Batalha de Suvali
| Batalha de Suvali | |||
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| Guerra Luso-Holandesa | |||
![]() Gravura de c.1739, da série England's Glory, retratando a batalha naval de Suvali, opondo forças da Marinha portuguesa e da Companhia Britânica das Índias Orientais, publicado por William Rayner (1699–1761) | |||
| Data | 29 a 30 de novembro de 1612 (413 anos) | ||
| Local | Suvali, Surrate, Guzerate, Império Mogol | ||
| Casus belli | União Ibérica | ||
| Desfecho | Vitória decisiva inglesa | ||
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A Batalha de Suvali (ou Batalha Naval de Suvali) foi uma batalha que ocorreu nos dias 29 e 30 de novembro de 1612, ao largo da costa e vila de Suvali (anglicizado posteriormente para Swally), vila próxima à cidade de Surrate, no atual estado indiano de Guzerate.
Antecedentes
Com a União Ibérica, em 1580, e a união de ambas as coroas sob a dinastia filipina, Portugal encontrava-se agora em guerra com os inimigos da coroa de Espanha. Com a eclosão da Guerra Luso-Holandesa, em 1595, e com a criação da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1602, as Províncias Unidas, nova nação no panorama europeu, possuíam agora o objectivo de se estabelecer definitivamente no comércio das especiarias nas Índias Orientais. No ano de 1603, é capturada a nau portuguesa Santa Catarina, ao largo da costa da Singapura, pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. Dois anos depois, nas ilhas Molucas, é capturado agora o forte português de Ambão.[1][2][3][4]
Com a contestação aberta da política de Mare Clausum pelas Províncias Unidas, de mesma forma o Reino de Inglaterra se empenha em destabilizar e tomar para si o comércio lucrativo das especiarias das Índias Orientais. Apesar de, oficialmente, Inglaterra estar em paz com a monarquia hispânica, e do rei inglês Jaime I, pretender a todo o custo evitar uma guerra aberta e uma hostilização de Portugal, após a trégua e a subsequente paz na guerra anglo-espanhola, entre 1604 e 1624, o governo em Londres permite a guerra de corso na Ásia, às possessões e embarcações portuguesas, pela Companhia Britânica das Índias Orientais e por particulares, sobretudo quando combinado com lucros comerciais.[5][6][7][8][9][10][11]
O primeiro encontro entre navios da Companhia das Índias Orientais Britânica e os navios das Armadas da Índia deu-se em outubro de 1611, de acordo com Sir James Lancaster. Os navios da Companhia, comandados por Sir Henry Middleton, chegaram à barra de Surrate a 26 de setembro de 1611, no entanto, eram fortemente vigiados e impedidos de contactar com o porto local, por uma armada portuguesa que já lá se encontrava. De acordo com o mesmo, nenhum provisionamento, cartas, ou outro mantimento deveria chegar de Surrate, às mãos dos ingleses, interrompendo assim o monopólio do negócio português. Sir Henry Middleton, comandante da frota, deu instruções claras para não se atacar, nem hostilizar de qualquer forma os portugueses, a menos que atacados primeiramente. Com isto, a frota portuguesa, apesar de não atacar, mantinha uma posição de força e pressão à frota da Companhia. Com isto, Middleton, escreve uma carta ao capitão-mor da armada portuguesa, de modo a impedir qualquer tipo de ataque de ambos os lados, e dando as suas razões para se encontrar em tais águas. No entanto, nenhuma resposta foi dada do lado português. Posteriormente, ofereceu-se o capitão-mor para acompanhar Middleton a Goa para saber da vontade do Vice-Rei Rui Lourenço de Távora; caso contrário não poderia permitir que nenhum negócio fosse realizado. Com tal recusa, o lado inglês tenta à força fazer o comércio com os Mogóis, no entanto, os navios despachados para tal efeito são capturados pela frota portuguesa, onde o capitão-mor, alegadamente em tom jocoso, envia uma carta a Middleton, a agradecer os mantimentos. A 12 de outubro de 1611, depois do navio da Companhia Darling, que intentava uma passagem da barra para furar o bloqueio português e assim desembarcar as tropas abre fogo sobre a frota portuguesa, resultando num navio português danificado. Com isto, as relações de paz entre a Armada e a Companhia Britânica das Índias Orientais, rompem-se em definitivo.[12]

Frota Inglesa
A décima viagem da Companhia Britânica das Índias Orientais era capitaneada por Thomas Best. Partiu de Gravesend, a 1 de fevereiro de 1612, e a sua armada era composta por quatro embarcações: Red Dragon, Osiander (um pequeno patacho de 213 toneladas,[13] capitaneado por Thomas Aldworth[14]), James e Solomon. Destes quatro, o navio-capitânia, o Red Dragon tinha de arqueação bruta de 600[15] a 900[16] toneladas, e trinta e oito bocas de fogo, entre estes dois basiliscos, dezasseis colubrinas, doze canhões e oito falcões. A própria Rainha Isabel I de Inglaterra, aquando o seu lançamento, o baptizou de Flagelo da Maldade (em inglês: Scourge of Malice). Era, à data do seu lançamento, o maior navio alguma vez construído na Inglaterra.[17][18][19][nota 1]
Alcançando Damão a 3 de setembro de 1612, a frota inglesa chega dois dias depois a Surrate, porto principal do Império Mogol, situada na foz do rio Tapti. Rapidamente, os ingleses da Companhia pretendiam estabelecer agora, definitivamente, tratados comerciais com o Império Mogol, e estabelecerem na região uma feitoria inglesa. Com a chegada de Thomas Best à região de Surrate, e as suas negociações com o governador de Amedabade levaram o vice-rei português, Rui Lourenço de Távora, a 13 de setembro, a enviar quatro galeões fortemente armados, juntamente com pequenas fragata e patachos de apoio, comandados por Nuno da Cunha, para Surrate.[12][20]
Frota Portuguesa
A frota portuguesa, comandada pelo capitão-mor Nuno da Cunha, era composta por quatro galeões, de 800 toneladas cada, de alto-bordo, com cerca de vinte a vinte e seis patachos e pequenas fragatas de apoio aos galeões. De acordo com as fontes inglesas do combate, estiveram presentes na batalha, vinte e cinco embarcações portuguesas no total. Os galeões, aparte da nau-capitânia de Nuno da Cunha, eram comandados por Francisco de Miranda Henriques, Gaspar de Melo de Sampaio e Manuel de Andrade Beringel. Fora estes, estavam também nos galeões portugueses outros nobres.[12][21]
Apesar de aparentemente bem preparada, a frota portuguesa apenas estaria preparada para um conflito com fações e nações locais do Índico, desajustada para conflito com nações europeias que possuíssem navios de alto-bordo e grande poder de fogo. O navio de Nuno da Cunha, possuía vinte e oito peças de fogo; outro dos galeões teria dezoito e os outros dois tinham ambos menos peças de fogo. Fora isto, muitos dos navios tinham um número insuficiente de marinheiros e artilheiros portugueses, sendo muitos dos seus efetivos substituídos por lascarins, nativos locais, a serviço da Coroa, com conhecimento limitado do manuseamento das peças, baixa moral, e com insubordinações comuns ao comando.[21]
Batalha
A 25 de novembro, a frota inglesa recebe a notícia, por intermédio de dois ingleses capturados pelos portugueses, Edward Christian e Canninge, que estariam a deslocar-se para os interceptar e neutralizar, uma armada de galeões portugueses.[12] Dia 27, é avistado o contingente português pelas forças inglesas, estabelecidas na baía de Suvali. Vendo a força portuguesa, dois navios ingleses, o Red Dragon e o Osiander, saem à barra, com medo de serem abalroados ou abordados pelas forças portuguesas. O primeiro embate dá-se pelas quatro horas da tarde de dia 29 de novembro, tendo esse combate durado até ao anoitecer. Apesar de superiores em número, as forças portuguesas, mal provisionadas e com sérias limitações de manobralidade numa baía de tão baixa profundida, demonstrou-se um sério obstáculo às tentativas ofensivas da armada de Nuno da Cunha. De mesmo modo, o patacho Osiander, com calado muito menor e com maior manobralidade, consegue governar com facilidade dentro da baía, colocando-se fora do alcance das peças de artilharia portuguesas. Na caça a este, acabam dois galeões portugueses por embaterem em baixios, imobilizando-os e tornando-os virtualmente fora do combate. O navio Red Dragon, com poder de fogo superior aos galeões portugueses, acaba por abrir fogo de ambos os bordos aos navios portugueses, gerando a confusão entre a frota portuguesa e provocando um número elevado de baixas.[21]
No dia seguinte, após uma paragem pela noite, a batalha prossegue. O galeão português, comandado por Gaspar de Melo tenta, com o gurupés, fixar e abalroar o pequeno patacho inglês Osiander, de modo a abordá-lo e tomá-lo. No entanto, com a baixa profundidade do local, acaba o mesmo galeão por embater em baixios, e ficar completamente imobilizado, tendo o patacho, de menor calado, escapado e feito fogo contra o galeão. Com a imobilização de dois dos seus galeões, Nuno da Cunha decide retirar da baía, dando espaço de manobra aos navios ingleses. O ataque prossegue, onde a manobralidade dos navios ingleses se demonstra superior aos galeões portugueses, onde a sua grande esperança residia no abalroamento dos navios inimigos. Com o fogo inglês, o navio de Nuno da Cunha acaba por se incendiar na coberta. Como tal, os outros navios da frota, temendo uma explosão do paiol, tentam acudir a este com a maior brevidade possível. Este incêndio, além de um encorajar e subir a moral dos ingleses, acabou por ser um golpe na moral do lado português.[21]
Consequências
Apesar das baixas de ambos os lados serem relativamente reduzidas, e nenhuma das embarcações de qualquer lado ter sido definitivamente neutralizada, a Batalha de Suvali representou principalmente uma derrota moral, permitindo o estabelecimento dos ingleses com uma feitoria na baía de Suavli, marcando o princípio do fim da hegemonia portuguesa no Índico, absolutamente incontestada desde a Batalha Naval de Diu a meados da década de quarenta do século XVI, e até então apenas contestada pelos otomanos, e do monopólio das especiarias na região. Como tal, os portugueses passaram a ser alvo de vários ataques de pirataria e invasão das suas posições e feitorias, desde ingleses, holandeses e até franceses.[2][3][6][7]
Com o ataque por europeus às possessões portuguesas na Ásia, a má gestão da coroa portuguesa na União Ibérica e subsequentes trocas de funcionários por aspetos políticos alinhados a Espanha, a defesa portuguesa das suas possessões na Ásia decresce, primeiro gradual, e depois exponencialmente. De mesmo modo, as nações locais revoltaram-se e/ou atacaram várias posições e delegações portuguesas na região, gerando um decréscimo da receita do comércio da região e um aumento com o gasto na defesa da região, situações que iriam ser ainda mais extrapoladas com a segunda guerra anglo-espanhola, que serviriam, entre outros, como motes para a futura Restauração da Independência.[6][8][7] Esta batalha também convenceu a Companhia Britânica das Índias Orientais a estabelecer uma pequena marinha para salvaguardar seus interesses comerciais de outras potências europeias e também de piratas. Este pequeno início é considerado a raiz da moderna Marinha Indiana.[22]
Em 6 de janeiro de 1613, o Capitão Best recebeu uma carta do Imperador ratificando o tratado, que foi apresentada pelo Governador. O Capitão Best então ordenou que um de seus homens, Anthony Starkey, partisse em 16 de janeiro para a Inglaterra, por terra, carregando cartas sobre seu sucesso. Starkey posteriormente morreu; alegou-se pelos ingleses que ele foi envenenado por dois padres jesuítas.[22]
O Capitão Best então continuou para Ceilão em 18 de janeiro, e depois para Sumatra, antes de retornar à Inglaterra por volta de abril de 1614 sem retornar à Índia.[22]
Impacto sobre os Mogóis
Este evento impressionou suficientemente o Subedar (Governador) do Guzerate, que o relatou ao Imperador Jahangir. A partir de então, o Imperador foi mais favorável aos ingleses do que aos portugueses.[22]
Feitoria inglesa
Swally é a anglicização de Suvali. O porto de Suvali fica perto da vila moderna de Suvali, localizada em Surrate, Índia. O porto foi construído pelos ingleses, pois consideravam que era protegido tanto de tempestades súbitas quanto de ataques militares. Além disso, os ingleses acharam conveniente usar o lugar para seu comércio inicial com Surat, pois Suvali era navegável na maré baixa. Havia várias complicações em usar os portos em Surat, pois os franceses e os portugueses também operavam de lá.[23]
R. Sengupta, o Coordenador Chefe do Projeto (ecologia costeira e marinha) do GES, aconselhou que: "O porto também era melhor do que aqueles localizados na foz do rio Tapti. Os ingleses não permitiam que ninguém usasse o porto em Swally e costumavam cobrar uma taxa pela permissão para fazê-lo."[23]
Ver também
- Batalha de Colachel
- Batalha de Diu
Notas
- ↑ Visto os termos para bocas de fogo não serem normalizadas na altura, são utilizados os termos mais aproximados possíveis, para designar duas peças de fogo de grande porte e alcance, dezasseis de porte médio-grande, doze médio e oito de porte médio-curto.
Referências
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- ↑ a b The Times of India – Hunt on to locate port of British entry
Leitura adicional
- Foster, William. The Voyage of Thomas Best to East Indies (1612–14), New Delhi:Munshiram Manoharlal Publishers Pvt. Ltd., 1997
Ligações externas
- Mapa van Linschoten – descreve o antigo Ponto de Reabastecimento Português de Santa Helena no Atlântico sul: Em latim, Insula D. Helena sacra coeli..........Baptista a Doetichum sculp
- Livro de Robert Kerr no Project Gutenberg
- Kerr, Robert (1824). A General History and Collection of Voyages and Travels, Arranged in Systematic Order. Edimburgo: William Blackwood( O link é para o volume 9.)
- Roe, Thomas; Foster, William (1899). The Embassy of Sir Thomas Roe to the Court of the Great Mogul, 1615–1619: As Narrated in His Journal and Correspondence. Londres: Hakluyt Society
