-irmão Constâncio Galo e recebeu uma educação literária clássica e cristã na Ásia Menor.[14] Durante sua juventude, prosseguiu estudos de filosofia em Atenas e aproximou-se de círculos pagãos.[15] Em 355, para sua grande surpresa, foi chamado de volta à corte e recebeu de Constâncio II o título de César, com a missão de assegurar a defesa da Gália contra os alamanos. Nos anos seguintes, obteve diversos êxitos militares. Tornou-se muito popular entre suas tropas, entre outros motivos por seu estilo de vida austero, que o aproximava tanto do ideal filosófico que reivindicava quanto da vida de acampamento dos soldados. Em 360, recebeu ordem de Constâncio II para enviar duas de suas legiões como reforço às fronteiras persa e danubiana. Juliano recusou-se e foi proclamado imperador em Lutécia por suas tropas. A morte de Constâncio no ano seguinte fez dele o soberano único do Império Romano. Ele então abandonou o cristianismo para retornar aos deuses tradicionais. Reativou seus cultos e favoreceu funcionários politeístas, sem contudo perseguir os cristãos, que continuaram numerosos em sua administração.[4]
A situação de Juliano era paradoxal: havia acumulado sucessos, ora graças a seus talentos de chefe, ora graças a um feliz concurso de circunstâncias, o que, na mentalidade romana, demonstrava que a providência e a fortuna estavam com ele. Os politeístas o exultavam, pois suas crenças voltavam a ocupar o centro do império e o imperador lhes aparecia como um rei-filósofo e seu salvador. No exército, o retorno dos sacrifícios era popular, pois os soldados eram os primeiros beneficiários da carne dos animais dedicados aos deuses. Isso era particularmente verdadeiro entre os soldados provenientes das legiões do Reno, que cultuavam Mitra. Era menos evidente entre os soldados oriundos do antigo exército de Constâncio II, que contava com numerosos cristãos. Em escala imperial, estes oscilavam entre uma reprovação expectante e o ódio aberto, os religiosos vendo Juliano, no melhor dos casos, como um louco e, no pior, como um instrumento das forças demoníacas.[16]
Juliano necessitava de uma grande vitória para consolidar seu império contra um inimigo comum e provar que os deuses estavam com ele. Foi incentivado nesse sentido por alguns conselheiros místicos, como o filósofo e mago Máximo de Éfeso, que o apresentava como um novo Marco Aurélio, o imperador-filósofo que tomara Ctesifonte, e até mesmo como um novo Alexandre, o Grande, que destruíra o império persa.[17] Instalou-se em Antioquia no verão de 362 para preparar uma grande ofensiva. Dispunha de um trunfo considerável: Hormisda, o irmão de Sapor II, encontrava-se exilado entre os romanos. O plano de Juliano era, portanto, tão simples quanto ambicioso: tomar a capital inimiga, Ctesifonte, derrubar Sapor e substituí-lo por um rei aliado ou vassalo.[18][19]
Forças
Organização e composição
| “ | Os persas nos opuseram as fileiras cerradas de seus clibanários, montados em cavalos caparaçados com um couro espesso, e cuja armadura de aço flexível deslumbrava seus adversários. Seus esquadrões apoiavam-se em várias linhas de infantaria armadas de longos escudos redondos, cujo tecido de vime era recoberto por peles não curtidas. Atrás manobravam os elefantes, montanhas em movimento, ameaçando-nos com um conflito do qual já havíamos feito terrível experiência. | ” |
— Amiano Marcelino, História Romana, XXIV.6.8-9.
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O exército persa já havia demonstrado sua eficácia no passado. Fortalezas protegiam as vias de comunicação e as cidades eram fortificadas. As muralhas eram construídas em pedra ou tijolos, reforçados com asfalto conforme as regiões. Sua infantaria era majoritariamente equipada de forma leve, com piques e escudos de couro ou de vime. Os elefantes de guerra eram pouco numerosos, mas desempenhavam um papel importante nas batalhas campais; a tática mais comum consistia em desorganizar o adversário e abrir caminho para uma carga de cavalaria pesada. Esta constituía o coração do exército: membros da elite política e militar, os cavaleiros eram protegidos por cotas de malha ou couraças, capacetes de metal trabalhado que por vezes assumiam a forma de rostos humanos; suas montarias também eram protegidas por couro, e suas armas eram uma lança longa, o machado e a maça. Mais numerosa, a cavalaria leve utilizava um arco composto potente e empregava, entre outras, a tática da flecha de parto. Os efetivos não são conhecidos; a historiadora Catherine Wolff formulou a hipótese de 50 mil homens, aos quais se somavam mercenários e tropas de povos vassalos, como os hunos quidaritas.[20]
Do lado romano, o exército era mais heterogêneo. Os gauleses e os germânicos do Ocidente não possuíam as mesmas tradições militares que os soldados do Oriente. Eram também mais ligados a Juliano do que estes últimos, além disso desmoralizados pelas derrotas recentes contra os persas. Os romanos haviam tomado emprestado dos persas o princípio da cavalaria pesada e couraçada. Contudo, o núcleo do exército permanecia sendo as legiões, que contavam mil soldados cada. Protegidos por couraças ou cotas de malha, os legionários manejavam um escudo oval, a lança e a espada. A infantaria leve, dividida em contingentes de 500 soldados, era menos protegida, porém mais ágil; dispunha de espadas, facas, arcos, manubalistas e de plumbatas. Mercenários godos e árabes também estavam presentes. Como estandartes, além das águias, os romanos utilizavam dragões de metal e de tecido, espécies de mangas de vento cujo aspecto e ruído impressionavam o inimigo. As tropas comandadas por Juliano teriam totalizado talvez cerca de 65 mil soldados. Em Samósata, no Eufrates, fora construída uma poderosa frota fluvial, comandada pelo conde Luciliano: cerca de mil barcos de transporte e jangadas para levar máquinas de guerra e abastecimentos, cinquenta navios de guerra para protegê-los e barcaças destinadas à construção de pontes flutuantes. A logística, confiada ao prefeito pretoriano Salúcio, sendo essencial para uma expedição distante em território inimigo, essa frota transportava imensas quantidades de bucelado e de água avinagrada, dois gêneros que se conservavam longa e facilmente.[21]
Táticas
O plano de Juliano consistia em seguir o Eufrates até a capital persa. Contudo, confiou aos generais Sebastiano e Procópio um destacamento cujo número exato não é conhecido, mas que poderia situar-se entre seis e 30 mil homens, com a missão de marchar em direção a Nísibis, atravessar o Tigre e impedir que saqueadores persas se infiltrassem através da fronteira ou, pior ainda, que o exército fosse atacado pela retaguarda. Sebastiano e Procópio também deveriam coordenar-se com os armênios de Ársaces II (r. 350–368). Um objetivo secundário era perturbar o comando persa, que não sabia de imediato onde se encontrava o grosso do exército romano.[22][23]
Pouco tempo antes de sua partida de Antioquia, Juliano desbaratou uma conspiração urdida por um grupo de soldados que havia planejado assassiná-lo. Tratava-se de antigos oficiais de Constâncio II, movidos por sua fé cristã e talvez pelo temor da campanha.[24] A cavalaria foi confiada a Hormisda e ao conde Arinteu, a retaguarda ao conte Vitor e a infantaria leve ao mestre da cavalaria Nevita.[25] Sapor II optou por uma tática de terra arrasada e de guerrilha, decidindo aguardar um momento de fraqueza do exército romano para desferir-lhe um ataque maciço. A defesa do território foi confiada a Surena, chefe da poderosíssima família de mesmo nome.[19]
Campanha
Maus presságios e primeiros sucessos romanos
Vários maus presságios se acumularam para os romanos; em particular, um raio matou um soldado chamado Joviano durante uma violenta tempestade, o que foi considerado pelos áugures um sinal desfavorável de Júpiter. Pior ainda, dez touros destinados a serem sacrificados ao deus Marte morreram de doença. Consultados, os arúspices mostraram-se igualmente pessimistas quanto ao êxito da expedição, e assim permaneceram durante toda a campanha. Isso pesou sobre o moral das tropas e atingiu pessoalmente Juliano, muito devoto e que havia recolocado em honra as práticas divinatórias e sacrificiais no exército.[26]
Juliano insistiu junto às tropas para que os desertores e os soldados que abandonassem a coluna para se entregar ao saque sem autorização fossem severamente punidos: o castigo consistia em ser abandonado à mercê do inimigo com os tornozelos cortados. Para motivar os soldados, distribuiu a cada um a quantia de 130 síliquas. Em 5 de abril, os romanos entraram em território persa seguindo a margem esquerda do Eufrates. O exército adotou uma formação em quadrado. 1 500 batedores, móveis e armados com armas de arremesso, abriram caminho e procuraram prevenir emboscadas.[27] A fortaleza de Ana, situada numa ilha, constituía um ponto-chave da defesa persa. Em 10 de abril, Juliano aproximou-se pessoalmente para realizar o reconhecimento. Mandou instalar, com o apoio da frota, máquinas de guerra destinadas a impressionar os defensores. Em seguida, enviou Hormisda para negociar uma rendição, o que este conseguiu. Parte da guarnição juntou-se aos invasores, inclusive o seu comandante, a quem foi oferecido em troca um posto de oficial romano.[28]
O exército prosseguiu a marcha através de uma paisagem desértica. Surena empenhou-se em esvaziar a região à sua frente: os habitantes e o gado foram evacuados. Os romanos deram-se conta de que estavam sendo vigiados quando um soldado embriagado, que se divertia atravessando o rio a nado, foi morto ao chegar à outra margem. Para evitar que o medo se espalhasse pelas fileiras, Juliano procurou estar onipresente. Autorizou também o saque das propriedades para reerguer o moral. Várias cidades, igualmente esvaziadas de seus habitantes, foram saqueadas e incendiadas. Surena utilizou o sistema de irrigação para inundar toda a região e dificultar o avanço dos invasores. Informado por espiões infiltrados entre os auxiliares árabes, estava perfeitamente a par do que se passava entre os romanos. Tentou capturar Hormisda, que partira em missão de reconhecimento, numa emboscada frustrada pela cavalaria romana.[29][30]
Cerco de Perisapora
A cidade de Perisapora revestia-se de uma importância simbólica: fora fundada pelo xainxá Sapor I (r. 240–270), bisavô de Sapor II. Seu nome significava Sapor, o Vitorioso, em persa, em referência às suas vitórias sobre os romanos. Era fortificada e dotada de uma sólida cidadela, defendida por 2 500 soldados.[31] A muralha da cidade consistia em um duplo recinto. A cidadela, apoiada no muro setentrional, era bem protegida por um canal e um fosso. As muralhas e as torres da cidadela eram construídas em tijolos cozidos reforçados com asfalto. Após o fracasso das negociações conduzidas por Hormisda, Juliano voltou a reconhecer o terreno e dirigiu pessoalmente o cerco. A cidade foi cercada e instalaram-se balistas, que lançavam pedras, e escorpiões, em posições protegidas para evitar os disparos ou as saídas persas. Uma segunda linha defensiva foi formada pelos romanos para prevenir um ataque externo.[32]
Os persas fizeram chover flechas e pedras sobre os sitiantes. Os romanos aproveitaram a noite para aterrar o fosso e avançar com aríetes, que provocaram o desabamento de uma torre. De imediato, soldados e habitantes refugiaram-se na cidadela, onde o cerco prosseguiu. Juliano ordenou o assalto a uma porta, participando ele próprio da tartaruga. Os defensores conseguiram repelir o ataque lançando pedras sobre os assaltantes. A participação de Juliano nos combates era sintomática de suas tomadas de risco, que acabariam por lhe custar a vida.[32] Cientes de que um cerco demasiado longo lhes seria desfavorável, os romanos construíram uma helépole, torre de cerco sofisticada de madeira, protegida por vime, couro e lama (para protegê-la do fogo). Quando esta ficou pronta, Mamersides, o comandante persa, pediu para negociar: soldados e habitantes puderam retirar-se sem serem molestados. A cidadela foi saqueada, os víveres e as armas foram apreendidos e a cidade incendiada.[33]
Uma rota perigosa
Alguns dias depois, romanos e trânsfugas persas viram à beira do caminho os membros da família de Mamersides crucificados por Surena, para punir este último e desencorajar outras traições[34] O exército romano avançou com maior dificuldade no labirinto dos braços do rio, dos canais e dos campos inundados. Os persas aproveitaram-se disso para aumentar a pressão, multiplicando as emboscadas contra os batedores, os forrageadores ou qualquer grupo isolado. Juliano combateu, armas em punho, contra a cavalaria leve persa. Teve ainda de punir oficiais que haviam fugido e mandou executar cerca de uma dezena de desertores.[35] A expedição deixou o Eufrates para seguir o Naarmalca, o canal real que ligava o Eufrates à capital, Ctesifonte, e ao Tigre. Algumas cidades secundárias foram contornadas para não se perder tempo, sem serem sitiadas por serem consideradas inofensivas. Outras cidades, abandonadas, foram incendiadas.[36]
Cerco de Maiozamalca
Em 8 de maio, os romanos chegaram sob as muralhas de Maiozamalca, situada a cerca de quinze quilômetros de Ctesifonte. Juliano enviou Vitor à frente de um forte contingente para explorar a rota até a capital persa, prevenir uma contraofensiva e construir pontes que facilitassem a passagem do exército. O imperador organizou o cerco de Maiozamalca, para onde numerosos habitantes da região haviam se refugiado. Juliano teve ainda de se defender pessoalmente, armas em punho, durante uma surtida dos sitiados.[37] A cidade era protegida por duas linhas de muralhas, fossos e dezesseis poderosas torres. Os romanos lançaram-se em grandes trabalhos de terraplenagem (circunvalação), a fim de aterrar os fossos e preparar uma plataforma para transpor as muralhas, e empreenderam em diversos pontos trabalhos de sapa, sob o comando de Dagalaifo e de Nevita.[38]
Nos dois primeiros dias do cerco, os romanos sofreram tiros incessantes e foram bombardeados com uma mistura incendiária de terra e asfalto, contra a qual as tortugas, aríetes e manteletes resistiam com dificuldade. No terceiro dia, os sapadores haviam praticamente conseguido abrir uma brecha na muralha. Juliano decidiu aguardar a noite para efetuar a ruptura, sob a cobertura de um ataque de diversão. O plano funcionou perfeitamente: os defensores foram surpreendidos e toda a cidade caiu nas mãos dos romanos. Embora Juliano tivesse ordenado que se fizessem preferencialmente prisioneiros, suas tropas entregaram-se a um massacre indiscriminado de soldados e habitantes, homens, mulheres e crianças.[39] Juliano recompensou os soldados que haviam logrado abrir a brecha com coroas obsidionais, retomando uma tradição romana que havia caído em desuso. Ele próprio nada retirou do saque, deixando-o às tropas e aos oficiais.[38]
Batalha de Ctesifonte

Ao chegarem a cinco quilômetros da capital persa, os romanos passaram a avançar com dificuldade crescente. Os persas multiplicaram as emboscadas contra a retaguarda ou contra grupos isolados; a tomada de uma pequena cidade fortificada (Meinas Sabata) custou a vida de numerosos atacantes romanos.[40] O imenso sítio da capital repartia-se por várias cidades: Selêucia do Tigre, na margem esquerda; Ve-Ardaxir, que gregos e romanos chamavam Coque, entre dois braços do rio; e a própria Ctesifonte, na margem direita. Os romanos tiveram de reabrir um antigo canal para permitir a passagem de sua frota pelo Tigre. Tendo Juliano decidido concentrar-se em Ctesifonte, o exército precisou atravessar o rio com o auxílio da frota. Foi nesse momento crítico, em 7 de junho, quando os romanos ainda não haviam terminado a travessia, que os persas decidiram lançar o ataque.[41]
Comandados por Surena, por Narses — um dos filhos de Sapor II — e por Pigranes, um grande nobre, os persas dispuseram seu exército em três linhas: a cavalaria pesada à frente, a infantaria em seguida e os elefantes atrás. O objetivo era desorganizar o adversário desde o primeiro choque, graças à carga da cavalaria. Após trocas de dardos e flechas de ambos os lados, os cavaleiros persas atacaram, mas se despedaçaram contra os legionários romanos. Tentaram se retirar, mas foram perseguidos pelos romanos, que também engajaram a infantaria persa. Na confusão, os elefantes não tiveram ocasião de intervir. Todo o exército persa bateu em retirada, e a vitória romana foi esmagadora: apenas 70 mortos em seu campo, contra mais de 2 500 do lado persa.[42][43]
Para o historiador Touraj Daryaee, retomando Libânio, Juliano não tentou tomar ou sitiar Ctesifonte após essa vitória porque os romanos, demasiado ocupados em saquear após a debandada persa, perderam a oportunidade de tomar a cidade.[44]. Para o historiador Kaveh Farrokh, apoiando-se nos escritos de Gregório de Nazianzo, de Libânio, de Amiano Marcelino e na arqueologia, foi a qualidade das fortificações de Ctesifonte — com muralhas espessas e numerosas torres — e a própria configuração do local que desencorajaram os romanos. Os arredores de Ctesifonte estavam de fato divididos em várias zonas fortificadas independentes, Selêucia do Tigre e Ve-Ardaxir, todas protegidas pelos braços do Tigre. Juliano não podia utilizar sua frota para aproximar as máquinas de guerra nem cercar a imensa cidade sem correr o risco de ser atacado pelo exterior.[45] Ctesifonte só podia ser tomada mediante um cerco prolongado, e os romanos não podiam permitir-se tal operação enquanto os exércitos persas, cuja dimensão e localização desconheciam, pudessem atacá-los nessa posição de fraqueza.[46]
Recuo do exército romano
Após recompensar suas tropas, Juliano mandou acampá-las um pouco acima de Ctesifonte, na margem esquerda do Tigre. Para ganhar tempo ou por sentir que a vitória lhe escapava, Sapor II enviou um mensageiro a Hormisda para iniciar negociações. Juliano recusou. Apesar dos conselhos de alguns oficiais, como Vitor, que preferiam consolidar as vitórias e iniciar a retirada, sua ambição permaneceu inalterada: derrotar os exércitos persas e Sapor II numa batalha decisiva, a fim de destruir definitivamente seu poder. Juliano decidiu, portanto, penetrar mais profundamente em território sassânida, devastando-o para provocar um confronto maior. Para que não caísse nas mãos do inimigo, a frota foi incendiada: tornara-se inutilizável, pois não podia remontar facilmente a corrente. Espiões e falsos trânsfugas persas desempenharam então um papel crítico ao conduzir o exército romano por rotas erradas. O exército perdeu-se numa região esvaziada pela política da terra arrasada, com os persas incendiando campos e pastagens. As tropas de Juliano foram ainda incessantemente hostilizadas pela cavalaria leve persa.[42][47]
Com a escassez crescente de víveres, em 16 de junho Juliano mudou de plano: a expedição deveria tomar o caminho de volta, mas seguindo o Tigre para subir em direção ao norte, continuando a devastar o território inimigo, buscando recursos e, se possível, fazendo a junção com os armênios e com o destacamento de Sebastiano e Procópio. Segundo a historiadora Catherine Wolff, na concepção de Juliano, não se tratava de uma retirada; a ofensiva prosseguia por outros meios.[48]
Batalha de Maranga
Durante cerca de dez dias, assediados pelos persas, os romanos avançaram com grande dificuldade. Mortes, feridos e deserções multiplicaram-se.[49] Em 22 de junho, Sapor II lançou um ataque de grande envergadura. Os legionários conseguiram repelir a cavalaria sassânida, mirando em particular seus cavalos. A cavalaria leve dos mercenários árabes a serviço dos romanos neutralizou eficazmente os arqueiros persas. A vitória foi romana, mas as forças persas continuavam numerosas. Sapor II decidiu então manter a maior parte de seu exército em reserva e prosseguir sua guerra de guerrilha contra os romanos apenas com seus melhores cavaleiros.[50]
Batalha de Samarra e morte de Juliano
| “ | Ele regressava vitorioso quando, entregando-se cegamente à própria coragem, foi morto numa batalha. | ” |
— Eutrópio, Breviário da história romana, X.XVI.
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| “ | Enquanto corria estupidamente de um lado para outro, Juliano recebeu uma ferida mortal que trouxe a Salvação ao mundo inteiro. | ” |
— Gregório de Nazianzo, Discursos, 5.13.
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Os romanos continuam sua marcha ao longo do Tigre. Os víveres começaram a escassear, e Juliano mandou distribuir aos soldados as rações reservadas aos oficiais, contentando-se ele próprio com uma papa de farinha, à maneira dos antigos romanos. Em 26 de junho, na região da cidade de Samarra, o exército prosseguiu em formação quadrada, mas o terreno era acidentado e as linhas se afrouxaram um pouco. Enquanto Juliano se encontrava na vanguarda, informaram-no de que a retaguarda estava sendo atacada. Quando se deslocou em sua direção, a vanguarda foi atacada; Juliano então fez meia-volta, e foi nesse momento que a cavalaria pesada persa investiu contra o centro. Os legionários vacilaram diante da carga; a infantaria ligeira tentou reforçá-los, e Juliano avançou aos gritos para estimular suas tropas, afastando-se de seus guarda-costas. Juliano foi então ferido por uma lança ou um dardo e caiu do cavalo. Foi evacuado por seus guardas, enquanto os soldados à sua volta, desnorteados, foram subjugados. Juliano tentou retornar ao combate, mas não conseguiu e desfaleceu. Muitos oficiais perderam a vida; civis lutaram ao lado dos militares para salvar a própria pele; o prefeito Salúcio escapou por pouco à captura, após seu cavalo ser morto.[51][52]
A batalha, sangrenta de ambos os lados, durou todo o dia e, contra todas as expectativas, os romanos conseguiram restabelecer a situação. Ao cair da noite, os persas recuaram. Estendido sobre um leito improvisado, sob uma tenda, Juliano foi informado por seu médico Oribásio de que o ferimento era mortal. Ele se recusou a designar um sucessor. Após distribuir seus bens pessoais, preferiu passar seus últimos momentos discutindo filosofia com seus íntimos, Prisco de Epiro e Máximo de Éfeso.[53] Libânio afirmou que a ferida fatal de Juliano teria sido causada por uma traição no seio de seu próprio exército: obra de um soldado romano cristão. Como prova, invocou o fato de que nenhum persa teria reclamado a recompensa prometida por Sapor II. Gregório de Nazianzo ecoa essa versão, sem afirmá-la explicitamente. Outros autores cristãos contemporâneos, como Sócrates Escolástico, e sobretudo posteriores, falam em castigo divino. Amiano Marcelino e Eutrópio não mencionam essa hipótese. Magno de Carras, participante da campanha, cujo testemunho escrito infelizmente se perdeu, mas que é citado por um autor posterior, relatou que o autor da ferida simplesmente não é conhecido: "O imperador Juliano, enquanto exortava e disciplinava os soldados, foi ferido sem que se soubesse de onde partira o golpe." A maioria dos historiadores contemporâneos, como Lucien Jerphagnon ou Catherine Wolff, considera provável que tenha sido um cavaleiro persa quem atingiu Juliano, uma vez que este se expusera excessivamente. Essa propensão ao risco, que até então lhe fora favorável, custou-lhe desta vez a vida.[52][54][55]
Consequências e posteridade
O tratado de paz


Com a morte de Juliano, os oficiais proclamaram imperador Joviano, até então comandante das escolas palatinas, uma tropa de elite. Joviano decidiu negociar a paz a qualquer custo para se retirar em boa ordem e consolidar seu poder sobre o Império. As negociações foram conduzidas por Surena, do lado sassânida, e por Salúcio, do lado romano. Foi concluída uma paz de trinta anos. Sapor II concedeu aos Romanos a retirada sem incidentes e chegou mesmo a fornecer-lhes víveres. O rei dos reis obteve que os Romanos renunciassem a toda influência sobre a Armênia e a Ibéria. Obteve igualmente a anexação de vastos territórios romanos e armênios, bem como de cerca de quinze fortalezas estratégicas. Por fim, a altamente simbólica cidade de Nísibis, onde fora concluído o tratado anterior — vivido pelos Persas como uma humilhação —, essa cidade fortificada que os Persas haviam tentado em vão tomar por três vezes, foi esvaziada de seus habitantes e devolvida aos Persas.[56]
A queda do politeísmo romano
Os politeístas romanos haviam perdido seu campeão. O plano de Juliano — unificar seu império e legitimar suas escolhas político-religiosas por meio de uma grande vitória militar — voltou-se contra ele. Na mentalidade romana, os resultados do campo de batalha eram a expressão da vontade divina: o partido cristão saiu, assim, mais fortalecido do que nunca. O novo imperador, Joviano, era cristão. Embora durante seu reinado muito breve tenha mantido a liberdade de crença, o mesmo não ocorreu com seus sucessores. A perseguição aos politeístas e a seus cultos intensificou-se rapidamente: entre os participantes da campanha, Oribásio foi exilado, e Máximo de Éfeso foi torturado e executado por ordem de Valente (r. 364–378) em 372. Em 380, o cristianismo tornou-se a única religião autorizada, e em 383 a apostasia passou a ser um crime punido com a morte.[57]
O triunfo sassânida
Sapor II passou a controlar a Armênia e a Ibéria. Já em 363, substituiu o rei ibero Sauromaces II (r. 361–363), cristão, por seu tio Aspacures II (r. 363–365), zoroastrista. Em 367, mandou aprisionar o rei armênio Ársaces II no Castelo do Esquecimento, para substituí-lo por um soberano fiel aos sassânidas. Em ambos os reinos, o zoroastrismo foi restaurado, embora os cristãos tenham permanecido numerosos.[58]. Graças a esse sucesso, Sapor II impôs a supremacia sassânida sobre todo o Oriente Médio e consolidou seu poder pessoal no plano interno. As pretensões ao trono de seu irmão Hormisda foram definitivamente afastadas. As grandes famílias e o clero, que haviam derrubado seu pai e cujo poder frequentemente ameaçava o soberano, alinharam-se firmemente a seu lado.[59]
Essa guerra assumiu um caráter particular. Para os Sassânidas, mais do que um feito militar contra um inimigo que se revelara especialmente perigoso, tratou-se de uma vitória do Bem sobre o Mal. Ao pôr fim ao caos e restaurar a ordem, Sapor II demonstrou ser digno de Aúra-Masda e de Mitra. A campanha de Juliano devastara a parte mais rica do Império Sassânida, e o xainxá dedicou-se então à sua reconstrução. Reconstruiu as cidades destruídas, mandou erguer novas — entre outras medidas, empregando prisioneiros de guerra romanos —, fundou templos do fogo e deslocou populações para organizar os novos territórios conquistados e assegurar a nova fronteira. Embora muitas guerras tenham ainda ocorrido com os romanos, jamais voltaram a tentar atacar o coração do Império Sassânida e Ctesifonte.[59][60]
Posteridade
Do lado persa, a campanha foi celebrada até o fim da dinastia sassânida, no século VII. Ela não deixou marcas significativas no imaginário muçulmano que lhe sucedeu. No mundo cristão, foi sobretudo a morte de Juliano que marcou a posteridade. Na memória bizantina em particular, e cristã em geral, a morte do apóstata foi considerada expressão da justiça divina ou mesmo um milagre, com Mercúrio, Teodoro e Artêmio, santos mártires militares por excelência, intervindo eles próprios para matá-lo. Conclusão útil e moral da lenda negra de Juliano, segundo seu biógrafo contemporâneo Lucien Jerphagnon.[61]
Referências
- ↑ Daryaee 2014, p. 6–10.
- ↑ Decker 2022, p. 52.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 339–342.
- ↑ a b c Jerphagnon 2018, p. 339–342.
- ↑ Decker 2022, p. 9.
- ↑ Daryaee 2014, p. 15.
- ↑ Daryaee 2014, p. 16–17.
- ↑ Daryaee 2014, p. 25–30.
- ↑ Wolff 2010, p. 11.
- ↑ Daryaee 2014, p. 41.
- ↑ Decker 2022, p. 77–78.
- ↑ Daryaee 2014, p. 42.
- ↑ Decker 2022, p. 79.
- ↑ Sotinel 2012, p. 82.
- ↑ Sotinel 2012, p. 83.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 268.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 278.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 314.
- ↑ a b Decker 2022, p. 81.
- ↑ Wolff 2010, p. 5-7.
- ↑ Wolff 2010, p. 29-31.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 317.
- ↑ Wolff 2010, p. 25.
- ↑ Wolff 2010, p. 22.
- ↑ Wolff 2010, p. 36.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 318.
- ↑ Wolff 2010, p. 37.
- ↑ Wolff 2010, p. 42.
- ↑ Wolff 2010, p. 41.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 319.
- ↑ Decker 2022, p. 81-82.
- ↑ a b Wolff 2010, p. 46.
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- ↑ Wolff 2010, p. 47.
- ↑ Wolff 2010, p. 49.
- ↑ Wolff 2010, p. 50.
- ↑ Wolff 2010, p. 52.
- ↑ a b Wolff 2010, p. 56.
- ↑ Wolff 2010, p. 55.
- ↑ Wolff 2010, p. 59.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 322.
- ↑ a b Wolff 2010, p. 65.
- ↑ Farrokh 2023, p. 172.
- ↑ Daryaee 2014, p. 56.
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- ↑ Wolff 2010, p. 70.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 327.
- ↑ Farrokh 2023, p. 136-137.
- ↑ Wolff 2010, p. 75-76.
- ↑ a b Blétry 2014–2015, p. 314-316.
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- ↑ Wolff 2010, p. 78.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 331.
- ↑ Wolff 2010, p. 82.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 337.
- ↑ Daryaee 2014, p. 57.
- ↑ a b Decker 2022, p. 86.
- ↑ Hollard 2013.
- ↑ Jerphagnon 2018, p. 343.
Bibliografia
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- Decker, Michael J. (2022). The Sasanian Empire at War: Persia, Rome, and the Rise of Islam, 224-651. Yardley: Westholme Publishing. ISBN 9781594163692
- Farrokh, Kaveh (2023). The Armies of Ancient Persia: The Sassanians. Barnsley: Pen & Sword Military. ISBN 9781399024815
- Hollard, Dominique (2013). «Julien et Mithrā sur le relief de Tāq-e-Bostān». Abstracta Iranica. 32-33: 147-158
- Jerphagnon, Lucien (2018). Julien dit l'Apostat : Histoire naturelle d'une famille sous le Bas-Empire. Paris: Tallandier. ISBN 9791021046122
- Daryaee, Touraj (2014). Sasanian Persia: The Rise and Fall of an Empire. [S.l.]: I.B.Tauris. ISBN 9780857716668
- Wolff, Catherine (2010). La Campagne de Julien en Perse, 363 apr. J.-C. Paris: Lemme Edit. ISBN 978-2-917575-12-3
- Sotinel, Claire (2012). «Julien, dit l'Apostat». L'Histoire. 379: 82-87
