Andiki

Andiki
Nascimento1937 (89 anos)
Luanda
Morte9 de maio de 2023
Lisboa
CidadaniaAngola
Ocupaçãoescritor, artista plástico, jornalista, engenheiro civil, professor universitário

Henrique Lopes Guerra, mais conhecido pelo seu pseudônimo literário Andiki (Luanda, 25 de julho de 1937 - Lisboa, 9 de maio de 2023), foi um artista plástico, escritor, jornalista, engenheiro, professor universitário e ativista político angolano.

Foi um dos mais importantes nomes da intelectualidade do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), sendo um influente teórico do marxismo,[1] juntamente com Agostinho Neto, Lúcio Lara, Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Saíde Mingas, Adolfo Maria, Rocha Dilolwa,[2] António Jacinto e Iko Carreira.[1] Sua obra teórica mais relevante, intitulada "Angola: Estrutura Económica e Classes Sociais" (publicada em 1979), que aborda o problema do sistema de classes sociais em Angola, juntamente com os estudos da autora alemã Bettina Decke, continua a ser muito importante para os campos da sociologia e da antropologia na África.[3]

Biografia

Henrique Lopes Guerra nasceu em Luanda em 25 de julho de 1937.[4] Iniciou sua actividade literária enquanto estudante do Liceu Salvador Correia incluenciado pelo poema "A Mulemba secou" de Aires de Almeida Santos.[5]

Por influência do movimento "Vamos Descobrir Angola!", fundado pelo Viriato da Cruz, participou de concursos de poesia em Luanda, chegando a ser premiado.[5] A proximidade com esse grupo reforça suas visões sobre o nacionalismo.[5]

Na década de 1950, mudou-se para Lisboa para estudar topografia,[5] matriculando-se, em seguida, no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, onde se formou engenheiro civil.[6] Matricula-se, posteriormente, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.[7]

Em Lisboa, fica alojado na Casa dos Estudantes do Império (CEI), passando a colaborar nos periódicos "Cultura II" e "Mensagem", ambos publicados pela CEI.[4] Associa-se ao movimento literário "Geração Cultura", expandindo sua escrita para os gêneros conto, poesia, teatro e ensaio.[5][6] Publica, destacadamente, as obras "O Círculo de Giz Bombó" e "A Cubata Solitária", ambas em 1962.[8] Seu famoso pseudônimo Andiki surge com as obras citadas.[9]

Seus escritos políticos e a associação aos grupos nacionalistas, particularmente ao MPLA,[6] fazem o regime salazarista o pôr sob vigilância constante.[10] Foi preso pela PIDE em 1964,[5][6] sendo julgado e encarcerado em 18 de junho de 1966 por "actividades contra a segurança do Estado", tendo cumprido pena no Forte de Peniche até 16 de fevereiro de 1971.[11] Enquanto preso, escrevia constantemente.[9] Após solto, ficou sob liberdade vigiada até 1973, buscando concluir seus estudos em belas artes, interrompidos em função da prisão.[5]

Em 1974, retorna para Luanda, onde passa a trabalhar como jornalista do ABC - Diário de Angola.[12] A pedido do MPLA, passa a estudar o sistema de classes sociais em Angola a partir da perspectiva materialista marxista, que geraria o importante trabalho sociológio-antropológico intitulado "Angola: Estrutura Económica e Classes Sociais", com resultados apresentados em 1975 e publicados em 1979.[3]

Torna-se um dos membros fundadores da União dos Escritores Angolanos (UEA) em dezembro de 1975,[6] sendo eleito Secretário das Actividades Culturais.[13] No início de 1976 junta-se aos quadros de jornalistas do Jornal de Angola.[4][10] Em 1977 torna-se membro fundador da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), sendo presidente desta entidade nas suas duas primeiras comissões directivas.[13] Coordenou a Delegação Angolana presente na Conferência Anual da African Literature Association, realizada nos Estados Unidos em 1980.[4]

A partir da década de 1980, torna-se docente da Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto.[4][6] Mesmo na docência e depois aposentado, continuou a escrever, fazendo parte da Comissão de Redacção da gazeta "Lavra & Oficina", órgão da UEA.[4]

Morte

Andiki morreu em 9 de maio de 2023 em Lisboa, Portugal, vítima de doença prolongada.[6][8]

Obras

Suas obras de maior destaque são:

  • Cubata Solitária (publicado em 1962);[13]
  • O Circo de Giz de Bombó (publicado em 1962);[9]
  • Quando Me Acontece Poesia (publicado em 1976);[9]
  • Alguns Poemas (publicado em 1978);[13]
  • Angola: Estrutura Económica e Classes Sociais (publicado em 1979);[3]
  • Três Histórias Populares (publicado em 1989).[9]

Referências

  1. a b Carolina Bezerra Machado (2020). «Representações de poder em Mayombe: "Os homens serão prisioneiros das estruturas que terão criado"». Porto Alegre. Revista Brasileira de Estudos Africanos. 5 (9): 219-237 
  2. Daniel de Oliveira Cunha (2018). Segurança, Desenvolvimento, Dependência e o Sistema Africano de Direitos Humano (PDF). São Paulo: FD-USP 
  3. a b c Franz-Wilhelm Heimer (1983). «Sobre a articulação dos modos de produção em Angola. Uma nota metodológica». Análise Social. XIX (77-78-79): 1091-1100 
  4. a b c d e f «Angola & Literatura - 'Três Histórias Populares', de Henrique Guerra - Luanda 1980 - Raro». Livros Ultramar - Guerra Colonial. 13 de fevereiro de 2025 
  5. a b c d e f g Isaquiel Cori (10 de novembro de 2016). «Escritor Henrique Guerra: "A inveja é um sinal de fraqueza"». Blog Estamos Vivos 
  6. a b c d e f g «Mensagem de condolências do Bureau Político: falecimento do nacionalista Henrique Lopes Guerra». Jornal ÉME. 13 de maio de 2023 
  7. «Henrique Lopes Guerra». Ikuska. Consultado em 22 de janeiro de 2026 
  8. a b Antonia Gonçalo (15 de maio de 2023). «Restos mortais de Henriques Guerra serão sepultados em Luanda». O País 
  9. a b c d e Dorine Cerqueira (2012). «A Justiça salomônica brechtiana no teatro angolano». Anais do IV Congresso Norte-Nordeste da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP). (PDF). Manaus: UEA Edições. p. 176. ISBN 978-85-7883-216-2 
  10. a b «Henrique Guerra». Blog do Antonio Miranda. Julho de 2017 
  11. «Registo Geral de Presos - Peniche» (PDF). URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses. Consultado em 22 de janeiro de 2026 
  12. «Henrique Lopes Guerra - A Cubata Solitária». Blog da Rua Nove. 2 de fevereiro de 2014 
  13. a b c d Pedro Dias (16 de março de 2014). «"Eu sonhava com uma Angola mais solidária" - Escritor Henrique Guerra». VOA Português