Campanha de Jafanapatão (1591)

Campanha de Jafanapatão (1591)

O soldado Simão Pinhão salva o rei Ethirimana Cinkam
Data1591
LocalJafanapatão, Sri Lanka
DesfechoVitória Portuguesa
Beligerantes
Império Português Reino de Jafanapatão
Comandantes
André Furtado de Mendonça Puviraja Pandaram Executado
Forças
1400 soldados portugueses[1]
3000 lascarins[1]
12,000 homens.[2]
Baixas
Baixas >880[1]

A Campanha de Jafanapatão em 1591 foi uma operação militar levada a cabo no Sri Lanka, em que os portugueses conquistaram o reino de Jafanapatão e colocaram no trono o rei Ethirimana Cinkam.

Contexto

Jafanapatão era um reino Hindu situado no norte da ilha do Ceilão, hoje Sri Lanka. A morte do rei Sankili em 1561 deu azo a um período de guerra civil e disputa pelo trono mas em 1582 o segundo filho de Sankili, Puvirasa Pandaram, logrou tomar o poder.[3] O rajá de Jafanapatão intitulava-se "rei dos reis" pela sua arrogância e confiança.[4] Aliou-se ao rei de Cândia e perseguiu os seus súbditos que se tinham convertido ao catolicismo e planeou um ataque à fortaleza portuguesa de Manar.[5][6] Para isto pediu auxílio ao célebre Cunhale Mercar, almirante do Samorim de Calecute, que enviou uma frota comandada pelo seu sobrinho Cutimuza.[6]

O capitão de Manar era Nuno Fernandes de Ataíde, que avisou Goa dos preparativos do rei de Jafanapatão e, apesar de ter oitenta anos, ou quase, era enérgico, de grânde ânimo e dispunha de 500 soldados.[1] A 3 de Setembro de 1591, Puvirasa Pandaram atacou o forte à cabeça das suas tropas mas, apesar de ter guerreiros armados com espadas de duas mãos e mosquetes, foi rechaçado.[1] O rei não se deixou desanimar, pois aguardava a chegada da frota de Cunhale Mercar.[1] Seguiu-se um ataque nocturno mas este teve o mesmo resultado que o anterior.[1] O rei descarregou as culpas do falhanço nos paravas e outros povos que habitavam a região mas que se recusavam a prestar-lhe obediência.[1] Depois de lhes dispersar o gado, retirou-se mas ainda perdeu 22 navios na Ponta de Madre de Deus, capturados por Nicolau Rodrigues que dispunha apenas de uma fusta.[1][7]

Por então já tinham chegado a Goa ordens para conquistar a ilha do Ceilão.[8] Quando o vice-rei Matias de Albuquerque recebeu de Nuno Fernandes de Ataíde notícias acerca das perseguições do rei de Jafanapatão, do ataque a Manar e de que a frota de Cunhale Mercar se encontrava em actividade e também que o rei Rajasinha de Ceitavaca se preparava para atacar Colombo, decidiu enviar para o Ceilão uma expedição de vinte navios de remos, composta provavelmente por uma ou duas galés e o resto galeotas ou fustas, comandada por André Furtado de Mendonça.[1][5] Levava ordens para destruir a armada do Cunhale e depor o rei de Jafanapatão devido à ameaça que representava para a fortaleza de Manar.[1][5][9]

A campanha

A frota de André Furtado de Mendonça encontrou ventos contrários na Costa de Malabar.[1] Ao largo de Calecute, André Furtado de Mendonça afundou duas "naus de Meca" grandes navios mercantes que faziam a ligação entre a Índia e o Médio Oriente pelo Mar Vermelho, e capturou outra.[5]

Ao chegar a Colombo, André Furtado de Mendonça negociou uma reconciliação com o rei Rajasinha de Ceitavaca, que lhe forneceu um contingente lascarins.[1] Na cidade, André Furtado recebeu notícia de que a frota do Cunhale se encontrava no rio de Cardiva, comandada por Cutimuza.[1] Dispunha de uma frota de 14 a 22 navios de remo, entre galeotas e fustas, com os quais atacava a navegação portuguesa na Costa do Malabar e planeava um ataque às fortalezas de Colombo e de Manar.[5] Na foz do rio de Cardiva André Furtado combateu contra a frota inimiga e derrotou-a mas Cutimuza fugiu a nado.[1] Ao desembarcarem depois em Manar, as tropas de André Furtado de Mendonça foram recebidas em triunfo por 500 soldados e 6000 paravas e cáreas, tendo chegado mais 350 soldados três dias mais tarde.[1] A 26 de Outubro de 1591, os portugueses partiram de Manar com 1400 soldados e 3000 lascarins em 243 embarcações pequenas.[1]

André Furtado de Mendonça.

Os guerreiros tâmules de Jafanapatão encontravam-se à espera dos portugueses junto à boca do estreito de Jafanapatão, a que os portugueses davam o nome de Rio da Cruz.[1] A 27 de Outubro 150 soldados e 200 lascarins desembarcaram em Colombothurai sob a protecção do fogo português e capturaram uma bateria de artilharia inimiga.[1] O exército luso-cingalês avançou então por terra ao longo da costa, capturaram grande número de fardos de arroz e acamparam para passar a noite.[1]

A 28 os portugueses prosseguiram a marcha, fortalecidos por Frei Francisco do Oriente, que levantara uma cruz e assegurara os soldados de que a Virgem Maria aparecera a dois deles no dia anterior e prometera-lhes a vitória.[1] Os lascarins avançavam na dianteira sob uma bandeira verde com um elefante, comandados por Wikramasinha e em Chunguinaynar entraram em combate com os tâmules, comandados por um príncipe a quem os portugueses chamavam de Príncipe Gago.[1] Os tâmules dispararam grande número de arcabuzes e lançaram grande número de flechas mas os lascarins e os portugueses não vacilaram, o Príncipe Gago tombou em combate e os guerreiros tâmules foram derrotados.[1] Por volta das 10 da manhã os portugueses aproximaram-se da cidade de Nallur, a capital do reino, que se encontrava bem fortificada e guarnecida. Os portugueses atacaram as defesas da cidade e obrigaram os defensores a recuarem para o casario mas o rei Puviraja Pandaram mandou o seu general contra-atacar, enquanto ele preparava-se para fugir.[5] O general procurou reorganizar as suas tropas e entre dois templos os portugueses foram confrontados pelos adargueiros e piqueiros da guarda real, que juraram derrotar os portugueses ou morrer.[1] Combateram com notável valor mas foram totalmente massacrados.[1] Num dos templos os portugueses encontraram o príncipe Erithmana Cinkam ferido e tombado mas o soldado Simão Pinhão protegeu-o de uma multidão que pretendia matar o príncipe para o espoliar das suas jóias.[1]

Ao receber a notícia da captura do príncipe, André Furtado de Mendonça apressou-se ao local.[1] Simão Pinhão entregou-o ao capitão português e o príncipe implorou por piedade prostrado aos pés do capitão português.[5] André Furtado entregou-lhe o seu colar, a sua capa, um chapéu com uma magnífica pluma e uma espada guarnecida de prata.[1] Depois partiu em perseguição do rei Puviraja Pandaram.[1]

Os portugueses causaram pesadas baixas aos seus inimigos ao avançarem e noutro templo capturaram o rei, que foi executado e a sua cabeça exposta durante alguns dias numa lança.[5]

Rescaldo

O antigo palácio real em Nallur.

No palácio real de Nallur os portugueses capturaram um saque enorme.[1] Entre os prisioneiros de guerra contava-se grande parte da realeza do reino incluíndo a rainha-mãe, outra rainha com os seus cinco filhos e duas filhas, a mulher do Príncipe Gago e os seus dois filhos e sete príncipes, entre outros.[1]

Celebrada a vitória pelos portugueses com acções de graças, André Furtado de Mendonça emitiu uma proclamação em nome do rei de Portugal em que permitia que os civis voltassem às suas casas e ofícios, ao passo que os modeliares (comandantes) foram convocados a aparecer diante de si para um novo juramento de lealdade.[1]

Reunidos em conselho, os portugueses decidiram não anexar o reino dada a devoção dos seus habitantes pela família real e instauraram o príncipe Erithmana Cinkam como rei de Jafanapatão mediante termos razoáveis.[5][1] 880 mercenários badagas e muçulmanos capturados foram executados e todos os navios no porto destruído menos dois para serviço do rei.[1] Uma guarnição de 100 soldados portugueses e 200 lascarins comandados por Tristão Golayo de Castelo Branco foi deixada para trás para zelar pela segurança do rei.[1] Um certo número de navios foram destacados para Colombo para reforçar a praça contra um possível ataque de Rajasinha.[10]

O reino de Jafanapatão.

O rei Erithmana Cinkam concedeu liberdade aos franciscanos para construir igrejas no seu reino e levar a cabo a missionação entre os seus súbditos. Começaram por construir uma modesta hermida no local de desembarque de André Furtado de Mendonça e ali se mantiveram até o rei lhes der oferecido uma casa que pertencera a um dos seus cortesão.[3] Foi consagrada em nome de Nossa Senhora da Vitória e serviu de sede aos franciscanos em Jafanapatão até Frei Pedro de Betancor, que fundara várias igrejas em Mantota e nos distritos dos Wanni, ter decidido construir uma casa maior perto do bairro de mercadores portugueses.[3]

Após a sua instauração, os chefes, nobres e modeliares do reino conspiraram com o rei de Cândia Wimaladharmasuriya e com o naique de Tanjor, no continente indiano, para depor o rei e colocar no trono um principe que se encontrava em Ramancor ou Rameswaran.[11] Ao ter conhecimento disto, o rei de Jafanapatão pediu ajuda ao capitão da fortaleza de Manar, que enviou Manuel de Ataíde com um destacamento de tropas para combater a insurreição.[11] A 26 de Outubro Manuel de Ataíde atacou um exército de mercenários muçulmanos, badagas e maravas enviados pelo naique de Tanjore que havia desembarcado em Jafanapatão e derrotou-os em Talaimannar.[11] Após este incidente, o rei de Jafanapatão reinou em paz até à sua morte em 1617.[11]

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai Pieris, Paul E.: Ceylon: The Portuguese Era, Being the History of the Island for the Period 1505–1658, Volume I, The Ceylon Historical Journal Monograph Series Volume Six, Tisara Prakasakaya Publishers Ltd., 1992, pp. 258-263.
  2. Monteiro, 1993, p. 264.
  3. a b c Jonh H. Martyn: Martyn's Notes on Jaffna, Chronological, Historical, Biographical, 2003, Asian Educational Sevices, p. 138.
  4. «André Furtado de Mendonça - Portugal, Dicionário Histórico». www.arqnet.pt. Consultado em 10 de outubro de 2025 
  5. a b c d e f g h i Frederick Charles Danvers: The Portuguese in India, volume 2, 1894, pp. 85-86.
  6. a b Saturnino Monteiro: Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, volume IV, Livraria Sá da Costa Editora, 1993, p. 261.
  7. Monteiro, 1993, p. 263.
  8. «Ceilão | Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa». eve.fcsh.unl.pt. Consultado em 10 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 8 de fevereiro de 2025 
  9. Monteiro, 1993, p. 259.
  10. Monteiro, 1993, p. 264.
  11. a b c d V. Vriddhagirisan: The Nayaks of Tanjore, Asian Educational Services, 1995, p. 79.