André Gunder Frank

André Gunder Frank
Nascimento
Morte
23 de abril de 2005 (76 anos)

OcupaçãoEconomista e sociólogo

André Gunder Frank (nascido Andreas Frank;[1] Berlim, 24 de fevereiro de 1929Luxemburgo, 23 de abril de 2005) foi um economista e sociólogo teuto-estadunidense, considerado um dos fundadores da Teoria da Dependência, ao lado de figuras como Theotônio dos Santos, Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra, que se opôs às formulações tanto da CEPAL como dos partidos comunistas na década de 1960.

Assim como Samir Amin e Giovanni Arrighi, foi também um dos expoentes da Teoria do Sistema-Mundo, inaugurada por Immanuel Wallerstein, nos anos 1970. Frank, no entanto, manteve sérias discordâncias com esses autores, sobretudo pela sua recusa da noção de que a gênese do sistema-mundo moderno ocorreu ano de 1492, 1498, 1454, 1337 ou qualquer data próxima:[2][3][4][5][6][7]

"Frank recua a origem do sistema mundial contemporâneo para cinco mil anos atrás, recusando as interpretações que espalharam a visão da historiografia eurocêntrica, particularmente a obra braudeliana, acerca da economia-mundo de ascendência ocidental, em construção desde o século XVI. Para Gunder Frank, a Europa e o Ocidente já foram periferia de um mundo em que a ascendência coube a outras civilizações, capazes de melhor fazer comércio e acumular o capital."

— Amado Luiz Cervo, 2005[8]

Frank foi considerado um dos precursores do debate marxista da Dependência, apesar de nunca ter se declarado marxista. Além de ser considerado o principal responsável pelo abandono da noção de que a América Latina é subdesenvolvida por ter "restos" de feudalismo, o autor é considerado um dos principais críticos do capitalismo dependente.[6]

Trajetória pessoal

Nascido em Berlim, educou-se nos EUA, onde, em 1957, recebeu o título de PhD em Economia. Lecionou Economia, História e outros cursos dentro da área das ciências sociais nos EUA, Canadá, Bélgica, Alemanha, México, Chile e Inglaterra.

Foi professor de Estudos de Desenvolvimento na Universidade da Ânglia Oriental (Norwich, Inglaterra).

Lecionou na Universidade de Brasília (UnB), a convite de Darcy Ribeiro, pouco antes do golpe militar de 1964.

Ideias

Quinhentos anos ou cinco mil?

O sistema mundial de Janet Abu-Lughod teve grande impacto nas Análises do Sistema-Mundo. A autora defendia que o sistema de 1250 a 1350 colapsou para ressurgir nos moldes do que Wallerstein havia postulado.

Após ser convidado a prefaciar o livro Before the European Hegemony (1989) da socióloga sistema-mundista Janet Abu-Lughod, o autor radicalizou o seu ceticismo quanto à centralidade da Europa na gênese do sistema-mundo.[9]

Anos depois [de escrever Acumulação Mundial: 1492—1798] me foi pedido fazer um comentário a um livro de Janet Abu-Lughod sobre o século XIII, em que ela diz que havia um sistema mundial nesse século. Se houve um sistema mundial, que eu disse que havia começado em 1492 — e Wallerstein também, com seu 1450 —, se houve no século treze… então por que não antes também?

— (tradução livre)

A partir daí, Frank passou a considerar arbitrária a maior parte dos recortes temporais que fez em trabalhos passados, admitindo que selecionar uma data arbitrária e estudar o que a sucedeu resulta em terminar em outra data arbitrária.[9]

Para o autor, era preferível selecionar uma data arbitrária e estudar regressivamente o que a antecedeu, porque isso permitiria clarificar o entendimento das causas de um fenômeno quantas vezes fosse necessário, até o ponto em que a História e a Arqueologia permitissem. Segundo o autor, essa era uma recomendação do economista político Karl Marx, do historiador Marc Bloch e do sinólogo John Fairbank. O autor, inclusive, chamaria isso de segunda tese de Fairbank.[9]

Passando a olhar para ainda aquém do sistema mundial do século XIII de Abu-Lughod, Frank concluiria que o tipo de conexões e relações sistêmicas que os teóricos do Sistema-Mundo identificavam como tendo surgido ao redor de 1500, 1450 ou 1350, na verdade, teriam existido há seculos atrás na Afro-Eurásia.[9]

Junto do economista Barry Gills, Frank teria identificado uma teia de conexões entre as civilizações antigas do Velho Mundo que apresentaria relações centro—periferia, longos e curtos ciclos de ascensão e declínio, alternâncias entre hegemonia e rivalidade, e, principalmente, uma incessante acumulação de capital. A dupla defendia a existência de um sistema afro-eurasiático de pelo menos cinco mil anos de existência.[9]

Segundo os dois autores, a sua origem estaria no encontro e na sucessiva fusão entre dois sistemas-mundo na região da Mesopotâmia, um centrado no vale do Nilo, outro, no vale do Indo. Esse encontro seria uma consequência do desenvolvimento das duas "civilizações" agrícolas, que, em dado momento, teriam passado a se expandir para além de seus domínios corriqueiros em busca de recursos naturais em falta. Desde a mescla, todos os sistemas-mundo afro-eurasiáticos que surgissem seriam incorporados, cedo ou tarde, a esse sistema.[9]

A dupla dedica especial atenção para a noção de que é mais apropriado falar de fusões de sistemas-mundo do que de incorporações, porque, no correr do processo, os sistemas envolvidos passariam a apresentam características uns dos outros e, ao fim, torna-se difícil apontar qualquer predominância.[9]

Todos esses fatores contribuíram para que Frank passasse a preferir sistema mundial no lugar de sistema-mundo, pois se o conceito trata de sistemas que são "um mundo em si" e eles, na verdade, sempre foram um único sistema de abrangência aproximadamente global, o seu valor analítico seria mínimo para a maior parte da história da civilização. Junto de Gills, o autor postula que os últimos sistemas-mundo, teriam sido enfim atingidos pelo sistema afro-eurasiático com as Grandes Navegações.[9]

No correr da formação do sistema mundial, o desenvolvimento e o declínio das civilizações não poderiam ser efetivamente compreendidos sem que se analisasse as suas relações com outras civilizações e com o sistema como um todo.[9]

Por tudo isso, Frank descartaria, ainda, o próprio conceito de civilização, sustentando que tratar o conceito com seriedade implicaria em dizer que há e houve desde sempre uma única civilização. O mesmo para o de sociedade.[9]

Para o autor, o predomínio da Europa sobre o sistema mundial teve um início muito tardio, ao redor da Segunda Revolução Industrial, e uma imensa instabilidade, começando a ruir já durante a financeirização dos Estados Unidos.[9]

Segundo Frank, durante a maior parte da história, a Europa Ocidental ocupou uma posição periférica. As Grandes Navegações teriam sido a tentativa desesperada do capital europeu de se associar a um dinâmico e opulento ciclo econômico na Ásia Oriental. A armada imperial chinesa não teria se lançado ao ultramar precisamente porque a China estava em uma posição confortável no sistema mundial, não precisando recorrer a nenhuma grande aposta do tipo.[9]

Amparado em Kenneth Pomeranz, o autor sustenta que essa relativa desconexão da Europa dos verdadeiros movimentos mundiais só teria se alterado durante uma conjuntura muito particular em que a China enfrentava graves problemas socioeconômicos e o Reino Unido combinava o colonialismo, o neocolonialismo e o verdadeiro impulso da Revolução Industrial em um avanço sobre o mundo, que nenhum dos grandes centros do Oriente pôde contrabalancear, pela sua escassez de carvão e outros recursos abundantes no Império Britânico.[9]

Superadas as momentâneas adversidades "orientais" e atingido os limites da expansão "ocidental", o sistema mundial prontamente voltaria a se articular em torno de um centro externo ao oceano Atlântico.[9]

Isso significa algo muito importante: que a predominância ocidental é de menos de um século — não de quinhentos anos, de mil anos, como é a regra dos maus historiadores, que são eurocêntricos, senão que de muito pouco tempo histórico, e que agora vemos que é temporário […]. O século vinte e um é asiático — não é ocidental — e, provavelmente, chinês.

— 46:01—47:59

A noção de que o século XXI será da Ásia Oriental e, provavelmente, chinês é a tese norteadora dos dois principais livros de André Gunder Frank enquanto sistema-mundista: ReOrientar e ReOrienting the Nineteenth Century. A noção de que existe um sistema mundial milenar, por sua vez, é a tese central do livro World System, que organizou com Barry Gills.[9]

Nesse último, a provocação do subtítulo, Five Hundred Years or Five Thousand? não se aplica apenas ao conceito de sistema-mundo, mas ao próprio conceito de capitalismo. Tendo sustentado que a Grande Divergência é muito mais recente do que se supôs, que uma série de estruturas apontadas como próprias do sistema-mundo moderno são milenares, e que uma série de inovações, revoluções e demais excepcionalidades europeias existiam há séculos em diferentes partes do mundo, Frank e Gills levantam a questão sobre se já não é hora de abandonar o conceito de capitalismo por completo, porque defini-lo nos termos do Sistema-Mundo, segundo ele, resultaria em dizer que o capitalismo tem cinco mil anos de existência, esvaziando o conceito.[9]

Obras

  • (1966) The Development of Underdevelopment'
  • (1967) Capitalism and Underdevelopment in Latin America
  • (1969) Latin America: Underdevelopment or Revolution
  • (1971) Lumpemburguesía : Lumpendesarrollo
  • (1973) ¡La dependencia ha muerto!¡Viva la dependencia y la lucha de clases!
  • (1975) On Capitalist Underdevelopment
  • (1976) Economic Genocide in Chile. Equilibrium on the point of a bayonet
  • (1978) World Accumulation, 1492–1789
  • (1978) Dependent Accumulation and Underdevelopment
  • (1979) Mexican Agriculture 1521-1630: Transformation of the Mode of Production
  • (1980) Crisis: In the World Economy
  • (1981) Crisis: In the Third World
  • (1981) Reflections on the World Economic Crisis
  • (1982) Dynamics of Global Crisis
  • (1983) The European Challenge
  • (1984) Critique and Anti-Critique
  • (1996) The World System: Five Hundred Years or Five Thousand? (com Barry K. Gills)
  • (1998) ReOrient: Global Economy in the Asian Age[10]
  • (2013) ReOrienting the 19th Century: Global Economy in the Continuing Asian Age (with Robert A. Denemark)

Algumas obras publicadas em português

  • Lumpen Burguesia - Lumpen Desenvolvimento (1971)
  • Acumulação Dependente e Subdesenvolvimento (1980)
  • Reflexões sobre a Crise Econômica Mundial (1981)
  • Acumulação Mundial: 1492-1789 (1978)
  • ReOrientar: Economia global na era asiática (2025) [1998][10]

Referências

  1. FRANK, André Gunder (1991). El subdesarrollo del desarrollo: un ensayo autobiográfico. Caracas: Editorial Nueva Sociedad. pp. 39–40. También en este mismo instituto [Centro de Investigación en Ciencias Sociales de la UNESCO] en Río [de Janeiro, en 1963] mi nombre pasó a ser André Gunder Frank. Una bibliotecaria de ahí me preguntó si las referencias bibliográficas en que aparecía Andrew y Andrés se referían a la misma persona o no. Entonces decidí evitar en el futuro tal problema quitándole a la última letra o letras a mi nombre de pila, ya que en alemán y todavía en mi pasaporte en nombre es Andreas. Lo de Gunder lo había adquirido en el colegio como un (lento) corredor. Mis compañeros me habían apodado irónicamente en comparación con Gundar Haag, el corredor sueco que obtuvo cinco récords mundiales en mediana y larga distancia. Desgraciadamente, no sabía cómo se escrebía el nombre. 
  2. MCNEILL, William (1992). Preface by William H. McNeill. Nova Iorque, Londres: Routledge. p. X 
  3. FRANK, André Gunder (1992). Preface by André Gunder Frank and Barry K. Gills. Nova Iorque, Londres: Routledge. p. XVII 
  4. FRANK, André Gunder (1992). The 5,000 Year World System: An interdisciplinary introduction. Nova Iorque, Londres: Routledge. p. 3-5 
  5. FRANK, André Gunder; GILLS, Barry K. (1993). World System: Five hundred years or five thousand?. Nova Iorque, Londres: Routledge. p. 3-5 
  6. a b SANTOS, Theotônio dos (2000). A Teoria da Dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 
  7. SOUZA, Teotónio R. de (2004). «Gunder Frank revisitado: um "sistema mundo" francamente único». Revista Lusófona de Ciências Sociais (1). Lisboa e Porto: Edições Universitárias Lusófonas, Campus Social. 
  8. CERVO, Amado Luiz (2005). «"Os excluídos da Arca de Noé"». Revista Brasileira de Política Internacional. 48 (1). Brasília. ISSN 0034-7329 
  9. a b c d e f g h i j k l m n o p FRANK, André Gunder; GILLS, Barry K. (1992). World System: Five hundred years or five thousand?. Nova Iorque, Londres: Routledge 
  10. a b «ReOrientar: Economia global na era asiática — Editora Insular». Setembro de 2025. Consultado em 5 de fevereiro de 2026 

Notas

Ligações externas

Ver também