Álvaro de Ataíde da Gama
| Álvaro de Ataíde da Gama | |
|---|---|
| Nascimento | 1517 |
| Morte | 1555 Lisboa |
| Cidadania | Reino de Portugal |
| Progenitores |
|
| Irmão(ã)(s) | Estêvão da Gama, Francisco da Gama, 2.º Conde da Vidigueira, Cristóvão da Gama |
| Ocupação | comandante militar, administrador colonial, fidalgo |
| Lealdade | Império Português |
| Título | Dom |
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D. Álvaro de Ataíde da Gama (1517 - Lisboa, c. 1555), filho segundogénito do explorador Vasco da Gama e de sua mulher Catarina de Ataíde,[1] foi um militar português do século XVI, Capitão de Malaca de 1552 a 1554, em sucessão a seu irmão, D. Pedro da Silva da Gama.[2]
Biografia
Fez toda a sua carreira militar no Oriente, sendo nomeado capitão da frota de Malaca na década de 1540, e tomado posse em 1552 do cargo de capitão da cidade e sua fortaleza.
O incidente em Malaca com S. Francisco Xavier
Assumiu a capitania em situação de conflitualidade com o seu antecessor e irmão, consequência "do temperamento exaltado que caracterizava ambos".[3]
Durante o seu governo em Malaca, assumiu protagonismo num notável incidente, que o opôs ao missionário jesuíta São Francisco Xavier.[4]
Francisco Xavier havia chegado pela primeira vez a Malaca em 27 de dezembro de 1551, onde foi nomeado para o cargo de Superior Provincial dos jesuítas no Oriente. Em 30 de dezembro do mesmo ano embarcou com destino a Cochim onde, em finais de janeiro de 1552, se encontrou com o novo governador da Índia, D. Afonso de Noronha, obtendo dele o necessário apoio para chefiar uma embaixada portuguesa à China.
Obtida a autorização do vice-rei, Francisco Xavier partiu de Goa com a sua embaixada no dia 17 de abril de 1552, chegando de novo a Malaca em 31 de maio do mesmo ano. Porém, apesar de a embaixada portuguesa à China estar devidamente autorizada pelo vice-rei e pelo bispo de Goa, preenchendo assim todos os requisitos civis e religiosos para ser efetivada, D. Álvaro de Ataíde da Gama, como capitão-mor da fortaleza de Malaca, colocou obstáculos à sua realização.
As razões para esta oposição tiveram a ver, segundo conta Fernão Mendes Pinto, com o diferendo existente entre D. Álvaro e o mercador Diogo Pereira, que fora nomeado para embaixador na China e acompanharia assim Francisco Xavier na sua viagem. Diogo Pereira tinha-se recusado a emprestar a soma de dez mil cruzados a D. Álvaro, o que gerara um clima de inimizade entre ambos.[5]
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D. Álvaro detinha também o cargo de capitão-mor do mar, que incluía jurisdição sobre o porto e a marinha de Malaca pelo que, de posse dessa autoridade, aprisionou no porto a nau Santa Cruz, pertencente ao acima referido muito rico mercador de Macau, Diogo Pereira, que devia transportar até à China Francisco Xavier e a sua comitiva. D. Álvaro confiscou também os presentes que a embaixada iria entregar às autoridades chinesas.
D. Álvaro alegou, como argumentos a favor da sua posição, que Diogo Pereira, que ainda há pouco tempo fora um simples criado do fidalgo D. Gonçalo Coutinho, não possuía o estatuto necessário para ser embaixador junto de um grande monarca como era o imperador da China. Acrescentou, com ironia, que o Diogo Pereira nomeado para a China não era o mercador de Macau, mas sim um fidalgo português homónimo, que se encontrava ainda no reino. E sustentou que o mercador de Macau pretendia, com a sua viagem em companhia de Francisco Xavier, fazer grandes ganhos, trazendo no regresso da China uma soma de 100 mil cruzados, que na realidade deveriam ser atribuídos a ele próprio, D. Álvaro, pelos serviços prestados por seu pai, o conde almirante Dom Vasco da Gama.[5]
Xavier reivindicou então a sua autoridade, como Núncio Apostólico, e escreveu um “Libelo Suplicatório” dirigido ao padre João Soares, vigário de Malaca, no mês de junho de 1552. Nesse documento, queixa-se de que o capitão se estava a opor à autoridade de um prelado religioso - o bispo de Goa - que tinha jurisdição espiritual sobre todo o Oriente e, nessa qualidade, ordenado a missão à China. Além disso D. Álvaro, ao impedir a partida de Xavier, que era Núncio Apostólico, tomava uma atitude que poderia gerar a sua excomunhão e opunha-se ainda à suprema autoridade civil portuguesa no Oriente e representante do poder da coroa, o vice-rei em Goa.
Não obstante este documento, em que Xavier usava todos os argumentos disponíveis a favor da partida da embaixada, o que é certo é que a oposição de D. Álvaro de Ataíde da Gama prevaleceu. Francisco Xavier não conseguiu desembargar a embaixada à China, pelo que resolveu partir para lá a título individual. Em 17 de julho, deixou assim Malaca com rumo à China, mas acompanhado somente pelo jesuíta Álvaro Ferreira, por um intérprete chinês e por um criado indiano.[6] (Viria a falecer, na ilha de Sanchoão, a 3 de dezembro de 1552).[7]
Deposição do cargo de capitão de Malaca
Segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira Ataíde da Gama teria terminado a sua carreira em Lisboa (vitimado talvez de lepra), para onde havia seguido sob mandato de prisão (algo de relativamente comum, entre os dirigentes do Estado da Índia, na época), antes de formalmente terminado o seu mandato de governador de Malaca.[3]
Entretanto, devido ao relato feito na obra Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, sabe-se que D. Álvaro foi preso por instruções expressas do vice-rei D. Afonso de Noronha, em virtude de ter desobedecido a várias das suas ordens.
O executor de prisão foi o novo capitão de Malaca, D. António de Noronha (filho do 3.º vice-rei da Índia, D. Garcia de Noronha), que havia sido nomeado pelo vice-rei D. Afonso de Noronha para tomar posse da fortaleza, em substituição de Ataíde da Gama.[8]
D. Álvaro foi sujeito a um interrogatório, conduzido pelo mais importante magistrado do Estado da Índia, o licenciado Gaspar Jorge, sendo todas as questões anotadas por dois notários, e depois os autos assinados pelo próprio Gaspar Jorge e pelo novo capitão de Malaca.[5]
No final do interrogatório, Ataíde da Gama foi deposto do cargo e colocado sob prisão, sendo ainda os seus bens confiscados.
O cronista Diogo do Couto acrescenta que, por ordens do vice-rei em Goa, foi mandado sob prisão para o Reino, sendo o desembargador António Rodrigues de Gamboa encarregado pelo vice-rei de formalmente desapossar D. Álvaro da fortaleza de Malaca.[8]
A ordem de prisão foi estendida a todos os principais colaboradores de D. Álvaro, que ficaram por isso revoltados, e fugiram para fora da cidade, oferecendo os seus serviços aos potentados locais, o que deixou Malaca desguarnecida e sujeita a ser tomada pela força. A situação só se acalmou devido à prudente tomada de posição do capitão D. António de Noronha, que recuou, dando um perdão geral a todos os colaboradores de Ataíde da Gama, que assim regressaram à fortaleza.[5]
Esta descrição dos acontecimentos parece confirmar que D. Álvaro contou sempre com pleno apoio dos militares portugueses de Malaca, mesmo quando não cumpriu as instruções oriundas de Goa.
Fernão Mendes Pinto reitera que Ataíde da Gama viria a falecer em Portugal, onde tentou refutar as acusações que lhe foram feitas por vários procuradores da coroa, tendo falecido entretanto de um abcesso no pescoço e da decorrente infecção, que rapidamente se espalhou por todo o corpo. Assim, dados os sintomas relatados e a rapidez com que se desenvolveu a doença, é altamente improvável que se tenha tratado de lepra.[5]
Falecimento sem sucessão
D. Álvaro de Ataíde da Gama usava o sobrenome Ataíde em homenagem a seu avô materno Álvaro de Ataíde, senhor de Penacova e Alcaide de Alvor (foi na sua residência no Alvor que faleceu o rei D. João II);[9][10] era assim sobrinho materno de Nuno Fernandes de Ataíde, famoso capitão da praça portuguesa de Safim, em Marrocos.[11][12]
Durante a sua carreira militar no Oriente, além de capitão de Malaca, Ataíde da Gama foi também, por diversas vezes, capitão de naus nas armadas da Índia, tendo-se distinguido como comandante militar em várias batalhas.[13][3]
Nunca casou, não havendo também certezas sobre se terá deixado descendência ilegítima.[2]
Referências
- ↑ «Digitarq. A dona Catarina de Ataíde, mulher de D. Vasco da Gama, do conselho d'el-Rei». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 20 de julho de 2025.
Chancelaria de D. Manuel I, liv. 38, f. 86v Âmbito e conteúdo: 50.000 rs. de tença que seu irmão, Nuno Fernandes de Ataíde, fidalgo da casa d'el-rei, nela trespassara, para o que apresentou um alvará de licença para os poder comprar a D. Pedro da Silva, comendador-mor da Ordem de Avis.
- ↑ a b Manuel José da Costa Felgueiras Gaio. «Nobiliário de famílias de Portugal, [Braga], 1938-1941. Tomo XV (Gamas) - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. p. 75. Consultado em 20 de julho de 2025
- ↑ a b c Grande enciclopédia portuguesa e brasileira: Ilustrada com cêrca de 15,000 gravuras e 400 estampas a côres. Volume III. Lisboa, Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia. 1960. p. 614. Consultado em 2 de agosto de 2025.
Distinguiu-se nas guerras da Índia, sucedendo a seu irmão D. Pedro da Silva no governo de Malaca ... ficaram célebres as disputas entre os dois irmãos, motivadas pelo génio exaltado que tinham ... morreu de lepra, num cárcere de Lisboa, antes de acabado o seu tempo de governo.
- ↑ Borges, Felipe Augusto Fernandes; Costa, Célio Juvenal; Menezes, Sezinando Luiz (2019). «Missões da Companhia de Jesus na Índia: uma leitura sobre o período de Francisco Xavier (1542-1552)». Esboços: histórias em contextos globais (42): 333–357. Consultado em 20 de julho de 2025
- ↑ a b c d e Fernão Mendes Pinto (2014). The Travels of Mendes Pinto. Edited and Translated by Rebecca D. Catz (em inglês). Chicago and London: The University of Chicago Press. pp. 567–568, 577, 670. ISBN 0-226-66951-3. Consultado em 28 de setembro de 2025
- ↑ São Francisco Xavier. Obras Completas. Tradução de Francisco de Sales Baptista, S. J. São Paulo: Edições Loyola. 2006. pp. 708–709. ISBN 978-9723906592
- ↑ «S. Francisco Xavier - Informações sobre o Santo do dia - Vatican News». www.vaticannews.va. Consultado em 22 de julho de 2025
- ↑ a b Couto, Diogo de; Impressao Regia (Lisboa) (1781). Da Asia de Diogo de Couto : dos feitos que os portuguezes fizeram na conquista e descubrimento das terras e mares do Oriente : decada sexta, parte segunda. Biblioteca de la Universidad de Sevilla. Lisboa: na Regia Officina Typografica. pp. 522–523. Consultado em 29 de setembro de 2025.
E no feito de D. Alvaro de Ataíde da Gama, por lhe acharem culpas graves, pronunciáram que fosse prezo pera o Reyno , com os autos de suas culpas ; e que fosse hum Defembargador desapossallo; e que D. Antonio de Noronha, filho do Vizo-Rey D, Garcia de Noronha, fosse entrar na fortaleza de Malaca, de que era provido
- ↑ «Digitarq. A Álvaro de Ataíde, do conselho del-rei, mercê da alcaidaria-mor da fortaleza que mandava fazer para defensão da vila de Alvor. 1496-01-09». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 20 de julho de 2025.
Chancelaria de D. Manuel I, liv. 32, f. 113v Âmbito e conteúdo: E, por seu falecimento, ficaria a Nuno Fernandes de Ataíde, seu filho. E lhe dava a guarda do cortijo, além da alcaidaria da dita fortaleza, em qualquer tempo que acontecesse haver dele ser guardada. Afonso Mexia a fez.
- ↑ Resende, Garcia de (2007). Vida e Feitos d’El-Rey Dom João Segundo (1545), Texto da Edição Crítica de Evelina Verdelho. Coimbra: Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra. pp. 271–271.
E no sábado pela manhã, o melhor que pôde, el-rey cavalgou a cavalo, bem fraco e foi ... dormir a Alvor, onde chegou tarde com muita fraqueza e pousou nas casas de Álvaro de Atayde
- ↑ Pessanha, Fernando (28 de agosto de 2022). «Álvaro de Ataíde, guerreiro do século XV e alcaide-mor de Alvor». Jornal do Algarve. Consultado em 2 de agosto de 2025
- ↑ Subrahmanyam, Sanjay (1997). The Career and Legend of Vasco Da Gama (em inglês). New York: Cambridge University Press. pp. 173–174. Consultado em 28 de setembro de 2025
- ↑ Maldonado, Maria Hermínia (1985). Relação das náos e armadas da India com os successos dellas que se puderam saber, para noticia e instrucção dos curiozos, e amantes da historia de India: Brit. Libr., Cód. Add. 20902. Coimbra: UC Biblioteca Geral 1. pp. 55, 62. Consultado em 20 de julho de 2025
