Tratado descritivo do Brasil em 1587/2/98
Tamandoá é um animal do tamanho de uma raposa, que tem o rosto como furão; a côr é preta, o rabo delgado na arreigada, e com o cabello curto; e d’ahi para a ponta é muito felpudo, e tem n’ella os cabellos grossos como cavallo, e tamanhos e tantos que se cobre todo com elles quando dorme; tem as mãos como cão, com grandes unhas e muito voltadas, de que se fazem apitos. Este bicho se mantem de formigas que toma da maneira seguinte: chega-se a um formigueiro, deita-se ao longo d’elle como morto, e lança-lhe a lingua fóra, que tem muito comprida, ao que acodem as formigas com muita pressa e cobremlhe a lingua umas sobre outras; e como a sente bem cheia recolhe-a para dentro, e engole-as; o que faz até que não póde comer, mais, cuja carne comem os indios velhos, que os mancebos tem nojo d’ella.
Jaguapitanga é uma alimaria do tamanho de um cachorro, de côr preta, e tem o rosto de cordeiro; tem pouca carne, as unhas agudas, e é tão ligeira que se mantem no mato de aves que andam pelo chão, que toma a coço, e em povoado faz officio de raposa, despovoa uma fazenda de gallinhas que furta.
Coaty é um bicho tamanho como gato, tem o focinho como furão e mais comprido. São pretos, e alguns ruivos; tem os pés como gato, o rabo grande e felpudo, o qual trazem sempre levantado para o an; são mui ligeiros, andam pelas arvores, de cujas frutas se mantem, e de passaros que n’ellas tomam. Tomam-n’os os cães quando os acham fóra unhas do mato, a que ferem com as mui valentemente; os novos se amançam em casa, onde tomam as gallinhas que podem alcançar; as femeas parem tres e quatro.
Maracajás são uns gatos bravos tamanhos como cabritos de seis mezes; são muito gordos, e na feição pontualmente como os outros gatos, mas pintados de amarello e preto em raias, cousa muito formosa; e são felpudos, mas tem o cabo muito macio, e as unhas grandes e muito agudas; parem muitos filhos, e mantem-se das aves que tomam pelas arvores, por onde andam como bogios. Os que se tomam pequenos fazem-se em casa muito domesticos, mas não lhe escapa gallinha nem papagaio, que não matem.
Serigoé é um bicho do tamanho de um gato grande, de cor preta e alguns ruivaços; tem o focinho comprido, eo rabo, em o qual, nem na cabeça, não tem cabello; as femeas tem na barriga um bolso em que trazem os filhos metidos, emquanto são pequenos, e parem quatro e cinco; tem as têtas junto do bolso, onde os filhos mamam; e quando emprenham geram os filhos n’este bolso, que está fechado, e se abre quando paren; onde trazem os filhos até que podem andar com a mãe; que se lhe fecha o bolso. Vivem estes de rapina, e andam pelo chão, escondidos espreitando as aves, e em povoado as gallinhas; e são tão ligeiros que lhes não escapam.
Notas
- ↑ 172. Occupa-se o autor do tamanduá-açú ou Myrmecophaga jubata. Segue-se talvez uma especie aguarachaî ou Canis Azarœ; e depois o coaty, especie de Nasua, o maracaiá ou Felis trigrina e o serigué ou gambá, que no Rio da Prata chamam micuré, especie do Didelphis de Linnêo. Gandavo (fl. 22 v.) escreveu cerigoês e Vasconcellos (Liv. 2.º, not. 101) çarigué. — Ao bolso do abdomen chamavam os indigenas tambeó.